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terça-feira, 24 de outubro de 2023

Em busca do Warlock perdido


De um lado, o Omnibus mais desnecessário da História – do outro, um verme desprezível com um dilema nas mãos

Adam Warlock Omnibus é um calhamaço bíblico de 904 páginas com o Best Of do Gladiador Dourado, do Avatar da Vida, do Matador de Deuses, do Mestre de Todas as Almas...

O pack é de responsa:
Fantastic Four 66-67, The Mighty Thor 165-166, Marvel Premiere 1-2, Warlock 1-15, The Incredible Hulk 176-178, The Incredible Hulk Annual 6, Strange Tales 178-181, Marvel Team-Up 55, The Avengers Annual 7, Marvel Two-in-One 61-63 e Marvel Two-in-One Annual 2
São 35 edições com profissionais top de linha da Era de Ouro da Marvel em plena Era de Bronze com destaque para um jovem e faminto Jim Starlin. Um sonho de verão intergaláctico. O problema é quase todo esse conteúdo foi publicado aqui. Em reedições recentes, inclusive.

Juntos, os dois volumes de A Saga de Thanos (Panini), A Coleção Oficial de Graphic Novels Marvel - Clássicos Vol. 32 e Vol. 33 (Salvat), Os Heróis Mais Poderosos da Marvel Vol. 44 - Warlock (Salvat) e até Coleção Histórica Marvel: Os Vingadores Vol. 2 (Panini) compreendem algo como 90% do Omnibus. Quem tiver todos esses, pode passar sem dó. Meu caso.

Mas verme que é verme sempre encontra brechas na legislação interna.

No tomo inteiro, apenas quatro edições não têm republicação recente: a Hulk Annual #6 (novembro de 1977), publicada aqui há 43 anos (!) pela RGE em Almanaque do Hulk #2 (junho de 1980), e as Marvel Two-in-One #61, #62 e #63 (março-abril-maio de 1980), que a Abril "condensou" daquele jeitinho em O Incrível Hulk #19 e #20 (janeiro e fevereiro de 1985).

O primeiro caso, passo sem problema, mas o segundo...


O casulo de "Ela", a entrada triunfal de Parágona (depois, Kismet e, atualmente, Ayesha) e Benji providenciando as boas-vindas

A história traz o bom e velho Coisa com Alicia Masters, Águia Estelar/Aleta, Serpente da Lua, Alto Evolucionário e a semideusa Parágona indo até os confins do universo para reviver o lendário Adam Warlock. Essa aventura é uma queridona. Li e reli gazilhões de vezes desde molequinho. Na época, raramente conseguia de$colar duas edições novas na sequência, mas estas consegui por alguma rara conjunção astral.

Lembro que ficava fascinado pela intrigante capa de George Pérez, pelos desenhos de Jerry Bingham – com arte-final de Gene Day – e pelo roteiro frenético, engraçado e, ao mesmo tempo, reflexivo e melancólico do Mark Gruenwald. Qualidades que resistem até hoje. Era o Método Marvel no seu melhor.


"O Roubo da Contraterra" é o melhor título ÉVER e a splash do Alto Evolucionário é para emoldurar



A metamorfose macho-fêmea de Parágona e a transição corpórea de Águia Estelar e Aleta sem problematizações



Rindo disso há 38 anos — Titio Ben em momento Jece Valadão sem medo do cancelamento



Troféu cata-piolho: a Abril não era a Bloch, mas também inventava página ampliando um quadro



O momento que todos esperavam e que me ensinou uma lição para a vida

Sem dúvida, é uma história muito importante para mim. Formadora de caráter até.

Há décadas espero por esta reedição na íntegra, em formato original e com papel delícia, mas ainda assim... Pegar um Busão de 370 paus por causa de três histórias parece a descrição de um crime hediondo.

Já fiz algo levemente parecido, há pouco tempo, quando peguei Liga da Justiça: Antologia só por causa da maravilhosa JLA #200. Mas isso já é outro nível de conversação. Outro, outro.

Completamente.

(...)

Ps: 🤔

sexta-feira, 12 de maio de 2023

Até mais, Guardiões da Gunnláxia


Guardiões da Galáxia Vol. 3 passa a nítida impressão de um James Gunn tirando um peso enorme das costas. Compreensível. O filme representa o fechamento de um extenuante ciclo criativo e pessoal. Fora a pressão, o ritmo industrial e a saturação que assolaram o MCU nos últimos anos, cabe lembrar que o cineasta conheceu o céu e o inferno do showbiz em tempo recorde — com direito a um raríssimo "descancelamento" no processo. Mesmo com o cenário desfavorável e as malas já desfeitas na casa nova, o filme parece alheio a tudo isso: Guardiões da Galáxia Vol. 3 é espetacular. Para mim, o pipocão do ano até aqui. Mas com profundidade. E conferindo um sutil senso de conclusão à trilogia.

