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sexta-feira, 1 de novembro de 2024
Velha Abril Jovem
Vou te dizer... os cortes e alterações dos gibis da Abril ainda me dão nos nervos, mas a diagramação, o letreiramento e os retoques – em condições 100% artesanais – eram incrivelmente agradáveis aos olhos. Especialmente aos olhos de um moleque com o conforto de um prático formatinho.
Os caras sabiam fazer.
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sexta-feira, 2 de agosto de 2024
Vivendo o bastante para se tornar o vilão
Qualquer semelhança não foi mera coincidência. Robert Downey Jr. é o maior personagem dele mesmo. Foi exatamente como soou pra mim o anúncio de seu retorno ao MCU como o Dr. Destino sob a direção dos irmãos Russo no vindouro Avengers Doomsday. Notícia, aliás, que estourou bolhas mundo afora com uma virulência tão grande que quase arremessou o então hypado Superman de James Gunn de volta para Krypton.
Que a Marvel sabe causar, isso sabe. Com a internet abarrotada de memes, teorias e especulações (até a Forbes!), nunca o monarca da Latvéria ficou tão evidência e nem foi tão debatido desde a sua criação em 1962. O que é ótimo em certos aspectos, mas a que custo?
A escalação só não me surpreendeu mais do que a ovação da plateia, ao invés de ovadas na direção do Kevin Feige. O Doomney tem altíssimas chances de manchar o trabalho do ator no memorável primeiro run da Marvel Studios, além de comprometer a reestreia em grande estilo de um ícone da cultura pop – já contei que sem Dr. Destino, sem Darth Vader? Isso pra não falar nos outrora incensados Anthony e Joe Russo, despejando todas as suas fichas numa cartada pra lá de arriscada.
Por mim, esqueciam esse nonsense e resgatavam o Julian McMahon do limbo. Com todos os problemas de Quarteto Fantástico e Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado, o australiano certamente não era um deles. Quem não o assistiu em Nip/Tuck, recomendo uma espiadela.
Claro, o objetivo era abalar as estruturas da SDCC com uma reescalação-bomba e provocar aquele impacto que a Disney/Marvel buscam – e precisam – tão desesperadamente. Sem problema. Duvido que o telefone do Michael Fassbender estivesse tão ocupado.
O que não pode é misturar os transistores. Aí vira Amálgama (embora, admito, tenha algum guilty pleasure por essa trasheira). Isso já sabia desde guri. O máximo de interação que o Homem de Ferro e o Dr. Destino deviam se permitir estava impresso em Grandes Heróis Marvel #11 e em sua "continuação", na edição #41.
São duas aventuras divertidíssimas. Leitura altamente recomendável para curar a ressaca pós-anúncio.
Foi criado ali um antagonismo redundante, porém bacana: Victor von Doom tinha em Tony Stark um 2º rival na seara tecnológica, para os períodos em que Reed Richards estivesse, sei lá, na Zona Negativa combatendo o Aniquilador, em alguma incursão pelo Omniverso ou algo parecido. O componente de espionagem industrial/política vinha de bônus e sem a maletice, arram, cu de ferro do marido da Sue.
Se quisessem mesmo reaproveitar bem o Downey Jr., poderiam simplesmente produzir um prequel nos moldes de Viúva Negra. Material bom é o que não falta. O 1º da minha lista seria a sensacional fase de David Michelinie, Bob Layton e John Romita Jr. no título do Latinha.
Thriller de ação/espionagem com os irmãos Russo na direção. Não tem como errar. De nada.
Do jeito que está, fica difícil passar pano para a demolição de um legado. Aí só posso concordar com nosso croata favorito.
The most adequate thing I can post today! I am only sorry I haven't put more pigeons there.
Publicado por Goran Parlov - Art em Domingo, 28 de julho de 2024
Tão cruel quanto pessimista. Fico com o relator-desenhista.
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quarta-feira, 1 de julho de 2015
Danvers Blues
Com toda justiça tardia, Miss Marvel finalmente seria a estrela de uma nova edição do Coelhinhas. Essa prometia. Porém, esses planos terrenos foram adiados após uma revisitada incidental numa boa parte da sua cronologia.
Em tempos de feminismos demagógicos e contraditórios, em que os Manos Warner suam a camisa pra encaixar uma diretora no filme da Mulher-Maravilha e onde vemos manifestações dúbias como a Marcha das Vadias e bobagens como o Femen e o Teste Bechdel, a linha do tempo da Miss Marvel pode servir como um exemplo do quão pode dar errado uma personagem feminina sendo escrita por homens. Olhando em perspectiva tudo o que a heroína atravessou num período de três décadas, não tive dúvidas de que se trata de algo que não pode ser ignorado. Pelo contrário... é objeto de estudo.
"Play it, Sam".
Miss Marvel, Binária, Warbird, Capitã Marvel... Carol Danvers é a personagem mais trágica da Marvel. Não tem pra Jean Grey, Elektra Natchios, Wanda Maximoff ou Natasha Romanova. A trajetória de Carol é triste e dramática. Deprimente mesmo. E um exemplo surreal de tenacidade tanto para uma editora negligente quanto para seus leitores, inertes sob a eterna sombra mod de outra loira assombrada das HQs.
Muitos dizem que a Miss Marvel foi uma tentativa da Marvel de criar sua própria Mulher-Maravilha. Em termos de estética e apelo, a lógica parece irrefutável, mas em termos de planejamento editorial, a teoria vai pro espaço em velocidade warp.
Criada em 1968, Carol Danvers era pouco mais que uma damsel in distress para o Capitão Marvel. Descontinuada abruptamente no ano seguinte, ela foi mais uma que conheceu de perto o significado da expressão "depósito das ideias". Reapareceu apenas em 1977, mas com um belíssimo plano de carreira: agora ela seria uma super-heróina com título próprio e também a garota-propaganda da Marvel no apoio à luta pelos direitos das mulheres - e ver o J. Jonah Jameson assumindo o papel do machão chauvinista ainda hoje é impagável.
Com a carreira em franca ascensão, Chris Claremont assume o título na 3ª edição, levando o run até seu final, na 23ª - um cancelamento precoce e aparentemente de última hora, com a seção de cartas enfileirando promessas para a "próxima edição" que nunca veio. As ambições da Marvel-Maravilha ficaram suspensas até o século seguinte para que ela engrossasse as fileiras de uma das estrelas da casa: os Vingadores.
Dali em diante, a heroína passaria por uma vida de torturas indizíveis nas mãos de editores e roteiristas sádicos.
Durante toda sua fictícia existência, Carol enfrentou grandes perrengues pessoais, profissionais, espaciais e dimensionais, mas o período 1980-2000 leva o prêmio. Não sei o quanto daquilo foram tentativas de repaginá-la, o quanto foram deficiências de continuidade ou o quanto foi simplesmente um exercício de sexismo. O fato é que Carol passou por coisas que nem um personagem de The Walking Dead passaria.
E o episódio escabroso com Marcus, escrito por David Michelinie, pode ser considerado o round 1.
Marcus era filho do vilão Immortus (resumindo muito, o Kang de um futuro alternativo) e nasceu num limbo entre as dimensões. Para chegar à dimensão da Terra 616, o sujeito simplesmente impregnou a Miss Marvel para nascer nesse mundo. Resultado: Carol, recém-integrada aos Vingadores, sofreu uma gravidez de nove meses comprimida em três dias para dar a luz ao bebê Marcus. Este, após o nascimento, amadureceu igualmente em velocidade acelerada. No fim, ele acabou retornando ao limbo, mas levando consigo uma perdidamente apaixonada Miss Marvel!
Quem diria que aquele inofensivo papo na praia com a Feiticeira Escarlate resultaria num futuro negro tanto pra uma quanto pra outra?
Recapitulando então: Miss Marvel largou tudo para ser a mulher de um cara que ela acabou de dar a luz. Mas calma, que a porrada ainda não é essa.
Entra em cena mais uma vez Chris Claremont, que ficou bastante insatisfeito com os rumos da personagem. Talvez tentando remediar aquela bizarra situação enquanto justifica a atitude incoerente de sua ex-paladina liberal-feminista, o escritor deu uma inestimável contribuição à máxima "a emenda ficou pior que o soneto". Na solução apresentada por seu roteiro, Carol estava o tempo todo hipnotizada por Marcus - e não no sentido figurado.
Não tinha como ficar pior.
Em suma, Miss Marvel teve seu corpo brutalizado para ser barriga de aluguel e dar a luz a um sujeito que mais tarde a estupraria à revelia num limbo (!). Perto desse, o Doutor Luz fica parecendo um monge capuchinho.
E vamos ao round 2...
Carol eventualmente volta à Terra (seis meses depois), sem lenço, sem documento, sem Vingadores e sem maiores explicações. A recepção de boas-vindas fica por conta de Vampira, então uma vilã estreante das mais ameaçadoras, que comete contra ela um dos maiores crimes impunes da Marvel em todos os tempos.
Nesse ponto cabe algumas breves considerações sobre os efeitos desse acontecimento nos anos que se seguiriam:
1.0 - É sintomático que um dos momentos mais marcantes e icônicos da personagem, que reverberou tanto em outras mídias quanto em saudáveis atividades esportivas, não tenha sido mostrado na época. Originalmente, o ataque foi apenas mencionado no texto de Claremont - fato muito mal remendado 11 anos depois, com os cacos de um roteiro não-finalizado em uma história terrível. Pobre Carol, maltratada até pra sofrer.
1.1 - Irônico observar hoje o quanto isso alavancou a popularidade da então baranguíssima Vampira - promovida a heroína e até a sex symbol - e o quanto serviu pra enterrar ainda mais a carreira da outrora promissora Miss Marvel.
Após uma temporada em coma, sem memória e sem poderes, Carol recebe alguma reabilitação de Charles Xavier, mas fica com profundas sequelas, como a perda da ligação emocional com sua família e seus amigos. Incorporada aos X-Men, Carol teve pouco tempo pra curtir a mansão X: foi capturada pelos aliens da Ninhada e submetida a um violento procedimento de reestruturação genética. Iniciava ali a sua fase como a poderosa Binária. Mas poder ampliado é vendaval e ela logo se viu rebaixada ao nível da Cristal.
Pensando bem, esses são os rounds 2, 3 e 4 juris et de jure.
Na lona mais uma vez, inexplicavelmente, nossa super-heroína retorna aos Vingadores - os mesmos que davam tchauzinho enquanto ela ia embora com Marcus pro limbo. Velho uniforme, novo code: Warbird, em homenagem aos caças norte-americanos da 2ª Guerra (seus favoritos). Na troca de mansões, Carol leva de brinde um lindo bar com uma farta adega - o que é no mínimo arriscado, visto que um dos frequentadores do lugar é um feliz entusiasta de tais apetrechos.
Após tanta pancada no céu, na terra e até no limbo, não é surpresa a natureza do próximo round:
Carol mergulha de cabeça numa interminável espiral etílica, dando início a uma de suas fases mais sombrias. Apesar das várias tentativas de ajuda de Tony Stark (num retrato angustiante, mas bem realista do estado de sobriedade), a negação mostra que é mesmo a maior inimiga do autocontrole.
Alcoolismo is a bitch.
A paranoia com suas oscilações de poder, as visitas furtivas ao barzinho da mansão e o desespero em provar seu valor formam uma combinação desastrosa. Carol não resiste nem a uma enxugada numa aguardente kree durante uma missão na qual só o que estava em jogo era o destino da Terra. De bônus, quase mata o Dentinho.
O resultado veio rápido e fulminante.
Esse foi o lead da minissaga Vingadores versus Krees, de Kurt Busiek e George Pérez. A sequência do confronto final entre os heróis e um grupo terrorista kree é de tirar o fôlego, como é de se esperar vindo da clássica dupla. Com a conhecida explosão de detalhes e a dinâmica frenética de um embate épico, essa foi uma das grandes batalhas dos Vingadores.
O que mais me marcou, contudo, foram as breves intervenções de Carol, inseridas em meio às heróicas cenas de ação. São alguns dos momentos mais cruéis e impiedosamente tocantes que já li num gibi.
Ao contrário de seus ex-colegas de equipe, lá estava uma Miss Marvel impotente, solitária e refém de si mesma, protagonizando uma das lutas mais perdidas das HQs.


