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quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

Cor de arco-íris quando foge

Ranço de velhusco da vez. A especialidade da casa.



Esses excertos das recém-publicadas Doctor Strange #7–9, com roteiros de Jed MacKay, traços de Pasqual Ferry e capas do Alex Ross para emoldurar, funcionam como um ponto sem retorno para mim. Menos pelo texto, mais pela estética. Principalmente, das cores. Não que tudo vá para a conta da Heather Moore, a colorista em questão. Ela apenas segue a tendência atual.

A impressão é que mudaram a metodologia de criação dos comics (leia-se "gibis do mainstream americano"). Isso vale tanto para a Marvel quanto para a DC, Image, Dark Horse e por aí vai. Hoje, parece obrigação contratual estourar todo o espectro de cores digitais por quadrinho, que já nem é mais quadrinho, arrastando tudo para uma artificialidade sem precedentes no formato. O Pasqual Ferry mesmo já trabalha nestas condições há longa data, mas a comparação através dos anos é absurda.

Se é isso que as novas gerações consomem, então, comercialmente, as escolas setentistas e oitentistas já eram. E isso me faz valorizar ainda mais as compilações feitas nas Sagas e nas Epic Collection. O passado é o futuro, baby.


O Vishanti de ontem (Triunfo e Tormento, 1989) e de hoje: os tons sombrios e misteriosos dão lugar ao multiverso do arco-íris

Confesso que a minha ficha ainda não caiu para esse visual sobrecarregado de cores e flares. Por instinto, me conforto pensando que é só uma fase, uma onda passageira. Que um dia desses vou abrir um gibi novo e me deparar novamente com cores concisas, um claro e escuro decente e, quem sabe, até com as velhas retículas. Como no Dr. Estranho do Rudy Nebres.

Pode soar melancólico, mas ainda assim é um belo devaneio.

No próximo programa: a cartunização generalizada que deixou tudo com cara de desenho animado. Não peguei Arca Negra por conta disso – e de outras coisinhas também.

sábado, 13 de janeiro de 2018

Sede de Vampirella

E no Plantão Especial de Sábado 13: a Vampirella do mestre Rodolfo "Rudy" D. Nebres!


Quando fiz um merecido tributo ao quadrinhista, já havia atentado para a vasta produção do pequeno gigante das Filipinas. Mas foi num dos divertidos (e viajantes) papos com o VAM! que percebi sua proficiência nas aventuras da vampira do espaço sideral mais adorada da cultura B. E com uma qualidade digna dos melhores trabalhos do artista - o que não é pouco.

Pra quem é fã de quadrinhos de terror dos anos 60 e 70, só uma palavra: essencial.

Tecnicamente, não é a primeira vez que menciono a longeva, libidinosa e lasciva Vampirella por aqui. Mas a bombshell sanguessuga certamente merecia uma ocasião especial só pra ela.

“Vampirella – She's so sexy!”
(Rudy D. Nebres)
Antes, uma dose de contexto pra viagem: no longo período entre 1980 e 1996, Nebres colaborou sazonalmente nos títulos da Vampirella. Com isso, acabou estabelecendo uma das únicas pontes de continuidade entre a Warren Publishing (editora das cultuadíssimas Eerie e Creepy, além da Vamp) e a Harris Publications - que adquiriu o catálogo órfão da Warren em 1983, criando assim a Harris Comics.

Vampirella foi a estrela dessa retomada e vislumbrou parte do antigo sucesso com o início dos anos 90, quando encontrou um público já, digamos, fidelizado por supergarotas curvilíneas em trajes mínimos.

O timing era perfeito. Faltou oportunismo.

Tivesse Vampirella caído nas garras fominhas da Marvel, Nebres hoje seria famoso, cheio de grana, mulheres e iates. Ou não - e ao menos seria convidado para as premieres dos filmes live-action da diva vampiresca pela Marvel Studios.


Conheci o trabalho do VAM! na Batdeira pelas suas interações e colaborações no Submundo HQ - o melhor periódico sobre o mercado nacional de quadrinhos que você vai encontrar por aí. É um mix muito bem dosado de expertise em design gráfico com exercício de estilo que faz qualquer leitor de gibis sair por aí sonhando acordado. Principalmente aqueles das "velhas escolas" - leia-se EBAL, RGE e Abril, entre outras.

Já havia visto algo nessa linha em blogs como o Super-Team Family, mas nunca com uma pegada tão abrangente e profissional. E adaptado à nossa realidade editorial, com direito a pesquisas históricas cuidadosas, do tipo que não se vê em qualquer lugar. E aí que papo vai, papo vem, surge a ideia de juntar o útil ao agradável: a Batdeira com o BZ; a Vampirella com o Nebres; e, enfim, a Vampirella do Nebres.

Os projetos da Batdeira, com as devidas exceções, são pautados em sua viabilidade real e impacto de mercado. Com as sucessivas compilações da Vampirella pela Mythos, por que não um material genuinamente clássico da sanguinária heroína? Francamente não consigo pensar em química mais natural, prontinha pra embalar e vender.

As capas e a diagramação produzidas pelo VAM!, sozinhas, já são vendedoras de alto nível.


Design, arte-finalização, títulos e diagramação por VAM! - Texto por dogg! - Arte por Nebres! - E clique para ampliar!

Fabulosas! Ou nas palavras da Vamp: Satyr and Circe!

A seleção do compilado seria moleza. Começaria com Vampirella #92-#95 (Warren, 1980-1981), da série clássica...


