terça-feira, 28 de junho de 2005

TODO MUNDO MORRE SOZINHO


Sabe quando a gente vê algumas coisas por aí onde a pessoa tenta sempre fazer com que seu trabalho seja reconhecido, mas nunca consegue, só para depois um gaiato qualquer aparecer e alcançar aquela meta sem nunca ter tentado? Pois então, Donnie Darko (idem, 2001) é mais ou menos isto. Nasceu cult e pronto. Não que seu idealizador não quisesse que fosse ou não tenha se esforçado, mas não sei se um diretor novato almeja que um filme seja cult, ao invés de simplesmente um filme de sucesso. Big Fish por exemplo, tem história cult, fotografia cult, personagens cult, diretor cult, mas não é cult. Talvez porque a única coisa que a maioria dos filmes cult não tem e Big Fish esbanja é orçamento. Filosofia do quanto menos custa, melhor é.


Não é só questão de dinheiro. Filmes cult atingem platéia definida. Não são que nem Titanic, por exemplo, que desperta amor e ódio por aí em tudo quanto é tipo de nicho de mercado; o primeiro muito mais que o segundo, sendo que tem muita gente dizendo que odeia só para ser do contra, como vem acontecendo com Gladiador. O cult-movie é dominado por características específicas: os temas não variam muito e sempre são chocantes de alguma forma, a narrativa é bastante peculiar, a trilha sonora não se atém ao lugar-comum - ou é alternativa até o osso ou pega pesado no pop-rock nostálgico, os atores estão surgindo ou no ocaso da carreira (ou são cult... dãã) e sempre traz símbolos marcantes.


Donnie Darko tem tudo isto. Atinge de forma acachapante o povo que se amarra em ficção científica, viagem no tempo e complexos da juventude. A edição final do filme original deixa uma série de lacunas que tornam o filme ainda mais intrigante, aguçando uma das qualidade/defeitos mais marcantes do ser humano: a curiosidade. Entretanto, a simples escolha do tema certo não funciona se o elenco não entrar na dança e as personagens não derem o clima adequado. Neste ponto o filme mostra-se mais do que competente, pois a postura e as personalidades de cada um conseguem quase alcançar a complexidade e profundidade das personagens de Magnólia: Donnie nos apresenta os produtos de uma adolescência cheia de conflitos internos, sua namorada, também à parte do mainstream social, é peça fundamental e serve de escada definição da psique do protagonista, a professora cool e amargurada com os métodos de um colégio de ensino tapado e atávico, o hipócrita soterrado em pecado que prega uma definição de vida maniqueísta de cunho quase religioso, os pais cegos e teleguiados, os pervertidos niilistas do colégio, a garota atacada sem dó pela crueldade adolescente e que é representante de todo um conjunto de minorias possível... tudo isto reproduz um cenário sufocante, que sugere a iminência de uma desgraça.


Para juntar personagens, roteiro e tema e transformar isto em um filme, o diretor usa uma narrativa toda entrelaçada onde nada é desperdiçado ou é usado como tempo de tela. Tudo tem relevância e mais parece um jogo de tabuleiro à moda antiga: Jogue um dado. Se tirar seis, vá para a casa X, mas se tirar 4 terá que voltar Y casas. Difícil não se sentir envolvido onde tudo tem algum tipo de referência à frente ou para trás, numa lógica nonsense, de modo que a compreensão consciente do que está acontecendo torna-se extremamente difícil. Entretanto, mesmo que a tentativa de usar a razão só contribua para nublar o entendimento, quem se identifica com o personagem sente que há coerência naquilo tudo, mesmo que não consiga explicar. É sensibilidade pura com clima de história da Vertigo.

E o diretor joga baixo com o espectador. Não bastassem todos estes elementos, o filme é ambientado nos anos 80, o que nos dá uma trilha fenomenal recheada de clássicos de Joy Division, Tears For Fears, Duran Duran, Oingo Boingo etc. Cada música é usada com propriedade, como que fazendo parte do filme assumindo um papel coadjuvante. Os momentos em que somos brindados com The Killing Moon (Echo & The Bunnymen), praticamente inteira logo no início, e uma versão de "Mad World" no final, interpretada (muito bem) por Gary Jules servem para nos "encaixotar" junto com o filme, suas letras servindo quase como sinopse, casando perfeitamente com o que ocorre na tela. Se não soubesse que as músicas têm 20 anos e que o filme é de 2001, juraria que foram escritas especialmente para a trilha sonora. Que diga o Bunnyman que estrela as fotos deste post, o coelho apocalíptico que a todo tempo adverte Donnie quanto ao futuro.


