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terça-feira, 22 de julho de 2025

Ozzy para sempre


John Michael “Ozzy” Osbourne
(1948 - 2025)

Hoje foi escrito o último parágrafo do diário. Se foi o Ozzy Osbourne. Em outros tempos, só voltaria pra casa ébrio e que se foda o dia de amanhã.

Mas o tempo passou irredutível para o Madman – que já faz hora extra desde 1978, pelo menos – e também passou para aquele guri que o conheceu pela transmissão do 1º Rock in Rio. Fiquei assombrado diante da tevê. Nem de longe estava preparado. Outros tempos.

De um modo ou de outro, Ozzy nunca deixou de me assombrar. A prova mais recente foi há duas semanas, no antológico show de despedida dele com o Black Sabbath. Ali, o mundo testemunhou a luta de um homem contra seus limites físicos e neurológicos na base do coração, da raça, da coragem e de uma força de vontade inabalável, quase sobrenatural. Impossível assistir à performance sem se emocionar. Isso fica bem claro, para ele e para o público com olhos marejados, durante uma arrepiante “Mama, I'm Coming Home” – nunca essa balada soou tão pedrada.

O Ozzy, quem diria, dando um exemplo de resiliência diante dos reveses da vida e do mais puro amor às coisas que realmente importam. Louco, ele? Sim e com orgulho.

Thank you, goodnight and God bless you, Ozzy!

segunda-feira, 14 de novembro de 2005

DUCK MUSTAINE


Sábado retrasado (5/11) o canal pago Boomerang exibiu um episódio bem atípico do desenho Duck Dodgers (um Patolino from the future), chamado "In Space No One Can Hear You Rock/Ridealong Calamity". O convidado especial da vez foi ninguém menos que Dave Mustaine, o Megadeth-man em pessoa.

No desenho, os marcianos estão tentando escravizar os terráqueos com a execução massiva de easy-listening. Pra quem não sabe do que se trata, tenha em mente: saxofones, teclados, pianos, música de elevador, Ray Coniff, Baden Powell, Kenny G, Richard Clayderman... sentiu o drama? Pois bem, Patolino/Duck Dodgers resolve tirar a humanidade dessa fria e resgata Mustaine de seu estado criogênico pra executar os acordes de Holy Wars, Tornado Of Souls e outros hinos do thrash metal. O problema é que, sem querer, ele apaga a memória do cara durante o processo. Mustaine precisa reaprender a tocar e o Pato mostra pra ele uns discos velhuscos do Megadeth, tenta reensiná-lo a bangear, fazer stage-diving, mosh, etc, sem nenhum resultado. Patolino então monta o grupo Megaduck, que, por sinal, tem um logotipo igualzinho ao do Megadeth. Saca só um trechinho do desenho.

Fica aí a dica para a caça ao Pato... ou melhor, ao episódio. E, como não poderia deixar de ser, o desenho também é mais um elemento na guerra fria entre o Megadeth e o Metallica. Quem assistiu ao filme Some Kind of Monster teve a impressão de que Mustaine virou um mendigo após sua expulsão do grupo de Lars Ulrich. Com quinze milhões de discos vendidos, hype total de seu último álbum, The System Has Failed (e num momento de baixa comercial no heavy), e aparições freqüentes na grande mídia, acho que mr. Mustaine vai muito bem, obrigado. Correndo por fora, o 'Metllica' gravou, em setembro, a comentada participação no desenho dos Simpsons. Peace sells... but who's buying? :)



METAL É LINDO


Na próxima quinta-feira (17/11) haverá um bom... não, ótimo... não, excelente motivo pra assistir ao Programa do Jô (até para os que adorariam bater no rotundo apresentador). O grupo holandês Epica será o convidado especial do programa, e deverá executar duas músicas em versões acústicas. Pra quem não conhece, a banda pratica aquele heavy melódico, técnico e, hã... "épico", que fez a fama de bandas como Nightwish e Lacuna Coil. É bem-feitinho, bem tocado e tudo mais, embora não seja muito a minha praia. Mas o motivo real de existirem estas linhas, de assistí-los no Jô (e até de existir a banda...) é a vocalista, frontwoman e deusa Simone Simons. Minha nossa... desde que o Epica começou a se destacar, há uns dois anos atrás, que o heavy metal ficou mais bonito. Com uma presença constante nos principais festivais de rock da Europa (Graspop, Dynamo Open Air, Wacken, etc), a banda vem conquistando uma carreirada de admiradores, 99% destes atraídos pelo canto da sereia Simons.

Ah, sim... ela canta muito bem. É mezzo soprano formada. Tecnicamente superior à Amy Lee, sem a frieza excessiva da Tarja Turunen e mais linda que as duas juntas. E ainda traz no nome uma aliteração de fazer inveja à Lois Lane e Marisa Monte. Prevejo bons ventos para o Epica, visto que Tarja está fora de combate (chutada - quase literalmente - do Nightwish), e o pessoal do Evanescense ainda está curtindo a ressaca do primeiro disco.

Galeriazinha de leve. A moça merece.



PRA OUVIR EM ALGUMA ENCRUZILHADA DO MISSISSIPI


Se um dia você resolver vender a alma numa encruzilhada pra se tornar uma fera no violão, vá ouvindo no caminho a trilha sonora de E Aí, Meu Irmão, Cadê Você? (O Brother, Where Art Thou?, 2000). Evitará qualquer arrependimento ou hesitação, e o chifrudo enxofrento ainda lhe agradecerá por mais um bom negócio. Do filmaço dos Coen saiu uma das trilhas mais legais dos últimos anos. É irresistível. Eles dão uma verdadeira garimpada na música popular americana da primeira metade do século 20. Folk, blue-grass, country, blues, soul, gospel e cajun se misturam com a mesma reverência de uma procissão interiorana. Convivem no mesmo ambiente um canto chamado-e-reposta com batida minimalista (Po Lazarus, de James Carter & The Prisioners, logo no início), um hit matusalém (You Are My Sunshine, de Norman Blake), um spiritual à capela (O Death, de Ralph Stanley), um doo-woop negão (Lonesome Valley, do Fairfield Four), uma relíquia raríssima (Big Rock Candy Mountain, de Harry McClintock), o resultado daquele rolo com o coisa-ruim (Hard Time Killing Floor Blues, de Chris Thomas King), e por aí vai. Mas não dá pra deixar de mencionar dois pontos...

1) O sensacional trabalho de Alisson Krauss (estrela do country americano) em Down To The River To Pray e na "melô das sereias" Didn't Leave Nobody But The Baby (nesta, acompanhada de Emmylou Harris e Gillian Welch). Excepcional;

2) A "aderente" Man Of Constant Sorrow, do Soggy Bottom Boys (Fivo, não sei se te agradeço ou te amaldiçôo...). É difícil acreditar que isso veio dos gogós de George Clooney, John Turturro e Tim Blake.

Veja o filme, ouça o disco e leia o conto Old Man, de William Faulkner, que serviu de inspiração para os irmãos Coen. Se conseguir o conto, me manda que eu quero.

Stubbs The Zombie periga ser o jogo mais legal do século (tá, ainda tem mais um chãozinho pela frente). A história se passa em 1933 e começa com Stubbs, um caixeiro viajante, tentando sobreviver à Grande Depressão. Com uma vida repleta de fracassos, e um loser quase profissional, Stubbs é brutalmente assassinado por um desconhecido e enterrado como indigente em um campo da Pennsylvania. Corta pra 1959... um industrial bilionário chamado Andrew Monday constrói uma cidade futurista bem em cima do campo onde Stubbs apodrece anonimamente. Aí, o nosso anti-herói levanta de sua sepultura sem saber como e porque retornou, ou quem foi seu algoz. O novo Stubbs só tem uma certeza: cérebros irão rolar...