Senso de conclusão, não uma conclusão per se, claro. Afinal, é da Marvel que estamos falando.

Gunn finalmente realiza a catarse que vinha tramando desde 2014. Despede-se em grande estilo e ao mesmo tempo mostra que guardou o melhor para o final. E por que guardou. Vamos combinar, o sujeito é um prodígio neste segmento. Não é todo mundo que consegue amarrar tantas pontinhas soltas, alinhar a continuidade da série própria com a cronologia-matriz, desenvolver e pontuar a jornada pessoal de pelo menos oito personagens do núcleo principal e ainda entregar o fanservice de ação e efeitos alucinantes que se espera e mais. Vol. 3 conduz tudo numa sintonia tão fina que passei pano para as eventuais deficiências com um sorrisão estatelado no rosto.

Como já comentei antes, uma das qualidades mais bacanudas do cinema-gibi de Gunn é o bizarro, o ridículo e o colorido assumidos em toda a sua glória. E isso é praticamente o código-fonte de uma HQ de super-herói. Os tons exagerados e lúdicos montam o palco perfeito para a violência demencial e até mesmo o body horror do velho Gunn veterano da Troma.

Neste sentido, fazia tempo que não via o PG-13 levando tanta estocada de um diretor. Desde o Duas-Caras, para ser exato.


Na premissa, a comunidade de Lugar Nenhum é atacada por um superser e um dos Guardiões acaba ferido gravemente. Dali em diante, é aquela mesma pegada space road movie, com os heróis correndo contra o tempo para salvar a vida do amigo. Simples assim. E método-Stan-Lee-de-criar-roteiros assim. Se foi intencional ou não, vai saber. Mas há nesta síntese uma beleza poética para gibizeiro que devorava Marvel durante os anos 1970-1980 nenhum botar defeito. E isso não se encontra mais nem nos quadrinhos atuais, meu chapa.

É notável a facilidade do diretor em dialogar com todo tipo de público — tanto que, nos minutos iniciais, pensei seriamente em mudar de cadeira para fugir da tagarelice de um grupo de menininhas que estava na fileira de trás, mas, ao que parece, o filme foi universal o suficiente para calar engajar todas elas, que passaram a se expressar apenas nos momentos adequados. Idem para os tiozões do zap que estavam ao lado. Isso teve muito a ver, principalmente, com uma das marcas registradas de Gunn: as piadinhas.

Elas estão mais bem inseridas, embora algumas ainda se estiquem demais após a punchline. O que foi um problema para mim, mas não para a maioria na sala, que se mijou de rir. Então fechou. Ainda mais porque elas não atropelam as pausas dramáticas e emocionais, uma patinada recorrente em todo o catálogo da Marvel Studios. Aqui, as cenas sérias foram devidamente respeitadas, sendo, de longe, as mais bem elaboradas da filmografia do diretor. Algumas triscam perigosamente a linha do melodrama, mas ao menos dois momentos são de arrasar até os corações mais gélidos. Mesmo.

Ainda nesse toma lá/dá cá de altos e baixos: música demais. Sei, sei, a franquia dos Guardiões resgatou a trilha jukebox para o mainstream, piriri, pororô. Mas, de novo, é música quase o tempo inteiro. E obedecendo a regra, já estava meio que repensando a experiência e o cara me vem com as clássicas "We Care a Lot" e "No Sleep Til Brooklyn" — esta última rolando no talo durante uma das sequências de porradaria mais eletrizantes do MCU.

Acertou em cheio o meu Calcanhar de Aquiles Funk Metal.


Na já extensa galeria de vilões do MCU, é seguro afirmar que o Alto Evolucionário merece um lugarzinho lá no... alto. O ótimo Chukwudi Iwuji defende com paixão as motivações de seu personagem e constrói uma figura calculista e absolutamente cruel. Com talento ímpar, ele vai preenchendo várias camadas do perfil unidimensional do geneticista. Há uma cena de derrotismo intelectual que é simplesmente fantástica. Logo se vê que aquilo não é material Hollywood. Não mesmo.