Richard Kelly havia dirigido dois filmes antes deste, mas é como se só debutasse a partir daí. Durante toda a versão do filme no DVD onde temos comentários do diretor é possível ouví-lo mencionar referências a comic books, justificando o clima Vertigo no ar.

Quanto aos atores, não vi Céu de Outubro (October Sky, 1999), mas a mídia diz que foi DD que trouxe Jake Gyllenhaal para as luzes, tornando-se cotado para o papel de Peter Parker e alcançando status imediato de rising star. Pode-se ainda ver o decadente, mas competente, Patrick Swayze e ainda Drew Barrymore, fazendo-me pensar sobre a sonoridade da expressão Cellar Door e ajudando sua produtora ao topar o papel da professora cool.


Mesmo sendo um filme reverenciado, é curioso como não tenha alcançado sucesso na telona. Nos EUA sua passagem foi extremamente tímida, enquanto no Brasil foi lançado direto em vídeo. O sucesso fez com que voltasse aos cinemas ano passado com uma versão do diretor de quase duas horas e quarenta minutos onde várias cenas que foram cortadas na primeira versão ajudam a compreender o filme sem precisar de outras fontes de consulta.

Da primeira vez que vi, fiz algumas suposições sobre o que teria acontecido na tela e, no debate em uma lista de emails sobre cinema, vi que não estava de todo errado. Um colega da lista resolveu pesquisar o site do filme e teve acesso ao livro de Roberta Sparrow, a Vovó Morte. Com isto, tudo ficou mais claro e coloco a explicação do que acontece na mensagem abaixo, no mesmo esquema já conhecido. Selecionem o texto para ler.

Ahh... eu não gosto de Titanic.


Donnie Darko Explicado



Existem vários universos paralelos. Nós vivemos no universo 'real' por assim dizer. Raramente pode acontecer de uma anomalia do universo ocorrer e acabar por criar um 'efeito dominó' que pode levar ao fim do universo.

O que acontece é que quando a turbina cai na casa do Donnie Darko, ela é um artefato vindo do futuro. Isso causa um rompimento na barreira entre os universos, e a partir daquele momento, o universo real passa a se tornar o universo TANGENTE. Universos tangentes tem uma duração curta, que no filme, virá a durar 28 dias, 6 horas, 42 minutos e 12 segundos e depois acabar.





Quando esse universo terminar, ele irá consumir tudo ao seu redor, inclusive o universo real, dando fim à toda existência.

Existe uma teoria que fala sobre o rompimento de barreiras no espaço tempo no filme, chama-se 'A Filosofia da Viagem no Tempo' escrito por Roberta Sparrow. No livro ela explica que pode acontecer de um artefato do futuro cair no mundo real através de um 'wormhole' da teoria de Einstein (que pode acontece em qualquer hora e qualquer lugar, segundo o filme), e criar um universo tangente paralelo.





Quem estiver perto do artefato quando ele cai, torna-se o receptor, e é a função dele fazer com que o artefato volte ao seu local de origem, fechando o círculo. Ou seja, o receptor deve fazer com que todo o ambiente seja favorável para que o artefato viaje no tempo mais uma vez, fechando o 'wormhole' criado pela primeira vez, e assim salvar o universo. (as partes do livro que explicam isso dá pra achar no site oficial)

Todas as pessoas ao redor do Receptor (o Donnie) passam a se tornar os Manipulados, pois eles serão manipulados por donnie para que ele possa fazer o que for necessários. Além dos manipulados vivos (seus pais, amigos, prof, etc...) há também os manipulados Mortos, que são pessoas mortas no universo tangente que detêm o poder de voltar no tempo e ajudar Donnie em seu caminho.





O manipulado morto do filme é o coelho Frank. Ele tem a função de fazer com que Donnie faça tudo funcionar, para tal ele manda Donnie cometer atos que virão a ter uma consequencia importante para o fluxo do universo!