A trilha desse combo splatter/gore nonsense é uma surpresa. Composto de covers de hits dos anos 50 (sejam canções rock, jazz ou pop da época), a seleção mantém um clima sempre irônico, que já dá pra antever só de conferir o cast, basicamente de bandas alternativas. Lollipop, de Ben Kweller, é a típica pop song dos charts cinqüentistas. If I Only Had A Brain, com o Flaming Lips, é uma vinheta radiofônica de dois minutos, pingando de tanto cinismo. Lonesome Town, com Milton Mapes, é uma balada rock à Ritchie Valens. The Living Dead, do Phantom Planet, já carrega bastante nas guitarras, e My Boyfriend's Back, com The Raveonettes, é aquele bubblegum grudento que parece coisa da Olivia Newton-John dos tempos de Grease.

Mas os vencedores são o badalado Death Cab For Cutie, com a 'xonadinha Earth Angel, e o mais-badalado-ainda Cake, com o clássico Strangers In The Night, do old blue eyes Frank Sinatra.

Agradecimentos ao Lobo Schmidt por me informar sobre a existência do Stubbs. :P


Acabei reparando que o Type O Negative aí ao lado não tem nada a ver com doom ou stoner. Eles são gothic. A culpa é do Black Sabbath, que influenciou três estilos distintos do rock. Agora a gente fica aí, confundindo tudo. :)

sexta-feira, 25 de março de 2005

Feliz Páscoa pra todo mundo! Hoje é dia de caçar coelhos com uma metralhadora! Mas antes, alguns comentários... coisa básica. Discos e algumas correções.

Let's get it on...


AFGHAN WHIGS - GENTLEMEN
(Elektra/1993)


Uma verdade sobre o Afghan Whigs é que o grupo sempre foi bom demais pra fazer sucesso. Apesar de ter pertencido ao cast da mesma Sub Pop que canalisou o grunge de Seattle, ela fez parte de um seleto time de bandas que foram sufocadas por hits que dominaram o cenário do rock americano nos anos 90. Coisinhas como Alive, Man in the Box, Hunger Strike e, principalmente, Smells Like Teen Spirit. Mas, ao contrário da conotação pop que o termo "rock alternativo" tem hoje, o Afghan Whigs nunca deixou os corações e mentes daqueles que buscaram algo mais do que aquilo que rolava nas paradas de sucesso. Essa busca podia ser até árdua, mas, no final, era verdadeiramente compensadora.

Liderada pelo compositor e vocalista Greg Dulli, a banda evoluiu de um barulhento pós-punk de garagem para uma sonoridade mais sofisticada, melódica, plasticamente mais bem trabalhada e fluída, e, num lampejo de genialidade underground, repleta de influências de soul e rhythm'n'blues (chegaram a regravar uma música do Barry White). Isso tudo sem deixar de lado a inevitável herança oitentista no wave e letras que são um verdadeiro soco no estômago existencial, no pior sentido dor-de-cotovelo possível. Desilusões amorosas fudidas, finais de relacionamento nada agradáveis e pura auto-comiseração são destilados nas letras ácidas e no senso de humor predatório de Dulli, que ainda é dono de uma entrega quase suicida nos vocais. O Afghan Whigs é uma das bandas mais passionais do rock e Gentleman foi o momento em que eles mais se enxergaram nessa condição. Um disco perfeito até na capa... belíssima.

Ps.: Reza a lenda que os integrantes da banda se conheceram nos idos de 86, durante uma estada em comum num presídio em Cincinnati, sua terra natal. Belo background...


FIREBIRD - DELUXE
(Music for Nations/2001)


Bill Steer é um sujeito rodado. Egresso de formações extremas como o Napalm Death e o podrão Carcass, ele ensaiou um retorno à cena de forma inusitada, à frente de pérolas stoner rock como Badlands e The Cry of Love. Dessa forma, o excelente Firebird acabou sendo uma espécie de cream of the cream de tudo o que Steer andou aprendendo (e tocando) nos últimos anos. Em um retorno às raízes on the road do rock, a banda pode ser simplesmente classificada de stoner, mas aí seria uma injustiça cruel. Stoner é Nebula, Orange Goblin, Fu Manchu e outras (boas) bandas que não conseguem dar nem um passo pra fora da sombra do Black Sabbath. O Firebird estabelece uma relação mais próxima dos power trios dos anos 60 e 70, com riffs ganchudos e freqüentes, e aquelas passagens intensas entremeadas com momentos mais suaves e bluesy. As referências imediatas são grupos clássicos como Cream, Mountain, Blue Cheer, Rush fase John Rutsey e até o Jimi Hendrix Experience. Firebird é uma excursão lisérgica na pré-história do hard rock. A viagem é, no mínimo, fascinante.

A formação da banda nesse disco é toda ex-metálica - além de Steer nos vocais e na guitarra, completam o time Ludwig Witt (bateria e percussão, ex-Spiritual Beggars) e Leo Smee (baixo e órgão, ex-Cathedral). Aliás, a técnica old school de Bill Steer (cujo belo vocal me lembra o de Eric Clapton nos áureos tempos do Cream) tem sido muito elogiada. E realmente ele arrebenta nas seis cordas - vide pedradas como Dirt Trap, Forsaken, Sinner Takes All e Sad Man's Quarter. Destaque também para a belíssima Miles From Nowhere, com uma atmosfera idílica parecida com a do clássico Thank You, do Led Zeppelin, e para a última faixa, o boogie-woogie Slow Blues, que de "slow" não tem nada e traz a harmônica mais alucinada que ouço desde os primeiros discos do Blues Traveler.

A faixa para download não consta no disco. Trata-se de um cover pesadão para Working Man, do Rush, que só saiu em um single lançado no mercado japonês.


CIRCUS OF POWER - MAGIC & MADNESS
(Columbia/1993)


A boa impressão já começa pela bela arte da capa, feita pela fera Tate Mosesian. E o Circus of Power não desaponta, mandando ver um rockão estradeiro de respeito. Algo assim, entre o drunk'n'roll do AC/DC fase Bon Scott e blues rock cheio de slide guitar. Infelizmente, suas bases hard rock acabaram colocando a banda no gueto heavy do final dos anos 80, justamente quando o estilo dava seus últimos suspiros no mainstream. Sem o tino comercial de bandas como G'NR, Bon Jovi e Skid Row, o CoP acabou morrendo na praia noventista, embora fosse milhões de vezes mais interessante que todos aqueles ícones poser. Magic & Madness é o seu terceiro álbum, e considerado por muitos como o seu melhor. Não faço a mínima idéia se é mesmo, pois nunca ouvi nenhum dos outros. :P

Às vezes, o COP lembra um The Cult sem frescuragem. Tanto é que o próprio Ian Astbury, vocal do Cult, faz uma participação na ótima Shine. Outro convidado especialíssimo é o grande guitarrista Jerry Cantrell, do Alice in Chains, que manda acordes e vocais na grudenta Heaven & Hell. Confira também as pesadonas Evil Woman, Poison Girl, a animada Dreams Tonight e, a melhor de todas, Mama Tequila, cujo refrão virou o meu grito de guerra nº1.

Ótimo álbum!