Literalmente o fundo do poço - ou do beco - pra quem ficava zigue-zagueando galáxia afora em seus tempos de Binária. A incomum escolha para a condução da aventura também serviu sob medida para o seu desfecho.
Mas o que seria uma saída fácil para os problemas de Carol não se configura - felizmente, do ponto de vista narrativo. Afinal estamos falando de dependência alcoólica aqui. Não existem saídas fáceis, tampouco individuais. Portanto, ainda acompanhamos a Miss Marvel e seu probleminha crônico se esgueirando por mais algumas edições, dessa vez no título solo do Homem de Ferro - quem mais?
Sem dúvida nenhuma, com grandes traumas vêm grandes responsabilidades. O círculo finalmente é fechado, dignamente e com acerto de contas. E principalmente, marca o fim de uma longa e dolorosa via crucis percorrida pela heroína.
Às vezes a Marvel escreve errado por linhas tortas. O porquê disso tudo ter ocorrido com uma personagem com evidente potencial pop é, para mim, um mistério. Fico feliz em ver que não sou o único a se horrorizar com a caótica trajetória de Carol. E fico ainda mais feliz pelo seu rehab editorial. Claro, ela enfrentou alguns problemas sérios depois disso, mas nada desmerecedor de sua importância conceitual.
Atualmente, recém-saída de um bom run escrito por Kelly Sue DeConnick, a heroína trocou mais uma vez de codinome (Capitã Marvel, em homenagem ao saudoso Mar-Vell), cedendo seu antigo Ms. Marvel para a aclamada série da Kamala Khan e sendo enfim tratada como deveria.
Nada mais justo para uma personagem que sobreviveu tantos anos sob o fogo cerrado de seu maior e mais insidioso inimigo, tão bem metaforizado naquela profética edição #21 de sua primeira série solo.
'Nuff said, girl!
Direto das caixas do tempo dos gibis:
Edições GEP #21 - Sensacional o Nôvo Capitão Marvel (1970)
Heróis da TV #3 (setembro de 1979)
Grandes Heróis Marvel #17 (1ª série, setembro de 1987)
Heróis da TV #100 (outubro de 1987)
Superaventuras Marvel #64 (outubro de 1987)
Superaventuras Marvel #69 (março de 1988)
Marvel 2000 #3 (março de 2000)
Grandes Heróis Marvel #6 (2ª série, julho de 2000)
Homem-Aranha #17 (Super-Heróis Premium, dezembro de 2001)
Ps: a Editora Salvat irá publicar nos volumes de capa vermelha as primeiras histórias de Carol na fase DeConnick, além de suas primeiras aventuras solo da Era de Bronze. Já estou no aguardo ansiosamente.
Em tempos de feminismos demagógicos e contraditórios, em que os Manos Warner suam a camisa pra encaixar uma diretora no filme da Mulher-Maravilha e onde vemos manifestações dúbias como a Marcha das Vadias e bobagens como o Femen e o Teste Bechdel, a linha do tempo da Miss Marvel pode servir como um exemplo do quão pode dar errado uma personagem feminina sendo escrita por homens. Olhando em perspectiva tudo o que a heroína atravessou num período de três décadas, não tive dúvidas de que se trata de algo que não pode ser ignorado. Pelo contrário... é objeto de estudo.
"Play it, Sam".
Miss Marvel, Binária, Warbird, Capitã Marvel... Carol Danvers é a personagem mais trágica da Marvel. Não tem pra Jean Grey, Elektra Natchios, Wanda Maximoff ou Natasha Romanova. A trajetória de Carol é triste e dramática. Deprimente mesmo. E um exemplo surreal de tenacidade tanto para uma editora negligente quanto para seus leitores, inertes sob a eterna sombra mod de outra loira assombrada das HQs.
Muitos dizem que a Miss Marvel foi uma tentativa da Marvel de criar sua própria Mulher-Maravilha. Em termos de estética e apelo, a lógica parece irrefutável, mas em termos de planejamento editorial, a teoria vai pro espaço em velocidade warp.
Criada em 1968, Carol Danvers era pouco mais que uma damsel in distress para o Capitão Marvel. Descontinuada abruptamente no ano seguinte, ela foi mais uma que conheceu de perto o significado da expressão "depósito das ideias". Reapareceu apenas em 1977, mas com um belíssimo plano de carreira: agora ela seria uma super-heróina com título próprio e também a garota-propaganda da Marvel no apoio à luta pelos direitos das mulheres - e ver o J. Jonah Jameson assumindo o papel do machão chauvinista ainda hoje é impagável.

