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quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

The Duel After


E falando em 2001: Uma Odisséia no Espaço, quando molequinho, esse era tradicionalmente o primeiro filme que eu assistia no ano. Na madrugada de réveillon, todos os canais saíam do ar, exceto a Globo, que exibia 2001 após a Missa do Galo, quase ao alvorecer do dia. Claro... "assistia" é só força de expressão: após alguns minutos, eu dormia como se não houvesse amanhã. Nem a macacada quebrando ossos ao som de Strauss me mantinha acordado.

Conforme fui envelhecendo, fui tomando jeito - alcancei o espaço e aos poucos (bem aos poucos) fui me aproximando da grandiosa sequência final em Júpiter. Finalmente! Não entendia nada daquilo, mas... finalmente!

Até hoje mantenho o ritualzinho de início de ano. Mas no lugar da obra-prima de Kubrick na Globo, o posto foi assumido - now, in D.V.D. - por Encurralado, o famoso Duel (1971) de Steven Spielberg. Esse foi o primeiro longa do cineasta, embora originalmente não tão longo para o cinema (74 min.) e produzido para um programa semanal do canal ABC.

Durante muito tempo, Encurralado foi o filme que inaugurou minha grade anual da 7ª Arte. Por algum motivo, o ano não começava pra mim antes de revisitar a saga de um inofensivo motorista (Dennis Weaver) sendo caçado por um assustador caminhão-tanque ao longo de uma highway no deserto de Mojave. Mas já há uma trinca de anos que o debut Spielberguiano tem dividido a telinha com outro telefilme. E produzido pelo mesmo canal.

Em novembro de 1983, a comportada e superfamília ABC resolveu aterrorizar o público americano - e o resto do planeta - com a exibição de O Dia Seguinte (The Day After). O filme era a dramatização do medo mais recorrente na época: uma guerra nuclear entre Estados Unidos e União Soviética. O momento em que os mísseis são disparados dos silos nas bucólicas paisagens do Kansas e os efeitos old school misturando montagens e cenas de arquivo reais são arrepiantes. E os espólios do conflito fazem os sobreviventes invejarem quem morreu nos ataques.

Ainda hoje o filme traz uma carga deprê incrível. Especialmente para aqueles que se lembram daquela versão de mundo com duas Alemanhas. Isso graças ao olhar clínico do diretor Nicholas Meyer no elenco estelar - todos francamente engajados a fazer do filme um manifesto desesperado, mas sem panfletarismo: apenas se valendo dos apectos mais pungentes que uma grande atuação pode alcançar.

Nunca vi o Steve Guttenberg tão triste e miserável num filme. Difícil não ser impactado pela cena em que uma mãe (Bibi Besch) se recusa a aceitar que as bombas estão vindo e insiste em arrumar o quarto dos filhos. Ou acompanhar a lenta derrocada moral e psicológica de um médico veterano interpretado magnificamente pelo saudoso Jason Robards.


Além da natureza árida e da impiedosa descontrução do elemento humano, o que esses dois filmes têm em comum são seus protagonistas encarando um cenário inglório, quixotesco. São a epítome da máxima "coisas ruins também acontecem com pessoas boas".

Mas acima de tudo, são sobre pessoas que mesmo diante disso tudo, continuam seguindo, olhando para frente, para o futuro, por menos promissor que ele pareça.

Por quê? Não sei. Mas, estranhamente, é uma boa maneira de começar um ano.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Back to U.S.S.R.


Muito antes de chafurdar no mainstream global em produções como Guardiões da Noite e, err, Guardiões e virar a Hollywood dos Urais, o cinema russo - ou, melhor contextualizando, soviético - enfileirou clássicos absolutos da 7ª arte. O conjunto da obra era arrebatador: técnicas inovadoras, uma nova expressividade dramática e narrativa, metáforas universais que, em teoria, jamais passariam pelo crivo censor do Estado, e por aí vai. Um legado histórico reconhecido por reverências e tributos até mesmo pelos estrangeiros do oeste.

A impressão é de que os bolcheviques também disputavam com o Ocidente outra acirrada corrida, a cinematográfica.

Aí veio o gol de placa da TV Brasil, emissora aberta cujo conteúdo de orientação progressista-com-neurônios me é agradabilíssimo: em comemoração aos 100 anos da Revolução Russa, o canal irá exibir uma seleção de 11 filmes clássicos da Era de Ouro do cinema soviético a partir do próximo domingo, dia 15 de outubro, sempre às 23 hs.

É o Outubro SoviéticoУра!

E a chamadinha é espetacularmente эффектный!