SLAYER - UNDISPUTED ATTITUDE
(American/1996)


Puta que o pariu! Me sinto com vontade de porrar o próprio capeta quando ouço esse álbum. Cansado de ver conterrâneos do thrash jogando seu passado pela privada e de testemunhar a ascensão de bobagens poppy punk, os reis da Zona Sul do Céu, Vsa. Megafodescência Slayer resolveu revisitar podreirinhas memoráveis do punk/hardcore. Ah, se todos os álbuns de covers fossem assim! É festa punk feita por profissionais da agressão desenfreada. Pra bater a cabeça até perder as orelhas. Os caras conseguiram amplificar ainda mais a porradaria dos clássicos do Verbal Abuse, D.R.I., GBH, Minor Threat e até do TSOL, quando esse era punk.

Para os fãs mais ortodoxos do "metálico" Slayer, só uma ou duas infos de grátis. Em seus primeiros shows, tanto o Slayer quanto o Metallica tocavam para uma platéia dividida entre headbangers e punks. Claro que rolavam tretas, mas o fato é que a sonoridade das duas continham naturalmente elementos hardcore. E o Slayer, ao lado do badmotherfucker Ice-T, já havia demonstrado sua veia crusty, através de um medley arrasador do Exploited que saiu na memorável trilha sonora do filme Uma Jogada do Destino. Definitivamente o Slayer tem raízes hardcore. E afinal, o que é o thrash metal senão uma evolução do hardcore, que por sua vez é uma evolução do punk...? Achou ruim? Então pode cair dentro que eu tô ouvindo Undisputed Attitude e não vou perder pra ninguém na porrada nesse momento. :)

Além do quê, só aqui você pode ouvir uma instituição como o Slayer tocando furiosamente o classicaço I Wanna Be Your Dog, dos Stooges - providencialmente rebatizada I Wanna Be You God. Mas a velha torção no pescoço comparece sim, e a última faixa, Gemini, é autoral. Peso gótico e deprê, South of Heaven' style.

A propósito... sabia que o Ramones e o Black Sabbath fizeram uma tour conjunta nos anos setenta? É sério, li isso numa entrevista antiga com o falecido Joey Ramone. Diz ele que eram dez confusões por música executada.


LIV KRISTINE - DEUS EX MACHINA
(Massacre/1998)


Eu sou suspeito pra falar.

Antes de sair do Theatre Of Tragedy para formar o Leaves' Eyes, a cantora norueguesa Liv Kristine Spenæs concebeu um magistral e etéreo debut solo. Longe das guitarras distorcidas e dos backings death metal que caracterizam o som do Theatre, Deus Ex Machina talvez seja a primeira vez em que Liv se mostra por inteira, entregue e despida (quem dera!) artisticamente, sem as amarras do estilo gothic metal que a limitava. Pra quem nunca nem ouviu falar de Liv Kristine, basta dizer que ela é influência confessa de Tarja Turunem, do Nightwish. Dentro do gothic metal - e aí vai um espectro que começa no ultra-obscuro The Sins Of Thy Beloved e termina no mega-estourado Evanescense - Liv Kristine, ao lado de Aneke van Giersbergen (do The Gathering), é a maior precursora do estilo.

Apesar da atmosfera suave, Deus Ex Machina não se enquadra no formato pop. Transitando por paisagens new age, pelo gótico romântico e por climas soturnos pontuados com efeitos eletro-percussivos, Liv está à vontade e supera fácil tudo o que ela já fez anteriormente, incluindo aí o seu trabalho memorável no Theatre Of Tragedy. Daí saem a intrincada melodia da faixa-título (que é mais difícil de cantar do que parece), a bela Waves Of Green, a bad trip nórdica de Huldra, a soft-gregoriana Portrait: Ei Tulle Med Øyne Blå, a linda, mas muito linda mesmo, In The Heart of Juliet, e a sensacional 3 AM, que conta com o vozeirão dark de Nick Holmes, do Paradise Lost.

Deus Ex Machina é um disco pra se ouvir com a luz apagada e com algumas velas acesas. E se estiver acompanhado... que seja uma ótima companhia pra não estragar o momento.

Mas como eu disse...


...sou suspeito pra falar.



FÊNIX NEGRA 2 X GALACTUS 0
Brilho Eterno de um Blog sem Lembranças



18 de março de 2004... um ano e poucos dias atrás. Foi quando eu escrevi um texto admirando pela enésima vez o Galactus e sua fome eterna de planetas incautos. Para ilustrar o texto, catei aleatoriamente algumas imagens na web, que retratavam o gigante cósmico se estranhando com Jean Grey, numa história que eu tinha quase certeza que já havia lido.

Depois, nos coments, soube pelo jpvolley (fala aê jp!) que essas imagens, do grande Alan Davis, eram de uma história que saiu numa edição do Excalibur e que ali não era a Jean Grey, e sim Rachel Summers, totalmente overpower. Corretíssimo. Até porquê, nunca fui especialista nos mutunas mesmo.



Alan Davis e a justa cósmica... clique nas imagens

Mas a dúvida persistia... eu já tinha lido uma história com a Jean encarando o velho Galan. Num belo dia, durante um raio-x de rotina em um sebo, (re)descubro essa história como um bônus na revista Marvel Especial 8 - A Saga da Fênix Negra. Era O que Aconteceria se Fênix Não Tivesse Morrido?, um daqueles elseworlds narrados pelo Vigia.


Jean Grey já bateu o celestial também! Clique nas imagens

Comparando as imagens dos dois confrontos... dá pra ver que Alan Davis "curtia bastante" a série What If... Galactus está praticamente com a mesma postura quando dispara uma rajada de energia em Jean/Rachel, e nas duas histórias ele termina batendo em retirada após ver a magnitude de sua adversária. Ficou igualzinho. Não é à toa que eu me confundi... :)


dogg, querendo saber se hoje pode beber cerveja

terça-feira, 1 de fevereiro de 2005

ELAS ESTÃO DESCONTROLADAS

Especial Mulheres que Amamos


IGNORANCE IS BLISS


"Já viu um coração? Parece um punho banhado em sangue!" - Larry, personagem de Clive Owen descrevendo o amor no filme Closer - Perto Demais (Closer, 2004 e um belo sic pelo subtítulo nacional).

E digo mais... "coração dos outros é terra que ninguém pisa". Mas sim, o amor existe sim, mas esqueça essa besteira de cavalo branco, compreensão à toda prova, ou pior, frases de efeito como "me guardei pra você". Isso é viagem de hippie encharcado de ácido na ressaca do Woodstock. O amor é um turbilhão de empatia, sensações carregadas de frenesi incontrolável, calor humano e sentimentalidades (como bem disse o Arnaldo Antunes). São aspectos quase conceituais, intangíveis, que demandam fé cega imediata por parte do outro, visto que não podemos provar que eles existem. O que nos deixa com o outro aspecto do amor, dessa vez bem mais físico, instintivo e selvagem, que é mais antigo na índole do ser humano, e por isso mesmo mais recorrente, embora muito pouco (ou nada) romântico e idealizado. No fim das contas, "back-to-the-basic". Closer, dirigido pelo veterano Mike Nichols, trata primorosamente de muita coisa, mas o básico instinto é definitivamente a cereja.

Situado em Londres, o filme mostra Dan (Jude Law), um escritor fracassado que escreve obituários de jornal, se envolvendo com Alice (Natalie Portman), uma ex-stripper americana. A princípio é um relacionamento perfeito, até que Dan conhece a fotógrafa Anna (Julia Roberts) e se apaixona, mas é rejeitado. Sem querer, durante uma conversa fake num chat (e existe alguma que não seja?), Dan acaba jogando Anna para os braços do dermatologista Larry. A partir daí, tem início um jogo passional de... hã, encontros e desencontros que, juro por Deus, vai te fazer se enxergar na tela nem que seja por alguns poucos segundos.


