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sábado, 20 de abril de 2019

O salmo da Wax Trax!

Pra quem foi tomado de assalto por aqueles loucos de Chicago no fim da década de 1980, o trailer de Industrial Accident: The Story of Wax Trax! Records é puro deleite de bad trip boa. E "com simpatia".


Só mesmo um doc longa-metragem para descrever a importância da Wax Trax! para a cena alternativa americana. A loja/gravadora fundada por Jim Nash e Dannie Flesher foi seminal durante a efeverscência do pós-punk, da new wave, da eletrônica e do industrial do início dos anos 80. Seus padrões artísticos, estéticos e comportamentais transgressores e anti-establishment se estenderam muito além da seara musical - e continuam até hoje, ironicamente inseridos até no universo pop, ainda que a esmagadora maioria do público (e dos artistas) sequer se dê conta disso.

Em terra brazilis, onde as informações chegavam com alguns anos de atraso e à conta-gotas, o selo teve até certa exposição. Principalmente através da revista Bizz e das matérias do jornalista André Barcinski, incluídas também em seu livro Barulho: Uma Viagem pelo Underground do Rock Americano.

Meu 1º contato com a Wax Trax! foi justamente pela icônica revista. O marco zero foi a capa do Sepultura circa Arise levando um corta-luz das verdadeiras estrelas da edição: o Ministry. "Massacre eletrônico"? Já me ganhou só pelo conceito - lembrando que, naquela época, Internet só existia em filmes, livros e gibis; e como importar discos era para ricos, o jeito era viver de conceitos.

Depois vieram os artigos da célebre turnê Ministry/Helmet/Sepultura e do lançamento dos clássicos The Mind Is a Terrible Thing to Taste e Psalm 69 em terra, oh, brazilis. Finalmente. E assim meu salário de office-boy foi pro sal numa tacada só.

Houveram outras convergências pelo caminho, mas o trecho da estrada com tijolos de ouro foi esse. Embora sejam mais do que raros, tenho certeza que existem por aí outros brasileirinhos sobreviventes que ainda curtem Ministry, Lard, Revolting Cocks, Pailhead, Chris Connelly, KMFDM, My Life with the Thrill Kill Kult, Laibach, The Young Gods e outras pérolas WaxTraxianas que trilharam um caminho semelhante. Isso se as vicissitudes do dia a dia - também conhecidas como família, filhos, plano de saúde, aluguel, IPVA, etc. - não expurgaram essas lembranças e sensações à fórceps, deixando no lugar só um toquinho útil pagador de contas.

Se for o caso, uma sessão de Industrial Accident poderá reativar alguns neurônios há muito adormecidos e causar um grande estrago no seio familiar...

quinta-feira, 26 de março de 2015

Bienvenidos de vuelta... puta madres


Por essa ninguém esperava. Quando comentei sobre o então vindouro show do Ministry em São Paulo fiz questão de frisar que "essa será provavelmente a primeira e última apresentação do grupo por aqui". Baseado, lógico, no re-anunciado fim da banda e do fato de Al Jourgensen ser um notório pé na cova há pelo menos 20 anos. Pois o Tio Al resolveu surpreender e vai aportar suas máquinas do inferno mais uma vez no Brasil, dessa vez no Rock in Rio! - também esculachado por mim no referido post...

É oficial e já consta na line-up. Será uma apresentação conjunta com Burton C. Bell, frontman do Fear Factory e colaborador em alguns álbuns da entidade industrial-mor. No mesmo dia do Metallica, só que no palco Sunset, aquele menorzinho que o Rob Zombie se apresentou na edição anterior.

Ok, os tempos são outros e uma apresentação no palco principal poderia causar traumas irreversíveis em quem estará lá para ver o Mötley Crüe (!) ou nas mentes jovens e sensíveis que irão mais pelo aspecto McDonalds do evento.

Se eu fosse, seria pelo Ministry e pelo fantástico grupo francês Gojira. E pela possibilidade de ver um set mais clássico do Tio Al, com tudo que os fãs têm direito...


Afinal é um festival, lugar onde deveria ser proibido por lei tocar música nova.

terça-feira, 3 de março de 2015

A terra vai tremer...


Nessa sexta-feira, dia 6, São Paulo será palco de um teste nuclear: o Ministry vai tocar pela 1ª vez no Brasil. Al Jourgensen e sua quadrilha de cyborgs tarados irão desfilar a trilha sonora do fim do mundo no Audio, que por sinal está se saindo com uma semana no mínimo inspirada (The Sonics na quinta!). Pra deixar a coisa ainda mais instigante, essa será provavelmente a primeira e última apresentação do Ministry por aqui.

Não é de hoje que Jourgensen fala em pendurar os samples do Sgt. Hartman. Há alguns dias ele até anunciou um novo projeto. Com a morte do guitarrista Mike Scaccia e o estado geral do cara transparecendo a conta dos anos de excessos químicos, a coisa parece que vai mesmo por esse caminho. Mais uma vez. Então, a menos que você esteja empolgado com o Rock in Rio, não há dúvida de que esse será o evento musical do ano no país.

Imperdível...

...a não ser que se perca, como eu. Pois é. Fã de carteirinha desde que a banda foi apresentada pelo jornalista André Barcinski numa Bizz de tempos idos, vou deixar essa passar. Sem disposição pra morrer num valor triplicado (com sorte) de um ingresso já caro n'alguma excursão local salvadora e, até agora, inexistente. A recente aquisição de vários encadernados do Juiz Dredd no site da Mythos ajudou a remover qualquer esperança.


Eu não vou ao show, mas a minha filha foi e achou muito bom. Em termos de ação in loco, o Ministry é unanimidade até entre os críticos mais turrões. Em anos/décadas! de leitura de resenhas pro, alguns lugares-comuns parecem obrigatórios - som mais alto do que o humanamente suportável, clima de pesadelo apocalíptico e a capacidade de rearranjar e transformar até as músicas menos pungentes em Leviatãs sedentos por sangue. O show é um massacre físico e psicológico brutal, disputadíssimo lá fora e aclamado universalmente.

Pra quem vai, sugiro ir aquecendo os motores com os discos da trilogia anti-Bush (Houses of the Molé, Rio Grande Blood e The Last Sucker) e do último, From Beer to Eternity. As músicas desses álbuns compreendem uns 95% do atual setlist, segundo o, hã, Setlist. Os clássicos devem ficar mesmo no combinadão "N.W.O." - "Just One Fix" - "Thieves" - "So What".

Mas bem que eles podiam surpreender e montar um set mais old school. Sacumé, pra compensar a demora... Onde já se viu uma banda que tinha dois bateristas - fora a eletrônica - nunca ter pisado na terra das baterias, tambores, percussões e afins?

Duas dicas vêm do antológico registro ao vivo In Case You Didn't Feel Like Showing Up"Burning Inside", numa versão ainda mais delirante e febril do que em estúdio, ganhando uns gritos de filme de horror que são de gelar a alma; e "Stigmata", um tornado sônico de 10 minutos com synths, guitarras massivas e uma batida que ao vivo deve até quebrar costelas.





