As segundas-feiras não são fáceis na nave mineradora Thanatos. Aliás, um nome bem apropriado...
O curta-fan film-animê Alien: MONDAY foi escrito por Paul Johnson, que também co-dirige com Claudia Montealegre. A trama em si é um compacto dos perrengues enfrentados pela tripulação da Nostromo, ilustrando como um problema aparentemente simples de ser resolvido pode ficar bem complicado. As situações são bem sacadas, assim como as referências – até mesmo a cenas deletadas do Alien de 1979.
E um detalhe do bem: a animação foi criada digitalmente, mas sem uso de IA. Com a benção de São HAL 9000.
Pela prévia, a animação Predator: Killer of Killers parece um bom aperitivo para o longa live action Predator: Badlands, previsto para novembro. Ambos são co-escritos e dirigidos pelo Dan Trachtenberg, de Predador: A Caçada, o que é uma grande referência.
Não sou lá muito fã dessa tendência de animações em 3D com baixo frame rate, mas é ranhetice minha. Arcane e Samurai de Olhos Azuis usam essa técnica e são excelentes. E meu sonho era ver o honorável Hiroyuki Sanada de samurai fatiando um Yautja no Japão feudal, mas essa versão digital genérica vai ter que dar pro gasto. E ainda terá ninjas. E uma batalha aérea contra uma nave predadora. E pelas empalações e torsos decepados, a Disney+ liberou geral para a Hulu.
Ok, noves fora, acho que já temos algo lá fora e que não é um homem. E se sangra...®
Com estreia apenas em 5 dezembro na Max, Comando das Criaturas fez questão de entregar um trailer no bonde do Halloween ‘24.
No post sobre Lobisomem na Noite, sonhei acordado sobre como seria bacana se a DC chamasse o diretor Michael Giacchino para o... comando de um Comando das Criaturas. No fim das contas, a produção não virou um longa-metragem, tampouco um live action. É uma série animada em 7 episódios com o próprio James Gunn como roteirista e showrunner.
Apesar da mera existência do desenho parecer um arrojo, não é o 1º rodeio da macabra superequipe no formato. Em 2019, o grupo estrelou um dos curtas da divertidíssima série DC Showcase ao lado do Sgt. Rock. E com roteiro de Walter & Louise Simonson e Tim Sheridan e direção de Bruce Timm. Régua lá em cima, portanto.
Mas a prévia é deliciosa e o gore é de lamber os beiços. A nova formação, apesar de ser uma variação de qualquer Esquadrão Suicida, parece lindamente disfuncional: os desmortos A Noiva e Eric Frankenstein, a anfíbia Nina Mazursky, mais o Doutor Phosphorus, Robô Recruta e Doninha, queridinha(o) do Gunn. Todos sob a liderança de Rick Flag Sr. – pai do Jr., duh – e tentando impedir a feiticeira Circe de alguma coisa aí. Cara-de-Barro também dá as... caras.
Um curioso adendo é a dublagem de Viola Davis re-re-reprisando a sua Amanda Waller, hoje uma instituição DC. Em meio a tantos astros varridos para o limbo das adaptações, a sua versão da personagem passou incólume pelo fim do Snyderverso e pela Revolução Cultural de James Gunn. Façanha comparável à Poderosa e ao Pirata Psíquico sobrevivendo alegres e faceiros a Crise nas Infinitas Terras.
De resto, diria que só faltou uma frase de efeito estúpida e badass pra fechar a conta. Mas fuçando nas informações do vídeo...
“You wanted monsters? You got motherfuckin’ monsters.”
Tema de abertura da série Suicide Squad ISEKAI naquela pegada dark pop animê (Death Note, Demon Slayer). Já o tema de encerramento... é um disparo cavalar de JAPÃO na aorta.
Confira comigo a Amanda Waller's Bizarre Adventure na marca dos 1:30.
Isso precisava existir em algum ponto da história humana.
Suicide Squad ISEKAI está em seu 4º episódio (de dez) dessa primeira temporada – no Japão, ainda está no 1º ep., veja só que sacanagem com os meninos. Farei tudo o que estiver em meu alcance para assistir a bagaça com as vozes japonesas. Do contrário, seria uma falha de caráter da minha parte.
Com isso, creio que já cobrimos tudo que precisávamos sobre a Ms. Waller.
Ou estou enganado?
Agora sim, case closed.
(e não veria isso sozinho nem por todo o whisky da Escócia, obrigado)
Sempre gostei mais de X-Men: Evolution do que de X-Men: The Animated Series.
Sério.
Agora que só ficaram os mais fortes (e leitor do BZ é, antes de tudo, um forte®), um contextinho. X-Men na década de 1990 foi a galinha dos ovos de ouro da Marvel. Fenômeno legítimo, daqueles estoura-bolhas. Não acompanhava quadrinhos naquela década, mas vivia topando com imagens de Wolverine, Vampira, Gambit e Cable em mochilas, lancheiras, camisetas, bonequinhos paraguaios, em tudo que é canto. Coisa que não acontecia nem na fase Claremont/Byrne. Naqueles tempos de internet a lenha, isso era um feito incrível.
Inclusive, soube primeiro da existência da série animada por um colega de trabalho cujo perfil era o mais antigibizeiro possível – estava mais pra Lucky Luciano mesmo. Mas assinava a Sky e, por consequência, a Fox Kids.
Quando finalmente assisti alguns episódios do desenho (num TV Globinho, acho), me surpreendi com a transposição do material. À 1ª vista, parecia tudo muito fiel. Claro, as adaptações e supressões devem ter deixado o leitor assíduo se roendo, mas, em termos gerais, a série trazia elementos das HQs até então impensáveis para o formato. Todas as discussões sobre preconceito, política segregacionista e extremos ideológicos estavam lá. Coisas como os Amigos da Humanidade e os Sentinelas de Bolivar Trask são mais atuais do que nunca, infelizmente. Junto com o combo vieram a estética atualizada e o fanservice massavéio de porradaria e ação nonstop. E esse era o grande problema da série pra mim: o pacing.
