sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Avante, Salvat!

Sabe aquele momento no programa do Silvio Santos em que um participante já ganhou uma boa quantia em espécie e, já pronto pra partir felizão pra casa, recebe do faustiano apresentador uma proposta que triplica/quintuplica/decuplica o prêmio num tudo-ou-nada irresistível?

Pois é. A editora Salvat é o Silvio Santos do mercado brasileiro de quadrinhos. Mah-oeee.

Eu, que já vislumbrava a 3ª idade da relação com os gibis, à base de Bonellis, linhas claras e bárbaros cimérios, me vi tragado de volta à singularidade adolescente e colorida do mainstream super-heróico. Ah, para, ô.


Mas tenho meus motivos.

Essa é nada menos que uma das melhores fases dos Vingadores, com a parceria clássica-sim-clássica de Kurt Busiek e George Pérez explorando a quintessência de uma super-equipe. É o suprassumo do super-heroísmo. Juro pelas pinups de Jordi Bernet: se já vi os Vingadores batendo a Liga da Justiça alguma vez em seu próprio território, foi aqui.

Segue a grade dos três tomos (1.136 omnibústicas páginas no total!), incorporando espertamente alguns títulos extra-Avengers adjacentes.

Marvel Edição Especial Limitada Ed. 01 - Os Vingadores: Avante, Vingadores!
Avengers (vol. 3) 1-11, Avengers Annual 1998, Captain America (vol. 3) 8, Iron Man (vol. 3) 7 e Quicksilver (vol. 1) 7

Marvel Edição Especial Limitada Ed. 02 - Os Vingadores: Ultron Ilimitado
Avengers (vol. 3) 0, 12-22 e Avengers Annual 1999

Marvel Edição Especial Limitada Ed. 03 - Os Vingadores: Lendas Vivas!
Avengers (vol. 3) 23-34 e Thunderbolts (vol. 1) 42-44

Tenho a maior parte desse run nos formatinhos e formatões derradeiros da Abril e a coisa toda digitalizada pela Marvel há alguns anos. E vai pra estante. Com a caixinha.

Só a edição 01 coletando, entre outras coisas, a descaralhante Grandes Heróis Marvel v2 #6 praticamente na íntegra (faltou o gibi #10 do Mercúrio) trazendo o inferno pessoal da minha adorada Carol Danvers, já me justifica esse desatino financeiro. Fora que lá vem Conan, Tex Gold, Vilões Mais Poderosos, extensões...

Por favor, alguém pare a Salvat.

Ps: a bem da verdade, só remanejei a verba da cancelada Black Friday da Mythos deste ano. Limões & limonadas...

terça-feira, 17 de outubro de 2017

CONCUBINAS DE ISHTAR!


Na conexão cimério-capixaba da vez, A Espada Selvagem de Conan - A Coleção vol. 4: O Conquistador. O volume compreende de Savage Sword of Conan #8 a #11 e deixa evidente o quão multifacetado era o título. Estão ali contos curtos, aventuras mais longas e sagas divididas em várias partes que se tornaram momentos essenciais para a compreensão da trajetória do bárbaro. Essa diversificação também era característica da seleção de artistas sob o comando de Roy Thomas - sem, logicamente, ofuscar o protagonismo do lendário John Buscema.

Olhando em retrospecto - e em tempo real, agora, com "A Coleção" da Salvat - fica difícil pensar num título mais complexo do que Savage Sword of Conan. Apesar de metódico e obsessivo, o criador Robert E. Howard não era exatamente um adepto da continuidade. Mapear e adaptar a atribulada vida do bárbaro em ordem cronológica sempre foi um verdadeiro desafio para editores, roteiristas, tradutores, etc. Fosse nos dias de hoje, cabeças rolariam entre as deadlines industriais da Marvel.

É aí que, lá pelas tantas deste volume ("Conan, o Conquistador - parte 5: A Estrada para Acheron", 1976), surge do nada a 1ª menção em SSC à Zenóbia, futura esposa do Conan-Rei de Aquilônia.

Zenóbia havia estreado dois anos antes, em Giant-Size of Conan #2, edição não coletada nesta série por razões óbvias. Mas para entender plenamente a relação entre os dois e a linha do tempo que levou o cimério à coroa, é imperativa também a leitura do conto "A Hora do Dragão", cuja adaptação para os quadrinhos começa na Giant-Size of Conan #1 anterior, vai até a #4 e segue aqui sob o nome "Corsários Contra Stygia" até o fechamento da saga "O Conquistador" - precisamente nestas SSC #8-10. Crom!