Segue a programação (sinopses no site):

15/10, domingo: O Encouraçado Potemkin (1925), de Serguei Eisenstein - drama mudo
16/10, segunda-feira: O Conto do Czar Saltan (1967), de Aleksandr Ptushko - fantasia
17/10, terça-feira: Vassa (1983), de Gleb Panfilov - drama
18/10, quarta-feira: A Mãe (1989) (não confundir com Mãe! LoL), de Gleb Panfilov - drama
19/10, quinta-feira: Boris Godunov (1986), de Sergei Bondarchuk - drama
20/10, sexta-feira: Um Acidente de Caça (1978), de Emil Loteanu - drama
21/10, sábado: Arsenal (1929), de Aleksandr Dovzhenko - guerra
22/10, domingo: O Velho e o Novo (1929), de Serguei Eisenstein e Grigori Aleksandrov - drama mudo
23/10, segunda-feira: As Aventuras Extraordinárias de Mr. West no País dos Bolcheviques (1924), de Lev Kulechov - comédia muda
24/10, terça-feira: Cossacos do Kuban (1949), de Ivan Pyriev - comédia musical
25/10, quarta-feira: Lênin em Outubro (1937), de Mikhail Romm e Dmitri Vasilyev - drama

Cinema pra proletariado nenhum botar defeito. Imperdível.

Ps: mas é claro que vou completar a rodada com Solaris (1972) e Stalker (1979), do mestre Andrei Tarkovsky, que não sei por que perestroikas não entraram na lista. Questões de Estado, certamente.


☭ ☭ ☭ ☭ ☭ ☭ ☭


E com timing impecável, essa semana também chegou em minhas pútridas mãos um material de leitura à caráter.


O Cosmonauta de Krypton. Também conhecido como Superman - Entre a Foice e o Martelo, quando poderia ter sido conhecido como Superman - O Filho Vermelho, simplesmente.

Seja como for, é a hora mais do que apropriada para rever cenas como aquela que me fez pensar na gravidade de um Super-Homem sendo arremessado de um lado pro outro de um centro urbano. Situação de DEFCON 1/sebo nas canelas - ou o índice apocalíptico equivalente cunhado pelo Komitet Gosudarstvennoy Bezopasnosti.


O efeito de uma bala perdida? Não, de um ICBM perdido

Foram 774 vítimas fatais só nessa página. E algumas dezenas de milhões de libras em danos materiais.

Mas isso foi bem antes do filme, claro.

domingo, 28 de agosto de 2016

Защитники Zaschitniki (трейлер)

Registro do trailer #3 dos Supersoldados Sovié... opa, Guardians (2017), marcando a entrada da Mãe Rússia na corrida super-heroística contra os opressores estadunidenses.


Parece um fan film muito bacanudo. Mas ainda um fan film. Como tenho apreço por caras-de-pau, admito que me parece divertido. O que dizer então de rip-offs de Soldado Invernal/Snake Eyes/Cyborg Ninja, Sue Richards, Chicote Negro e outros notáveis heróicos e/ou vilânicos. O produtor e diretor armênio (!) Sarik Andreasyan não poupou esforços.

De brinde, ainda um urso antropomórfico largando o aço pra cima dos meta-vagabundos com uma prima russa da Ol' Painless.

Urso esse que nem rip-off é. É furto mesmo.


Dzya-dzya Stan e seu komitet já estão maquinando uma retaliação contra Moscou. Mal sabem esses huskies com quem estão se metendo.

Excelsior!

terça-feira, 6 de dezembro de 2005

ENFIM! O PIOR DA MINHA VIDA!


"Me conta, Coruja! Que eu tô fazendo neste filme?"

Este espaço aqui, quando usado para filmes, normalmente vem enaltecer uma ou outra obra nesta linha pop/alternativa que aparece por aí, seja pelo hype, seja pela qualidade. Desta vez escrevo pelo motivo inverso: vou descer a lenha num dos filmes que mais tive propriedade ao dizer "odiei" quando saí do cinema. Normalmente não sentimos aquele impulso de escrever algo a respeito quando vemos filmes ruins. Entramos na filosofia de que a fila anda e esperamos que o próximo seja melhor e mereça um texto. Eis que experimento um sentimento novo desta vez. Naquele papo sem futuro padrão de segundas-feiras, quando contamos o fim de semana para alguém e fazemos comentários breves sobre filmes que eventualmente tenhamos visto, tive tanto prazer em escrever coisas ruins sobre a "obra" em questão que resolvi fazer um post.