Com a carreira em franca ascensão, Chris Claremont assume o título na 3ª edição, levando o run até seu final, na 23ª - um cancelamento precoce e aparentemente de última hora, com a seção de cartas enfileirando promessas para a "próxima edição" que nunca veio. As ambições da Marvel-Maravilha ficaram suspensas até o século seguinte para que ela engrossasse as fileiras de uma das estrelas da casa: os Vingadores.
Dali em diante, a heroína passaria por uma vida de torturas indizíveis nas mãos de editores e roteiristas sádicos.
Durante toda sua fictícia existência, Carol enfrentou grandes perrengues pessoais, profissionais, espaciais e dimensionais, mas o período 1980-2000 leva o prêmio. Não sei o quanto daquilo foram tentativas de repaginá-la, o quanto foram deficiências de continuidade ou o quanto foi simplesmente um exercício de sexismo. O fato é que Carol passou por coisas que nem um personagem de The Walking Dead passaria.
E o episódio escabroso com Marcus, escrito por David Michelinie, pode ser considerado o round 1.

Marcus era filho do vilão Immortus (resumindo muito, o Kang de um futuro alternativo) e nasceu num limbo entre as dimensões. Para chegar à dimensão da Terra 616, o sujeito simplesmente impregnou a Miss Marvel para nascer nesse mundo. Resultado: Carol, recém-integrada aos Vingadores, sofreu uma gravidez de nove meses comprimida em três dias para dar a luz ao bebê Marcus. Este, após o nascimento, amadureceu igualmente em velocidade acelerada. No fim, ele acabou retornando ao limbo, mas levando consigo uma perdidamente apaixonada Miss Marvel!
Quem diria que aquele inofensivo papo na praia com a Feiticeira Escarlate resultaria num futuro negro tanto pra uma quanto pra outra?
Recapitulando então: Miss Marvel largou tudo para ser a mulher de um cara que ela acabou de dar a luz. Mas calma, que a porrada ainda não é essa.
Entra em cena mais uma vez Chris Claremont, que ficou bastante insatisfeito com os rumos da personagem. Talvez tentando remediar aquela bizarra situação enquanto justifica a atitude incoerente de sua ex-paladina liberal-feminista, o escritor deu uma inestimável contribuição à máxima "a emenda ficou pior que o soneto". Na solução apresentada por seu roteiro, Carol estava o tempo todo hipnotizada por Marcus - e não no sentido figurado.
Não tinha como ficar pior.
Em suma, Miss Marvel teve seu corpo brutalizado para ser barriga de aluguel e dar a luz a um sujeito que mais tarde a estupraria à revelia num limbo (!). Perto desse, o Doutor Luz fica parecendo um monge capuchinho.
E vamos ao round 2...