Um embróglio editorial difícil de desenrolar e que passa ao longe da jurisdição d'A Coleção salvatiana. E evidentemente uma bola levantada perfeitinha para a Mythos cortar impiedosamente com seu megaluxuoso Conan: O Conquistador. Ora, mas que diacho, hm?

Voltando ao quarto volume, temos novamente a trinca-padrão com a intro de Max Brighel, a galeria de capas e as minibios de Thomas & Buscema.




E sem maiores problemas relacionados à impressão desta vez. O conto de abertura "O Pacto Maldito" está o fino dos tons cinzas na arte de Tim Conrad, assim como o traço de Jess Jodloman em "A Última Canção de Conan, o Cimério". Os cinco segmentos da saga "Conan, o Conquistador", de Buscema com finalização d'A Tribo, também estão acima da apresentação da "dupla" no volume anterior.

E arrisco afirmar que, se Buscema e Windsor-Smith não existissem, o Conan oficial dos quadrinhos seria o de Pablo Marcos. Em "A Maldição da Deusa-Gato", o cimério ronca e vomita fogo, como se um cometa explodisse dentro de um vulcão em erupção*, pronto responder a um simples "bom dia" com uma machadada na testa. Perto dele, os personagens de Hokuto no Ken fugiriam correndo para a aula de balé mais próxima!

* parafraseando meu personal Obi-Wan Berrah de Alencar!

Claro que não podia deixar de destacar a saga em seis partes "A Fortaleza dos Condenados". Essa foi realmente minha menina dos olhos deste vol. 4. Em sua maior parte pela química do traço de John Buscema com a arte-final soberba do filipino Yong Montano. O homem é um monstro do nanquim, um mestre nas sombras, detalhes, texturas e expressões. Ao mesmo tempo em que traz uma pegada densa e carregada, também turbina as sequências de Buscema com um dinamismo que poucas vezes vi.

Um espetáculo que rouba a cena até mesmo da histórica aventura-título. Obrigatório é pouco.

Junto com o volume, a Salvat incluiu uma cartinha bastante cordial agradecendo o apoio à "distribuição local avançada" e se disponibilizando para o ressarcimento dos valores gastos nos 4 volumes.


Obrigado, mas passo. So far, so good.

Então... será que finalizaram os testes? E qual terá sido o resultado?

A Espada Selvagem de Conan - A Coleção vol. 1
A Espada Selvagem de Conan - A Coleção vol. 2
A Espada Selvagem de Conan - A Coleção vol. 3

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Os mutantes atrás das paredes

Com um timing sobrenaturalmente amplificado pelas forças arcanas que permeiam esta data, a Fox liberou um surpreendente trailer de Os Novos Mutantes.


A estrutura e a atmosfera são velhas conhecidas, bem como as homenagens e os "empréstimos" de várias fontes do cinema. Só a cena da parede é um recurso já utilizado em um sem-número de longas, de A Hora do Pesadelo a Dia dos Mortos, sem falar n'outro dos meus filmes de cabeceira, que foi o primeiro que me veio à cabeça enquanto assistia o promo. O que espanta é o tom.

Mesmo após a série Legion, ainda é algo insólito/acachapante ver os mutantes da Marvel figurando num thriller de terror.

E, sabe, gosto disso. Demais. Tenho a (vã?) esperança de que economizem no CGI para não sabotarem esse clima na reta final com um show de luzes coloridas, explosões e pessoinhas digitais.

O elenco parece fabuloso. Anya-Taylor Joy no papel da Illyana (quantos y's!) e Maisie Williams como Rahne são quase transposições literais dos quadrinhos. Já Charlie Heaton não lembra em nada o rocket-man® Sam Guthrie, porém o rapaz é inglês e só por isso já tem crédito na casa. E é sempre legal ver brasileiros marcando presença no mainstream - só aqui temos dois: Henry Zaga como o Mancha Solar, mais a bela e, até há pouco tempo onipresente, Alice Braga como a Dra. Cecilia Reyes.