Antes de falar diretamente do filme, acho interessante dar um pouco mais de base para entenderem as minhas expectativas. Eu diria que o cenário do cinema ao qual temos acesso hoje vive uma fase bem particular. Nem boa nem ruim, apenas particular. Especifico o "temos acesso", pois todos sabem que tem muita coisa boa sendo feita no mundo, mas que nunca veremos, o que nos limita a Hollywood e guerreiros solitários de outras culturas ou espasmos esporádicos da retomada brasileira. O cenário atual é bem caracterizado pelos seguintes pontos:

[1] – Crise de privação de criatividade de Hollywood. O que vemos hoje, a grosso modo, ou é uma adaptação de quadrinhos, ou de livro consagrado, ou seqüência de franquia, ou biografia, ou refilmagem de obras antigas, ou refilmagem de filme obscuro e de sucesso em outro país que não seja EUA ou GBR. Roteiros originais, com algumas exceções, além de escassos, não fazem muito jus à palavra "original".

Quais os maiores blockbusters do ano ou maiores candidatos ao Oscar vindouro? Batman Begins, Guerra dos Mundos, King Kong, Star Wars III, Sin City, Harry Potter, A Fantástica Fábrica de Chocolates, Cinderella Man, Jardineiro Fiel e Munique. Três remakes, duas adaptações de HQ, duas de livro, uma sequel, uma biografia e um roteiro original (que eu acho que deve ser original... não tenho certeza). Sintomático não?

[2] – Importação de atores de países emergentes com o objetivo de ter mais entrada em outros mercados.

[3] – O já tardio acesso às obras magníficas de outras paragens, algo que até bem recentemente era completamente solapado pelo mercado americano, mas o fenômeno dos meios de comunicação e revolução das formas de acesso (pelo menos nisto os piratas têm lá seu valor) mudou isto. Doggma falou sobre isto na introdução de Vidocq e Casshern e aqui reforço a idéia. Tenho me encantado pelo cinema asiático e europeu de uma forma que nunca consegui antes. Adeus Lênin!, Edukators, Swimming Pool, Sonhadores, Encontros e Desencontros (que até pode não ser europeu ou asiático na ficha técnica, mas é ao mesmo tempo ambos e em nada americano em sua essência), Primavera, Verão, Outono, Inverno... e Primavera, os filmes de terror japoneses e chineses, os animes Fantasma do Futuro, A Viagem de Chihiro e até mesmo estes dois (e ou outros) que o Doggma comentou, mas ainda não consegui ver, corroboram a idéia.

Então, quando vi o trailler de Guardiões da Noite (Nochnoy Dozor/Night Watch, Rússia, 2004), cheio de ação, imagens de impacto, efeitos interessantes e o que parecia ser uma história bem bacana - tudo isto em russo - fiquei bem empolgado e curioso. Quando cheguei ao cinema e vi que restavam poucas opções, ao invés da famosa pergunta "E aí? Quer ver o quê?", forcei logo a decisão para este filme, certo de que era a melhor escolha a ser feita e que nada faria com que me arrependesse. Até porque havia assistido Oldboy na véspera – mais um filme que confirma o terceiro ponto destacado acima.

Pelamordedeus!! O que era aquilo?

Nada se encontra naquele negócio. Os primeiros cinco minutos fazem crer que é um filme interessante, mas até nisto consegue ser completamente contraditório quando:

[a] – se o filme é russo, por quê a narração em off em inglês? Cheguei a pensar que havia me enganado sobre sua origem, que havia sido re-dublado ou sei lá o quê;

[b] – A qualidade das imagens, fotografia, filtros e afins utilizados nestes tais cinco minutos era bem interessante;

[c] – A historinha contada pelo yankee é até legal, mas chupadaça daquela introdução feita para Senhor dos Anéis, além de feita com muito menos competência.


Senhor dos Anéis?

Basicamente, há o exército da escuridão e o da luz, ambos formados por seres semelhantes aos humanos, mas com dons e características que os diferiam e lhes davam a alcunha de "Os outros" (maniqueísmo temos em tudo que é canto, mas desta forma ficou meio Star Wars/Senhor dos Anéis, dont'cha think?). Há muito e muito tempo atrás estes exércitos viviam em conflito, até que se encontraram em uma batalha sangrenta onde descobriram que se equilibravam - Senhor dos Anéis em estado bruto e mais déja vu ainda. Por falar em déja vu, havia uma profecia que apontava um escolhido que mudaria tudo – The One (e aqui temos um match up de Matrix com SdA – para variar) – e carregaria o fardo de sua responsabilidade, mas constantemente tentado entre os dois lados. Aqui podemos vislumbrar o Frodo, mas a colcha de retalhos referenciais é tão grande que cabe até o Spawn.