A montagem truncada ia de zero a cem em 0,5 segundo. Pausas para respirar/refletir/absorver inexistiam. Sequências frenéticas de ação eram emendadas umas nas outras sem nenhum critério. O material-base tampouco ajudava, com toda a mixórdia de clones, viagens no tempo, versões alternativas, alienígenas, retcons, etc, etc. Era o puro suco dos anos 90. Tudo isso ultraprocessado e prensado na deadline de 22 minutos/episódio. Uma dramática queda de qualidade para quem já assistia/venerava Batman: A Série Animada.
Mesmo assim, o desenho foi um sucesso estrondoso. Além de render 5 temporadas, seu molde rápido e rasteiro foi implementado em novas séries, de Homem-Aranha (que conseguia ser ainda pior na correria narrativa), Homem de Ferro e O Incrível Hulk até Quarteto Fantástico e o meu favorito, Surfista Prateado.
Portanto, afirmo sem dor na consciência (e amor à integridade física) que tive muito mais satisfação com X-Men: Evolution alguns anos depois. Era uma adaptação mais abrangente, porém sensata e pragmática. O storytelling, embora mais juvenil na 1ª temporada, era tridimensional e humano, com dramas e tensões finalmente bem desenvolvidos. Garotas & garotos numa escola agindo como garotas & garotos numa escola, ora pois.
Logicamente, o desenho foi excomungado pela fanboyzada.
Toda essa introdução bíblica (ops) só pra confirmar o óbvio: X-Men '97 foi produzida milimetricamente para agradar os órfãos da série original. Engajar diretamente novos fãs tem menos peso do que impulsionar o boca-a-boca elogioso dos antigos. Isso inclui até a recriação da abertura e do clássico tema original, escrito por Ron Wasserman e composto por Haim Saban e Shuki Levy, readquirido a peso de ouro após um quiprocó judicial. A produção chegou ao requinte de reunir vários dos dubladores originais para mais uma rodada.
Eles não pouparam esforços. Estão de volta as vozes da empolada Alison Sealy-Smith como Tempestade, Cal Dodd como Wolverine, George Buza como Fera e da estridente Lenore Zann como Vampira*.
* AJ Michalka, que deu voz à Felina em She-Ra e as Princesas do Poder, seria perfeita para a Vampira, mas os X-fãs têm verdadeira adoração pela Lenore...
Ao contrário do He-Man de Kevin Smith, o showrunner e roteirista Beau DeMayo interferiu o mínimo possível no efeito nostálgico do material – um elemento ao mesmo tempo poderoso e incrivelmente sensível, vide a histeria em torno do crop top do Gambit e da natureza não-binária do Morfo.
Do ponto de vista dramático e narrativo, as coisas estão melhores. Ainda aceleradas, contudo.
Ao longo dos 10 episódios desta 1ª temporada (contra 13 da série original), é feita a ponte entre as animações e adaptados os arcos do julgamento de Magneto, a bela fábula protagonizada por Tempestade e Forge em “Morte em vida”, as saliências de Magneto com Vampira, o casa-separa do Professor Xavier com Lilandra no Império Shi’ar, a destruição de Genosha, os paradoxos temporais de Cable e Bishop, as maquinações do Sr. Sinistro com Bastion e a Operação Tolerância Zero, mais pitadas da fase Grant Morrison à moda da casa.
Muita coisa esdrúxula acontecendo com muita chance de virar bagunça. Não virou e nem precisei fazer vista grossa. Não muita.
O massacre em Genosha por um Tri-Sentinela massivo foi meio rápido e com uma conclusão forçada – o que uma bateria cajun pode fazer que o Mestre do Magnetismo não poderia? E o Capitão América, reduzido a um pau-mandado do governo, estranhamente remete ao Clark em O Cavaleiro das Trevas. Proselitismo de 5ª, visto que esse não é o perfil dele.
Já a famosa sequência de Magneto extraindo o adamantium de Wolverine foi um gol perdido embaixo do travessão. Por que negar ao espectador-leitor a animação integral da cena? Melhor voltar a contemplar a terrível capa fingindo que é um Renoir.
Outro trecho que me incomodou no apoteótico final foi a batalha transcorrendo ora no Asteróide M, ora na Área Azul da Lua. Tudo testemunhado pela estupefata população terrestre, que não desgrudava os olhos do céu. Não sou astrônomo, mas até o Groo sabe que a Lua não é na esquina. Parece que o tempo e a chatice me pegaram de jeito.
O delivery body horror, quem diria, foi generoso. Em especial, o episódio #2, com a Madelyne Pryor personificando a Rainha dos Duendes. Surpreendente. O mesmo para os milhares de civis inocentes retorcendo seus corpos ao serem convertidos em Suprassentinelas. E com Bastion desfigurado e com seu lado Nimrod cada vez mais exposto na reta final, foi difícil não lembrar do amálgama Luthor-Brainiac na perfeita/maravilhosa/salve-salve Liga da Justiça sem Limites.
Além do Cap, foi muito legal ver os cameos do Homem de Ferro com sua Mark XIII Modular, do Homem-Aranha, do Demolidor, do Dr. Estranho, de Manto & Adaga, do Pantera Negra, de membros da Tropa Alfa e alguns ex-Supersoldados Soviéticos. Todos bem inseridos dentro do evento – cada qual no seu quadrado – e dando uma sensação de unidade ao Universo Marvel tal qual os desenhos da WB fizeram pelo Universo DC um dia. Ficou a sensação de que muito tempo foi perdido e que nestes anos todos poderíamos ter visto animações maravilhosas de cada um deles.