Outra excelente pedida seria a inclusão da música "Scarecrow", uma aterradora bad trip Sabbáthica do álbum Psalm 69. Na versão ao vivo do EP Just Another Fix, a simples adição de uma harmônica a transporta sem escalas para a blueseira heavy de "When the Levee Breaks", do Led Zeppelin. Sensacional.



Por fim... quem sabe... a incendiária "Jesus Built My Hotrod". Esse country-metal-eletrônico maníaco psicopata é o verdadeiro Graal do Ministry, sendo negligenciado nos shows desde sempre, com Al repetindo a mesma ladainha: "Gibby Haynes é o único que consegue cantá-la".

Mas parece que ele fez um esforcinho em 2004, na tour do Houses of the Molé...


Enfim, um excelente show para todos que vão.

E me contem tudo logo depois, se o estrago sensorial permitir!

sábado, 29 de dezembro de 2012

20 Years Later


Não, não são zumbis.

1992 no Brasil não foi para fracos. Éramos um país quebrado. Ainda novatos nos meandros da democracia, tivemos nosso primeiro presidente impedido de fazer mais besteiras exercer sua função. Nosso mais alto funcionário público sendo demitido por justa causa. Um arrojo só. Foi bonito ver como os brasileiros ainda se importavam o suficiente após tanta porrada no bolso e na auto-estima. E deu resultado, com ou sem ação Illuminati por trás (epa!). Mas sem querer apagar o brilho patriótico daquele momento, a coisa toda funcionou mais para as primeiras páginas dos jornais e para as capas das revistas. Na prática, aqui no front da guerra civil brasileira, a coisa seguiria praticamente imutável até... bom, até hoje.

(sim, temos banda larga, sinal digital, smartphones, tevês de última geração por preços palatáveis... pena que não se pode dizer o mesmo de bobagens como segurança, saúde, educação, transportes, urbanização, etc ad infinitum e vai embora. De quebra, aquele nosso antigo funcionário voltou das trevas como se nada tivesse acontecido... e fazendo mais alianças que um joalheiro)

(claro que nada disso nos surpreendeu, calejados brasileiros velhos de guerra. Nós comemos PIBs de 0,6% no café da manhã. Com guaraná Dolly! E segue a vida)

Essa síntese rasteira do Brasil de 1992 - as melhores partes ficam pra versão director's cut de quem vivenciou aquilo - serve pra contextualizar o sucateado cenário do pop-rock brasileiro daquele período. A geração da década de 1980 ainda não havia encontrado seus sucessores. Aquele divisor de águas essencial em qualquer cena musical saudável não despontava no horizonte. No mainstream, as gravadoras apostavam todas as fichas no pagode, no breganejo e na novidade axé.

Até haviam alguns esforços heróicos de renovação criativa, como foi o selo Tinitus, do produtor Pena Schimdt, que apesar de algumas boas apostas (Virna Lisi, Yo-Ho Delic) não vingou ninguém no 1º escalão (excetuando, talvez, o ex-cantor da Banda Bel?). Enquanto o pop-rock agonizava, o metal, o punk, o eletrônico e o hip-hop seguiam isolados em seus guetos. O mar não estava pra peixe.

Foi ano de Hollywood Rock, com um cast não tão impressionante - especialmente em comparação com a incendiária edição seguinte. Lá fora o bicho pegava: Metallica excursionando com Guns 'N Roses, mais Body Count, Motörhead e Faith No More abrindo (Nirvana foi chamado, mas recusou); um Reading Festival muito bacana (e bem transmitido aqui pela TV Bandeirantes!); e um Lollapalooza mais bacana ainda.

E sim, também saíram vários discos legais. Muitos deles foram minha trilha sonora diária, rolando no walkman durante o trajeto do meu 1º emprego remunerado até a escola (era o 2º ano do 2º grau). A primeira vez que ouvi "N.W.O." e "Mouth for War" foi num ônibus abarrotado em pleno fim de expediente. Imagina o perigo de um mosh descontrolado ali...

Nos moldes da lista de 1991, segue abaixo uma relação desses álbuns que tanto me marcaram há vinte anos atrás e que ainda ouço regularmente, como se tivessem sido lançados na semana passada. Única ressalva: não inseri discos daquele ano que só descobri tempos depois e hoje teria como essenciais - portanto nada de The Chronic, In Search of Manny, Dry, Little Earthquakes, Check Your Head, T.V. Sky...



Psalm 69: The Way to Succeed and the Way to Suck Eggs (ou ΚΕΦΑΛΗΞΘ) é uma obra-prima da música pesada. O bonde Ministry e sua fusão perfeita de thrash metal, hardcore, eletrônico e industrial tomou o mundo de assalto e influenciou muita gente em várias esferas da música pop. Nunca foi igualado em equilíbrio, definição e intensidade, nem mesmo pelo próprio grupo. Ao lado de Reign in Blood, Psalm 69 segue como a trilha sonora oficial do fim do mundo.



Confesso que não recebi muito bem o sucesso dos cowboys from hell. Um novo nome forte no metal USA justo na hora em que nossos "garotos da selva" conquistavam o mundo? Mas acabei ouvindo a banda praticamente sem querer, no rádio. Fui fisgado na hora. Eram tempos difíceis e, desde a capa até o som, o Pantera nos fazia extravasar todo aquele sentimento de raiva e frustração diante de um futuro incerto. Vulgar Display of Power funciona até hoje.



No EP Broken, o Nine Inch Nails (codinome: Trent Reznor) pavimentou uma vicinal alternativa ao espectro sonoro inaugurado pelo Ministry. O mix partia de suas origens no cenário synthpop e das esquisitices do pós-punk e chapava forte em Bowie (da aclamada "fase Berlim" até Scary Monsters). Tudo absurdamente caótico, selvagem e visceral, com algumas das maiores perversões de sintetizadores e baterias eletrônicas já registradas. Um memorável passeio pelo inferno.



"O futuro do death metal". Ah, esses revisionismos editoriais... Não era nada disso, mas o Helmet projetou algumas saídas para o rock pesado e influenciou muita gente. É verdade que o grupo veio de uma seara de bandas post-hardcore do underground nova-iorquino, mas Meantime era um inédito passaporte pra fora do gueto. Tinha todo o barulho e a violência minimalista daquela turma ao mesmo tempo em que soava acessível na medida. Além disso, os caras tinham o diferencial de uma formação musical mais clássica, inserindo nuances de jazz ao contexto - vide "Give it", uma das músicas mais groovy e pesadas já compostas. Experimentalismo para iniciantes e bastante satisfatório para veteranos. Um discaço.



Era ponto pacífico que o Faith No More não iria parir um novo The Real Thing cheio de hits para as rádios. Não com o fugitivo do manicômio Mike Patton por lá. Mas também ninguém esperava por Angel Dust. O álbum era uma espécie de avant-garde demencial na forma de um metal progressivo com grooves bizarros e enlouquecidamente anticomercial, mas que não reprime a vocação natural do grupo para montar as estruturas básicas do pop (melodia, cadência, refrão, etc.). A ensolarada "A Small Victory", por exemplo, tocou bastante no rádio. Já "Malpractice" nem sonhando.