Adaptado de uma peça teatral, Closer revela em algumas seqüências a sua verdadeira natureza, visto que é repleto de situações e climas no argumento, suficientes para lavar a alma de qualquer fã de uma boa interpretação. Os diálogos são nada menos que excelentes. Natalie Portman prova pela enésima vez seu talento intrínseco e uma segurança invejável, mesmo em cenas não tão confortáveis assim. É incrível como alguém pode atingir tamanha autenticidade, mesmo com laboratório e outros preparativos. Embora "técnico" demais, seu trabalho foi excepcional e irretocável, sem dúvida. O mesmo não se pode dizer de Julia Roberts, ainda que tenha ela demonstrado uma inegável competência. Sua personagem, Anna, é passiva e emocionalmente contida, o que também é algo difícil de se conseguir sem que pareça mera auto-preservação. Ótima atuação, mas subjetiva por natureza.

E por falar em natureza, Jude Law, embora talentoso, sempre carregou consigo uma aura de arrogância suprema (ecos de Gattaca?), mas aqui ele embalou com uma camada de narcisismo travestido de um providencial romantismo. Dan é o par ideal para as meninas que sublimam o amor e, mais ainda, o sexo. Lembra do que eu escrevi sobre o "cavalo branco" idealizado? Então. Dan é o tipo do sujeito que chega montado em um desses. Mas não... calma aí. Recapitulando, o "cavalo branco" existe sim. Mas como um belo de um símbolo fálico. O que nos leva ao cara que fala tudo o que a gente pensa primeiro antes do glacê: Larry (um espírito-irmão de Frank Mackey, personagem de Tom Cruise em Magnólia). Ele é uma manifestação do id masculino que traz à tona todo o sexismo, perversão, voyerismo, egocentrismo natural, e até uma certa covardia emocional. Essas coisinhas que vivemos tentando reprimir para podermos conviver em sociedade e não voltarmos a morar em cavernas, mas que têm a sua utilidade até hoje.


Fica claro que, após um segundo ato inglório, Larry, que não é nenhum gênio, passou a usar o que tinha em mãos. Algo que ele já tinha desde que nasceu: o conhecimento sobre a natureza masculina, que, por tabela, é o mesmo que ele tem de si. A grosso modo, ele não fez "nada" (fez sim, mas em termos concretos e definitivos não foi nada), apenas deixou que o outro fizesse. Gostaria de resumir esse sentimento primal em apenas uma palavra, mas só consigo lembrar do refrão de uma música do Sepultura (!)... "War for territory". Sem exceções, todos os homens trazem consigo essa informação. Faz parte da nossa natureza, mesmo em alguém supostamente mais "sofisticado" emocionalmente, como Dan. Quanto ao título "ignorance is bliss" (música do Ramones), é auto-explicativo e comparece no filme como uma derrocada por querer saber demais. "O que o coração não vê"... É por aí, temos fraquezas também. E o Larry sabia disso.

Clive Owen... mal posso esperar até a estréia de Sin City.

Mike Nichols fez para a raça masculina o que Nelson Rodrigues fez para a feminina, com direito a finalzinho surpresa. Os homens não prestam, mas a vida é assim mesmo. Mulheres... prometam que não serão tão deslumbradas que a gente promete não manipular tanto pra conseguir o que queremos.

Em tempo, Bebel Gilberto na vernissage foi mesmo um luxo (I got it Fivo!). Mas How Soon Is Now?, dos Smiths, numa boate londrina com certeza faz parte dos meus devaneios mais tolos.

E "Alice Ayres"... "can't take my eyes of you"...


GIRLS JUST WANNA HAVE FUN


''E eis que o Evanescence chega ao seu segundo disco (se não considerarmos o Origin) da mesma forma que o nosso hoje sucateado RPM. Saídos de um sucesso estrondoso, com direito à tema principal em filme hollywoodiano, a banda retarda seu retorno à realidade (o temido 2º disco), com Anywhere but Home, um CD/DVD gravado ao vivo no The Zenith, Paris, e dirigido por Hamish Hamilton. O combo ainda traz um música inédita, Missing, estratégia que deve amenizar um pouco a expectativa dos fãs mundo afora.

O grupo faz um mix de gothic rock, heavy e new metal, com vocais líricos femininos. Mas não se enganem, existem bandas mais precursoras e muito mais eficientes e/ou sofisticadas nesse mesmo contexto musical, como Theatre of Tragedy, Nightwish, Lacuna Coil, After Forever, The Gathering, The Sins of thy Beloved, Nocturne, Within Temptation e Gardens of Gehenna, só pra citar algumas. Mas o mérito maior do Evanescence foi ter criado uma solução mais acessível e pop para um estilo que sempre pediu por isso. Não é para o gosto médio de um fã do Slayer, por exemplo, mas é honesto e tecnicamente bem-resolvido.

Com uma evidente boa performance (= pesada e com espírito de "entrega"), o Evanescence é do tipo que só tem hits no repertório. Isso se nota facilmente pela recepção alucinada do público, que delira em cada virada, cada refrão e, principalmente, cada gesto da vocalista Amy Lee. E em Anywhere But Home, Amy impera. É impressionante a quantidade de garotas gritando "i love you" para a líder do Evanescence. Mas também não é pra menos.


Amy sempre cultivou uma imagem de princesa gótica com espírito livre, sexualidade passional e ambivalente, e uma personalidade soturna e cheia de mistérios (ai), ampliada ainda mais pelas baladonas intimistas levadas no piano de cauda mal-assombrado, como Hello, Breathe No More e, principalmente, My Immortal - essa última rendeu talvez o maior orgasmo coletivo já registrado na História. Mas a parte que eu mais gostei do show foi a execução raçuda de Going Under, não por acaso a música que mais exige o fôlego real de Amy. Aqui não fica funcional a inclusão em demasia de playbacks, então a Amy "tem de fazer o serviço direitinho", e ela o faz, se esgoelando, gemendo e suspirando exausta ao fim de cada falsete. Não sei por quê, mas existe esse sentimento meio sádico por parte do público. A técnica pode ser absurda, mas por si só não resolve. A gente quer é ver os caras dando o sangue lá em cima.

Já os playbacks, eles existem sim, mas inseridos de modo responsável e não chegam a ofuscar o esmero técnico da banda (pô, até o Rush usa playbacks). Na verdade, a maior falha do show ficou por conta da direção e edição do DVD. Eu costumo sempre comparar gravações de performances com dois extremos que conheço. O pior vai para o Live & Loud, do tio Ozzy. Mesmo com uma excelente banda (uma constante na carreira dele), o vídeo foi lotado de overdubs criminosos e cada música executada foi recortada com trechos de vários shows, o que jogou a estabilidade na vala, literalmente. Uma desgraceira de edição de rock. Já o melhor é Cunning Stunts, do Metallica, extremamente bem balanceado entre a funcionalidade da performance instrumental (dá pra ver até as cordas da guitarra tremendo) sem perder a agilidade frenética que se espera desse tipo de show. Anywhere But Home fica bem no meio-termo, com desonroso destaque para os irritantes replays de gestos que permeiam toda a apresentação. Quase um clip longa-metragem da MTV.

Na seção behind the scenes, um pouco da intimidade do pessoal. Fora a bem-vinda olhada no dia-a-dia da Amy (nada daquela Deusa do Caos... Amy é uma menina... toda bobona, muito divertida e desencanada como só uma menina se dá o direito), o que rola são quebradeiras OK em hotéis, bagunças em backstages, passagens de som, fãs enlouquecido(a)s, bunda-lêlês na sacada (não é o apê do Latino), brincadeiras em jammin's despretensiosas, videokês rolando Bring Me to Life, uma bacana seqüência "video-cassetada" durante algumas apresentações... Sim, a banda está curtindo muito tudo isso. Esse é o momento do Evanescence. É aproveitar enquanto a responsa do 2º disco não chega.