X-Men '97 deu uma boa melhorada neste cenário. Se a próxima temporada tiver a ambição e o coração nos lugares certos, não só os X-Men sairão beneficiados, como a história de sucesso multifranqueado poderá se repetir. Desta vez, com a régua lá em cima.
Afinal, todos sabem que é só através da arte que os heróis... renascem.
De volta com a mão-na-rodíssima sessão R&R para garantir a diversão nesse tempo de festas num mundo pré-apocalíptico. Não é à toa que Papai Noel esteja tão puto!
"Então é Natal..."♪ ♫ ♬
NATAL SANGRENTO / SILENT NIGHT, DEADLY NIGHT (Charles E. Sellier Jr., 1984) — o infame slasher natalino de 1984, finalmente em versão unrated. De fato, as cenas inéditas são bem pesadas – além de fáceis de serem identificadas pela má qualidade dos recortes, já que os negativos originais foram perdidos – e certamente embaçariam a censura R que o estúdio queria para o lançamento nos cinemas. De resto, atuações ruins, muitos peitinhos, humor involuntário e às vezes se leva a sério demais, sendo que nem o roteiro e nem a direção têm cancha pra isso. Mesmo assim, rendeu quatro sequências e um remake. Crássico.
FELIZ NATAL / CHRISTMAS BLOODY CHRISTMAS (Joe Begos, 2022) — Papai Noel robô perde o controle e massacra meio mundo. Tem chupações descaradas de Hardware: O Destruidor do Futuro e O Exterminador do Futuro, porém, antes do machado comer solto, os diálogos são bem legais. Deu a impressão que o diretor-roteirista queria fazer um Antes do Amanhecer punk rock, mas aí o estúdio pediu gentilmente que ele incluísse sexo, gore, robôs assassinos e temática de Natal. Só pra dar aquela agitada.
FUTURAMA — Futurama é vida. Devo estar no trilionésimo rerun da série de Matt Groening e David X. Mas a ocasião é especial e só pode ser estrelada pelo Papai Noel Robô, uma máquina assassina de todos que foram maus durante o ano em sua lógica distorcida (ou não). A persona sacana à Lobo e o vozeirão do John Goodman (no 1º episódio) completam a mágica. O caminho das pedras: S02E04 - Xmas Story, S03E03 - A Tale of Two Santas, S06E13 - The Futurama Holiday Spectacular e S08E06 - I Know What You Did Next Xmas. Aceitamos Pix.
NOITE INFELIZ / VIOLENT NIGHT (Tommy Wirkola, 2022) — Duro de Matar com Papai Noel no lugar de John McClane. O cineasta norueguês Wirkola (de Dead Snow, lembra?) aproveita bem a sacada e o filme até zoa com isso. David Harbour, de Stranger Things e Viúva Negra, caiu como uma luva no papel. É o único "herói" da leva, mas não se engane: esse Noel é decadente, beberrão e badass. Divertido demais.
UMA NOITE DE FÚRIA / SANTA'S SLAY (David Steiman, 2005) — revejo Natal sim, Natal não, pra não gastar. As piadas são dementes, o brucutu Bill Goldberg é o próprio Noel from Hell e a Emilie de Ravin...
...é incrivelmente fofa!
(ai, ai)
Fora que o elenco de apoio é surreal para um trashão – Robert Culp, Saul Rubinek, Fran Drescher, James Caan. Tá bom ou quer mais?
🎅 🎄 😈 🎄 🎅
Essa maratona é garantia de uma Noite Feliz. Melhor que isso, só uma Noite com Final Feliz.
Enquanto alguns alertam para a ocidentalização dos animes, esse sneak peek de Uzumaki parece extremamente japonês pra mim...
Nunca li o mangá. A obra de Junji Ito – Jorgito, para quem pega tudo o que a Pipoca & Nanquim lança dele a cada meia hora – já saiu duas vezes por aqui. A 1ª em uma mini em 3 partes pela Conrad e depois em edição única pela Devir. Nem sei se ainda está em catálogo.*
* Mas não se preocupe. Logo mais, a P&N deve re-re-relançar em capa dura, corte trilateral, hot stamp, fitilho e, lógico, bookplate assinado.
Para o horror dos otakus ortodoxos (= pleonasmo), a série animada em 4 episódios está por conta da Production IG USA em parceria com a Cartoon Network. Porém é dirigido pelo honorável Hiroshi Nagahama, com o sol nascente nas veias.
O mangá já foi adaptado para games e até um filme live-action lançado em 2000, mas, incrivelmente, esta nova versão está em fase de produção desde 2019. Deve ser seus motivos burocráticos com tantas companhias envolvidas, sem contar a pandemia lá pelo meio. Nem a data de lançamento foi divulgada ainda, mas Jason DeMarco, vice-presidente da divisão de animações da Warner/Cartoon, promete que sai ainda este ano.
De qualquer forma, a prévia é mesmerizante. E tecnicamente impecável, seguindo os rigores da boa e velha animação tradicional.
Não acho que ninguém ali sofreu qualquer efeito de uma pretensa americanização.
Quem diria. Desenhos de sábado de manhã num sábado de manhã. Achava que a grade infantil - ou infanto-juvenil? - na TV aberta já tinha ido pro vinagre há éons.
No caso do SBT, é bom ver que não. E ainda com a ótima e solenemente ignorada Lanterna Verde: A Série Animada.
A série fechou em meros 26 episódios. Não vejo muitos órfãos por aí. Provavelmente tem algo a ver com o CGI superbásico no lugar da animação tradicional da linha Animated. Deve ter rolado uma estranheza. Mas a produção de Bruce Timm e a direção de Sam Liu e Rick Morales não deixaram a peteca cair.