Foi um disco de difícil digestão, mas que, ouvindo hoje, soa quase totalmente decodificado. De razoável assimilação até para os moleques mais novos, o que creio ser o reflexo de 20 anos de uma profunda influência dentro do cenário do rock pesado. Nem sempre bem administrada, claro.



Apesar de ter curtido o debut, achava que o Alice in Chains não iria muito além daquele grunge hard rock qualquer coisa. Ledo engano. Dirt é um dos melhores álbuns daquela década, um refinamento do melhor aspecto do grupo em seu disco de estreia: temáticas depressivas e mórbidas embaladas por um som opressivo e claustrofóbico. A sensação é de estar preso debaixo de toneladas de escombros - ou fundido inexoravelmente ao chão, tal qual a garota da capa. Absorvendo de forma inteligente o legado do Black Sabbath, o AiC exibia uma versatilidade sonora invejável, sendo as estrelas do show o guitarrista e cantor de apoio Jerry Cantrell e o finado frontman Layney Staley. Viciante.



Fui um dos entusiastas do funk metal durante seu auge, do fim dos anos 1980 até o início dos 1990. Mas em 92, o estilo era notícia velha. Daí o pouco crédito que dei logo de cara ao debut do Rage Against the Machine e seu discurso politizado. Com o tempo, percebi que o som demandava audições mais atenciosas para uma assimilação decente. Culpa das bases que emulavam espertamente o DNA zeppeliniano e um guitarrista que era um dos mais inventivos a despontar no cenário pop em muito tempo.

Mais que um simples registro funk metal (ou rap-metal, etc), Rage Against the Machine, o álbum, passou com louvor no teste do tempo - como ainda atesta um dos finais de filme mais bacanas dos anos 90.



Com seu álbum de estreia homônimo, o Body Count jogou gasolina no incêndio dos distúrbios raciais de Los Angeles em 1992. Além das várias provocações espalhadas pelo disco, uma música em particular foi endereçada aos policiais de LA com a sutileza de um Tomahawk: "Cop Killer". O lobby caucasiano reagiu rápido: banida das rádios e das lojas, a faixa teve que ser cortada das prensagens seguintes, sendo apenas encontrada em compactos vendidos nos shows do grupo. Virou artigo de colecionador, mas na prática era só mais uma engrenagem do disco, que metralhava tudo e todos sem piedade. E sem esquecer da bandidagem e putaria características das rimas de Ice-T - ainda estou pra ver alguém compor algo mais sacana que "Evil Dick". Já o som, era uma maravilha de hardcore/thrash/rock 'n' roll barulhento, tosco e furioso. Divertido até hoje.

Tive esse disco em várias edições. Com exceção do K7 lançado na época, "Cop Killer" estava em todas, provavelmente solta sob condicional. Sinal dos tempos. E Rodney King, pivô daquilo tudo, morreu em junho último, com 47 anos. Sem revolução dessa vez.



O melhor show do Hollywood Rock '93, fácil. A discografia do L7 beira o impecável, sendo Bricks Are Heavy seu momento mais pop. A equação sonora era perfeita (Ramones + Motörhead + Joan Jett + Black Sabbath x Suzi Quatro), mas para domar o furioso punk metal de garagem dessas belas-feras foi preciso ninguém menos que o Midas grunge Butch Vig. O resultado não podia ser diferente: um álbum pesado, ganchudo, espirituoso, emputecido e acima de tudo divertido, vertendo uma velha máxima dos 80's para os 90's: "Riot grrrls just wanna have fun".

Eu amo essas garotas e queria ser o cachorro delas.



Dirty ainda é meu disco favorito do Sonic Youth. Sei, sei, Sister, Daydream Nation e Goo são os queridinhos da torcida, mas o páreo é duro. Novamente, culpa do então onipresente Butch Vig na produção e um senso mais palpável de acessibilidade envolvendo o noise obsessivo do grupo. Logicamente foi mais uma das tentativas das grandes gravadoras de encontrar um novo Nirvana. Não vingou simplesmente porque o Sonic já tinha uma personalidade muito bem definida e nem um pouco preocupada em agradar a todos. Mas rendeu um discaço.



Incesticide não era exatamente o disco que estava nos planos de Kurt Cobain para o Nirvana pós-Nevermind. Mas seu aval foi relativamente barato: o controle criativo do design gráfico do álbum, incluindo a pintura (dele mesmo) que ilustra a capa. Ainda bem, já que Incesticide - composto por lados B, demos, outtakes, covers e performances em rádios - foi a última chance dos admiradores do excelente Bleach de ouvir o Nirvana cáustico e cru dos primórdios.

Esse eu tive em fita cassete. Tempos depois, em CD. Atualmente voltou aos fones de ouvido em formato, digamos, "compacto".



Os anos 70 estavam sendo pilhados naquele início de década, mas o grupo californiano Kyuss abraçava uma vertente mais underground (e mais legal) que seus colegas de Seattle. Se era pra seguir os passos de Ozzy, Iommi & cia, então que fosse pra valer. E dá-lhe afinações subterrâneas fazendo a ponte entre a psicodelia e o groove dos power trios dos 60's e o heavy metal dos 70's. Blues for the Red Sun era apenas um bando de moleques se divertindo. E fazendo história.



Na época, comprei esse LP num sebo pouco depois do lançamento, por uma ninharia, junto com o New York. Deus abençoe a ignorância alheia. Lou Reed compôs Magic and Loss inspirado pelas mortes de dois amigos (Doc Pomus e Rotten Rita). É um álbum conceitual sobre a morte e o processo que leva a isso. É sobre resignação, arrependimentos, dor, solidão e... lâminas. Apesar de parecer muito deprê - e é - o disco tem um certo humor cruel, uma riqueza textual e uma beleza dramática únicas. Musicalmente, é rock de raiz interiorana, soturno e intimista ao extremo, pra ouvir em silêncio e de luzes apagadas. Esse merece a total atenção.

Foi o 1º disco em que não larguei o encarte até conseguir traduzir e interpretar tudo do início ao fim. Foi um parto, mas valeu a pena. Era eu e meu fiel dicionariozinho do cursinho de inglês contra o mundo...



O Screaming Trees já era um veterano quando estourou com a faixa "Nearly Lost You" na esteira da onda grunge. Ao ouvir o bolachão de Sweet Oblivion logo percebi que a musicalidade do grupo estava muito acima de seus colegas de cavanhaque e camisa de flanela. Mais ligado ao hard blueseiro e ao southern rock (Allman, Lynyrd) com boas doses de psicodelia e country do bom (Gram Parsons), os Trees eram músicos de verdade. Na bateria estava o grande Barrett Martin (QotSA, REM, Nando Reis), na guitarra e no baixo estavam os hermanos Gary Lee Conner e Van Conner e na voz curtida à bourbon e gin tônica, a entidade estradeira Mark Lanegan. Aí compadre, é calar a boca, abrir um JD e apertar o play...