Mas pretendo ficar de olho mesmo em Blu Hunt como a Danielle Moonstar. Ela bem que poderia ser o gancho futuro para a adaptação da minha saga preferida dos mutuninhas, também uma arrepiante trama de horror.

O "Xis" pra câmera ao lado do Bill Sienkiewicz eles já disseram.


Os Novos Mutantes tem previsão de estreia para 13 de abril de 2018. Outra sexta-feira...

Bom dia!


Muitas alegrias nesta sexta!

E fica a pergunta que nunca quis calar: seria Jason Voorhees um zumbi? Certezas, chutes e teorias nos comentários e na enquete aí ao lado.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Back to U.S.S.R.


Muito antes de chafurdar no mainstream global em produções como Guardiões da Noite e, err, Guardiões e virar a Hollywood dos Urais, o cinema russo - ou, melhor contextualizando, soviético - enfileirou clássicos absolutos da 7ª arte. O conjunto da obra era arrebatador: técnicas inovadoras, uma nova expressividade dramática e narrativa, metáforas universais que, em teoria, jamais passariam pelo crivo censor do Estado, e por aí vai. Um legado histórico reconhecido por reverências e tributos até mesmo pelos estrangeiros do oeste.

A impressão é de que os bolcheviques também disputavam com o Ocidente outra acirrada corrida, a cinematográfica.

Aí veio o gol de placa da TV Brasil, emissora aberta cujo conteúdo de orientação progressista-com-neurônios me é agradabilíssimo: em comemoração aos 100 anos da Revolução Russa, o canal irá exibir uma seleção de 11 filmes clássicos da Era de Ouro do cinema soviético a partir do próximo domingo, dia 15 de outubro, sempre às 23 hs.

É o Outubro SoviéticoУра!

E a chamadinha é espetacularmente эффектный!


Segue a programação (sinopses no site):

15/10, domingo: O Encouraçado Potemkin (1925), de Serguei Eisenstein - drama mudo
16/10, segunda-feira: O Conto do Czar Saltan (1967), de Aleksandr Ptushko - fantasia
17/10, terça-feira: Vassa (1983), de Gleb Panfilov - drama
18/10, quarta-feira: A Mãe (1989) (não confundir com Mãe! LoL), de Gleb Panfilov - drama
19/10, quinta-feira: Boris Godunov (1986), de Sergei Bondarchuk - drama
20/10, sexta-feira: Um Acidente de Caça (1978), de Emil Loteanu - drama
21/10, sábado: Arsenal (1929), de Aleksandr Dovzhenko - guerra
22/10, domingo: O Velho e o Novo (1929), de Serguei Eisenstein e Grigori Aleksandrov - drama mudo
23/10, segunda-feira: As Aventuras Extraordinárias de Mr. West no País dos Bolcheviques (1924), de Lev Kulechov - comédia muda
24/10, terça-feira: Cossacos do Kuban (1949), de Ivan Pyriev - comédia musical
25/10, quarta-feira: Lênin em Outubro (1937), de Mikhail Romm e Dmitri Vasilyev - drama

Cinema pra proletariado nenhum botar defeito. Imperdível.

Ps: mas é claro que vou completar a rodada com Solaris (1972) e Stalker (1979), do mestre Andrei Tarkovsky, que não sei por que perestroikas não entrou na lista. Questões de Estado, certamente.


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E com timing impecável, essa semana também chegou em minhas pútridas mãos um material de leitura à caráter.


O Cosmonauta de Krypton. Também conhecido como Superman - Entre a Foice e o Martelo, quando poderia ter sido conhecido como Superman - O Filho Vermelho, simplesmente.

Seja como for, é a hora mais do que apropriada para rever cenas como aquela que me fez pensar na gravidade de um Super-Homem sendo arremessado de um lado pro outro de um centro urbano. Situação de DEFCON 1/sebo nas canelas - ou o índice apocalíptico equivalente cunhado pelo Komitet Gosudarstvennoy Bezopasnosti.


O efeito de uma bala perdida? Não, de um ICBM perdido

Foram 774 vítimas fatais só nessa página. E algumas dezenas de milhões de libras em danos materiais.