Carol eventualmente volta à Terra (seis meses depois), sem lenço, sem documento, sem Vingadores e sem maiores explicações. A recepção de boas-vindas fica por conta de Vampira, então uma vilã estreante das mais ameaçadoras, que comete contra ela um dos maiores crimes impunes da Marvel em todos os tempos.
Nesse ponto cabe algumas breves considerações sobre os efeitos desse acontecimento nos anos que se seguiriam:
1.0 - É sintomático que um dos momentos mais marcantes e icônicos da personagem, que reverberou tanto em outras mídias quanto em saudáveis atividades esportivas, não tenha sido mostrado na época. Originalmente, o ataque foi apenas mencionado no texto de Claremont - fato muito mal remendado 11 anos depois, com os cacos de um roteiro não-finalizado em uma história terrível. Pobre Carol, maltratada até pra sofrer.
1.1 - Irônico observar hoje o quanto isso alavancou a popularidade da então baranguíssima Vampira - promovida a heroína e até a sex symbol - e o quanto serviu pra enterrar ainda mais a carreira da outrora promissora Miss Marvel.
Após uma temporada em coma, sem memória e sem poderes, Carol recebe alguma reabilitação de Charles Xavier, mas fica com profundas sequelas, como a perda da ligação emocional com sua família e seus amigos. Incorporada aos X-Men, Carol teve pouco tempo pra curtir a mansão X: foi capturada pelos aliens da Ninhada e submetida a um violento procedimento de reestruturação genética. Iniciava ali a sua fase como a poderosa Binária. Mas poder ampliado é vendaval e ela logo se viu rebaixada ao nível da Cristal.
Pensando bem, esses são os rounds 2, 3 e 4 juris et de jure.
Na lona mais uma vez, inexplicavelmente, nossa super-heroína retorna aos Vingadores - os mesmos que davam tchauzinho enquanto ela ia embora com Marcus pro limbo. Velho uniforme, novo code: Warbird, em homenagem aos caças norte-americanos da 2ª Guerra (seus favoritos). Na troca de mansões, Carol leva de brinde um lindo bar com uma farta adega - o que é no mínimo arriscado, visto que um dos frequentadores do lugar é um feliz entusiasta de tais apetrechos.
Após tanta pancada no céu, na terra e até no limbo, não é surpresa a natureza do próximo round:
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| Alcooooolismoooo! |
Carol mergulha de cabeça numa interminável espiral etílica, dando início a uma de suas fases mais sombrias. Apesar das várias tentativas de ajuda de Tony Stark (num retrato angustiante, mas bem realista do estado de sobriedade), a negação mostra que é mesmo a maior inimiga do autocontrole.
Alcoolismo is a bitch.
A paranoia com suas oscilações de poder, as visitas furtivas ao barzinho da mansão e o desespero em provar seu valor formam uma combinação desastrosa. Carol não resiste nem a uma enxugada numa aguardente kree durante uma missão na qual só o que estava em jogo era o destino da Terra. De bônus, quase mata o Dentinho.
O resultado veio rápido e fulminante.

Esse foi o lead da minissaga Vingadores versus Krees, de Kurt Busiek e George Pérez. A sequência do confronto final entre os heróis e um grupo terrorista kree é de tirar o fôlego, como é de se esperar vindo da clássica dupla. Com a conhecida explosão de detalhes e a dinâmica frenética de um embate épico, essa foi uma das grandes batalhas dos Vingadores.
O que mais me marcou, contudo, foram as breves intervenções de Carol, inseridas em meio às heróicas cenas de ação. São alguns dos momentos mais cruéis e impiedosamente tocantes que já li num gibi.
Ao contrário de seus ex-colegas de equipe, lá estava uma Miss Marvel impotente, solitária e refém de si mesma, protagonizando uma das lutas mais perdidas das HQs.



Literalmente o fundo do poço - ou do beco - pra quem ficava zigue-zagueando galáxia afora em seus tempos de Binária. A incomum escolha para a condução da aventura também serviu sob medida para o seu desfecho.
Mas o que seria uma saída fácil para os problemas de Carol não se configura - felizmente, do ponto de vista narrativo. Afinal estamos falando de dependência alcoólica aqui. Não existem saídas fáceis, tampouco individuais. Portanto, ainda acompanhamos a Miss Marvel e seu probleminha crônico se esgueirando por mais algumas edições, dessa vez no título solo do Homem de Ferro - quem mais?
Sem dúvida nenhuma, com grandes traumas vêm grandes responsabilidades. O círculo finalmente é fechado, dignamente e com acerto de contas. E principalmente, marca o fim de uma longa e dolorosa via crucis percorrida pela heroína.
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Às vezes a Marvel escreve errado por linhas tortas. O porquê disso tudo ter ocorrido com uma personagem com evidente potencial pop é, para mim, um mistério. Fico feliz em ver que não sou o único a se horrorizar com a caótica trajetória de Carol. E fico ainda mais feliz pelo seu rehab editorial. Claro, ela enfrentou alguns problemas sérios depois disso, mas nada desmerecedor de sua importância conceitual.
Atualmente, recém-saída de um bom run escrito por Kelly Sue DeConnick, a heroína trocou mais uma vez de codinome (Capitã Marvel, em homenagem ao saudoso Mar-Vell), cedendo seu antigo Ms. Marvel para a aclamada série da Kamala Khan e sendo enfim tratada como deveria.
Nada mais justo para uma personagem que sobreviveu tantos anos sob o fogo cerrado de seu maior e mais insidioso inimigo, tão bem metaforizado naquela profética edição #21 de sua primeira série solo.

Direto das caixas do tempo dos gibis:
Edições GEP #21 - Sensacional o Nôvo Capitão Marvel (1970)
Heróis da TV #3 (setembro de 1979)
Grandes Heróis Marvel #17 (1ª série, setembro de 1987)
Heróis da TV #100 (outubro de 1987)
Superaventuras Marvel #64 (outubro de 1987)
Superaventuras Marvel #69 (março de 1988)
Marvel 2000 #3 (março de 2000)
Grandes Heróis Marvel #6 (2ª série, julho de 2000)
Homem-Aranha #17 (Super-Heróis Premium, dezembro de 2001)
Ps: a Editora Salvat irá publicar nos volumes de capa vermelha as primeiras histórias de Carol na fase DeConnick, além de suas primeiras aventuras solo da Era de Bronze. Já estou no aguardo ansiosamente.
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sábado, 15 de maio de 2010
Here comes the war

