sexta-feira, 23 de maio de 2008

A GUERRA DE MARK III-A / MODELO XIV


Quando as coisas vão mal, nada melhor que uma guerra. Ou duas. Até nisso a trajetória do Homem de Ferro avança em paralelo com o sistema tecnocrata que defende (já concluindo aqui o rompante Jabor'esco). E no caso do Latinha, as coisas estavam indo realmente mal. Após A Guerra das Armaduras, a clássica dupla formada por David Michelinie (argumento) e Bob Layton (desenhos e arte-final) permaneceu no título por algumas poucas edições. A saideira de Michelinie foi na divertida Iron Man #250 (lançada em GHM #41) e Layton apenas roteirizou esporadicamente. Com o rodízio de profissionais duvidosos que se seguiu - gente do calibre de Fabian Nicieza, Dwayne McDuffie e o terrível Herb Trimpe - praticamente todos os ganchos em andamento foram descontinuados em edições pra lá de capengas.

Foi neste clima que estreou a aguardada Guerra das Armaduras II, seqüência notável pela colaboração entre John Byrne e John Romita Jr. Mas antes de reingressar ao campo de batalha, o Vingador Dourado enfrentou algumas turbulências. Na derradeira fase escrita por Michelinie, Tony Stark fez uma série de "acordos" com o governo para escapar dos processos provenientes dos estragos causados na primeira guerra das armaduras. Depois, se aliou a um de seus piores inimigos com resultados desastrosos e, em seguida, foi baleado por uma ex-amante enciumada. Ficou paraplégico nessa (em um cliffhanger digno da novela das oito!), mas se recuperou com o implante de um microchip que substituía as terminações nervosas afetadas. Por fim, um quase-alento: a trégua com o Cap - embora constatando que a velha amizade havia acabado e as coisas nunca mais seriam as mesmas.

Já sem a batuta de Michelinie, o herói ainda teve de assistir sua nova e poderosa armadura sendo destruída por um subvilão de quinta. O que deu lugar à série Mark III-A e ao modelo XIV, o primeiro com o prático "display de interface por neurosistema", permitindo a Stark o acesso remoto às armaduras através de ondas cerebrais, mesmo a grandes distâncias. Uma espécie de embrião do conceito do Extremis.


Originalmente, a solicitação de Guerra das Armaduras II contava com Bob Layton no roteiro e Romita Jr. nos desenhos, mas a parceria durou apenas 1 edição (a sensacional Iron Man #256, publicada no Brasil estranhamente em Wolverine #21, ao invés da Incrível Hulk habitual). Num lance mal-explicado, Layton pulou fora para a Valiant Comics, sendo substituído por John Byrne em cima da hora. Sendo assim, o início oficial da continuação se deu em Iron Man #258 e durou até IM #266 (aqui, Incrível Hulk #127-136).

O arco começa com Stark e Rhodey testando as novas instalações de treinamento - um tipo de Sala de Perigo versão Latinha - e o desempenho de sua mais recente armadura. A seqüência inicial é eletrizante, com Stark controlando duas armaduras ao mesmo tempo contra um droid monstruoso e o traço do Romitinha em sua pegada mais hardcore. Após o "exercício", Stark sente algumas dores estranhas, logo preteridas por um incidente na usina nuclear da Stark Enterprises.

Chegando lá, o Homem de Ferro tenta conter um vazamento radioativo e enfrenta ninguém ninguém menos que o Homem de Titânio (morto durante Guerra das Armaduras). Incrédulo, o Latinha dribla o "fantasma" e consegue impedir a tragédia nuclear deslocando o reator inteiro para o fundo do oceano. O Greenpeace não aprovaria, mas...

Depois do sufoco, Stark tenta descansar e sofre um baita lapso de tempo, acordando após 3 dias, em outro estado (!), num quarto de hotel com uma ilustre e deliciosa desconhecida. Por sinal, este é um dos três subplots constantes em GdA II. Os outros dois respondem pela melhor personificação do vilão Laser Vivo e pelo retorno/releitura do adversário mais clássico do Homem de Ferro: o Mandarim.