Ah sim, tem um cheat no DVD. Na tela de apresentação, pressione a tecla esquerda duas vezes em cima de behind the scenes. Vai aparecer o logotipo da banda no lado esquerdo, e aí é só clicar em cima. O bônus é uma apresentação ao vivo de (adivinha) Bring me to Life.


DEADPOOL TAMBÉM AMA


Algum troglodita já se engraçou pra sua namorada e ela te obrigou a tirar uma satisfação com ele? Não? Coitado... desejo boa sorte. - - Essa pergunta é só pra efeito estatístico pessoal, nada a ver com o resto - -

Tem gente que curte o Homem-Múltiplo, outros o Lobo. Meu personagem favorito nos dias de hoje é o Deadpool. É o que eu mais leio ultimamente em termos de super-herói. Ainda que se pareça demais com o Hitman (que eu me amarro também!), o Deadpool tem algumas idiossincrasias interessantes. Ele não acerta o tempo inteiro e às vezes se mete em umas enrrascadas sinistras. É um anti-herói nato (assassino profissional e mercenário), mesmo assim é impossível não curtir suas ações. Tem coragem para encarar monstros como o Rino ou o Fanático, mas encontra a maior dificuldade para se declarar para sua amada, Siryn, da X-Force.


Na saudosa Marvel 99 foram publicadas as histórias do Deadpool escritas por Joe Kelly e desenhadas por Ed McGuinness. O senso de humor (negro ou apenas espirituoso), a ação poderosa e dinâmica, quase um mangá, e situações inusitadas e desconcertantes lembram muito a dupla Peter David/Chris Cross, nas histórias do Capitão Marvel. Nas edições #3, #4 e #5 de Deadpool (publicadas aqui em M99 #4 e #5), nosso herói tem seu fator de cura danificado após uma missão na Antártida. Como sabemos (sabemos?), o fator de cura é a única coisa que impede o mercenário de morrer de câncer. E qual é a solução? Lê aí, mas adianto que tem algo a ver com um enfezado Incrível Hulk.

Mas a melhor parte é a seqüência final. A resposta... :)

Clique na imagem abaixo. Vai aparecer uma página, escolha a opção de download "FREE", espere a contagem regressiva. Quando acabar, é só baixar.

Link jurássico off, claro, mas ainda dá pra achar por aí!


dogg, ouvindo uma seqüência com Girls, do Beastie Boys, Girls, Girls, Girls, do Motley Crüe, Material Girl, da Madonna, e Eu Gosto é de Mulher, do Ultraje.

terça-feira, 19 de outubro de 2004

TOP 5... destrinchado!

Ministry - Houses Of The Molé
(Sanctuary/2004)


Os reis do rock industrial lançam seu melhor álbum desde o estourado Psalm 69. Pra falar a verdade, Houses... é tão bom quanto o clássico de 92. Nos últimos tempos, o Ministry estava imerso em bad trips cabeçonas e intermináveis, num reflexo direto da vida loca regada a álcool e drogas pesadas, e dos inúmeros quebra-paus entre Al Jourgensen e Paul Barker. Ironia caótica: uma banda descontrutivista se desconstruindo.

Mas Jourgensen (re)assumiu a liderança, chutou Barker pra escanteio e, logo em seguida, se enfiou num estúdio de última geração - seu habitat (sobre)natural. A comparação com Psalm 69 é quase automática. Musicalmente, soa como uma continuação e, num capricho esquisito do destino, a sua temática também. Naquele álbum, as letras de Jourgensen destilavam um sarcasmo e ódio intrínsecos ao então presidente dos EUA, George Bush (vide o hit N.W.O). Dessa vez, a banda dedica o álbum inteiro à mais um notável daquela família. Houses... está lotado de samples com discursos de W. Bush, e letras que renderiam facilmente um processo de calúnia e difamação. No target também entram assuntos igualmente explosivos, como a intervenção norte-americana no Oriente Médio e os "efeitos colaterais" da aclamada globalização. E pra quem quer apenas curtir um som forte e agitado, Houses... é um prato cheio.

Na abertura, No "W" manda ver num tecno hardcore com um recorte muito bem sacado de Carmina Burana (que já foi utilizada N vezes por bandas heavy, mas nunca dessa forma). Logo após, Waiting nos traz de volta aquele industrial alucinado do fim da década de 80 (é o irmão mais novo da clássica Thieves). Worthless é uma paulada acachapante com vocal distorcido, bem próxima de Just One Fix (do Psalm 69). Wrong é thrash metal tradicional, só que movido a maquinária digital. Warp City é um rockabilly turbinado com guitarras de tremer o chão. WTV é um concerto desconexo de samples com a missão de explodir o Texas e todos os descendentes da família Bush. World é estranhamente fácil. Pesadona e com um refrão superbonder, ela lembra bastante a fase tecnopop da banda (lá pelos de idos de 84/85), só que com guitarras manhosas e esparsas. WKYJ é rock garageiro, torto e barulhento à Devo/Big Black (que o Jourgensen não saiba disso - ele e Steve Albini, líder do BB, se odeiam). Já Worm é um autêntico pós-punk oitentista, naquela pegada soturna e melancólica do PIL e da 1ª fase do Killing Joke - acrescido do fator "monstro canibal" do Ministry, claro.

O álbum ainda traz duas faixas escondidas: Track 23, um ótimo remix de No "W", com um solo nuclear de guitarra, e Track 69 (claro...), um ambient repleto de mensagens subliminares que eu nem me preocupei em desvendar, mas que me deu uma vontade enorme de quebrar um aparelho de televisão.

Ps.: Não por acaso, todas as faixas têm a inicial W, excetuando-se No "W" ("Não ao W"). Em outras palavras, anti-Bush total!

Slayer - Decade Of Aggression - Live
(Def American/1991)


Cena metálica, segunda metade dos anos oitenta. Com o fim da invasão thrash metal, muitos grupos do estilo foram parar no limbo, mas ainda haviam alguns de pé. O Metallica era algo grande demais, construído pelos fãs e para os fãs - pelo menos até o momento em que lançou o Black Album. Já o Slayer era a fera indomável, que nem propostas indecentes de grandes gravadoras conseguiram arrefecer. Sempre correndo ao largo do que é considerado "acessível", os thrashers da Bay Area arrebanharam uma legião de admiradores fanáticos e influenciou 100% do que foi feito no metal extremo dali por diante. Também não era pra menos. A banda era mitológica. Eles criaram uma mescla tão coesa de música, imagem e simbolismos, que era impossível dissociar uma coisa da outra.

Mas essa característica foi trabalhada com esmero, na forma de uma seqüência matadora de álbuns (todos pós-Live Undead, de 1985): Hell Awaits (1985), Reign In Blood (1986), South Of Heaven (1998) e Seasons In The Abyss (1990). Está tudo lá, começando pelas capas maravilhosamente mal desenhadas, o satanismo de história em quadrinhos, o clima de horror B, até as guitarras rasgantes da dupla Jeff Hanneman/Kerry King, o vocal e o baixo sorumbáticos de Tom Araya, e - meu amigo... - a batera DEVASTADORA de Dave Lombardo...

E enquanto o Metallica dava o golpe do século (BA), o Slayer celebrava uma missa no inferno: Decade Of Aggression é um dos álbuns ao vivo mais intensos já lançados. Clássico. A produção, a cargo do figurão Rick Rubin, deu a amplificação exata para a banda executar a trilha sonora do Apocalipse. A mixagem deixou as guitarras ultra-secas, com solos de furar qualquer twiter. A bateria, um show de engenharia, ficou claríssima, muito bem captada. Ao fundo, o baixo metálico de Araya ainda mais distorcido e os vocais sinistros, entre o gótico e o tétrico.