Eu já desconfiava que a pecha de "melhor banda ao vivo do mundo" era viral de assessoria de imprensa. Mas na época ouvi muito o LP de Grave Dancers Union, do Soul Asylum (que comprei junto com o Sweet Oblivion... incrível como a gente lembra dessas coisas após tanto tempo). O disco sentiu um pouco os efeitos do tempo, mas ainda sinto o feeling verdadeiro registrado ali, que tem muito a ver com a evocativa e belíssima capa - retirada de uma fotografia do artista tcheco Jan Saudek - e a interpretação desavergonhadamente entregue de Dave Pirner.

Ainda me arrepio com o clipe de "Runaway Train". E mais ainda com seus diferentes resultados, felizmente em sua maioria positivos.



Difícil descrever a sensação que tive ao ouvir esse álbum pela 1ª vez. Em Images and Words, o Dream Theater promovia uma inesperada fusão de Metallica e Rush com arranjos soberbos e revelando uma técnica absurda ao lidar com o progressivo, o jazz e o AOR. E sem soar chato ou elitista, ainda que muito pretensioso (também, né!). Pra mim, é o ponto de perfeição do grupo e certamente o disco que definiu o prog metal.



Quando ouvi o White Zombie pela 1ª vez achei que se tratava de alguma incursão solo ou mesmo um projeto paralelo do James Hetfield. Isso graças ao timbre da voz do Rob Zombie, idêntico ao do colega da Bay Area. La Sexorcisto: Devil Music, Vol. 1 era um pandemônio sonoro: riffs à Slayer conduzindo um climão de horror B sugado diretamente da fonte de Cramps, Kiss e Black Sabbath com uma massa ectoplásmica de samples que iam de Faster, Pussycat! Kill! Kill! e Despertar dos Mortos à Plano 9 do Espaço Sideral e O Massacre da Serra Elétrica. Em suma, irresistível.



Burning in Water, Drowning in Flame é o primeiro e melhor álbum do Skrew. Metal industrial über-abrasivo, com um paredão de guitarras e drum machines que socam no peito até romper a caixa toráxica. A versão do clássico "Sympathy for the Devil" lembra um Slayer acordando de ressaca dentro da Matrix. Segundo consta, o disco teve co-engenharia de Al Jourgensen, além de contar com a participação do mesmo e do recém-falecido guitarrista Mike Scaccia, também do Ministry. Perfeitas más companias, como convém.



Cool World - por aqui, Mundo Proibido - só fui assistir tempos depois, quando já sabia quem era Ralph Bakshi. Mas a trilha sonora caiu em minhas mãos bem cedo, num daqueles saldões "pague 2, leve 3". Peguei só pra completar. E, sim, pela loira cartunizada da capa. Mas quando ouvi tive uma bela surpresa. Com exceção de David Bowie, Electronic, The Cult e talvez Brian Eno, o disco reunia nomes ainda pouco conhecidos no Brasil (Moby, The Future Sound of London, Pure), traçando um instigante cenário da música alternativa lá de fora. Por exemplo, foi aqui que tive acesso pela 1ª vez a algum material do My Life with the Thrill Kill Kult, que comparece em duas faixas.

Analisando em perspectiva, a seleção ainda hoje surpreende pela qualidade e ousadia. Mesmo os momentos puramente dançantes (Da Juice, Mindless) ou cabeções (Eno) são bacanas, além de terem contrapontos de peso. Que tal curtir o trance viajandão do Future Sound of London e logo após se deparar com o terremoto provocado pelo Ministry em "N.W.O."? Insano.



Sem contar a fase inicial insuperável, Mondo Bizarro talvez seja o meu álbum favorito do Ramones. O disco não trazia nenhum clássico per se, nem um hit do calibre de "Pet Sematary" - no máximo, "Strength to Endure", a balada "Poison Heart" e a porrada "Tomorrow She Goes Away" foram relativamente bem veiculadas. Mas era o Ramones se preocupando apenas em ser o Ramones. Punk rock 'n' roll alto, rápido e bagunceiro, com a guitarra do inesquecível Johnny soando como há tempos não soava e a voz do Joey idem.

A inspiração e o tesão haviam voltado. Boa parte do crédito é de Ed Stasium, produtor da maioria dos principais álbuns do quarteto e que não comparecia ali desde Too Tough to Die, de 1984. Ainda ouço no volume 10, com a mesma frequência de quando saiu.


Bonus tracks:



Somewhere Between Heaven and Hell, do Social Distortion, é o azarão da vez. Fiquei na dúvida se incluiria, já que nunca tive em formato oficial, pois era muito difícil - pra não dizer impossível - encontrá-lo por essas bandas. Tive foi uma fitinha Scotch gravada do LP importado de um amigo (pirataria à moda antiga), já bastante detonada pelo tempo e pelas execuções infindas. Não era pra menos. Difícil crer que uma combinação de country e hardcore seria tão acachapante. Não tem bola perdida aqui, todas as faixas são arrasadoras. All killer, no filler total.



RDP ao Vivo do Ratos de Porão não podia faltar, claro. Esporro altamente concentrado de Gordo & cia e um dos melhores discos ao vivo já registrados em terras tupinambás - mas vou te dizer... se tiver a chance de conferir o show do Ratos in loco não perca. É a versão Godzilla disso aqui.



Lançado lá fora no final de 91, Decade of Aggression até que não tardou em aportar em terra brazilis. Eu ainda nem conhecia todos os discos - só o Reign in Blood e o South of Heaven - mas quando a agulha começava a correr naqueles sulcos de vinil enxofrento a sensação de violência e malevolência (não confundir com malemolência) era indescritível.

Ou melhor... até era descritível, mas pra isso terei que apelar para um excerto um tanto quanto "empolgado" da revista Rock Brigade da época em que ainda era datilografada e mimeografada (sério):

“Os guitarristas do Slayer rasgam os seus dedos, destroçando as cordas do mais perfeito instrumento projetado pelo capeta. Power metal (sic!) elevado á última instância, tempestuoso e corrosivo, feito somente para headbangers. Roncando e vomitando fogo, como se um cometa explodisse dentro de um vulcão em erupção!”

(...)

“Misericórdia não existe! Não cabe na filosofia Heavy, por isso que Dave Lombardo pulveriza as moléculas do ar com suas patadas letais na mesma medida em que o terremoto provocado pelo baixo de Tom Araya invoca Satanás para a destruição! Não tem música melosa! A mais lenta faz qualquer um sair por aí chamando urubu de ‘Meu Loro’ e Jesus de Jenésio.”

Créditos da resenha headbanger-true-of-death: Berrah de Alencar (sério²).


Como vociferava o Gordo nos bons tempos do Garganta e Torcicolo...

SLAAAAAAAAAAAAYEEERRRRR!!!

domingo, 23 de dezembro de 2012

Aos 47, num sábado à noite



Mike Scaccia
(1965 - 2012)

Essa veio do nada mesmo, aos últimos acordes de 2012. E em cima de um palco.

Um dos meus guitarristas preferidos de thrash metal (e country, hardcore, noise, industrial...). Top 5, fácil. Vai fazer falta.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

O FIM ESTÁ PRÓXIMO


...e o Ministry começa a desligar seus motores secundários, após 26 anos de funcionamento nonstop. Vazou ontem na rede The Last Sucker, último álbum de estúdio da banda (finalizando assim a trilogia/atentado à administração W. Bush iniciada em 2004 com House Of The Molé e seguida por Rio Grande Blood, de 2006).