Esse episódio, "Babel", o 21º da temporada, é um bom exemplo. Hal Jordan, Kilowog e o Lanterna Vermelho Razer tentam sobreviver numa cidadela hostil. O problema é que seus anéis estão descarregados e, sem o tradutor universal, eles nem mesmo conseguem compreender um ao outro. O resultado é engenhoso e impagável.
Teve mais um na sequência. Até onde vi, estão exibindo na ordem. Boa, Patrão!
Notícia boa é o lançamento de qualquer série nova do menino gênioGenndy Tartakovsky.
Pelo visto, Unicorn: Warriors Eternal é um mergulho de Tartakovsky no universo da fantasia steampunk. O que foi bem inesperado. Ainda mais nesta entressafra de quase-pós-Primal. Reflexo do sucesso das ótimas Arcane e The Legend of Vox Machina, talvez?
O núcleo de personagens parece bem diverso e fervilhando de referências pop: a prévia abre com um Thanos fazendeiro passando o bastão para um Avatar Aang com trejeitos e movimentos do Astroboy, segue com uma Ravena irada, um Elric de Melniboné, um Saruman rasgando o copyright e um meca a vapor que parece saído de um Futurama desenhado pelo Mike Mignola. Melhor impossível.
Ou melhor, é: a série em 10 episódios foi inicialmente planejada para a programação "crianças e família" do Cartoon Network. Mas logo foi reescalada para o Adult Swim e HBO Max. Ou seja...
Legião dos Super-Heróis (Legion of Super-Heroes, 2023) é o 6º longa da atual fase de produções da Warner Bros. Animation, iniciada com Superman: O Homem do Amanhã (Superman: Man of Tomorrow, 2020) e seguida por Sociedade da Justiça: 2ª Guerra Mundial (Justice Society: World War II, 2021), Batman: O Longo Dia das Bruxas, Parte Um e Parte Dois (Batman: The Long Halloween, Part One/Part Two, 2021) e Lanterna Verde: Cuidado com Meu Poder (Green Lantern: Beware My Power, 2022). A fase, apelidada de Tomorrowverse, mantém certa continuidade e estabelece uma nova estética para as animações da DC: visual clean, linhas mais arrendondadas, contornos com maior espessura (por vezes, bem maior) e uma transposição mais evidente de perspectivas dos quadrinhos.
A história começa com Kara Zor-El ainda em Krypton e sendo enviada à Terra para se tornar a Supergirl. Além das dificuldades de adaptação, Kara sofre com o trauma da perda de sua mãe e de seu planeta natal. Para ajudá-la na transição, Superman a leva até o século 31, onde é recrutada pela Legião dos Super-Heróis. Logo ela se vê às voltas com o também candidato a legionário Brainiac 5, suspeitíssimo neto-clone do clássico vilão do século 21, e com uma conspiração envolvendo um obscuro grupo terrorista chamado Dark Circle. Tudo isso é apresentado numa tacada bem superficial, de quase sinopse.
No filme há pouco sobre a própria Legião e sua história. Se o título fosse Supergirl e a Legião dos Super-Heróis ou apenas Supergirl seria bem mais honesto. A trama é basicamente sobre ela, mesmo que boa parte — incluindo os conflitos psicológicos/emocionais da personagem — já tenha sido abordada no longa animado Superman/Batman: Apocalypse, de 2010. Então quem esperava uma adaptação de A Saga das Trevas Eternas ou A Legião dos 3 Mundos, pode tirar Cometa, o Supercavalinho, da chuva.
Apesar do novo visual dessas animações ainda parecer incipiente aos olhos de um veterano de Batman: The Animated Series, um aspecto positivo é inegável e encontra seu ponto alto aqui: a expressividade.
Kara nunca esteve tão carismática e tridimensional numa animação da DC. Sem afetações desnecessárias, o formato agora permite mais flexibilidade nas feições, traduzindo com muito mais eficácia cada emoção apresentada. Fora que a kryptoniana está uma fofa.
Também fica nítido que deram um tapinha em algumas sequências com CGI disfarçado. Certos momentos quase remetem àquelas animações dos anos 2000 produzidas com Flash Player (lembra de Archer?), que, por si só, não é mal, mas frequentemente soa artificial, asséptico, estéril.
Novamente: apenas a impressão de um velho apaixonado pelo estilo Fleischer Studios/Bruce Timm das animações tradicionais.
O roteiro de Josie Campbell, egressa da excelente série She-Ra e as Princesas do Poder, arrisca bem pouco. Dá para ver as reviravoltas a parsecs de distância e sentir as limitações impostas pelo "andar de cima" para mexer na cronologia da prima do Super. Então, para qualquer iniciado, não há grandes novidades. O que resta é o que Campbell sabe fazer melhor: a dinâmica entre um núcleo central bem diverso, que, além de Supergirl e Brainiac 5, também conta com Vésper, Saltador, Moça-Tríplice/Dama Dupla, Rapaz Invísivel, Etérea, Mon-El e o infame Arms Fall Off Boy, que já teve até versão live action no filme bom do Esquadrão Suicida.
O diretor Jeff Wamester fez um trabalho razoável na parte da ação, que, talvez por ser material Supergirl, seja bem mais contida que seu longa anterior, o confuso Sociedade da Justiça: 2ª Guerra Mundial. Nesse quesito, a bancada de legionários veteranos formada por Penumbra, Rei Químico e Lobo Cinzento foi um tanto desperdiçada — com ligeira exceção para o último, que protagoniza uma boa sequência de pancadaria ao melhor estilo eu-sou-o-Wolverine-original-xará, com direito até a uns respingos de sangue. Tudo muito breve, porém.
Legião dos Super-Heróis se assemelha mais a um piloto de série do que um filme autocontido. Termina mostrando que não é nem um, nem outro (a cena pós-créditos se certifica disso). E que a Warner mais uma vez está audaciosamente nos levando até onde nenhum planejamento jamais esteve.