Sobre o set-list, eu nem me atrevo a escrever. Eu só sei que começa com Hell Awaits e segue adiante, arrancando cabeça, tronco e membros. War Ensemble, South Of Heaven, Raining Blood, Dead Skin Mask (que é em homenagem a Hannibal Lecter!), Seasons In The Abyss, Angel Of Death, Hallowed Point, Black Magic, Postmortem, Chemical Warfare, e muitas, muitas, muitas... é CD duplo, pô. Um dos raros que ainda valem a pena. Custo-benefício de primeira.

Clássico! clássico! cláááássico!!

Megadeth - The System Has Failed
(Sanctuary/2004)


Confesso que eu sempre tive uma certa má-vontade com o Megadeth. Não é nada contra a música (no mínimo, competente e ultra-profissional), nem contra qualquer contexto deles enquanto músicos. Talvez eu tenha acompanhado por tempo demais a história da banda e acabei me influenciando.

Tudo começou em algum ponto de 1982, quando o jovem drogadito Dave Mustaine foi colocado dentro de um ônibus com destino a San Francisco. Totalmente chapado. E quem o colocou lá? James Hetfield, Lars Ulrich e Kirk Hammet, do então recém-formado Metallica. Eles já não agüentavam mais as cheirações e confusões do diabo loiro, que na época era o guitarrista do grupo. Expulso, e com uma gigantesca marca de coturno no meio da bunda, o vingativo Dave montou o Megadeth, declaradamente como forma de retaliação aos ex-colegas de banda.

Na verdade uma one-man-band, o Megadeth nunca chegou de fato a alcançar o seu objetivo (Destruir Metallica!! Destruir Metallica!!), mas adquiriu moral e respeito com o público mais ortodoxo do heavy. Tudo isso, graças a uma discografia inicial pra lá de carniçeira - Killing Is My Business... And Business Is Good! (1984), Peace Sells... But Who's Buying? (1986) e So Far, So Good... So What!? (1988) - seguida de uma incontestável credibilidade como excelentes músicos, e de Dave, como um grande compositor e letrista - Rust In Peace (1990), Countdown To Extinction (1992) e Youthanasia (1994).

O Mega cresceu, lotou turnês, vendeu discos a rodo, ganhou muito dinheiro e acabou esquecendo (ou arquivando) a revanche contra o primo rico do thrash metal. Mas a história não acaba aí, e Dave ainda amargou uma péssima recepção dos álbuns seguintes. Cryptic Writings (1997, um bom disco) e, principalmente, Risk (1999, o Mega tentando tocar nas rádios, já viu né), venderam como bronzeador no deserto e foram marcados por barracos homéricos entre Mustaine, o guitarrista Marty Friedman e o baixista Dave Ellefson. Sem contar que o batera Nick Menza já tinha caído fora à essa altura.

Após uma ligeira reação, com The World Needs A Hero (2001), e um ao vivo, Rude Awakening (2002), o Mega foi à lona. Desgastado pelas mudanças de formação, Dave ainda enfrentou um drama pessoal: os nervos de seu braço sofreram uma estranha paralisia, o incapacitando de tocar guitarra. A banda oficialmente acabou e Dave sumiu do mapa. Parecia o fim.

Mas, assim como o futebol, o rock'n'roll também é uma caixinha de surpresas. Dave se recuperou (muita fisioterapia!) e anunciou o canto do cisne do Megadeth: The System Has Failed - um puta discaço de rock pesado. A sonoridade do Mega está além da qualificação meramente "heavy" ou "thrash". Dave engendrou uma sonzeira de respeito, com um trabalho cirúrgico nas bases e nos inspirados solos de guitarra (já escrevi que ele é um excelente músico?), e uma bateria marcante e cadenciada. Tudo bem, The System... remonta ao peso metálico oitentista, mas com concepção e equipamentos muito mais modernos e poderosos. Praticamente gravado com músicos contratados (Chris Poland, um ex-Megadeth, na guitarra, Jimmie Sloas no baixo e Vinnie Colaiuta na bateria), a nova formação facilitou a vida de Dave, totalmente liberto das amarras anteriores.

The System... é rock pesado profissional, sonzeira de macho, trilha sonora estradeira e o certificado da maturidade de um artista experiente. Ouça Kick The Chair, The Scorpion, Truth Be Told, Tears In A Vail e a destruidora Back In The Day no volume 11.

Mega-Ps.: A experiência adquirida e a boa impressão causada pelo álbum não impediu Mustaine de continuar falando merda. A capa do álbum traz o velho mascote Vic Rattlehead dando propina a Bill & Hillary Clinton, Yasser Arafat, Tony Blair, W. Bush, e mais alguns filhos da puta. Até aí tudo bem. Mas em entrevista para a Rock Brigade (ed. #219), ele fez a seguinte declaração:

"Veja Al Jourgensen, do Ministry, dizendo por aí: 'Foda-se o Bush'. Eu sempre fui fã do Ministry, mas todo mundo sabe que Al é um sujeito com graves problemas relacionados às drogas, então é difícil levar a sério o que ele diz. Eu vou votar no Bush (...) (John) Kerry é um grande erro, ele vai arruinar o nosso país (...)"

Em outras palavras, é melhor votar em Bush e deixar que o mundo se estrepe, do que pôr em risco o totalitarismo yankee. E outra: Al Jourgensen, drogado? Tudo bem, é verdade. Mas olha só quem está falando...


Anthrax - Music Of Mass Destruction: Live in Chicago
(Sanctuary/2004)


Arrasador serviço ao vivo da banda californiana com nome de arma biológica. O Anthrax sobreviveu aos anos 80, mas houveram momentos em que eles mergulharam tão fundo no anonimato, que só faziam show no CBGB's, em New York (berçário do punk e templo da cultura underground mundial). Como sempre há apenas um nome por trás desse tipo de façanha, lá vai: Scott Ian, guitarrista-base e o único membro original. A influência do cara não fica só nas guitarradas e, apesar de não ser o frontman, ele tem a mesma importância para o Anthrax que o Steve Harris tem para o Iron Maiden, por exemplo. Ou seja, é um patrão disfarçado de empregado.

Scott já viu e fez muita coisa nesses quase 25 anos de vida pública (parece texto político). Encarou tanto estádios lotados, no auge do boom do heavy oitentista, quanto apresentações matadas em pubs vazios. Fundou o cultuado e memorável S.O.D.. Enquanto todo o cenário metal só falava em demônios, sanguinolência e fim do mundo, ele gravou o hit (lá fora) Bring The Noise, ao lado do Public Enemy, num dos primeiros crossovers da História. Excursionou em algumas das turnês mais rentáveis de todos os tempos, ao lado do Metallica, Iron Maiden, AC/DC, Ozzy Osbourne, Kiss, e por aí vai. Sujeitinho rodado.

Ao contrário de seus contemporâneos, o Anthrax não vinha com aquela nuvem negra carregada de desolação e más notícias. Eles não usavam tachinhas, nem jaquetas de couro, nem jeans rasgados. Eles detonavam um speed metal rápido e contagiante, com refrães chicletes e letras relatando as maravilhas de ser antissocial. E usavam bermudas e camisetas coloridas. Quem vê uma foto antiga deles hoje, pensa até que é o Red Hot Chili Peppers. O Anthrax é uma banda divertida por excelência, com guitarras altas, bateria "bumbante" e músicas que são "um verdadeiro convite ao mosh" (já li isso em algum lugar).