O timing já foi pro saco há duas semanas atrás, mas antes tarde que nunca. A Panini acaba de quebrar o galho daqueles que nunca acharam nos sebos aquela edição que faltava de A Guerra das Armaduras (Hulk #103? Alguém viu uma por aí...?). A saga é Top 5 do Latinha, essencial tanto para fãs quanto para não-iniciados que buscam uma aventura moderna, bem sacada, frenética e altamente cinematográfica. O pacote é honesto: papel LWC, capa cartonada e 212 páginas a R$ 25,90.
Já em abril de 2008 eu fechava um texto implorando por esse encadernado à Panini. Foi num especial sobre o arco, na verdade, entitulado A Guerra de Stark.
A título de curiosidade, no post sobre a continuação da saga (A Guerra das Armaduras II, maio/2008), um trecho que escrevi me veio à cabeça logo após assistir o segundo filme:
"A conspiração estava sendo dirigida pelo obcecado Kearson DeWitt, que buscava vingança por achar que Stark roubou o projeto do Homem de Ferro de seu pai, um brilhante engenheiro que morreu na miséria.
Vilão tridimensional, ponderado e, diria até, bem passível de uma adaptação cinematográfica."
Toca alguns sinos, não?
sexta-feira, 23 de maio de 2008
A GUERRA DE MARK III-A / MODELO XIV

Quando as coisas vão mal, nada melhor que uma guerra. Ou duas. Até nisso a trajetória do Homem de Ferro avança em paralelo com o sistema tecnocrata que defende (já concluindo aqui o rompante Jabor'esco). E no caso do Latinha, as coisas estavam indo realmente mal. Após A Guerra das Armaduras, a clássica dupla formada por David Michelinie (argumento) e Bob Layton (desenhos e arte-final) permaneceu no título por algumas poucas edições. A saideira de Michelinie foi na divertida Iron Man #250 (lançada em GHM #41) e Layton apenas roteirizou esporadicamente. Com o rodízio de profissionais duvidosos que se seguiu - gente do calibre de Fabian Nicieza, Dwayne McDuffie e o terrível Herb Trimpe - praticamente todos os ganchos em andamento foram descontinuados em edições pra lá de capengas.
Foi neste clima que estreou a aguardada Guerra das Armaduras II, seqüência notável pela colaboração entre John Byrne e John Romita Jr. Mas antes de reingressar ao campo de batalha, o Vingador Dourado enfrentou algumas turbulências. Na derradeira fase escrita por Michelinie, Tony Stark fez uma série de "acordos" com o governo para escapar dos processos provenientes dos estragos causados na primeira guerra das armaduras. Depois, se aliou a um de seus piores inimigos com resultados desastrosos e, em seguida, foi baleado por uma ex-amante enciumada. Ficou paraplégico nessa (em um cliffhanger digno da novela das oito!), mas se recuperou com o implante de um microchip que substituía as terminações nervosas afetadas. Por fim, um quase-alento: a trégua com o Cap - embora constatando que a velha amizade havia acabado e as coisas nunca mais seriam as mesmas.
Já sem a batuta de Michelinie, o herói ainda teve de assistir sua nova e poderosa armadura sendo destruída por um subvilão de quinta. O que deu lugar à série Mark III-A e ao modelo XIV, o primeiro com o prático "display de interface por neurosistema", permitindo a Stark o acesso remoto às armaduras através de ondas cerebrais, mesmo a grandes distâncias. Uma espécie de embrião do conceito do Extremis.

Originalmente, a solicitação de Guerra das Armaduras II contava com Bob Layton no roteiro e Romita Jr. nos desenhos, mas a parceria durou apenas 1 edição (a sensacional Iron Man #256, publicada no Brasil estranhamente em Wolverine #21, ao invés da Incrível Hulk habitual). Num lance mal-explicado, Layton pulou fora para a Valiant Comics, sendo substituído por John Byrne em cima da hora. Sendo assim, o início oficial da continuação se deu em Iron Man #258 e durou até IM #266 (aqui, Incrível Hulk #127-136).
O arco começa com Stark e Rhodey testando as novas instalações de treinamento - um tipo de Sala de Perigo versão Latinha - e o desempenho de sua mais recente armadura. A seqüência inicial é eletrizante, com Stark controlando duas armaduras ao mesmo tempo contra um droid monstruoso e o traço do Romitinha em sua pegada mais hardcore. Após o "exercício", Stark sente algumas dores estranhas, logo preteridas por um incidente na usina nuclear da Stark Enterprises.Chegando lá, o Homem de Ferro tenta conter um vazamento radioativo e enfrenta ninguém ninguém menos que o Homem de Titânio (morto durante Guerra das Armaduras). Incrédulo, o Latinha dribla o "fantasma" e consegue impedir a tragédia nuclear deslocando o reator inteiro para o fundo do oceano. O Greenpeace não aprovaria, mas...
Depois do sufoco, Stark tenta descansar e sofre um baita lapso de tempo, acordando após 3 dias, em outro estado (!), num quarto de hotel com uma ilustre e deliciosa desconhecida. Por sinal, este é um dos três subplots constantes em GdA II. Os outros dois respondem pela melhor personificação do vilão Laser Vivo e pelo retorno/releitura do adversário mais clássico do Homem de Ferro: o Mandarim.

O estado clínico de Stark se agrava, passando para perda total de coordenação motora e movimentação involuntária. Com isto tudo, o playboy (no bom sentido!) ainda tem de enfrentar a fúria do sindicato dos funcionários da Stark Enterprises, que estão em greve e ameaçam invadir a sede da empresa - revolta fomentada por um ex-empregado sindicalizado e baderneiro de carteirinha (qualquer semelhança com o atual MST é uma triste coincidência). O clímax é algo insólito, com o herói contendo uma multidão de grevistas, ao melhor estilo batalhão-de-choque-de-um-homem-só. Faltou só rolar "Street Fighting Man"... ou "Street Fighting 'Iron' Man".
Após vários exames em uma sala isolada, Stark descobre que estava sendo manipulado através do microchip que lhe possibilitou andar novamente. O microchip foi criado por uma subsidiária "laranja" da Corporação Marrs, dos irmãos Desmond e Phoebe Marrs, notórios desafetos do herói. A conspiração estava sendo dirigida pelo obcecado Kearson DeWitt, que buscava vingança por achar que Stark roubou o projeto do Homem de Ferro de seu pai, um brilhante engenheiro que morreu na miséria.
Vilão tridimensional, ponderado e, diria até, bem passível de uma adaptação cinematográfica.