Meus botZ espiões dormiram no ponto. Só há pouco soube da existência do espetacular fan film animado Batman: Broken Promise, uma das melhores coisas com o Cruzado Encapuzado que vi este ano.
A direção e a escrita do artista/comediante Stephen Trumble são magistrais e contornam com sagacidade as limitações do formato. Chega a lembrar a atmosfera opressiva que Ed Brubaker e Greg Rucka imprimiam na antológica série Gotham DPGC. O traço remete ao sujão estilizado do John McCrea em Hitman com o batdesign inspirado no uniforme pesado e desconfortável em que o Lee Bermejo sempre metia o sofrido Bruce.
Mas o show mesmo é o trabalho de voz e os efeitos de som, impecáveis — infelizmente, com o áudio muito baixo nas cenas de ação. Quase funciona à parte, como se fosse uma radionovela um podcast.
Torço para Trumble abrir um KS para uma leva de novos episódios. Assim, poderei publicar o grito de guerra do Fry e dormir tranquilo...
Com o veterano ator, dublador e poeta Isaac Bardavid vão-se as expectativas de novas aparições na mídia, sempre simpaticíssimo, e de novos trabalhos com seu vozeirão rascante inconfundível. Carioca de Niterói, se formou em Direito em 1976, mas já havia se apaixonado pela dramaturgia dez anos antes. Participou de grandes hits noveleiros como as primeiras versões de Irmãos Coragem, Selva de Pedra e Escrava Isaura, onde fez o assustador capataz Seu Chico, entre muitas outras. E nunca parou.
Prolífico em frente e fora das câmeras, Bardavid pertencia, digamos, à Era de Bronze da dublagem nacional. Sua voz tomou de assalto o imaginário brasileiro em personagens como o histriônico Esqueleto, o computador K.I.T.T. de A Super Máquina e, claro, o irascível Wolverine no desenho da Fox e na versão live action com Hugh Jackman.
E lógico que foi só a ponta do iceberg. O grande papel dele mesmo foi de "esposo, pai, vô, bisavô e amigo".
Pode me zoar à vontade: estou curioso sobre Sem Volta para Casa. Mas a curiosidade nem chega perto da expectativa em torno de Homem-Aranha no Aranhaverso 2, continuação do longa animado divertidíssimo, cheio de coração e meio caótico de 2018. E o teaser só instigou, com perdão do pleonasmo.
A sequência final é literalmente uma HQ viva*. E com o Homem-Aranha 2099 nela.
Outubro de 2022 tá muito longe...
*E não é pra menos!👇
Wawawewa. Am excite.
I was fortunate to have worked on this in the conceptual stages. Count me doubly anticipatory.
Falar que o genial Orlando Drummond fez a alegria de várias gerações é até redundância. Ele pertence a um seleto grupo cuja vida se funde com a história do entretenimento brasileiro - onde sua carreira teve início em 1942. O homem é uma lenda.
Muito se passou pela minha cachola enquanto assistia aos 5 primeiros episódios de Masters of the Universe: Revelation, de Kevin Smith. Mas acho que decepção define. O cineasta serve como criador, escritor, produtor executivo e, enfim, é o showrunner da série da Netflix. Além de notório entusiasta da década de 1980, não é segredo que ficou maravilhado com o revisionismo sagaz da ótima Cobra Kai. Em parte, isso já explica algumas das decisões equivocadas do novo desenho. O que me leva a uma das escadas mais pé-no-saco que já usei num texto.
Papeando com um amigo num grupo de e-mails que participo, comentei sobre minha frustração. "Tão falando super bem", foi a réplica. E resolvi dar um rolêzin por aí pra entender como isso era possível. Praquê.
Me deparei com aquele carnaval internético de sempre: ad hominem, radicalismo e zero noção de ridículo (e existe algo mais ridículo que um adulto nerd xingando alguém de adulto nerd?). Entre os principais "argumentos" a favor de Revelation estão coisas como "nerds quarentões criticando um desenho feito pra vender brinquedo", "o nome é 'Mestres do Universo' e não 'He-Man'" ou o bom, velho & presidenciável "é tudo mimimi".
O próprio Smith, cuja autozoação sempre foi o seu cartão de visitas, parece ter mudado de postura. Sai o Silent Bob, entra o Angry Bob.
Primeiro, o(s) óbvio(s). TUDO na cultura pop é feito para vender brinquedo (e acessório, material escolar, alimento, merchandising de todo tipo, etc). Isso, por si só, não é demérito para o desenho, o filme, o quadrinho ou o que seja. O gibi do ROM, por exemplo, foi produzido pela Marvel por encomenda pra vender 1 action figure (fracassado, ainda) e rendeu uma saga espetacular. E nem vou mencionar o Esquadrão Atari.
No caso de He-Man e os Mestres/Defensores do Universo, a coisa foi muito além. Já nos Minicomics, haviam nomes como Alfredo Alcala, Tim Seeley, Gary Cohn, Steven Grant, Mark Texeira e Bruce Timm. E no desenho da Filmation, batiam ponto Paul Dini (Batman/Superman: The Animated Series), Michael Reaves (Os Gárgulas, Batman: The Animated Series), J. Michael Straczynski (bem...) e Dorothy C. Fontana (Star Trek, o seriado original), entre outros. De um veículo puramente comercial, passa-se a agregar qualidade.
Pra arrematar a questão, basta revisitar episódios como "A Origem de Tila", "O Problema com o Poder", "A Semente do Mal", "Príncipe Adam Nunca Mais", "O Tio Favorito de Gorpo", "Problemas em Arcádia", "O Julgamento de Tila", "O Feiticeiro e o Guerreiro" e "A Busca pela Espada", só pra ficar na 1ª temporada.
Esse desenho tinha coração, pelo amor de Lou Scheimer.