Mas isso foi bem antes do filme, claro.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

O Enigma em setenta milímetros


Quem estiver passando de bobeira por Portland, OR, entre sexta e domingo que vem, pelamordeCarpenter não deixe de conferir a exibição de O Enigma de Outro Mundo no Hollywood Theater em toda a glória de seus raros 70 mm. Oportunidade única para juntar mais peças daquele quebra-cabeça. 1982 é no próximo final de semana!

A linda arte promocional foi feita por Dan Brereton (Batman - Pulp Fiction) com indisfarçável carinho pelo filme.

Fico me perguntando por que esse tipo de evento não ocorre com mais regularidade também por estas bandas (a rede Cinemark chegou a exibir alguns clássicos há um tempo). De preferência com todas aquelas pérolas - hits e/ou cult - que marcaram a década de 1980, como A Hora do Espanto, Noite dos ArrepiosConan o Bárbaro, Evil Dead, Mad Max, A Volta dos Mortos-Vivos, O Exterminador do Futuro, Re-Animator, Robocop, A História sem Fim, Blade Runner, O Clube dos Cinco, Miracle Mile (lógico!), A Lenda, Poltergeist, Top Secret!, Excalibur, Predador, Scarface, etc. e etecéra pra caramba.

Pra mim, isso é que seria uma maratona pop. Eu iria fácil.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

A última dança de Tom Petty

Tristes dias nos Estados Unidos.


Tom Petty
(1950 - 2017)

Thomas Earl Petty sempre foi mais conhecido lá fora do que por essas bandas. Poucos artistas personificaram tão bem o espírito do rock 'n' roll tradicionalista yankee - e ainda tocar nas rádios, em trilhas de filmes e figurar nas paradas da Billboard.

Sua partida surpreendeu meio mundo. Apesar do físico franzino, Petty parecia uma daquelas entidades estradeiras, virtualmente imortais, que sempre estariam por aí, provavelmente até o mundo se despedaçar de vez.

E que música sensacional ele fazia, seja solo, ao lado dos Heartbreakers ou com o supergrupo Traveling Wilburys. Eu adorava.


Thanks, man.

E segue a morte, a vida. Por hora, vou de Wildflowers (1996).

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

CROM E MITRA!


Dando sequência à saga do lendário bárbaro/capitão/pirata/rei cimério, a Salvat lança pelos circuitos setorizados A Espada Selvagem de Conan - A Coleção vol. 3: A Maldição da Lua Crescente. Em três edições pontualmente quinzenais, a editora deve ter tirado algumas lições preciosas com a recente distribuição de materiais com baixa tiragem. Ao contrário das coleções da Marvel em capas preta e vermelha, a regularidade aqui tem sido britanicamente impecável.

Da treta muito louca da Panini (parceira na empreitada) com a distribuidora Total-ex-Dinap, pelo visto, só chegou a "marolinha" - e vamos bater na madeira 3 vezes, por favor.

O que mudou? Não faço ideia, já que esse tipo de informação as editoras brasileiras guardam como se fossem códigos de ogivas nucleares. Me atenho aos fatos - e volumes - empíricos.

Por exemplo, a única grande mudança ardeu os olhos, mesmo já prévia e fartamente anunciada.


"Achou que eu estava brincando?" - Salvat, com um bastão de baseball

Já distante dos idílicos tostões que custearam os dois primeiros volumes, o preço real de 44,90 reais foi realmente de um choque de realidade. O que me leva a mais e melhores cálculos e à possibilidade concreta de dar um hiatão nesses posts E$pada $elvagem, além de repensar o timing da entrada de cabeça nas assinaturas do ano que vem. E o mais importante, tomar um remédio para verme extraforte.

Voltando aos fatos, o pacote bárbaro daqui pra frente não será mais pacote: só a edição lacrada.

Menos glamouroso, mais prático = Melhor assim.




Os bônus são sucintos: novo prefácio do editor Max Brighel, galeria de capas e uma belíssima chamada para o próximo volume.

Entre as histórias, Alfredo Alcala dá mais um show de finalização no clássico "A Cidadela no Centro do Tempo", o veterano dos gibis de terror Sonny Trinidad (ah, esses filipinos) deixa sua marca em "O Terror Dorme Sob a Areia" e até a arte estranha e vanguardista de Alex Niño (ah, esses filipinos²) combina bem com a história estranha e vanguardista de "O Povo da Escuridão". E claro que não poderia deixar de destacar o arco-título em oito capítulos onde Conan se vê às voltas com a linda e traiçoeira bruxa Salomé.