O canto do cisne foi anunciado em maio do ano passado pelo alter-ego do grupo e anti-republicano de carteirinha, Al Jourgensen. Entre os motivos para o término das atividades, ele destacou a manutenção de seu novo selo, 13th Planet Records, a produção de bandas e, principalmente, evitar que o Ministry se torne uma caricatura ("and doing crappy Aerosmith and Rolling Stones albums 30 years later").

Geralmente, grupos com fim de atividade programado agendam a longo prazo certos packages estratégicos. O esquema continua o mesmo. Senão, vejamos: Rantology (2005) é a coletânea (ainda que subverta o formato) e Rio Grande Dub (2007) é o disco de remixes. Agora só falta o Live. O fato é que de Ministry mesmo só tem mais esse resto de ano. Concluindo a atual "MastubaTour", eles fecham o boteco ao vivo com a "SeeYouLaTour". Em 18 de setembro, eles lançam The Last Sucker. Depois disso já era.

O fim da banda deixa o mundo mais babaca, mal-humorado e politicamente correto. Com a saída do baixista e ex-parceiraço Paul Barker em 2003 (o único colaborador fixo), o Ministry termina sua existência da mesma forma como começou - pelas mãos de Al Jourgensen, como uma one-man-band. Triste ainda é constatar que a trilha dessa despedida é simplesmente um dos álbuns mais destruidores do ano. Jourgensen preparou um track-list violento, direto e, de certa forma, menos dispersivo e mais "musical" que os últimos discos. Ao todo são onze lajotadas na testa.


A faixa de abertura Let's Go, é thrash dos bons e chega derretendo os auto-falantes com um riff serra-elétrica e um solo psicótico de Mike Scaccia (ex-Rigor Mortis). Watch Yourself é um speed metalzão mixado com EBM old school. Lembra algo do The Land Of Rape And Honey, de 1988, produzido com tecnologia atual. A ritmada Life Is Good, é o Service Pack 2 do Sepultura fase Chaos AD. The Dick Song é escandalosamente pesada. Poderia facilmente constar no repertório do sujão 1,000 Homo DJ's, uma das filiais do Al. A faixa-título resgata a essência pós-punk na qual o grupo foi tão influente. No Glory e Death & Destruction são literalmente morte e destruição sem glória, com samplers de W. Bush ordenando a implosão do planeta. Roadhouse Blues é um inesperado cover do clássico do The Doors. Thrash industrial com harmônica. Caraaaaalho. Acrescentaram 850 toneladas de peso na música e juro que o blue ainda continua lá, intacto. Die In A Crash é um electro-punk embebido em new wave, coisa realmente alienígena no som da banda, mas executada em altíssima voltagem.

End Of Days partes I e II têm participação de Burton C. Bell, frontman do Fear Factory, e fecham o álbum em tom inequívoco de "tá chegando a hora". Especialmente a parte II, com riff melódico inspirado, coralzinho de crianças ao fundo e a sonzeira se esvaindo até a última pancada do drum machine. Isso aqui vai deixar saudade.

Rest in peace, Ministry.


...mas tenho lá as minhas reservas. Al Jourgensen é malandro pra caramba.


A propósito, pra efeito de comparação: Cold Life, o primeiro single do Ministry, de 81, e Let's Go, do disco novo.

It's evolution, baby.

terça-feira, 19 de outubro de 2004

TOP 5... destrinchado!

Ministry - Houses Of The Molé
(Sanctuary/2004)


Os reis do rock industrial lançam seu melhor álbum desde o estourado Psalm 69. Pra falar a verdade, Houses... é tão bom quanto o clássico de 92. Nos últimos tempos, o Ministry estava imerso em bad trips cabeçonas e intermináveis, num reflexo direto da vida loca regada a álcool e drogas pesadas, e dos inúmeros quebra-paus entre Al Jourgensen e Paul Barker. Ironia caótica: uma banda descontrutivista se desconstruindo.

Mas Jourgensen (re)assumiu a liderança, chutou Barker pra escanteio e, logo em seguida, se enfiou num estúdio de última geração - seu habitat (sobre)natural. A comparação com Psalm 69 é quase automática. Musicalmente, soa como uma continuação e, num capricho esquisito do destino, a sua temática também. Naquele álbum, as letras de Jourgensen destilavam um sarcasmo e ódio intrínsecos ao então presidente dos EUA, George Bush (vide o hit N.W.O). Dessa vez, a banda dedica o álbum inteiro à mais um notável daquela família. Houses... está lotado de samples com discursos de W. Bush, e letras que renderiam facilmente um processo de calúnia e difamação. No target também entram assuntos igualmente explosivos, como a intervenção norte-americana no Oriente Médio e os "efeitos colaterais" da aclamada globalização. E pra quem quer apenas curtir um som forte e agitado, Houses... é um prato cheio.

Na abertura, No "W" manda ver num tecno hardcore com um recorte muito bem sacado de Carmina Burana (que já foi utilizada N vezes por bandas heavy, mas nunca dessa forma). Logo após, Waiting nos traz de volta aquele industrial alucinado do fim da década de 80 (é o irmão mais novo da clássica Thieves). Worthless é uma paulada acachapante com vocal distorcido, bem próxima de Just One Fix (do Psalm 69). Wrong é thrash metal tradicional, só que movido a maquinária digital. Warp City é um rockabilly turbinado com guitarras de tremer o chão. WTV é um concerto desconexo de samples com a missão de explodir o Texas e todos os descendentes da família Bush. World é estranhamente fácil. Pesadona e com um refrão superbonder, ela lembra bastante a fase tecnopop da banda (lá pelos de idos de 84/85), só que com guitarras manhosas e esparsas. WKYJ é rock garageiro, torto e barulhento à Devo/Big Black (que o Jourgensen não saiba disso - ele e Steve Albini, líder do BB, se odeiam). Já Worm é um autêntico pós-punk oitentista, naquela pegada soturna e melancólica do PIL e da 1ª fase do Killing Joke - acrescido do fator "monstro canibal" do Ministry, claro.

O álbum ainda traz duas faixas escondidas: Track 23, um ótimo remix de No "W", com um solo nuclear de guitarra, e Track 69 (claro...), um ambient repleto de mensagens subliminares que eu nem me preocupei em desvendar, mas que me deu uma vontade enorme de quebrar um aparelho de televisão.

Ps.: Não por acaso, todas as faixas têm a inicial W, excetuando-se No "W" ("Não ao W"). Em outras palavras, anti-Bush total!