O livro também explica que o receptor passa a ter poderes sobre água e fogo, entretanto o manipulado morto terá mais poderes, pois ele servirá de guia. (isso eu achei muita viagem)

No filme:

- Frank salva a vida de Donnie pela primeira vez, para que ele possa fazer com que a turbina volte no tempo mais uma vez e feche o círculo
- Frank manda Donnie inundar o colégio para que ele possa conhecer Gretchen, que terá um importante papel, pois ela será a garantia de que Donnie faça seu trabalho, e também fará com que ele acredite que não irá morrer sozinho (seu maior medo)
- Frank faz com que Donnie incendeie a casa do guru para assim eles encontrarem o calabouço pornô, e fazer com que a mãe de Donnie tome o avião de onde o artefato será extraído (outra garantia)
- Donnie, ainda confuso, mas certo do que vai fazer, vai atrás de Roberta Sparrow pra lhe dizer que ele é um receptor
- Neste momento, quando Gretchen é atropelada e morta por Frank, Donnie percebe que este é um artíficio que faça com que ele cumpra sua missão, caso contrário sua mãe e amor serão mortos
- Quando Frank faz com que Donnie encontre a arma no armário de seu pai, Donnie percebe depois que ele deve matar Frank, para que naquele ponto (quando ele morre) ele retorne ao passado e ajude Donnie a cumprir a missão.

Aí que está: Donnie prepara tudo, o 'wormhole' se abre, criando algum tipo de furacão ou fenômeno, que destroça o avião e suga a turbina para dentro dele (como um buraco negro). Da primeira vez que isso acontece, o buraco fica aberto pondo em risco o universo, então deve ocorrer de novo para se fechar. Ou seja, Donnie NÃO volta no passado, apenas a turbina faz a viagem no tempo.




Wormhole


No livro de Roberta Sparrow ela explica que uma vez que o círculo se fecha, todas as pessoas envolvidas têm a sensação de deja vú ou como se tivessem sonhado com tudo aquilo (por isso que tem aquela cena que todo mundo acorda). Quando acontece o fechamento do buraco, não há mais Frank para acordar Donnie e tirá-lo da casa, e por isso ele morre. Um sacrifício que ele deve fazer para salvar os que ama, com isso ele evita que sua mãe morra no avião e que gretchen e frank morram, e também que o universo deixe de existir, claro.

O gordinho de vermelho é um enviado da FAA para investigar a família Darko, já que o departamento de aviação norte americano achou estranho demais a queda da turbina.

E é isso o filme! Espero que tenha dado para entender! O site oficial dá toda a explicação, e ainda dá um extra de coisas que acontecem.

5 comentários:

Anônimo disse...

esse filme é foda

renato disse...

mas e o frank que esta no carro pouco antes da turbina cair?

marilia.rios disse...

puts... amo esse filme.. cada vez q leio sobre ele tenhoq ver de novo... jah o entendi de (no minimo) 4 formas diferente.;.. e é isosq vou fazer hoje... ve-lo de novo...
=]

Renato disse...

"mas e o frank que esta no carro pouco antes da turbina cair?"

ele recebe as "memorias" (o q o autor do post julgou ser um deja vu) do futuro/universo tangente e até tenta salvar o Donnie de novo buzindo o carro loucamente, presta atençao no audio no momento em q a irma dele chega em casa e fica de encostada na porta q da pra ouvir as buzinas... pra mim, o Donnie fez a OPÇAO de morrer, o cara ja era meio perturbado de qualquer maneira, imagina depois de ter "vivido" tudo aquilo, ia acabar igual a velha :P

Higor disse...

Estou meio atrasado por aqui, mas irei comentar assim mesmo. Encontrei a sua explicação numa comunidade no Orkut, e não pude deixar de ficar admirado.

Mesmo sabendo que cada um pode tirar suas próprias conclusões sobre o filme, eu ainda creio que a tua, que por acaso é parecida com a minha, é a melhor explicação.

Donnie Darko é um grande filme, com certeza estará sempre no meu TOP10. Hahaha.

Enfim, teu blog é ótimo. Abraços.