No geral, a saga mantém uma narrativa acelerada, dinâmica, sem muitas pausas entre um gancho e outro. Mesmo com três plots intensos se desenvolvendo ao mesmo tempo, a unidade do arco é invejável. A reinvenção do Mandarim é simplesmente genial. Com uma roupagem bastante influenciada pelo nosferatu chinês Lo Pan (preciso informar o filme?), ele ainda ganhou a companhia de um ótimo personagem, o enigmático Chen Hsu. É de longe a versão mais interessante e poderosa do velhusco vilão, agora com bala na agulha até pra colocar o infame Fin Fang Foom como seu cão de guarda.
Curiosamente, toda essa linha narrativa transcorre independente das demais. O Mandarim e suas ações nunca chegam a interagir com o Latinha, servindo apenas como intro para a saga posterior - concluída em Iron Man #272 (GHM #48), já sem o nanquim abençoado de Romita Jr. Contudo, acabou rendendo uma edição espetacular (Iron Man #261/Incrível Hulk #130), onde cada página é dividida em duas situações distintas ocorrendo ao mesmo tempo. Uma grande sacada de Byrne, inquestionavelmente em seu auge como roteirista - detalhe que, sem dúvida, faz transparecer o espírito por trás do arco.
Guerra das Armaduras II vence pelos talentos individuais. Não tem qualquer ligação com a primeira aventura e acaba sendo comparativamente inferior - apesar da arte fabulosa e dos vários pontos altos do argumento. Se não fosse pelo final, com uma pancadaria titânica entre dois Homens de Ferro e o calculista DeWitt devidamente 'tunado', nem o nome da saga faria sentido. Fica óbvio que foi apenas uma estratégia comercial, visto que a idéia de uma seqüência tinha boa aceitação por parte dos leitores e o título (um dos mais longevos da Marvel) afundava numa crise interminável após saída de Michelinie.Em seu site oficial, John Byrne chega a comentar a situação Defcon-1 a qual foi submetido pelo então editor da revista, Howard Mackie. Foi o seu melhor dentro de uma deadline absurda. Se isto for levado em consideração, o resultado final passa de ótimo para impressionante. E imperdível, note bem, pela química rara entre Romitinha e Byrne. Para admiradores da composição estética e narrativa da arte seqüencial, é um show de emocionar até o Scott McCloud. Resumindo, ficaria lindo num encadernado em cima da estante.
Há rumores de que a idéia original de Bob Layton para Guerra das Armaduras II - com Romita Jr. no traço - era fora-de-série. Tendo em vista a qualidade da edição única em que os dois trabalharam juntos (a já citada Iron Man #256), só posso imaginar o melhor. Mas isso é algo que jamais saberemos.
Na trilha: Sucking The 70's na agulha do winamp, fazendo a festa stoner aqui.
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terça-feira, 29 de abril de 2008
A GUERRA DE STARK

Bem antes da controversa Guerra Civil, Tony Stark já promovia sua própria guerra particular. Igualmente conturbada e batendo de frente com quem se colocasse em seu caminho - seja o governo, conglomerados industriais, vilões e mesmo seus superamigos. Aliás, esta sempre foi a característica mais interessante do personagem. Seu modus operandi é todo baseado numa visão macro dos eventos e, como nada é tão simples, isto acaba gerando uma intensa batalha interna pra que ele não perca o foco da situação. É mais ou menos como um "daqueles dias" na vida do Jack Bauer... Stark corre na contramão e contra o tempo, faz sacrifícios outrora impensáveis, não raro se vilaniza, mas vai até o fim, não importando os meios ou as conseqüências. Ou as questões éticas e legais envolvidas no processo.
Com esta peculiaridade em mente, é sempre um prazer revisitar uma de suas melhores sagas: A Guerra das Armaduras. Com roteiro de David Michelinie, desenhos de Mark D. Bright e arte-final de Bob Layton, o arco foi publicado no Brasil em 1991, em O Incrível Hulk, edições #102 a #107 (originalmente em Iron Man #225 a #231). A revista, por sinal, andava numa fase escabrosa. Convenhamos, o universo do "Tira-Teima" era puro trash e os desenhos do Jeff Purves pareciam feitos durante um terremoto. Ah, sim... tínhamos também as aventuras dos Novos Mutantes (irc!).
Então, literalmente afirmando, o Homem de Ferro salvava a pátria a cada edição. Michelinie e Layton já vinham de uma marcante cronologia com o personagem, sendo os responsáveis pelas mudanças mais importantes de seu perfil desde sua criação (alcoolismo, variação de armaduras, novos inimigos, etc). Certamente, uma das duplas mais representativas na história do Latinha.
Guerra das Armaduras foi um daqueles grandes momentos, inserindo os valores dúbios que hoje são sua marca registrada. O principal: controle... com mão de ferro.Ah, os trocadilhos.


A história começa com Tony analisando a armadura do vilão Força, derrotado por ele meses antes. Tony descobre que grande parte da tecnologia da armadura foi criada por ele mesmo. Pressupondo uma situação de espionagem industrial, ele investiga o caso e logo chega ao industrial multibilionário Justin Hammer, notório e desleal concorrente da Stark Enterprises. Numa missão digna do roubo da lista NOC, em Missão Impossível, Tony, seu velho camarada Rhodey, o finado geek "Abe" Zimmer e Scott Lang, o Homem-Formiga, invadem os sistemas de Hammer e descobrem que as informações foram roubadas pelo 1º Espião-Mestre, pouco antes de sua morte.
Os dados indicam que a tecnologia foi adotada por vários supervilões em suas armaduras e demais trajes especiais de combate. A lista surpreende o Ferroso, que se culpa pelos inocentes mortos em função do uso criminoso de suas invenções.

Pra piorar, os caras maus não foram os únicos beneficiários, visto que agentes federais também se fartaram no high-tech rapinado - entre eles, o Arraia, os Mandróides da SHIELD, os Guardiões produzidos para o governo por Obadiah Stane ('El' Monge de Ferro, que está em carne, metal e Jeff Bridges no filme) e até num novo - e monstruoso - projeto do exército.
Um detalhe interessante foi Stark e Zimmer coibindo o vazamento da tecnologia pelo ciberespaço (anos antes da popularização da internet), criando um vírus programado para rastrear e apagar todos os dados referentes ao esquema das armaduras. Uma aula de como evitar rombos no roteiro!
Outra boa sacada de Michelinie são os upgrades do Homem de Ferro sendo colocados à prova. Alguns de seus velhos arquiinimigos eram pedreiras na "Era de Prata" (aquela, focada pelo ótimo [e aparentemente incomunicável] Âmago), mas, após a enésima versão da armadura, a maioria não passa de punguistas metalizados perto do Latinha.