Em relação a Revelation, nada contra o protagonismo dado à Teela, sua parceira Andra (personagem dos quadrinhos estreante no MOTU animado) e Maligna. Pelo contrário. Era mais do que merecido. Teela foi uma das primeiras personagens femininas daquela geração a demonstrar força, tridimensionalidade e independência – embora aquela descabelante mistura de Barbarella, Dejah Thoris e Red Sonja tenha ficado para trás, compreensivelmente (idem para a Maligna). O problema é o gatilho.
A premissa de Smith era unir todas as pontas soltas deixadas pela série original. Mas, de cara, as consequências da "revelação" do título saem atropelando toda a coerência daquele universo e, especialmente, o perfil dos personagens. É inconcebível Teela, a orgulhosa Capitã da Guarda Real, recém alçada ao posto de Mentora, abandonando tudo e e todos (inclusive o Mentor, seu pai) pelo motivo que fosse. E abandonando pra vida, já que logo na sequência rola um gap de pelo menos uns 20 anos. O termo perfeito pra isso é overreact.
A apelação ao melodrama nostálgico chega a inventar coisas que contradizem o original, por mais paradoxal que seja. Um exemplo é o background de Gorpo, contado chorosamente pelo próprio, decepcionando seus pais com sua mágica atrapalhada. Só que era o contrário: apesar de ser um mágico medíocre em Etérnia, Gorpo era poderoso em Trolla, sua dimensão natal. Porém, abriu mão de seus poderes e de um grande futuro lá para ficar ao lado de seus amigos (olha a lição de moral perdida!). Isso invalidaria sua subtrama triste de redenção em Revelation, então foi "esquecido."
Uma boa ideia foi promover o capanga Tríclope (dublado pelo Henry Rollins!), agora líder de um tecnoculto radicado na Montanha da Serpente. O embate Magia Vs. Tecnologia sempre foi um dos aspectos mais divertidos, Kirbyanos e bizarros da franquia, infelizmente nem sempre bem aproveitada no novo desenho. Em certo momento, Mentor destrói uma armada inteira de drones inimigos com um único tiro, na maior facilidade.
A ação é apenas genérica, sendo bondoso. Com exceção de um breve entrevero entre Teela e um He-Man ilusório, é tudo bem superficial e esquecível. Talvez ajudasse incorporar a icônica trilha sonora original (ou trechos dela) para dar um 'mojo' às sequências. Provavelmente seria um perrengue burocrático licenciar esse material dos herdeiros da Filmation, embora a Netflix tenha cacife de $obra pra isso. Mas nada de trilha clássica – e muito menos da trilha psicodélica...
Aliás, confesso que, quando o projeto foi anunciado lá na Power-Con 2019, alardeando fidelidade conceitual à série de 1983, viajei alto. Pensei logo na possibilidade mais extrema: uma continuação com as células originais e aquela manjada rotoscopia reutilizada pela Filmation trilhões de vezes. Seria lindo.
Com barrigadas narrativas, excesso de referências inúteis (pra quê finalmente apresentar He-Ro, Grayskull e até um Conan-wannabe se não trazem peso ou relevância narrativa?), nesses cinco episódios fica evidente que os "arcos" servem apenas para preparar o terreno para reviravoltas pontuais e pretensiosas até o talo. Ah, mas foram apenas 5 episódios. E por outro ângulo, já foram 5 episódios.
Se não melhorar, será 7 x 1 no segundo tempo também.
Ps: tive os bonequinhos do Stratos e do Príncipe Adam com o colete de veludo por causa do desenho. Mas isso não prova nada! Nada!!
Só soube outro dia que Invencível, de Robert Kirkman e Cory Walker, teria série animada via Amazon Prime Video. Mas os caras não estão nem aí e já despejaram o trailer na praça.
Qualidade de animação ligeiramente acima do padrão, a estética emula o traço do desenhista Ryan Ottley, algumas cenas são quase transposições do quadrinho, o Omni-Man soa ameaçador e p(h)oderoso. E, mais importante, o grafismo realmente bate o cartão na série.
Fiquei empolgado. Já passou da hora de alguém cutucar o (hoje, preguiçoso) domínio da DC no campo das animações. Nem que seja a improvável Image.
Aliás... momento oportuníssimo para republicarem Invencível por aqui. A defunta HQM levou seis anos para editar quatro volumes – cobrindo 19 edições das 144 totais. Uma opção seria a Mythos, que às vezes trabalha Image. Mas a titular da editora gringa é a Devir, com seu calendário de lançamentos baseado na passagem do cometa Halley. Enfim.
Ao menos foram 60 segundos de abstração e diversão, em que quase não pensei no Omnibus do Quatrocentos Fantást... digo, Quarteto Fantástico.
Há tempos precisamos conversar sobre a importância do Universo Animado DC na cultura pop. Um feito alcançado somente pela DC/Warner e que nenhuma outra empresa conseguirá reeditar – ao menos não em meu tempo de vida (uns 25, talvez 30 anos em total quarentena antimorte?) – nem com todos os quaquilhões da Caixa Forte.
Até lá, seguimos com o instigante trailer de Superman: Man of Tomorrow.
Man of Tomorrow é dirigido de Chris Palmer (do novo Voltron) com roteiro de Tim Sheridan (do novo He-Man Revelation). Previsão de estreias para 23 de agosto em digital e 8 de setembro em mídia física.
Aparentemente, a proposta é um revamp do Ano Um do Super, sem relação com o título porradeiro-noventista homônimo. Bem curioso o take inserindo o elemento do vigilantismo na receita. E inusitada a participação do Lobo nesse contexto. O Azulão tretando com O Maioral logo de cara?
Mais interessante ainda é o estilo clean de animação, lembrando as produções do Adam Reed (Archer). Mesmo na prévia, nota-se que é tecnicamente bem superior às escorregadas recentes dos longas animados da DC - isso foi com vocês mesmo, A Piada Mortal e Gotham by Gaslight.