...e seguiria com a fase mais recente - Vengeance of Vampirella ½ (Harris, 1994) e Vampirella Strikes #4, #5 e #7 (Harris, 1996), já incluindo o crossover/quebra com Eudaemon, o Etrigan da Dark Horse.


Tentador como um pescocinho indefeso diante de uma vampira faminta.

Nos extras - é claro que tem que ter extras! - nada melhor que uma galeria de pinups e sketches da morceguinha (ou seria Coelhinha®?) escolhida a dedo - mas gentilmente - dos volumes Vampirella Pin-Up Special 1995 (Harris, 1995) e The Art of Vampirella (Dynamite, 2010).








Depois dessa dá até pra sonhar com aquele longa da Vamp pela Hammer Films (!) que nunca saiu do papel.

Tem jeito aí, VAM!?

domingo, 30 de abril de 2017

O Estranho das Filipinas


Na época do lançamento do filme do Dr. Estranho, ano passado, fiquei de mandar o foca rascunhar um breve-mas-charmoso texto para a ocasião. Como isso nunca aconteceu, o filme - que me surpreendeu positivamente, que registrem nos autos - acabou como acabaram tantos filmes-pipoca por aqui: passando batido. Felizmente agora, em meio à faxina/releitura sazonal da portentosa coleção de papiros da 9ª arte, o nobre Doutor-Mestre das Artes Místicas há de ganhar seu tributo nesta pocilga. Que belo timing, hm?

Heróis da TV #68 e #69 (fev-mar/1985), formatinhos da Abril. Meu primeiro contato com Stephen Strange fora das fileiras dos Defensores. Era o Stephen solo, de várzea. E assustador pra caralho. Pelo menos pra um moleque acostumado ao bom e velho maniqueísmo multicolorido super-heróico.

O universo particular do Dr. Estranho era um lugar de fato estranho, com traços pesados e uma atmosfera tão obscura que chegava a ser azul. O mago honrava mesmo as calças que vestia quando ainda estrelava Strange Tales, seminal antologia de horror e monstros da Marvel.

Aquelas eram as edições #20 e #22 originais do título Doctor Strange vol. 2, ou Doctor Strange - Master of Mystic Arts. O roteiro de Marv Wolfman não era dado a pirotecnias, mas deixava claro que aquele não era o quadrinho regular da Marvel. Algumas mortes eram de arrepiar -  e aí entra o verdadeiro protagonista destas modestas linhas (mas que sacanagem com o discípulo-mor do Vishanti, você vai dizer, mas calma lá que é justificado): o veterano artista filipino Rudy D. Nebres.

A arte detalhista com painéis que lembravam um óleo sobre tela gótico trazia tons fúnebres, cenários surreais e um clima febril e perturbador que remetia a um pesadelo - nesse ponto lembrando uma cruza blasfema da mão pesada de Gene Colan com o traço estiloso de Neal Adams. Mal comparando, era como o Stephen Bissette, do Monstro do Pântano de Alan Moore, saído de uma missa negra chapado com chazinho de Santo Daime.


Nas duas histórias publicadas, "Xander, o Impiedoso!" e "Tomada pela Loucura", a arte de Nebres se destaca numa aventura, que, de outro modo, ou com outro desenhista, não passaria de divertida. Mas o que se vê aqui, em cada quadr(inh)o é grande arte.

Sem o título de Mago Supremo e com seus poderes diminuídos pelo Ancião (não me pergunte porquê), o Dr. Estranho encontra pela frente o vilão Xander. Durante a batalha, um revés: sua aprendiz Clea acaba possuída pela magia negra de Xander e sai por aí cometendo as maiores atrocidades.


A despeito de Nebres ter concebido a Clea mais sensual de todas, tenho algo a confessar: a cena que mais me causou arrepios nas HQs da época é quando a moça vai parar na cadeia e para se livrar de uma detenta ameaçadora, ela concreta a infeliz ainda viva.



Não satisfeita, Evil Clea sai pela cidade tocando o terror em termos bíblicos e Lovecraftianos, como qualquer minion from hell que se preze.



Tive alguns... "problemas" com essas cenas também, pela carga imagética/religiosa envolvida. Fazer o quê, sou um católico cheio de culpa que não sabe o que faz e que, na época, ainda tinha os  devaneios apócrifos de Os Caçadores da Arca Perdida ecoando forte na cabeça.

Apesar de seu incrível talento, no Brasil a carreira do señor Nebres foi marcada por seus trabalhos como arte-finalista. Ele fazia a cobertura dos lápis de gente como John Buscema, Gil Kane e os citados Gene Colan e Neal Adams, notadamente nos gibis do Estranho, do Hulk e do Conan (em especial A Espada Selvagem). Sempre com uma proficiência e qualidade do nível de um Alfredo Alcala, se for pra mensurar a competência do homem. Mas também assinou muita arte original, conforme o compiladão do Comic Book DB - e que, por algum motivo, continua sepucralmente inédita por aqui em sua esmagadora maioria.

Ao que consta, após a produção em ritmo industrial que manteve nos anos 70 e 80 o artista se afastou dos quadrinhos para investir seus talentos em áreas mais comerciais. Reservado e sem reconhecimento pelo conjunto da obra, Nebres faz aparições esporádicas em convenções de pequeno porte nos EUA.

Pra mim ele sempre será o dono do traço mais bacana - e assustador - que o Dr. Estranho já teve.