Listando deste jeito, ponto por ponto, parece ruim de cara, mas até que o sentimento – provavelmente amparado pela expectativa – era positivo até então. A introdução épica na língua de Shakespeare termina e começa a história contemporânea – em russo, tovarish, até que enfim!! Nos apresentam um cara querendo a mulher de volta e recorrendo a uma destas bruxas que trazem a pessoa amada em 3 dias (sempre são 3 dias, né? Parece cartel! No dia em que um destes conseguir um SLA que baixe para 2 dias, vai dominar o mercado!). De quebra ela ainda mataria o feto que estava no ventre da ex-mulher dele, já que seria filho de outro. Na hora H surge uma equipe que caça este tipo de entidade para salvar a pátria e tacar água no chope do cara. Uma espécie de Ghostbusters, com direito a uniforme de encanador e furgão. A experiência foi traumática faz o cara que queria a mulher de volta perceber que é um d'Os Outros. Seu poder? É vidente. Só. E a partir daí parece que é o protagonista também, mas, com um poder ridículo destes, consegue ser tão bundão quanto Harry Potter é em seu mundo (não sou aficionado pelo personagem, mas vi os quatro filmes e acho que HP só é sortudo... mais nada).


"Deixa eu te falar... este é o meu pior filme!"

O que parecia ser interessante acaba aqui. Daí pra frente começa o samba do crioulo doido, com um roteiro sem pé nem cabeça, vidências feitas em Neo-Geo, personagens esdrúxulos e eventos que se sucedem ridiculamente. Em dado momento a linha da história é uma. Depois é outra. Mais a frente torna-se ainda outra. No final surge uma solução bem batida para dizer que tudo se encaixava. A solução? Ahh... colocam na boca de um dos personagens a frase "Ahhh... então tudo se encaixa!" (ou algo do tipo), mesmo que isto não tenha sentido algum.

Certamente é difícil para quem lê este texto visualizar tamanho caos, então tentarei uma analogia para ver se ajuda. Tempos atrás conheci um cara que tinha um Puma. Estava insatisfeito com seu carro e não tinha grana para um melhor, então construiu uma carcaça em fibra de vidro em forma de uma Testarossa para substituir o ‘visual’. Dado que o Puma já não é um troço legítimo, pois é um carro "esporte" sobre uma base de Fusca, a Ferrari do cara ficou um arremedo de coisa qualquer com porra nenhuma - que nem o filme. Entendeu?

E não pára por aí! Não há sequer um personagem em quem possamos nos fixar, os antagonistas não se definem em quem é o bam-bam-bam da vez, o "escolhido" é o "chosen one" não se sabe o porquê e devem ter raiva de quem sabe. Não bastando, cabe a informação de que é um filme barulhento pacas. É esporro de tudo quanto é lado, com direito a barulho de mosquito irritante a cada dois minutos. Quando – raramente - bate um silêncio qualquer, o único sentimento é "putz... que alívio".

Creio que o processo de edição do filme deve ter deixado claro que o material era fraco. Então, para tentar disfarçar o absurdo, foi recheado com muitos efeitos especiais bem feitos, mas os efeitos não aliviam a barra do filme cujos realizadores não têm a mínima idéia do que significa a palavra "coerência".


"Ei, você aí no cinema! Xô... sai daqui! Vai embora!"

Por que então não fui embora logo? Pensei nisto umas 277 vezes, confesso, só não o fazendo ao lembrar que paguei caro pelo ingresso. Várias vezes ouvi gente falando ao redor "que eu tô fazendo aqui?" ou "mermão... tu tá entendendo alguma coisa?". Em certas ocasiões as pessoas riam - e riam mesmo - quando a intenção da cena não era bem esta, tudo culminando com uma entusiasmada salva de palmas espontânea e recheada de sarcasmo após um dos "climax" do filme. Achavam que tinha terminado, o que gerou um "Ahhh não! Porra... não terminou ainda...".

Há muito, mas muito tempo que não vejo um filme e percebo em todas as suas nuances que eu o odiei com todas as forças! nem Sete Múmias conseguiu isto (lá tinha umas vampiras interessantes). Depois deste, Uwe Boll é praticamente um Scorcese e O Guia do Mochileiro das Galáxias um clássico! O pior de tudo é que ainda vai ter seqüência!

Ahh... e o filme termina com mais uma narração em off em inglês. É ou não é uma Ferrari-Puma-Fusca?

Conclusão: Alguém colocou no cinema o que provavelmente foi feito no projeto final de um graduando em programação visual. Estou convicto disto. E eu devia é estar escrevendo sobre Oldboy ao invés de perder tempo com isto...