Com a Edição Absoluta de Batman: Asilo Arkham, a Panini deu uma boa perspectiva do cenário atual do mercado de HQs. Por mais que a "nova tabela" dos gibizinhos venha causando estrago nos últimos anos, ainda é acachapante a naturalidade com que se lança algo com preço acima dos outrora virginais duzentos mangos. E sem direito a chazinho de "BLACKPANINI" *. É muito louco: omnibus e demais cases luxuosos estreando —e triunfando— no Brasil em meio a uma das piores crises econômicas de sua História.
Fico imaginando se um dia vamos rir disso, como rimos hoje, sei lá, das cores psicodélicas dos gibis da Bloch ou dos nomes abrasileirados que os personagens americanos ganhavam aqui. Provavelmente não.
Embora todo o segmento tenha encarecido de forma sem precedentes, é verdade que a variedade do material também deu um salto em direção aos padrões da matriz gringa. Ainda falta muito chão até chegar lá, mas já é interessante poder optar por um tomo bíblico compreendendo fases inteiras ou pelos práticos TPs coletando um arco por vez. Claro, a caça de preços tem papel de destaque nessa conta. E deveria ter mais, afinal vivemos na Era de Conan.
Na nova versão de Asilo Arkham, lançada lá fora em 2019, fica claro o quanto se paga pelo luxo. Nada muito diferente do direcionamento comercial da editora. A história em si é média-metragem de 96 páginas, plus guardas, plus expediente/créditos. Nos extras, bios, textões de Dave McKean, Karen Berger e Grant Morrison (será que traduziram?), estudos de personagens, tratamento inicial do roteiro, artes preliminares e galeria, totalizando mais de 120 páginas de mimos Deluxe.
Tudo dimensionado em big formatão 20.5 x 31 cm com capa alternativa e caixa-luva com as lindíssimas artes de McKean (oh, o pleonasmo). De fato, a edição passaria fácil por um artbook do ilustrador britânico.
O que a suntuosa e luxuriante edição da Panini não traz —e nem trouxe em suas desastrosas edições anteriores— é um dos maiores trunfos da versão da Abril: a fabulosa letrista Lilian Toshimi Mitsunaga.

Quando trabalhou na edição nacional de Asilo Arkham, em 1990, Mitsunaga tinha dez anos no ofício. Até ali já havia feito colaborações marcantes em quadrinhos da Martins Fontes, VHD Diffusion e da própria Abril, mas o espetacular letreiramento de Asilo Arkham foi seu grande momento na época —e, sem dúvida, um dos pontos altos de sua brilhante carreira.
Letreirar as fontes do mestre Gaspar Saladino não é para qualquer um(a). Com a perícia da velha escola, Mitsunaga emulou minuciosamente a tipografia de cada diálogo (balonado ou não), recordatório e inscrição criado por Saladino. Lembrando que, em Asilo Arkham, cada personagem tinha um estilo de letreiramento próprio, como uma forma de refletir o estado psicológico de cada um.
E tudo feito à mão, num irretocável exercício de estilo artesanal.
Lilian Mitsunaga, com sua voz de ASMR e fã do grande letrista John Costanza, dava ali mais um exemplo de evidente amor pelo trabalho sem saber que também daria um banho em todas as preguiçosas versões posteriores de Asilo, mesmo com a infinidade de programas e packs de fontes digitais à disposição hoje.
É verdade que a nova mega-edição traz o melhor trabalho de letreiramento da Panini para Asilo até aqui. Méritos do letrista Fábio Figueiredo, que deu todo o esforço, seriedade e profissionalismo que a incursão exigia. Realmente digno de nota, ainda que, claro, não se compare, até por motivos outros —por exemplo, a (blasfema) "remasterização" das letras originais de Saladino na versão gringa, seguida à risca pela edição nacional.
É a eterna briga da Forma vs. Conteúdo.
Por essas e outras, não me desfaço da minha velha edição por nada. O trabalho de Lilian Mitsunaga em Asilo Arkham segue incomparável. O nível é simplesmente outro. E não é pra menos. Até o Instagram dela é uma delícia letreirística.
* Atualização 24/11:
Sim, teve chazinho de "BLACKPANINI", sim. Fraquinho e requentado, é verdade, mas vamos ser justos.

