Em Music Of Mass..., o Anthrax está afiadíssimo como sempre, e ainda com uma excelente line-up - incluindo aí o vocalista John Bush (que não tem nada a ver com...). Ainda encarado com certa reserva pelos fãs, Bush já tem mais de dez anos de casa e, embora não chegue a ser um Joe Belladonna (e muito menos um Neil Turbin... yeaahh!!), ele continua mandando muito bem. Longe de ser um novato, ele era vocalista do veterano Armored Saint, ou seja, já é uma puta velha. Completam o time, o baterista Charlie Benante (num trampo realmente cavalar, ele abusou dos pedais), o baixista Frankie Bello, Rob Caggiano na guitarra-solo e, claro, Scott nas bases.

Showzaço, pesado, rápido e com o público em cima. Pedradas atemporais como Got The Time, Caught In A Mosh, Antisocial, I Am The Law, Bring The Noise, Fueled, Metal Thrashing Mad, a hiper-mega-clássica Indians, e muitas outras, turbinam qualquer evento social e antisocial.

Isso sem falar na capa, ilustrada por um fã bem especial: Alex Ross. Obrigatório!

Leaves' Eyes - Lovelorn
(Sanctuary/2004)


Eu gosto da Amy Lee, do Evanescence. Aprecio sua desenvoltura como cantora lírica, seu insuspeito timing pop, e seus belos olhos também. Maaas - desculpa Amy - ela é uma mera aprendiz, e ainda tem muito, muito chão pela frente. Pelo menos, até conseguir passe livre pelo seleto clube de deusas góticas como Tarja Turunen (Nightwish), Cristina Scabbia (Lacuna Coil), Anneke Van Giersbergen (The Gathering), Floor Jansen (After Forever) e a sensacional Liv Kristine Espenæs, ex-Theatre of Tragedy, atual Leaves' Eyes.

Liv é uma das pessoas mais experientes do canto lírico/erudito dentro do rock. Com um passado memorável à frente do Theatre, essa norueguesa também mantém sua carreira solo. Em Deus Ex Machina, de 1999, ela estava mais chegada à new age, embora ainda com os inevitáveis resquícios rock (vide 3AM, um dueto soberbo com Nick Holmes, do Paradise Lost). O relativo sucesso do álbum deixou os rapazes do Theatre nos cascos. Eles passaram a vetar qualquer trabalho solo dos integrantes, numa crise braba de ciúmes. Ela, claro, deu no pé. Passada a confusão com o grupo (os caras não queriam nem deixá-la sair!), Liv finalmente retorna com banda nova, para alegria dos fãs - e eu incluso!

Lovelorn, o debut do Leaves' Eyes, é talvez o lançamento mais acessível da carreira de Liv. Base bem simples, próxima do hard rock, ondas de teclados e orquestrações discretas, melodias agradabilíssimas e aqueles vocais. Liv está ainda mais doce, suave, sensual e etérea... mas como canta essa mulher! As músicas são de uma simplicidade franciscana, e acertam em cheio.

Norwegian Lovesong, a faixa de abertura, tem uma melodia altamente assobiável, demora apenas alguns segundos para colar permanentemente no cérebro. Aliás, eu já vou logo avisando: essa música, mais Tale Of The Sea Maid, The Dream, Secret e a belíssima For Amelie colam imediatamente - e nunca, nunca mais se soltam. Se você não gosta de música tatoo, não passe nem na frente da loja. Melhor ainda, feche o browser do Black Zombie até a próxima atualização. Ocean's Way e Temptation são os momentos mais pesados, mas nada que lembre um Syns of Thy Beloved da vida. Já a faixa-título é bastante introspectiva e sombria, enquanto Into Your Light e, principalmente, Return To Life têm um alto potencial radiofônico - isso se rádio fosse lugar pra se ouvir boas músicas...

Leaves' Eyes é a trilha perfeita pra relaxar, transar (com quem mereça tal honraria) ou simplesmente curtir uma música de qualidade. Espero ansiosamente pelo próximo full lenght.

E como um apaixonado pela Liv, uma foto em homenagem...



dogg... ouvindo tudo isso aê.

domingo, 6 de junho de 2004

"...SIN PERDER LA TERNURA JAMÁS!"


Odeio me flagrar tendo uma atitude idealista de araque. Dá pra sentir até aquela boina com uma estrelinha vermelha enfiada na cabeça. O próprio Che de final de semana. Só que às vezes não consigo me render ao capitalismo selvagem e simplesmente viro as costas (ainda que esteja devorando um Big Mac® com Coca-Cola®). É justamente como eu me senti quanto à infame versão lusa do Rock In Rio, um desserviço à preservação do amor à pátria amada, devidamente coroada pelo nosso ministro da Cultura - que também tocou lá. Eu já conhecia muito bem a mania do Roberto Medina de vender a alma ao diabo pela enésima vez, afinal, como se explicaria Sandy & Junior, Britney Spears e atrocidades afins na 3ª edição do festival...? Mas pior que isso foi ver o Medina vender a alma aos portugueses. Rock in RIO em... LISBOA?! Prestigiar um festival nosso feito em outro país?! Tô fora. E outra: quem no mundo tem interesse em conhecer uma banda chamada "Xutos & Pontapés"? Fala sério, seu Joaquim. Isso foi demais pra minha pobre cabecinha headbanger e, revoltado, pensei em me alistar no exército Zapatista ou então nas FARC.


A ficha demorou bastante pra cair dessa vez. Quando assisti um pedaço do show do Evanescence que passou na Rede Globo, fiquei impressionado e logo quis estar do "lado direito" do Atlântico. Eu já vi vários shows deles, mas este foi especial. As dimensões do local eram muito desproporcionais à proposta da banda, que funciona bem melhor em um lugar pequeno, como um ginásio ou mesmo um pub. Na vastidão daquela arena, o som se desvanescia (consegui, hohoho), principalmente pra quem estava lá atrás.

Mesmo assim, com o auxílio de alguns playbacks, o Evanescence revelou uma front-woman que é um verdadeiro paradoxo: do "alto" de seus 1,63m de altura, Amy Lee mandou ver numa performance arrebatadora, que de quixotesca não teve nada. Ela venceu aquele jogo praticamente sozinha. Cantou, correu, agitou, se esgoelou, tocou soberbamente um piano de cauda e ainda arrumou tempo para exibir uma sensualidade estonteante. E que olhos, meu Deus... (será que eles brilham no escuro?)

Já o restante da banda era só... restante. Nem dava pra notar a presença de alguém ali. Parecem aquelas orquestras que ficam escondidas embaixo do palco.


No final, suspirei profundamente, deitei no sofá e assisti à reprise do Gilberto Gil. Causa? Que causa? Anarquistas, graças a Deus.


STONER ROCK
MÚSICA P/ DESABAMENTOS



Deuses do Rock sessentista como Jimi Hendrix, Cream e Blue Cheer, entre outros, já encerraram as atividades há muito tempo, mas o seu legado ecoa até hoje. E as bandas do chamado Stoner Rock, estão aí pra confirmar. A primeira referência para esse estilo são as bandas citadas aí em cima que, aliás, inseriram o conceito do power-trio no rock - baixo/guitarra/bateria a serviço de um som sujão, ultra-distorcido e "viajante" (ou stoned, gíria pra chapado e origem do neologismo "stoner"). Lisergia total. Mas a inspiração do stoner não parou por aí e ainda abraçou o que os anos 70 tiveram a oferecer - e como...! Bandas emblemáticas do rock setentista, como Led Zeppelin, Deep Purple, Motörhead, Thin Lizzy, Jethro Tull, Free, Mountain, AC/DC e, principalmente, Black Sabbath forneceram a matéria prima para o estilo.