Slayer - Decade Of Aggression - Live
(Def American/1991)


Cena metálica, segunda metade dos anos oitenta. Com o fim da invasão thrash metal, muitos grupos do estilo foram parar no limbo, mas ainda haviam alguns de pé. O Metallica era algo grande demais, construído pelos fãs e para os fãs - pelo menos até o momento em que lançou o Black Album. Já o Slayer era a fera indomável, que nem propostas indecentes de grandes gravadoras conseguiram arrefecer. Sempre correndo ao largo do que é considerado "acessível", os thrashers da Bay Area arrebanharam uma legião de admiradores fanáticos e influenciou 100% do que foi feito no metal extremo dali por diante. Também não era pra menos. A banda era mitológica. Eles criaram uma mescla tão coesa de música, imagem e simbolismos, que era impossível dissociar uma coisa da outra.

Mas essa característica foi trabalhada com esmero, na forma de uma seqüência matadora de álbuns (todos pós-Live Undead, de 1985): Hell Awaits (1985), Reign In Blood (1986), South Of Heaven (1998) e Seasons In The Abyss (1990). Está tudo lá, começando pelas capas maravilhosamente mal desenhadas, o satanismo de história em quadrinhos, o clima de horror B, até as guitarras rasgantes da dupla Jeff Hanneman/Kerry King, o vocal e o baixo sorumbáticos de Tom Araya, e - meu amigo... - a batera DEVASTADORA de Dave Lombardo...

E enquanto o Metallica dava o golpe do século (BA), o Slayer celebrava uma missa no inferno: Decade Of Aggression é um dos álbuns ao vivo mais intensos já lançados. Clássico. A produção, a cargo do figurão Rick Rubin, deu a amplificação exata para a banda executar a trilha sonora do Apocalipse. A mixagem deixou as guitarras ultra-secas, com solos de furar qualquer twiter. A bateria, um show de engenharia, ficou claríssima, muito bem captada. Ao fundo, o baixo metálico de Araya ainda mais distorcido e os vocais sinistros, entre o gótico e o tétrico.

Sobre o set-list, eu nem me atrevo a escrever. Eu só sei que começa com Hell Awaits e segue adiante, arrancando cabeça, tronco e membros. War Ensemble, South Of Heaven, Raining Blood, Dead Skin Mask (que é em homenagem a Hannibal Lecter!), Seasons In The Abyss, Angel Of Death, Hallowed Point, Black Magic, Postmortem, Chemical Warfare, e muitas, muitas, muitas... é CD duplo, pô. Um dos raros que ainda valem a pena. Custo-benefício de primeira.

Clássico! clássico! cláááássico!!

Megadeth - The System Has Failed
(Sanctuary/2004)


Confesso que eu sempre tive uma certa má-vontade com o Megadeth. Não é nada contra a música (no mínimo, competente e ultra-profissional), nem contra qualquer contexto deles enquanto músicos. Talvez eu tenha acompanhado por tempo demais a história da banda e acabei me influenciando.

Tudo começou em algum ponto de 1982, quando o jovem drogadito Dave Mustaine foi colocado dentro de um ônibus com destino a San Francisco. Totalmente chapado. E quem o colocou lá? James Hetfield, Lars Ulrich e Kirk Hammet, do então recém-formado Metallica. Eles já não agüentavam mais as cheirações e confusões do diabo loiro, que na época era o guitarrista do grupo. Expulso, e com uma gigantesca marca de coturno no meio da bunda, o vingativo Dave montou o Megadeth, declaradamente como forma de retaliação aos ex-colegas de banda.

Na verdade uma one-man-band, o Megadeth nunca chegou de fato a alcançar o seu objetivo (Destruir Metallica!! Destruir Metallica!!), mas adquiriu moral e respeito com o público mais ortodoxo do heavy. Tudo isso, graças a uma discografia inicial pra lá de carniçeira - Killing Is My Business... And Business Is Good! (1984), Peace Sells... But Who's Buying? (1986) e So Far, So Good... So What!? (1988) - seguida de uma incontestável credibilidade como excelentes músicos, e de Dave, como um grande compositor e letrista - Rust In Peace (1990), Countdown To Extinction (1992) e Youthanasia (1994).

O Mega cresceu, lotou turnês, vendeu discos a rodo, ganhou muito dinheiro e acabou esquecendo (ou arquivando) a revanche contra o primo rico do thrash metal. Mas a história não acaba aí, e Dave ainda amargou uma péssima recepção dos álbuns seguintes. Cryptic Writings (1997, um bom disco) e, principalmente, Risk (1999, o Mega tentando tocar nas rádios, já viu né), venderam como bronzeador no deserto e foram marcados por barracos homéricos entre Mustaine, o guitarrista Marty Friedman e o baixista Dave Ellefson. Sem contar que o batera Nick Menza já tinha caído fora à essa altura.

Após uma ligeira reação, com The World Needs A Hero (2001), e um ao vivo, Rude Awakening (2002), o Mega foi à lona. Desgastado pelas mudanças de formação, Dave ainda enfrentou um drama pessoal: os nervos de seu braço sofreram uma estranha paralisia, o incapacitando de tocar guitarra. A banda oficialmente acabou e Dave sumiu do mapa. Parecia o fim.

Mas, assim como o futebol, o rock'n'roll também é uma caixinha de surpresas. Dave se recuperou (muita fisioterapia!) e anunciou o canto do cisne do Megadeth: The System Has Failed - um puta discaço de rock pesado. A sonoridade do Mega está além da qualificação meramente "heavy" ou "thrash". Dave engendrou uma sonzeira de respeito, com um trabalho cirúrgico nas bases e nos inspirados solos de guitarra (já escrevi que ele é um excelente músico?), e uma bateria marcante e cadenciada. Tudo bem, The System... remonta ao peso metálico oitentista, mas com concepção e equipamentos muito mais modernos e poderosos. Praticamente gravado com músicos contratados (Chris Poland, um ex-Megadeth, na guitarra, Jimmie Sloas no baixo e Vinnie Colaiuta na bateria), a nova formação facilitou a vida de Dave, totalmente liberto das amarras anteriores.

The System... é rock pesado profissional, sonzeira de macho, trilha sonora estradeira e o certificado da maturidade de um artista experiente. Ouça Kick The Chair, The Scorpion, Truth Be Told, Tears In A Vail e a destruidora Back In The Day no volume 11.

Mega-Ps.: A experiência adquirida e a boa impressão causada pelo álbum não impediu Mustaine de continuar falando merda. A capa do álbum traz o velho mascote Vic Rattlehead dando propina a Bill & Hillary Clinton, Yasser Arafat, Tony Blair, W. Bush, e mais alguns filhos da puta. Até aí tudo bem. Mas em entrevista para a Rock Brigade (ed. #219), ele fez a seguinte declaração:

"Veja Al Jourgensen, do Ministry, dizendo por aí: 'Foda-se o Bush'. Eu sempre fui fã do Ministry, mas todo mundo sabe que Al é um sujeito com graves problemas relacionados às drogas, então é difícil levar a sério o que ele diz. Eu vou votar no Bush (...) (John) Kerry é um grande erro, ele vai arruinar o nosso país (...)"

Em outras palavras, é melhor votar em Bush e deixar que o mundo se estrepe, do que pôr em risco o totalitarismo yankee. E outra: Al Jourgensen, drogado? Tudo bem, é verdade. Mas olha só quem está falando...