Em que pese sua grande atuação e mais o surrealismo de ver a Contraterra numa telona, o visual do personagem, um tanto cospobre, não ajudou. O jeito foi abstrair e curtir a piadinha com um ícone do cinema-porrada oitentista. Aquela foi boa.

Will Poulter, por sua vez, teve a ingrata missão de personificar um Adam Warlock que de jeito nenhum é o Adam Warlock. Pelo menos, não aquele que estou olhando agora na lombada de Guerra Infinita. Criado pelos Soberanos para se vingarem do balão que tomaram dos Guardiões no início de Vol. 2 (olha outra ponta amarrada aí), o personagem é meramente uma muleta com a mecânica de qualquer variante do Superman. Aliás, aquilo seria um trabalho para o Gladiador, se Kevin Feige não fosse tão FRANGOTE com qualquer coisa ligada aos X-Men nos cinemas. #prontofalei

Mas, aí, consigo ver esse Adam Warlock amadurecendo e virando Adam Warlock um dia.

Em relação aos Guardiões como um todo, rola mais uma vez aquela admiração pelo que a Marvel construiu ao longo dos anos. O ambiente de trabalho deve ser incrível. A química de todos em cena soa tão natural quanto poderia. O Peter Quill deprezaço de Chris Pratt, a Gamora resetada de Zoe Saldaña, a Nebulosa upgradeada de Karen Gillan, o Groot mais parecido com o Vin Diesel até agora, o Drax nonsense de Dave Bautista e até a despropositada Mantis de Pom Klementieff funcionam por serem disfuncionais. É a vitória dos outsiders. E viva as diferenças.

E na nota mental-marvete, os Saqueadores ganharam seu melhor visual nesta saideira, lembrando até a equisitice da velhusca Legião Alien. Cof, cof.


E entre tantas ramificações e amarrações, o filme é do Rocky Racum. Malandramente, Gunn protelou por anos até revelar a sua origem cinematográfica — diferente das HQs — e foi um golaço. É emocionante, é impactante, é visceral. James Gunn escolhe não aliviar para o espectador em nenhum momento. O resultado é corajoso e incomum vindo de um blockbuster. Especialmente difícil para quem gosta de animais, mas levanta uma discussão urgente e necessária.

São soberbas as performances vocais de Bradley Cooper e de Linda Cardellini (a Laura Barton) no papel da doce lontrinha Lylla. Que, por sinal, trocou de espécie. Já o morsa Teefs/Wal Russ ficou igualzinho. E certamente o maravilhoso quadrinho WE3: Instinto de Sobrevivência, de Grant Morrison e Frank Quitely, foi uma grande referência para o diretor.

Será que um dia ele volta? Foi Gunn demais enquanto durou...

segunda-feira, 18 de abril de 2022

Guns, Love and Thunder N' Roses

Detratores e amantes de Thor: Ragnarok, treimei-vos e regozijai-vos: aportou o trailer de Thor: Amor e Trovão.


É como receber uma transfusão do sangue do Taika Waititi chapado de LSD. Tem o aspecto da fanfarronice, incorreção e otimismo inabalável, que, misturado ao hino dos gunners (e esse deve ter sido o cheque mais gordo que Slash recebe desde 1996), dá uma sensação meio James Gunn à coisa toda. Finalmente vemos a Natalie Portman como a poseur Thor Jane Foster e ainda não dá pra ver o Christian Bale soterrado sob quilos de látex como o temível Gorr, mas a referência ao Carniceiro dos Deuses comparece, em alto e bom som.

Oito de julho (?) estarei lá. Tudo pela pipoca & guaraná.

quinta-feira, 30 de maio de 2019

Um


Dizem que a jornada é mais importante que o destino. Só esqueceram de avisar aos cineastas Joe e Anthony Russo. Vingadores: Ultimato entrega tudo que o público médio não-estúpido espera de um blockbuster de qualidade (e mais), além de concluir espetacularmente as três primeiras fases do universo cinematográfico da Marvel Studios. É o auge de um trabalho ousado e faraônico que levou onze anos num projeto inédito até aqui em dimensão, capital humano e conquistas técnicas.

Para um velho leitor de gibis, a recompensa maior é ver na telona vários daqueles conceitos malucos e infilmáveis até há alguns anos funcionando como se tivessem nascidos pra isso. Neste sentido, é o filme mais eficiente já realizado no gênero, com um Taa II de vantagem sobre os demais. Acima de tudo, por entender que não se trata apenas de som e fúria, mas também de coração, altruísmo e sacrifício, a quintessência dos quadrinhos de super-herói desde sempre. Ultimato não cede um milímetro desses fundamentos, em maior parte, veja só, de raiz marvete.