A exceção, claro, são os que têm "patrocínio" e contam com suportes técnicos de alto nível - especialmente do governo. E para isto, Tony contava com um equipamento de primeira. Na época, ele tinha como titular o adorado e odiado Centurião Prateado, construído para suplantar o Monge de Ferro. Foi seu maior salto visual e tecnológico até então, ficando atrás apenas da transição Vingador Dourado/Protoclássica. Mesmo hoje, na "Era Granov", seu design soa bastante radical - embora longe de atrocidades conceituais como a armadura SKIN.
"Melhor, mais rápida e mais forte", a armadura era cheia de recursos, batendo facilmente os subvilões e fazendo frente a equipes inteiras de Mandróides e Guardiões - com ajuda de joguinhos duplos por parte de Stark, claro. É neste ponto que vemos um lado não tão heróico do personagem (os tais sacrifícios éticos), que passa a perna em Nick Fury, então diretor da SHIELD. Em uma seqüência antológica de canalhice suprema, ele neutraliza todos os Mandróides da temida superintendência, manipulando o cerco ao Homem de Ferro debaixo do tapa-olho do experiente diretor.
A desconfiança se instala, mas Tony consegue cobrir seus rastros. No entanto, o próximo passo se complica, pois envolve os Guardiões, que estão operando na Gruta, a prisão federal para supercriminosos. E em departamentos do governo, a jurisdição é de Steve Rogers, o Capitão América...Stark e Rogers já se estranharam antes em algumas ocasiões, geralmente associadas à liderança dos Vingadores. Mas em Guerra das Armaduras, essa briga ganhou contornos muito mais pessoais e ideológicos, próximo do que acontece hoje - ironicamente, em lados opostos dos que seriam defendidos em Guerra Civil (aqui, o Homem de Ferro é um cruzado fora-da-lei e o Cap é uma máquina do estado). O resultado do confronto já era previsto, mas o mais importante foi a influência que ele exerceu sobre toda a cronologia posterior.
Sem dúvida, aquele era o início de uma péssima amizade.


Com quase todos os alvos do território norte-americano neutralizados, Stark inicia a missão mais difícil de sua cruzada: "desplugar" Dínamo Escarlate e o Homem de Titânio, seus velhos desafetos de Guerra Fria. Para tanto, dá um merecido descanso ao Centurião e opta pela armadura negra Stealth, mais leve e menos poderosa, mas perfeita para invadir o espaço aéreo soviético sem ser detectado, já que é, por assim dizer, stealth... duh!
Claro que encarar dois pesos-pesados com munição na conta é assinar um atestado de óbito. Mas Stark soube triangular o cenário e se utilizar da notória soberba de seus adversários, especialmente do Homem de Titânio (um anão cabeçudo chamado Gremlin). Além disso, ele preparou algumas supresinhas que fizeram toda a diferença.
Ao final, o Dínamo Escarlate teve seus circuitos destruídos e o Homem de Titânio, aparentemente, foi morto quando o Homem de Ferro elevou sua temperatura ao nível de combustão (quase 20 anos depois, o feioso ainda não reapareceu, então deve ter morrido mesmo).
Stark poderia dar sua guerra como encerrada, não fosse um projeto secreto dos militares que acabava de ser finalizado.

A armadura Poder de Fogo era uma monstruosidade bélica desenvolvida por um velho concorrente de Stark, Edwin Cord, a partir de seus projetos roubados. Era muito mais poderosa do que qualquer modelo da série Mark criado para o Homem de Ferro até aquele momento, incluindo o Centurião Prateado.
A batalha que se seguiu foi a mais eletrizante da saga. "Batalha" não... a surra. Jack Taggert, o homem que operava o Poder de Fogo, foi muito bem treinado e era extremamente violento em combate.
Mesmo após tomar ciência de sua superioridade, Stark não desiste até esgotar todos os recursos, mas é estraçalhado impiedosamente pelo gigante. Gravemente ferido, ele simula sua morte e faz uma retirada estratégica.
É o fim da era do Centurião Prateado.
Com armadura e orgulho destruídos, Tony mergulha de cabeça na garagem. É hora de um novo upgrade: nasce a Neoclássica, que foi uma espécie de retorno às raízes no quesito visual, voltando ao vermelho e dourado básicos, mas anos-luz à frente em sofisticação e desempenho. O novo traje era tão avançado que a revanche contra o temível Poder de Fogo - já totalmente fora do controle dos militares - foi sopa no mel.
A Neoclássica era mais precisa, mais forte e mais rápida que o oponente. De quebra, salvou a vida do inimigo, já derrotado. Em outras palavras... Stark humilhou. Era a saga clássica do guerreiro se fechando em mais um ciclo.
Terminava aí a primeira Guerra das Armaduras, com direito a um epílogo escrito por Michelinie e ilustrado pelo grande Barry Windsor-Smith - um tanto dark, é verdade, mas necessário para não deixar apagar a chama do herói.
Guerra das Armaduras quase não envelheceu após todos estes anos e permanece como um dos momentos mais referenciais na cronologia do Latinha. Obrigatório num destes Maiores Clássicos da vida (alô Panini!).
"Tony Stark tira onda que é cientista espacial, mas também é Homem de Ferro, elétrico! Atômico! Genial! Dura armadura, Homem de Ferro, é lenha pura, Homem de Ferro!"
Hooray!
Hooray!
Assim espero, logo após o rascunhado do filme: Guerra das Armaduras II, por John Byrne e John Romita Jr. É a revolta dos Johns!
Patrô deste post:

Impressionante a cavucada arqueológica do site.
Na trilha: o que mais... "Iron Man", do Sabá, e "Machine Men", do Dickinson.
quinta-feira, 14 de outubro de 2004
DOR DE DENTE HORRÍVEL

É isso aí, amigo. Resident Evil 2: Apocalipse é o primeiro filme que assisti que me deu dor de cabeça (ps.: alterei o local da dor em prol da analogia). Imagina você, no sono dos justos, lá pelas 5:30 da matina, e um filho de Deus dá uma martelada numa bigorna a um palmo do seu ouvido. RE2:A tem ao menos uns 30 "sustos" seguindo essa cartilha. E rapaz... que filme barulhento. Superou até a ópera das arapongas que foi Van Helsing. Assistir isso em DVD com o DTS ativado é suicídio auricular. De qualquer forma, essa via crucis movida a decibéis teve uma certa satisfação: ao meu lado, estavam uns três ou quatro guris se borrando de 5 em 5 minutos. E eu me acabava de tanto rir. Acho que ali aconteceu a primeira explosão de esfíncter anal provocada pela 7ª arte. Momento histórico.
Dirigido pelo estreante Alexander Witt, o filme é a última palavra em montagem music television. Aquelas coisas: edição a 300.000 km/s, efeitos de distorção a rodo, cortes mil, enfim. MTV puro. Na maior parte das cenas de ação mal dá pra ver quem está na tela. Isso é filme pro Barry Allen. Não vou dizer que a escola videoclípica só teve formandos incompetentes, afinal, David Fincher, Guy Ritchie e Zack Snyder estão aí pra honrar a camisa. Mas quando dá errado, o resultado é Witt, o Extremo.