É nesse épico de Roy Thomas e John Buscema que acontece um dos momentos mais icônicos do personagem, transposto inclusive para o filme de 1982: a crucificação de Conan e a antológica sequência do abutre na "Árvore da Morte". Com certeza, uma das minhas aventuras favoritas do cimério.

Infelizmente, também é ali que a problemática digitalização da Dark Horse faz mais vítimas. Desta vez, foi a arte-final de The Tribe - o time de filipinos que finalizava artes para a Marvel e que tinha em suas fileiras o grande Tony DeZuñiga (ah!). Cheia de nuances suaves nos sombreamentos e tons de cinza e/ou aguados®, o acabamento orgânico e mundano da equipe levou um banho de água sanitária da editora do cavalo preto.

Detalhes de painéis mais trabalhados ficaram bem apagados, lembrando aquelas famigeradas impressões pixelizadas que ninguém gosta de lembrar. Basta comparar algumas das amostras com as respectivas artes originais. Em alguns quadros o nanquim vira um lápis. De lascar.

Friso, não é culpa da Salvat, os arquivos digitais já vieram assim, é o que tem pra hoje, etecétera e tal.

Felizmente, no restante da edição a parte gráfica segue em bom nível. O volume defende com tranquilidade o status de acervo histórico da série e, confesso, é algo emocionante ver A Espada Selvagem de Conan já atingindo seu #7 original bem adaptado, na íntegra e em capa dura.

Parece até que já estou vendo algo se formando no horizonte...




Sim, sim... estou vendo algo! Estou vendo algo!!

Só gostaria de ter uma casa maior ao redor dessa estante.

A Espada Selvagem de Conan - A Coleção vol. 1
A Espada Selvagem de Conan - A Coleção vol. 2

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

O sonho acabou


Miracle Mile (1988) é uma velha obsessão, você sabe. Cult entre os cults, eu não esperava tão cedo um revisionismo desse filme além do dvd magrelo lançado em 2003. Quando anunciaram o lançamento do blu-ray lá fora, remasterizado e com vários extras, quis até comemorar espalhando um hoax sobre alguma destruição mútua assegurada estourando por aí. Seria um dos meus raros investimentos atuais em mídia física - ao lado do dvd do Drive noventista e do, ainda sob estudos, mod da Amazon gringa para Big Guy & Rusty.


Orçamento aprovado, canto na estante reservado a cotoveladas, mas... antes de fechar o carrinho resolvi dar um bico no torrent produto final. Se foi um grande erro ou um grande acerto, ainda não sei.

A remasterização, feita pelo cinematografista Theo Van de Sande e pelo diretor e roteirista Steve De Jarnatt, foi radical. Talvez numa tentativa de dar à pérola oitentista uma cara mais up-to-date, carregaram nos filtros teal & orange hollywoodianos e acabaram assim liquidando um dos aspectos mais intrigantes e ambíguos da trama de Miracle Mile:


♢♢♢ olha o spoiler ♢♢♢


...foi tudo um sonho?


Tudo bem, o próprio Jarnatt já rechaçou a teoria, alegando que "o público não teria gostado". Porém é uma das raras ocasiões onde essa possibilidade não só é muito provável como está muito bem enquadrada no contexto, independente da visão de seu criador.


Sequências como o anti-herói Harry (Anthony Edwards) correndo  pela madrugada de Los Angeles com a garçonete Julie (Mare Winningham) num carrinho de supermercado (!), os vários desencontros pelas ruas da cidade, a desorientação generalizada e os protagonistas teimosamente retornando ao ponto de partida por mais que fujam dele, por si sós, têm uma mecânica de sonho - ou de pesadelo. Sem falar na trilha etérea do Tangerine Dream e no fato de que a premissa inteira teve início durante (e devido a) uma soneca de Harry.

Tudo isso ainda seria apenas um amontoado de (bons!) indícios, se não fosse o lado estético não transposto para o disquinho azul. Além do figurino new wave a da direção de arte ao estilo "magazine de moda dos anos 80, com muito neon e lojas de departamentos", como bem observou Roger Ebert e irritou Gene Siskel, havia bem mais ali.