Metropolis nunca esteve tão futurista. Um verdadeiro deleite aos olhos. Claro, não mais do que a ideia da espetacular Alexandra Daddario dublando a Lois Lane.
Ah, eu preciso disso em live-action numa telona...
E o fan made teaser metal hero (ou villain) do mês vai para... MacGaren, do paulista Rafael Segnini, designer digital e supervisor CG da Vetor Zero.
MacGaren é a 3ª parte do projeto Jaspion 3D– uma genuína trip àqueles saudosos finais de tarde no final da década de 1980 com a tevê fincada no canal 6 da TV Manchete. Visualmente, boa parte foi sintetizada aí: o design minimalista e elegante da armadura, a verborragia e os maneirismos pomposos e o estrobo de leds e raios coloridos, mesmo sob o tema dark característico do vilão pseudo-escocês. Um barato total.
Toei, Netflix, Amazon, Disney+... Alguém despeje alguns milhões de doletas na conta do rapaz para umas duas temporadas completas.
Deu no Guia dos Quadrinhos: há 10 anos, Big Guy & Rusty, o Menino-Robô era publicado no Brasil. Criado por Frank Miller e Geof Darrow em 1995, o título teve vida relâmpago, se bastando em duas edições fininhas lá na gringa via selo Legend, da Dark Horse. Mas rendeu uma moralzinha cult com direito a remasterização em hardcover, action-bonequinhos e uma série animada espetacular.
Mesmo com o hype há muito perdido - se é que teve algum naquela era pré-Internet - a microssérie acabou saindo por aqui 14 anos mais tarde. Provavelmente, a Devir deve ter visto ali a chance de uma capitalizadinha com a (acredito) boa receptividade da HQ mais conhecida da dupla, Hard Boiled - À Queima-Roupa, republicada aqui um ano antes. Com isso, fecharam em duas graphics os trampos do power duo em formatão magazine. Grandes caras.
E por que o formatão foi importante? Essa é fácil.
A arte de Geof Darrow é um show à parte, isso até a minha bisavó sabe. Mas com esse detalhismo obsessivo nem mesmo as dimensões 21 x 28 cm da brochura parecem segurar o rojão visual; e provavelmente nada menos que as medidas de um Wednesday Comics ou de um King-Size Kirby fariam justiça ao seu TOC preciosista-micronauta.
Era a trincheira perfeita para Miller sair metralhando suas críticas curtidas em humor negro-vantablack ao american way, ao capitalismo e ao consumismo desenfreado. Tudo no mesmo balaio do sci-fi militarizado de Hard Boiled, Bad Boy, Martha Washington e, Milton Friedmans me mordam, suas colaborações na franquia RoboCop. Só lembrando que se tratava daquele Miller recém-saído da DC cuspindo marimbondo contra a censura e o establishment - mas ainda não era aquele Miller pós-11/9, danificado e cheirador de napalm pela manhã. Ainda era um meio-termo anárquico, divertido e combinando genialmente panfleto com escapismo.
A respeito de Big Guy & Rusty, muito se comenta sobre a patriotada impressa por Miller na história. Mais especificamente, sobre o fator Complexo do Salvador Branco/Narrativa do Salvador Branco, explícito numa sequência em que autoridades do Japão delegam aos EUA o status de xerife do mundo. Isso rola, exato e previsível como um relógio suíço. A diferença é que os perdedores têm o seu lado da história contado por eles mesmos; e o lado dos vencedores é conduzido num tom conciliador e amigável, não superior ou sectário.
Em contrapartida, já desarticulando minha própria defesa, uma das melhores coisas de Big Guy & Rusty é justamente seu ufanismo americanóide. Tudo à moda antiga, cheio de valores morais ("Agora é matar ou ser morto! ...Não! Tem que haver outro jeito!"), cristãos ("Eu só tenho um Deus, meu chapa e, com certeza, ele não é um iguana supercrescido!") e todos aqueles anacronismos deliciosos convivendo com cenas frenéticas de ação em toda a sua glória chuta-bundas/yippee-ki-yay-motherfucker.
Dá pra ver quanto o Mark Millar bebeu daqui para compor seu Capitão América Ultimate. E até mesmo o Universo Cinematográfico Marvel recente - mas aí é só suspeita minha.
Fuck yeah.
Ao contrário do que geralmente ocorre, soube da existência de Big Guy & Rusty anos antes da HQ sair aqui, pela série animada. Foi co-produzida pela Columbia TriStar Television e Adelaide Productions - o mesmo pessoal das divertidas Men in Black: The Series e Godzilla: The Series - em conjunto com a Dark Horse Entertainment e exibida pela Fox Kids. Coisa linda de joint venture.
Na TV aberta, o desenho passou na Globo na década de 2000, ou seja, nos últimos suspiros da sua faixa infantil matinal. Nem imagino em qual programa - seria aquele com a ruivinha marota, a TV Globinho? Àquele ponto, eu já era um autêntico Sargento Rock de guerra civil brasileira, então é certo que conheci pela tevê de alguma repartição pública, enquanto me decompunha em vida com uma senha de atendimento na mão; por sinal, o mesmo cenário desolador que me fez descobrir o igualmente maravilhoso desenho Avatar: A Lenda de Aang. Como um alívio em meio a tamanha tortura, foi amor à primeira assistida.
O conceito era, basicamente, os ícones do cânone pop-animê (Astro Boy/Jet Marte, Gigantor, Pirata do Espaço) e da cultura kaiju (Godzilla, Gamera, Rodan) colidindo com a ficção-científica americana do pós-Guerra. Irresistível.