Quem rabiscou o roteiro foi Paul W. "Ainda-vou-bombar" Anderson, que trocou duas de vinte por uma de quarenta. Inicialmente era ele quem ia dirigir RE2:A, mas preferiu assumir o comando de AvP, só pra sentir o gostinho de ser podado por um grande estúdio. Não digo que o filme seria melhor com ele, pois o roteiro também exagerou na massa. A história começa exatamente aonde o primeiro filme parou, com Alice (Milla Jovovich, ainda tirando de letra as cenas de nudez... êlaiá!) despertando no hospital e percorrendo uma Raccoon City totalmente devastada - tudo obra da gananciosa Umbrella Corporation e seus zumbis infectados com o T-Virus.
Ok, quem conhece o game Resident Evil, sabe que esse é o enredo básico do jogo, ao contrário da história anterior. E as peças que faltavam estão lá: os soldados da S.T.A.R.S. abandonados por seus superiores - entre eles o fodão Carlos Olivera (Oded Fehr, fodão), a agente Jill Valentine (Sienna Guillory, gostosa até a última célula-tronco), e o taxista comédia L.J. (Mike Epps, mais um coadjuvante cômico talentoso - acho que devem existir linhas de montagem de coadjuvantes cômicos em Hollywood).
Muito bem. A cidade em quarentena, um muro rodeando todo o perímetro, a mídia no cabresto, e alguns milhares de seres vivos e mortos-vivos descartáveis. Local propício para a Umbrella testar sua mais nova arma: Nêmesis (uma mistura de Monstro de Frankenstein e Rambo, usando a roupa do Pinhead, de Hellraiser). Sua missão é fazer uma queima de arquivo geral e isso inclui os nossos heróis, que estão tentando resgatar a filha do dr. Ashford (Jared Harris, chato pra cacete e igualzinho aquele paralítico de Todo Mundo em Pânico 2), que, em troca, irá retirá-los da cidade.

RE2:A, como toda experiência ruim, tem o seu lado bom. A princesa atordoada Milla Jovovich, por exemplo, é apenas razoável como atriz, mas tem uma atitude de entrega muito interessante em relação à sua personagem. Já a destrói-família Sienna Guillory foi um achado, e deveria ter aparecido logo no primeiro filme. Além de ser a própria Jill Valentine, ela também conseguiu ser boa atriz, mesmo com uma nesguinha de participação - a microssaia contribuiu, claaaro. Desejo toda a sorte para Oded Fehr (de A Múmia) em filmes de ação com heróis mais inteligentes que o de costume, e o mesmo para Mike Epps (parente do Omar?) em algum Saturday Night Live da vida.
Ativando programa de boas seqüências de ação isoladas: a ótima cena do fechamento da barreira, condenando milhares de civis inocentes; o ataque dos tenebrosos lickers na igreja (antes de Alice atravessar o vitral com uma moto); Nêmesis metralhando uma loja cheia de soldados da S.T.A.R.S. e logo depois, perseguindo Alice com uma bazuca; a presença intangível da "entidade" Umbrella. Nunca vemos os gerentes, apenas os supervisores (aparecem dois no filme), o que dá uma maravilhosa sensação de estarmos enfrentando um inimigo sem rosto. Provavelmente de forma inadvertida, foi criado um conceito aprimorado da sinistra Firma, da franquia Alien.

E Alien é justamente o link para o primeiro ponto ruim: tal qual Ellen Ripley em Alien 4, Alice agora tem poderes. Ela está melhor, mais rápida, mais forte, essas coisas. Palha até não poder mais. Os cães-zumbi também estão lá, e são responsáveis pelos momentos mais ruidosos do filme. Antes deles alcançarem as vítimas, elas já morreram de dor nos tímpanos. Já Nêmesis é miseravelmente desperdiçado depois daquelas duas cenas. E o roteiro tem tantos rombos que até os guris borrados notaram (num deles, nossos heróis vão para um cemitério pra fugir do ataque dos zumbis).
Aliás, esse não pode ser considerado um filme de mortos-vivos. Esse é um filme que "por acaso" tem mortos-vivos. A importância dada aos monstros é tão pouca, que, dado momento, eles simplesmente somem da história. E se for pra vê-los sendo surrados a golpes de caratê, é melhor que nem apareçam mesmo. RE2:A também me confirmou uma horrenda suspeita. Existe um filão de filmes sanguinolentos que estão vindo sem uma única gota sangue. Parece até defeito de fábrica.
Eu poderia até enaltecer as citações ao game (como os soldados jogando granadas e metralhando os zumbis, Alice entrando na loja de armas, o reflexo dos monstros num capacete policial, etc.), mas isso não é mérito do filme, e sim do jogo. E para os amantes do game, a conclusão não poderia ter sido mais decepcionante. Totalmente aberta pra mais uma seqüência, ela arremessa todo o conceito original pra vala. O que quer que venha a ser Resident Evil 3, dificilmente terá algo a ver com o argumento que popularizou o jogo.
Cara... eu não paguei ingresso, mas quero o meu dinheiro de volta.

Interessante edição "genérica", onde o bom aracnídeo toma uma carroçada sinistra do Venom. Não sabia que o Mancha Negra cover era tão superior assim.
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Ou: arquivo cbr re-upado em 05/09/2017 - scan com a mesma resolução arcaica de 2004

Recordar é viver. A revista Super Powers foi uma tentativa da Abril de repetir na DC o mesmo sucesso da saudosa 1ª fase de Grandes Heróis Marvel. Como o universo decenauta sempre foi inconstante, a esforçada SP acabou se limitando a lançar fins de sagas. Isso já era característica desde sua estréia. Em Saga das Trevas Eternas, a Legião dos Super-Heróis enfrentou seu primeiro desafio realmente grande: Darkseid, senhor de Apokolips. Na época, o Dark era aterrador pra valer, não esse freguês de hoje em dia.
Uma bela aventura cósmica com argumentos de Paul Levitz e Keith Giffen, que também desenha. Essa história influenciou muita gente boa (como Jim Starlin) e gente mais ou menos (como Kurt Busiek). Lembrando que a Legião tem esse nome não é à toa: são 25 integrantes (a edição traz a ficha de 23 deles).
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Ou: arquivo cbr re-upado em 05/09/2017 - scan com a mesma resolução arcaica de 2004
dogg, quebrando tudo ao som de Indians, do novo ao vivo do Anthrax! HUUUUH!!
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