Heróis que são pessoas antes de tudo e com cada um fazendo a diferença no resultado final; uma admirável preocupação pelo estado psicológico geral; tempo e espaço para cada personagem respirar e se redescobrir; narrativa que sabe onde enxugar e o que priorizar; trama imprevisível no ponto de partida, na condução e na conclusão sem reviravoltas mágicas; e tridimensionalidade: cada integrante do núcleo principal, seja herói, vilão ou zona cinza/azul/verde, tem suas motivações pessoais e age de acordo.

É notável como os roteiristas de Christopher Markus e Stephen McFeely, que também assinam Vingadores: Guerra Infinita, conseguem administrar tantos personagens e variáveis. E ainda manter o foco numa premissa complexa para os padrões mainstream e, por isso mesmo, potencialmente desastrosa. De forma sucinta, o roteiro exerce sua lógica interna apoiado em extrapolações simples, cobrindo assim os pontos cegos enquanto leva o espectador para a brincadeira.

No fim, Ultimato não só se apresenta como uma sequência digna para Guerra Infinita, como expande seu conflito e aumenta as apostas.

O filme tem três atos divididos por um exercício de estilo brutal. O 1º terço amarra as pontas deixadas pelo longa anterior em tempo recorde e investe com mão pesada no drama. Num clima funesto, os sobreviventes tentam juntar os estilhaços de um mundo com 50% a menos de seres vivos e todos os estragos decorrentes disso. A 2ª etapa sobe o tom partindo de um princípio bem difundido na ficção pop - mas com uma dinâmica deliciosamente... quadrinhos - e faz uma verdadeira celebração para quem acompanhou os filmes da Marvel todos esses anos. Já o arco final é a experiência Splash Page de George Pérez definitiva. É todo o pay-off e o fanservice que existem no final do arco-íris. Sangue de Kirby tem poder.

Quase todo o elenco principal está integrado ao seu personagem-avatar num nível Christopher Reeve-é-o-Superman de conversação, além de apresentar suas melhores performances até aqui: Jeremy Renner zera o até então subaproveitado Gavião Arqueiro num bem-vindo acerto de contas com o roteiro, Karen Gillan extrai ainda mais camadas da hermética Nebulosa, Paul Rudd precisa fazer muito em muito pouco tempo e o Homem-Formiga dá conta, Scarlett Johansson se atira, literalmente, na evolução de "Nat" Romanoff, o Capitão América de Chris Evans é a melhor personificação do herói clássico que poderíamos ter hoje e Robert Downey Jr. fecha o ciclo com a redenção do personagem de sua vida.

Chris Hemsworth, por sua vez, tirou a sorte grande. Thor foi um dos poucos que mantiveram uma saga própria nos dois filmes. Em Ultimato, confesso, o susto inicial foi grande, porém coerente. Plus: agora sim o loiro está parecendo um Viking.

E a Situação-Hulk. Personagem que a Marvel Studios penou para achar o tom na telona, algo que só aconteceu em Thor: Ragnarok, quando já era tarde demais para qualquer pretensão cinematográfica do Golias Esmeralda & mitologia. A expectativa por uma virada foi lá pro caixa-prego após a ignorada sistemática em Guerra e agora, em Ultimato.

Pensando bem, isso já vinha sendo estabelecido desde Vingadores: Era de Ultron (2015), com a infame derrota do Verdão para o Hulkbuster (Hulkbusters e esquadrões Caça-Hulk existem para serem esmagados pelo Hulk, oras!). Seus poderes nos gibis nunca foram adotados pelo UCM: nada de saltos quilométricos, palmada sônica, fator de cura e o mais importante e muda-vidas, o "quanto mais furioso, mais forte o Hulk fica". O que sobrou é um Hulk limitado e em estado de calma - em Ultimato, em estado de calma baiana. Mark Ruffalo é um sujeito boa-praça, mas nem de longe é um Dr. Bruce Banner. A trama ainda dá alguma continuidade à sua cronologia nas HQs, despejando o personagem direto na fase do Hulk inteligente, o que resulta apenas e tão somente num Ruffalo Verde. Um Hulkffalo.