No original, a fotografia do filme reveza entre uma matiz magenta/rosada e outra azulada nas externas, conferindo um ar de surrealismo às cenas. Outro ponto é a definição moderada da imagem, típica das limitações de sua época, acrescido de algum blur em momentos-chave. Geralmente isso é usado para ilustrar passagens de flashbacks, mas aqui reforça ainda mais o aspecto onírico da aventura.

Enfim, era uma maneira alternativa e intimista de assistir Miracle Mile. Ficava bem mais divertido (e sutil) do que qualquer filme-sonho que o Brian De Palma já tenha feito.

Já no blu-ray, filtros saturados estouram na tela e fritam a retina com a melhor definição que a trama nunca pediu. A menos que você seja o Michael Bay, é impossível enxergar aquilo como algo vindo de um sonho.

Outro con é a transposição do formato de tela. O objetivo inicial era sair finalmente do full screen (1.33:1) da versão do dvd para um formato wide similar ao lançado nos cinemas (1.85:1). Mas pelo jeito algo não fechou nas contas da montagem e o resultado foi uma complicação quase tão grande quanto a dos dvd's nacionais de Homem-Aranha (2002).






Os prós, contudo, são promissores. Dos extras com material inédito de um filme obscuraço à reunião da maior parte do elenco 30 anos depois, quase posso dizer que vou arriscar o importado...

...se não encontrar o torrent disco n'alguma loja por aí, claro.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Os cavalheiros do apocalipse

Em geral, os catálogos da plataforma musical NoiseTrade são recheados de muito folk, americana e cantores indie/songwriters com banquinho e violão e depressão. Às vezes, a coisa pesa e velhas guitarras roncam furiosas de alguma garagem forrada com pôsteres do MC5, Black Sabbath e Motörhead. E tem aquelas ocasiões em que não rola nem uma coisa, nem outra e é sensacional, como o grupo The Texas Gentlemen.


O divertido vídeo da música "Pain!" traz um humor negro que normalmente seria associado a sons mais fuleiros e barulhentos, mas é conduzido pela pegada acústica de um certo soft rock vintage. No fim, os rapazes de Dallas abraçam mesmo é o country rock de raiz. No perfil do Facebook (que moderno) eles fazem menções apaixonadas a Willie Nelson, Johnny Cash, Kris Kristofferson, The Band e outros.

Analisando por outro espectro, o improvável mix da imagética gore e cínica do vídeo com o pop rock agridoce e anacrônico da música também remete à clássica cena de Laurel Canyon, Los Angeles - que ganhou fama e (muita) grana no final da década de 1960 e durante toda a década de 1970.

O lirismo e o perfeccionismo musical de Eagles, Carole King, The Byrds, Buffalo Springfield, Crosby, Stills, Nash & Young e outros ilustres locais só eram superados pelo seu ritmo industrial de sexo, drogas e quebra-paus homéricos nos bastidores. Não por acaso, há um verdadeiro cult following àquela louca geração, que inclusive foi tema de livros, como Hotel California, de Barney Hoskins, e filmes, como Laurel Canyon - Rua das Tentações, que usa a mística barra-pesada do lugar como pano de fundo.

Nos primórdios, essa turma - mais Steely Dan, Cat Stevens, Elton John, Seals & Crofts, America e lá vai AOR - passava longe do meu dial. Do alto do meu subterrâneo punk-metal, achava isso tudo o suprassumo da cafonice. Puro preconceito. Mal sabia que os bem comportados é que eram os verdadeiros maus exemplos. E a música era demais - principalmente depois dos 35.

Hoje tenho os primeiros discos de Elton John como discoteca básica. The times they are a-changin', mesmo.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

MÃE DE MITRA!

E seguimos com o Plantão A Espada Salvatiana® de Conan:


Novamente sem maiores alardes, aportou nas bancas de Vila Velha A Espada Selvagem de Conan - A Coleção vol. 2: A Libertação de Thugra Khotan. O que marca finalmente a republicação oficial dos primeiros números da clássica The Savage Sword of Conan, agora sim pela consagrada dupla Roy Thomas/John BuscemaAye!

sábado, 9 de setembro de 2017

Não se meta com o Diabo, Cabeça de Copo

Após alguns anos me decompondo na fila de espera, parece que agora vai.


"Cuphead is an entirely hand-drawn game inspired by freaky, dark 1930's propaganda cartoons."
Publicado por Polygon em Sábado, 24 de junho de 2017.