Anthrax - Music Of Mass Destruction: Live in Chicago
(Sanctuary/2004)


Arrasador serviço ao vivo da banda californiana com nome de arma biológica. O Anthrax sobreviveu aos anos 80, mas houveram momentos em que eles mergulharam tão fundo no anonimato, que só faziam show no CBGB's, em New York (berçário do punk e templo da cultura underground mundial). Como sempre há apenas um nome por trás desse tipo de façanha, lá vai: Scott Ian, guitarrista-base e o único membro original. A influência do cara não fica só nas guitarradas e, apesar de não ser o frontman, ele tem a mesma importância para o Anthrax que o Steve Harris tem para o Iron Maiden, por exemplo. Ou seja, é um patrão disfarçado de empregado.

Scott já viu e fez muita coisa nesses quase 25 anos de vida pública (parece texto político). Encarou tanto estádios lotados, no auge do boom do heavy oitentista, quanto apresentações matadas em pubs vazios. Fundou o cultuado e memorável S.O.D.. Enquanto todo o cenário metal só falava em demônios, sanguinolência e fim do mundo, ele gravou o hit (lá fora) Bring The Noise, ao lado do Public Enemy, num dos primeiros crossovers da História. Excursionou em algumas das turnês mais rentáveis de todos os tempos, ao lado do Metallica, Iron Maiden, AC/DC, Ozzy Osbourne, Kiss, e por aí vai. Sujeitinho rodado.

Ao contrário de seus contemporâneos, o Anthrax não vinha com aquela nuvem negra carregada de desolação e más notícias. Eles não usavam tachinhas, nem jaquetas de couro, nem jeans rasgados. Eles detonavam um speed metal rápido e contagiante, com refrães chicletes e letras relatando as maravilhas de ser antissocial. E usavam bermudas e camisetas coloridas. Quem vê uma foto antiga deles hoje, pensa até que é o Red Hot Chili Peppers. O Anthrax é uma banda divertida por excelência, com guitarras altas, bateria "bumbante" e músicas que são "um verdadeiro convite ao mosh" (já li isso em algum lugar).

Em Music Of Mass..., o Anthrax está afiadíssimo como sempre, e ainda com uma excelente line-up - incluindo aí o vocalista John Bush (que não tem nada a ver com...). Ainda encarado com certa reserva pelos fãs, Bush já tem mais de dez anos de casa e, embora não chegue a ser um Joe Belladonna (e muito menos um Neil Turbin... yeaahh!!), ele continua mandando muito bem. Longe de ser um novato, ele era vocalista do veterano Armored Saint, ou seja, já é uma puta velha. Completam o time, o baterista Charlie Benante (num trampo realmente cavalar, ele abusou dos pedais), o baixista Frankie Bello, Rob Caggiano na guitarra-solo e, claro, Scott nas bases.

Showzaço, pesado, rápido e com o público em cima. Pedradas atemporais como Got The Time, Caught In A Mosh, Antisocial, I Am The Law, Bring The Noise, Fueled, Metal Thrashing Mad, a hiper-mega-clássica Indians, e muitas outras, turbinam qualquer evento social e antisocial.

Isso sem falar na capa, ilustrada por um fã bem especial: Alex Ross. Obrigatório!

Leaves' Eyes - Lovelorn
(Sanctuary/2004)


Eu gosto da Amy Lee, do Evanescence. Aprecio sua desenvoltura como cantora lírica, seu insuspeito timing pop, e seus belos olhos também. Maaas - desculpa Amy - ela é uma mera aprendiz, e ainda tem muito, muito chão pela frente. Pelo menos, até conseguir passe livre pelo seleto clube de deusas góticas como Tarja Turunen (Nightwish), Cristina Scabbia (Lacuna Coil), Anneke Van Giersbergen (The Gathering), Floor Jansen (After Forever) e a sensacional Liv Kristine Espenæs, ex-Theatre of Tragedy, atual Leaves' Eyes.

Liv é uma das pessoas mais experientes do canto lírico/erudito dentro do rock. Com um passado memorável à frente do Theatre, essa norueguesa também mantém sua carreira solo. Em Deus Ex Machina, de 1999, ela estava mais chegada à new age, embora ainda com os inevitáveis resquícios rock (vide 3AM, um dueto soberbo com Nick Holmes, do Paradise Lost). O relativo sucesso do álbum deixou os rapazes do Theatre nos cascos. Eles passaram a vetar qualquer trabalho solo dos integrantes, numa crise braba de ciúmes. Ela, claro, deu no pé. Passada a confusão com o grupo (os caras não queriam nem deixá-la sair!), Liv finalmente retorna com banda nova, para alegria dos fãs - e eu incluso!

Lovelorn, o debut do Leaves' Eyes, é talvez o lançamento mais acessível da carreira de Liv. Base bem simples, próxima do hard rock, ondas de teclados e orquestrações discretas, melodias agradabilíssimas e aqueles vocais. Liv está ainda mais doce, suave, sensual e etérea... mas como canta essa mulher! As músicas são de uma simplicidade franciscana, e acertam em cheio.

Norwegian Lovesong, a faixa de abertura, tem uma melodia altamente assobiável, demora apenas alguns segundos para colar permanentemente no cérebro. Aliás, eu já vou logo avisando: essa música, mais Tale Of The Sea Maid, The Dream, Secret e a belíssima For Amelie colam imediatamente - e nunca, nunca mais se soltam. Se você não gosta de música tatoo, não passe nem na frente da loja. Melhor ainda, feche o browser do Black Zombie até a próxima atualização. Ocean's Way e Temptation são os momentos mais pesados, mas nada que lembre um Syns of Thy Beloved da vida. Já a faixa-título é bastante introspectiva e sombria, enquanto Into Your Light e, principalmente, Return To Life têm um alto potencial radiofônico - isso se rádio fosse lugar pra se ouvir boas músicas...

Leaves' Eyes é a trilha perfeita pra relaxar, transar (com quem mereça tal honraria) ou simplesmente curtir uma música de qualidade. Espero ansiosamente pelo próximo full lenght.

E como um apaixonado pela Liv, uma foto em homenagem...



dogg... ouvindo tudo isso aê.

quinta-feira, 17 de junho de 2004

"HULK É MAIS FORTE QUE TODOS!!"

(Hulk)


É vero. O Hulk é o mais forte sim. Aliás uma das poucas coerências da famigerada mini Marvel vs DC foi a luta dele com o Clark. Ali, ele estava inteligente (e por conseqüência, mais fraco) e perdeu, mas ainda assim deu uma bela canseira no matuto de Krypton. Créditos para Ron Marz e Peter David, que souberam driblar a falta de senso crítico dos fanboys que votaram no Super. Luta de verdade entre os dois seria se fosse com aquele Hulk irracional, totalmente bestial, da memorável fase John Byrne. Sozinho, ele deu um pau no Homem de Ferro, Magnum, Namor e Hércules juntos. Nunca a sentença ”Hulk esmaga” soou tão ameaçadora quanto naquela época.

Sempre vi o momento da criação do Hulk como um milagre acidental. “Milagre”, por ter sido um acontecimento aparentemente impossível, e “acidental”, pela baixíssima probabilidade daquilo acontecer.