Paradoxalmente, é dali que sai uma das referências mais bacanas aos quadrinhos - a clássica imagem do Hulk em Guerras Secretas. E outras, que não sei bem se foram referências de fato ou apenas dissonâncias em minha cachola de gibizeiro: o Verdão doando o braço em Planeta Hulk, a aventura espaço-tempo-apoteótica de Vingadores Eternamente, o "1" do Dr. Estranho para Tony Stark paralelo ao timing de Adam Warlock para o Surfista Prateado em Desafio Infinito, Steve Rogers e Gail no final de Supremos 2 e por aí vai. Essas vieram fluídas e precipitadas como lembranças de velhos amigos. E eu agradeço ao filme por isso.

Surpreendente mesmo foi o resgate de dois grandes personagens por dois atores maiores que a vida: Tilda Swinton reprisando a Anciã e Robert Redford novamente como Alexander Pierce. Redford já havia encerrado a carreira em meados de 2018, mas voltou atrás no final do mesmo ano. Esqueça a mera condição de filme-pipoca. Isso já é cinema grande, meu chapa.


Josh Brolin pode não ter percebido ainda (ou é modesto demais para admitir), mas acabou por personificar um dos maiores vilões do cinema. Thanos é fascinante, perspicaz, tem a sua cota de honra distorcida e acredita piamente que está do lado certo da História. Ameaçador e absurdamente poderoso, Thanos protagoniza, fácil, as melhores e mais engenhosas lutas super-heroísticas já feitas até aqui. Mesmo a Capitã Marvel de Brie Larson - um tanto deslocada pelos cameos pontuais - teve seus melhores minutos numa telona, incluindo aí seu filme solo. O ponto alto, claro, é sua frenética e nervosíssima luta com o Titã Louco.

Há pelo menos uns três ganchos antológicos durante a luta de Thanos contra a "Trindade" - também conhecida como Vingadores Primordiais. E fazia tempo que não via uma sala de cinema virando uma arquibancada em final de campeonato. Especialmente no momento "Capitão, o Digno". Memorável.

Quando Jim Starlin criou Thanos no início da década de 1970, a gênese do Titã não indicava uma carreira muito promissora. O autor mesmo comentou: "Você pensaria que Thanos foi inspirado em Darkseid, mas não era o caso quando eu o apresentei. Nos meus primeiros desenhos de Thanos, se ele parecia com alguém, era com Metron. (...) Roy (Thomas) deu uma olhada no cara com a cadeira ao estilo Metron e disse: 'Aumente esses músculos! Se for para roubar um dos Novos Deuses, então roube Darkseid, o único realmente bom!'"

45 anos depois, Thanos está mais vivo do que nunca, coletando Jóias do Infinito em blockbusters bilionários e se tornando uma referência pop no mundo inteiro. E o que é mais incrível: adaptado sem comprometer sua personalidade. Pra mim, que li e reli as sagas de Thanos infinitas vezes, isso é muito além de um presente.

Toda a sequência final reservada ao personagem é sob medida. O momento da transição do Thanos ambientalista para o Thanos niilista é de arrepiar. Era o passo que faltava para o... Dark Side. E ainda corrobora os pensamentos de Jim Starlin sobre uma futura abordagem da Senhora Morte, a convidada que faltava. Promissor como parece.

Já se vão onze anos desde que saí daquela sessão de Homem de Ferro com um enorme sorriso no rosto e a cabeça fervilhando em pensamentos. Alguns viraram texto; outros, atrelados a uma certa melancolia por tempos idos, foram para o mesmo cantinho da memória que já serviu de palco para grandiosas batalhas emprestadas das páginas dos gibis. Eu sabia que ali era o máximo que o cinema real se aproximaria dos quadrinhos e estava mais do que satisfeito com aquilo. Filme após filme, desafio após desafio, a Marvel Studios foi superando aqueles limites - em maior ou menor grau e com resultados variáveis, mas sempre com bom senso, respeito às duas artes e, principalmente, coração.

Vingadores: Ultimato é sangue, suor e lágrimas. O ápice de uma autêntica odisséia cósmica (epa!) e o registro de que um dia duas formas de arte chegaram tão perto que quase convergiram.

Mesmo sendo o mais épico, ambicioso e visualmente deslumbrante, claro, não é um filme perfeito. Capitão América: O Soldado Invernal (2014) segue no topo da minha lista. E ainda tenho um carinho todo especial por Os Vingadores (2012) pelo impacto sobre este leitor ad eternum de Heróis da TV. Junto com Guerra Infinita, Ultimato habita n'algum lugar no éter entre esses dois.

Algo a se avaliar com o tempo. E com sessões infinitas.