Cuphead é o clássico shoot'em up oitentista de plataforma com conceito e visual das animações trintistas. E é indie game. Claro que virou automaticamente minha obsessão assim que pus os olhos nessa belezinha, há intermináveis três anos.

Um parênteses: (não sou um gam... ué, pra quê parênteses se já usei dois pontos? Nah)... não sou um gamer por definição. Minha taxa game/ano é baixíssima. Não raro, dá traço. Nem console em casa eu tenho. Mas é claro que acompanho matérias sobre o assunto, os projetos mais comentados e os cinematics mais compartilhados da semana.

Fora que grande parte dessa linguagem está inexoravelmente atrelada a outras áreas que yo tengo mucho gusto. Música e gibis, por exemplo.

Mas mesmo sem esses links, Cuphead me deixaria aos seus pés de qualquer modo. Desenvolvido pelos manos canadenses Chad e Jared Moldenhauer (a.k.a StudioMDHR Entertainment), o jogo é evidentemente um trabalho de amor à arte. O esmero e o cuidado na produção, sozinhos, já valem um documentário do tipo "Projeto Colaborativo Desenvolvido numa Garagem vs. A Fria e Bilionária Indústria dos Jogos Eletrônicos".

Só divagando. Mas vem chamando a atenção.

Por todas essas razões, Cuphead - que, dizem, é brutalmente difícil - será outro daqueles raros eventos a me arrancarem do meu limbo non-games, ao exemplo de... Limbo! Esse adorável, evocativo e assustador indie game de 2010 representou pra mim algumas das melhores horas gastas com cultura pop. Memorável.

No mais, o assalto retrô de Cuphead, além de certeiro, também está atrelado inexoravelmente ao divertido vídeo de "Ghost of Stephen Foster", do Squirrel Nut Zippers.


Melhor referência, impossível.

Cuphead será lançado em 29 de setembro.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

sábado, 26 de agosto de 2017

Caso das Três Mulheres Degoladas Ligado às Misteriosas Aparições da Bizarra Criatura Noturna


Isso é o que chamo de boas novas!

Gotham by Gaslight é uma das minhas aventuras favoritas do Morcego. O roteiro sorumbático e ao mesmo tempo evocativo e espirituoso de Brian Augustyn - parceiro de Mark Waid em seus runs do Flash e X-O Manowar - faz uma perfeita realocação do Batman e seu mythos para o cenário vitoriano. E, claro, para a histórica caçada de um infame Estripador, o Jack.

Claro que a magia não seria completa sem o traço inconfundível de Mike Mignola (com arte-final de P. Craig Russel), que fez aqui um de seus trabalhos mais bonitos. Apesar de não ter inaugurado originalmente a linha, a história passou a ser considerada o 1º Elseworld da DC, tendo inclusive inspirado a sua criação.

Por aqui ela foi publicada só uma vez duas vezes, pela Panini em Batman - 70 Anos #3 e pela Abril, com o título Um Conto de Batman - Gotham City 1889.


E depois ganhou uma continuação, Batman - Mestre do Futuro, novamente com roteiro de Augustyn e desenhos do excelente artista uruguaio Eduardo Barreto.


Uma coisa que não entendi é o fato de não adaptarem o traço do Mignola na animação. Seu estilo simples e peculiar funciona na tela à perfeição e sem ele a história perderá muito da caracterização e da atmosfera originais.

Santa negligência, Batman.

Aliás, há um tempo percebo que a divisão de animações da DC parou no automático com essa roupagem sub-Bruce Timm (sob os auspícios do próprio), quando até há pouco diversificava os designs emulando diferentes artistas com bons resultados. Uma pena também é notar a queda na qualidade das animações - e sempre nas mais transgressoras, com temáticas mais densas e menos comerciais que o padrão. A de Piada Mortal, por exemplo, foi atroz. E a prévia de Gotham by Gaslight já deixa claro que o longa terá uma quantidade pífia de quadros/sec.

Ironicamente, o sneak peek saiu nos extras do tecnicamente redondinho Batman and Harley Quinn - um tour-de-fanservice que nasceu hit pronto. Um esmero que toda animação da Detective Comics-Comics deveria ter.

Ou pelo menos as de boa estirpe.