Bruce Banner não foi torrado pela onda de calor, nem foi lançado para longe pela onda de choque da explosão gama. Como nada foi planejado, o improvável deu o tom necessário para justificar a força da natureza que é o Hulk.

Mesmo porque, houveram N tentativas de reproduzir o fenônemo em laboratório. Abominável, Líder, Dr. Samson, Ravage, Sasquatch, entre outros, apesar de poderosos, não são bem experiências bem-sucedidas. Nenhum deles se compara ao Hulk porque - dando seqüência à analogia - nada é tão bem-sucedido quanto um acidente.

Aliás, o meu “código de honra samurai-fanboy” reza que superseres só podem ter ênfase em apenas um tipo de poder específico. Ninguém pode ser superforte, super-rápido, lançar raios, etc, tudo ao mesmo tempo. Caso isso aconteça, a onipotência do referido fica comprometida. Portanto, nenhum superser tira nota 10 em todos os poderes. Exceção seja feita no caso do Clark, que é a personificação do inatingível, da perfeição absoluta (e isso é um papo que rende desde Nietzsche).

Então, seguindo a “lógica”, o Hulk se encontra em primeiro lugar na área da força física. Ele não é o mais rápido, não é o mais inteligente e nem dispara raios. Nem falar direito ele sabe. Ele é pura força bruta, e só.


...e ainda aumenta à medida que vai ficando nervoso...! De todos os personagens Marvel (tá, entre os X-Men, Vingadores e alguns outros), só ele conseguiu destruir a forma física de Massacre - que detonou até o Fanático, com um único golpe.


Hulk smash Onslaught!! Clica aê!!

Alguns de seus adversários “quase chegam lá”, como é o caso do Thor. O Gigante Esmeralda soma várias vitórias em cima do asgardiano e apenas alguns poucos empates, sabem por quê? Porque o Thor lança raios, controla o tempo e tem conhecimento básico sobre as propriedades místicas do Mjolnir, o que minimiza a predominância do seu nível de força. Aliás, não deixa de ser uma relação conflituosa essa dos dois, visto que, juntos, eles também fundaram os Vingadores.

Já o Coisa, é quase a mesma... coisa. O samurai-fanboy diz que, quanto maior a proporção do acontecimento que origina o superser, mais poderoso ele será (vide a origem do Galactus, que foi no próprio Big Bang). Então, apesar do Coisa também ser pura força, os raios cósmicos que lhe deram esse poder com certeza não tiveram a magnitude da explosão nuclear que criou o Hulk. Mas o velho Ben soma vários pontos no seu cartel. Ainda que nunca tenha vencido o Gigante Verde, talvez seja o único que manteve uma certa equiparação em lutas contra ele. Um negócio meio assim, Ali versus Foreman, só que sem as vitórias, como ele mesmo disse, certa vez.

Enfim, todos os que enfrentaram o Hulk, na verdade, sobreviveram à ele.


O que me leva à um outro item do manual samurai-fanboy: às vezes, o rato pode dar um ippon no elefante. Nas dezenas de vezes em que Wolverine encarou o Hulk, sempre ficou evidente que ele empreendeu um verdadeiro exercício para não ser morto. Mais ou menos como se ele ficasse desviando das pedras de uma avalanche.

Nem mesmo vantagens como o fator de cura e o adamantium podem ser levadas à sério numa luta dessas. Por várias vezes, Logan se enrolou quando o Hulk, sei lá, abriu o seu tórax ou arrancou nacos de carne das suas costas, sobrecarregando sua cicatrização acelerada. O adamantium serve apenas pra evitar um esmagamento total (se bem que o Monstro Verde já amassou o dito cujo, certa vez).

Ok, as garras são sempre mortais, ainda mais com a velocidade e as habilidades de luta do canadense. Mas eu me lembro que, em Futuro Imperfeito, o Maestro (o próprio Hulk, já velho), falou que o escudo do Capitão América (que é de adamantium) seria letal se ele tivesse força suficiente para lançá-lo. Daí, a mesma lógica poderia ocorrer com o Logan. Por outro lado, o escudo não é tão afiado quanto as garras... Tudo bem, descontem isso do fato que é só o Hulk bater no chão para o cérebro do mutante virar suco dentro daquele crânio de adamantium. :D

Em tempo: Wolverine já matou o Hulk, num elseworld bem legal (daqueles antigos "o que aconteceria se...?"). Foi em uma versão alternativa da estréia do baixinho. Após aquela derradeira luta contra o selvagem Wendigo, Wolvie resolve cravar as garras no pescoço do Hulk, dessa vez com sucesso.

É interessante notar que os dois personagens sempre formaram um paralelo no tocante à natureza selvagem do homem. Só o fato da 1º história do mutante se passar em uma aventura do Hulk já é uma bela coincidência.

Aliás, esse lance de "Wolvie vs Hulk" sempre rendeu grandes imagens. Uma das melhores que eu já vi é essa aí embaixo. Não sei quem desenhou, mas essa imagem é muito foda!



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O QUINTO CAVALEIRO DO APOCALIPSE


”É nosso melhor álbum desde Psalm 69”, segundo Al Jourgensen, alter-ego da entidade Ministry. E realmente. O novo disco, Houses Of The Molé (que nome esquisito), lembra aqueles lapsos de tempo relatados por quem sofreu uma abdução. Ele ignora solenemente (e sonoramente) tudo o que a banda produziu desde o estourado Psalm 69, de 92 - pra quem não se lembra (ou não sabe), esse disco foi o ápice do rock industrial “de macho”, hoje bastante boiolizado por bandas como Limp Bizkit, Korn e Linkin Park.

O comentário do Al sobre a conexão com o Psalm 69 confere perfeitamente. Logo de cara, a faixa No “W” nos apresenta o irmão mais hardcore do clássico N.W.O. (além de contar com o melhor empréstimo de Carmina Burana que eu já ouvi!). Na seqüência, Waiting dá um novo sentido ao termo “bate-estaca”, com aquelas guitarras canibais à Thieves, outro clássico das antigas - aliás, só outro dia fui reparar que o cara que grita no final dessa música é o ensandecido Sargento Hartman, de Nascido Para Matar!

O resto eu ouvi muito por alto, mas dá pra dizer que o Ministry voltou a ser aquela banda que costumavam chamar de “A Trilha Sonora do Fim do Mundo”. A veia está bem mais ríspida de fato. Se tirarem os guinchos infernais e os gritos distorcidos (nããooo), o que sobra é uma puta banda de thrash metal. A mesma sensação que Psalm 69 conferia.

Sinal dos tempos: eu não comprei o disco. O VH1 liberou todas as faixas para download na terça-feira última, e eu só fiquei sabendo na madrugada de quarta (novidade). Depois disso, só pelo odioso streaming (quem inventou essa merda?). Mas vale à pena conferir o preview, que é excelente, mesmo nesse formato (o cara que inventou essa merda deveria ser guilhotinado junto com o cara que inventou o Real Player).

O lançamento oficial de Houses Of The Molé será no próximo dia 22. Atenção, preparar compartilhadores! (parece frase de filme de ficção-científica)