Uma das grandes sacadas do cartoon foi adotar a ingenuidade e bom-mocismo dos 50's, apesar de se passar num futuro próximo - e isso inclui a patriotada, assumida de forma ainda mais incisiva e paródica que na HQ. Sempre há uma bandeira tremulando em algum lugar, os valores americanos são repetidos como mantras, a propaganda da máquina de guerra yankee é massiva, a trilha tem várias passagens em ritmo marcial e até o tema de abertura lembra um orgulhoso e grandiloquente hino militar.
A galeria de vilões era esparsa e variada: robôs, alienígenas, aberrações genéticas (e nucleares e químicas), mais robôs, monstros interdimensionais, evil cientistas e ainda mais robôs. Dos poucos recorrentes, meus favoritos eram os masterminds terminators da Legião Pró-Máquina (Legion Ex Machina), que mereciam até um desenho solo. Apesar de censura livre, o desenho era generoso em gore e grafismo sugeridos. Por várias vezes pesquei referências às nojeiras de O Enigma de Outro Mundo, The Hidden - O Escondido, A Mosca e até Do Além. O simples design de alguns monstros já parecia quase demais para um desenho voltado para crianças.
A parte técnica era um primor, com animação acima da média e arte mimetizando, à medida do possível, os traços originais - tanto que impressionou o próprio Darrow. O elenco de dublagem era um dream team: Jim Hanks (irmão do Tom) como o Tenente Dwayne Hunter, o piloto de Big Guy; o saudoso R. Lee Ermey como o General Thornton; o veterano ator M. Emmet Walsh como Mac, o mecânico mais velho de Big Guy; Stephen Root (de Corra!) como o ganancioso Dr. Axel Donovan; Gabrielle Carteris (a Andrea de, opa, Barrados no Baile) como a Dra. Erika Slate; o grande Clancy Brown (a voz definitiva do Lex Luthor!) fazendo quase todos os integrantes da Legião Pró-Máquina; o mestre Tim Curry como o Dr. Neugog; e fazendo a voz estridente de Rusty, a talentosa Pamela Adlon - a impagável Marcy, de Californication.
Já a relação gibi-desenho era curiosa, considerando o minimalismo típico do Miller noventista. Além do trabalho de adaptação, o desenho desenvolveu todo o background da HQ, criando do zero quase todos os personagens, cenários, motivações e objetivos a médio/longo prazo. A única grande convergência é o episódio de estreia, que começa do ponto onde o quadrinho parou (Big Guy e Rusty salvando vacas de uma abdução alienígena!), mas na verdade é uma adaptação livre do gibi inteiro, com alguns diálogos e cenas adaptadas ipsis literis. Muito legal.
A grade de cartoons americanos sempre foi competitiva e implacável. Assim, Big Guy & Rusty, o Menino-Robô foi uma pérola de vida curta, durando apenas 26 episódios em 2 temporadas - e nenhum home video para a posteridade. Tive que me contentar com aquele pack TV-rip em baixa resolução da Baía do Pirata. Sem grandes revisionismos da velha geração ou reverências da nova, segui resignado com a certeza que a viagem terminava ali.
Contra todas as (minhas) expectativas, em julho de 2016 veio a quase-redenção: Big & Rusty, the Boy Robot finalmente foi lançado em DVD.
Não foi um home videoper se, mas um DVD MOD (made on demand) exclusivo da Amazon. A prática é corriqueira da gigante americana e mostra que: 1) mesmo obscuras, algumas séries tem sim uma demanda expressiva, saudosista que seja; 2) é uma das maneiras mais fáceis de fazer grana investindo uma merreca: o DVD é o cúmulo do básico, com a capinha impressa em HP Deskjet e autorado sem extras de qualquer tipo, constando apenas o menu de seleção com o nome dos episódios. Consumidor de DVD MOD é second-class citizen na visão das distribuidoras.
Mesmo assim, estava disposto em converter meu desvalorizado, mas suado dinheirinho nos 27 Trump$ e 99 + shipping para ter em minhas mãos putrefactas este item superlativo da minha coleção pop por ordem autobiográfica®. Mas bucaneiro véio nunca se endireita, então resolvi fazer pequenas escavações atrás de um lendário baú do tesouro em forma de arquivos matroska/container do DVD da série. Ou ao menos um DVD-rip em mp4. E nada.
Fui procrastinando e enrolando o carrinho da Amazon-US igual noivo fujão. Até que, há algumas semanas, sob um ímpeto fecha-compra ferrado e com a página amazônica escancarada, fiz uma última busca no Yandex. Dessa vez, com um resultado novo por ali: uma página japonesa - com tudo o que isso representa - trazendo a lista dos episódios em mkv e um magnet link solitário lá no finzinho.
Colei no µTorrent sem grandes expectativas e... não é que milagres acontecem?
Hooray!
Clique aí no Tetsujin 28-go - o Gigantor, pô - para copiar o magnet link.
Sobraram poucos seeds, é verdade. Demorei uma vida pra completar esse download. Então vou manter os arquivos semeando ainda por um bom tempo. Não direto 24/7, mas ao menos algumas horas, todos os dias à noite. E quase direto nos fins de semana.
E a quem colaborar possa: que tal degustar esse torresmo, subir os episódios em alguma conta do Mega ou Mediafire e espalhar a palavra? O espírito público agradece.
Maratonei o desenho reservando certa condescendência para um possível envelhecimento técnico e narrativo. Felizmente, foi desnecessário: a série continua tão espirituosa, eletrizante e divertida quanto da primeira vez. Pode até ser uma Síndrome de Peter Pan (é provável), mas já quero conferir mais uma vez os "golpes movidos a plutônio" de BGY-11, vulgo Big Guy, e os "poderes núcleo-protônicos" de Rusty - que, lembrando, não tem "receptores de dor".
O tiozão do Anime Abandon concorda comigo.
Ps: é tarde demais pra sonhar com aquele live-action?