Os Cavaleiros do Sabá Negro. Quem diria que Ozzy faria um reality show...

Mas quem pensa que esse revival começou com o grande Queens Of The Stone Age, calma lá. A coisa toda começou lá atrás, no início dos anos 90, com o pessoal de Seattle ou, mais precisamente, com o famigerado grunge. Muitas das bandas que estouraram naquele movimento já tinham muitos anos de estrada e, não raro, vários discos lançados. Soundgarden, Screaming Trees, The Melvins e mais uma batelada de grupos já eram putas velhíssimas, enquanto o Nirvana, Pearl Jam e Alice In Chains ainda estavam choramingando no berçário.


É só ligar a Harley Davidson e pegar a Rota 66

Dessas todas, a que mais se aproximava do que viria a ser o stoner rock era o Soundgarden (banda do Chris Cornell, atual Audioslave). Essa banda alcançou o sucesso um pouco mais tarde que seus conterrâneos de Seattle. Mainstream pra eles, só em 94, com o multi-platinado Superunknown. Mas, na minha opinião, o verdadeiro Soundgarden está no disco anterior, Badmotorfinger, de 1991, esse sim, uma paulada tipicamente stoner. Ouça preciosidades como Outshined, Rust Cage ou Jesus Christ Pose no volume 10 e sinta o chão tremer como se um T.Rex estivesse se aproximando à mil por hora.


Mais influente que o monolito negro, do filme 2001

Um ano depois, em 92, mais um disco simplesmente memorável, Blues For The Red Sun, da banda californiana Kyuss (embrião do QOTSA e de boa parte da cena). Era Nick Oliveri (baixo), Josh Homme (guitarra), Brant Bjork (bateria) e John Garcia (vocais), todos por volta dos 16/17, na época. Pra se ter uma idéia das experimentações dos caras, a guitarra era plugada num amplificador de baixo, com a afinação mais grave possível. Parecia o ronco enfurecido de um V8. O efeito era digno de um terremoto, alterava até o batimento cardíaco. Mais outra moda stoner inaugurada pelos caras: festas regadas à muito álcool (e outros "aperitivos") em pleno deserto californiano, onde eles, com auxílio de geradores, tocavam por horas e horas sem parar. Kyuss era isso aí, pra ouvir em alto e bom som, de preferência, com os olhos fechados (o mundo seria perfeito se desse pra dirigir de olhos fechados).

O Kyuss acabou cedo, em 95, e os estilhaços formaram as galáxias e os planetas do universo stoner. Das bandas diretamente ligadas ao Kyuss, estão o Fu Manchu, Slo Burn, Unida, Che, Brant Bjork & The Operators e, agora sim, o Queens Of The Stone Age, que herdou Josh Homme e Nick Oliveri - aquele cara que ficou peladão no palco do Rock In Rio 3. O QOTSA é, de uma certa forma, uma versão mais polida do Kyuss, sem o lado lisérgico e experimental, mas mesmo assim, é uma puta banda (meu disco preferido dos caras é o Songs For The Deaf, o mais recente).


O bom e o mal. Ambos são feios.

Outro grupo digno de nota é o Monster Magnet, do malucão Dave Wyndorf. Hoje, a banda é meio como um artigo de luxo na cena stoner, transitando entre o industrial, uma certa nuance pop e o stoner. Pra quem quer conhecer o MM atual, recomendo o excelente disco Powertrip, de 98 e presença constante no seleto Top5 at your left. Já para conhecer a pré-história do MM, pode ir de Spine Of God e que a Força esteja com você. Esse disco, de 92 (o ano do stoner!), subverte a rifferama do Black Sabbath e é uma das wild trips mais singulares do rock. Tem até um solo de bateria no meio, ao melhor estilo In-A-Gadda-Da-Vida (do também seminal Iron Butterfly).

Nessa linha, vale à pena conhecer também o Orange Goblin, Spiritual Beggars, Nebula e Corrosion Of Conformity, que são ótimas bandas e mandam ver num som pauleiríssimo, e sem chance alguma de rolar nas FMs (isso é um elogio!).

Até algumas figuras da cena metal têm se rendido ao estilo, como Phil Anselmo (ex-Pantera), que formou o Down - que, embora não seja exatamente stoner, tem muitos elementos dele. O ex-Napalm Death Lee Dorrian também é uma referência na cena, visto que sua banda Cathedral, há muito tempo saiu do doom metal que praticava no começo, para um som bem mais "sabbático", obviamente mais próximo do stoner. Aliás, no álbum The Carnival Bizarre, a banda contou com ninguém menos que Tony Iommi, tocando guitarra na música Utopian Blaster. Reverência maior, impossível.

O onipresente Dave Grohl também embarcou de cabeça no estilo, já que seu projeto paralelo Probot é predominantemente stoner. Pra arrematar qualquer dúvida, é só lembrar dos convidados presentes no disco de estréia - gente do porte de Lemmy, Mike Dean (do Corrosion Of Conformity), Eric Wagner (do Trouble), Kurt Bretch (do D.R.I.), além do próprio Lee Dorrian, entre outros.


Firebird é retrô até na capa

Outro caso parecido é o do ex-Carcass Bill Steer, que formou o excelente Firebird. A banda segue à risca o esquema dos power-trios sessentistas, desde a formação propriamente dita (ele, Ludwig Witt, do Spiritual Beggars e Leo Smee, do Cathedral - timaço), até o visual, como visto nessa capa aí, do álbum Deluxe (o 2º, de 2001). O som é um primor de blues rock deliciosamente distorcido, mas com um certo apuro instrumental em relação aos demais. Aqui, o som é muito bem executado, lembrando por vezes os devaneios instrumentais do Deep Purple (em especial, do álbum Purplendicular). Conheci a banda através de um cover de Working Man, do Rush, que estava disponível nesse site. Pena que apagaram o arquivo (mas vale conferir a info que ficou). De qualquer forma, não se deixe abater e faça como este que vos escreve. Caçe essa banda no DC++, e-Mule, ou qualquer outro compartilhador desses, mas passe à quilômetros de distância dos KaZaAs da vida (lá só tem de Britney Spears pra baixo). Vale (muito) à pena, se você curtir esse estilo.

Em tempo: o Rush (banda-tia do stoner) adicionou a música Summertime Blues, de Eddie Cochran e imortalizada pelo Blue Cheer (banda-bisavó do stoner), no set-list do seu novo álbum, Feedback (só de covers). Clique aqui pra conferir um trecho (ficou bem mais pesada que a original, claro).

Além dos links que passei (os sublinhados não foram porque achei bonitinho não), é parada obrigatória também o Planeta Stoner, o melhor site dedicado ao estilo no Brasil. Essa matéria, da central rock Whiplash, também ficou muito boa, bem esclarecedora para iniciantes.

Outra coisa, o stoner sempre caminhou lado a lado (mas sem boiolagem) com o gothic e o já citado doom metal. À primeira ouvida, parece tudo a mesma coisa, mas para o ouvido treinado é quase uma blasfêmia proferir tal afirmação. Doom é pesadaço e arrastado, gothic é... gótico e depressivo e stoner é isso tudo, só que cheio de marijüana, e todos os três nem sonhariam em existir se não fosse o Black Sabbath. Pra saber diferenciá-los "profissionalmente", recomendo essa excelente matéria, onde Jorge Vitzac destrincha legal toda essa viagem lisérgica e incandescente. Pra visitar tomando uma cerva trincando de gelada.


Post ao som de Kyuss, Firebird, Helmet e Black Sabbath - e haja café!!