O estado clínico de Stark se agrava, passando para perda total de coordenação motora e movimentação involuntária. Com isto tudo, o playboy (no bom sentido!) ainda tem de enfrentar a fúria do sindicato dos funcionários da Stark Enterprises, que estão em greve e ameaçam invadir a sede da empresa - revolta fomentada por um ex-empregado sindicalizado e baderneiro de carteirinha (qualquer semelhança com o atual MST é uma triste coincidência). O clímax é algo insólito, com o herói contendo uma multidão de grevistas, ao melhor estilo batalhão-de-choque-de-um-homem-só. Faltou só rolar "Street Fighting Man"... ou "Street Fighting 'Iron' Man".

Após vários exames em uma sala isolada, Stark descobre que estava sendo manipulado através do microchip que lhe possibilitou andar novamente. O microchip foi criado por uma subsidiária "laranja" da Corporação Marrs, dos irmãos Desmond e Phoebe Marrs, notórios desafetos do herói. A conspiração estava sendo dirigida pelo obcecado Kearson DeWitt, que buscava vingança por achar que Stark roubou o projeto do Homem de Ferro de seu pai, um brilhante engenheiro que morreu na miséria.

Vilão tridimensional, ponderado e, diria até, bem passível de uma adaptação cinematográfica.


No geral, a saga mantém uma narrativa acelerada, dinâmica, sem muitas pausas entre um gancho e outro. Mesmo com três plots intensos se desenvolvendo ao mesmo tempo, a unidade do arco é invejável. A reinvenção do Mandarim é simplesmente genial. Com uma roupagem bastante influenciada pelo nosferatu chinês Lo Pan (preciso informar o filme?), ele ainda ganhou a companhia de um ótimo personagem, o enigmático Chen Hsu. É de longe a versão mais interessante e poderosa do velhusco vilão, agora com bala na agulha até pra colocar o infame Fin Fang Foom como seu cão de guarda.

Curiosamente, toda essa linha narrativa transcorre independente das demais. O Mandarim e suas ações nunca chegam a interagir com o Latinha, servindo apenas como intro para a saga posterior - concluída em Iron Man #272 (GHM #48), já sem o nanquim abençoado de Romita Jr. Contudo, acabou rendendo uma edição espetacular (Iron Man #261/Incrível Hulk #130), onde cada página é dividida em duas situações distintas ocorrendo ao mesmo tempo. Uma grande sacada de Byrne, inquestionavelmente em seu auge como roteirista - detalhe que, sem dúvida, faz transparecer o espírito por trás do arco.

Guerra das Armaduras II vence pelos talentos individuais. Não tem qualquer ligação com a primeira aventura e acaba sendo comparativamente inferior - apesar da arte fabulosa e dos vários pontos altos do argumento. Se não fosse pelo final, com uma pancadaria titânica entre dois Homens de Ferro e o calculista DeWitt devidamente 'tunado', nem o nome da saga faria sentido. Fica óbvio que foi apenas uma estratégia comercial, visto que a idéia de uma seqüência tinha boa aceitação por parte dos leitores e o título (um dos mais longevos da Marvel) afundava numa crise interminável após saída de Michelinie.

Em seu site oficial, John Byrne chega a comentar a situação Defcon-1 a qual foi submetido pelo então editor da revista, Howard Mackie. Foi o seu melhor dentro de uma deadline absurda. Se isto for levado em consideração, o resultado final passa de ótimo para impressionante. E imperdível, note bem, pela química rara entre Romitinha e Byrne. Para admiradores da composição estética e narrativa da arte seqüencial, é um show de emocionar até o Scott McCloud. Resumindo, ficaria lindo num encadernado em cima da estante.

Há rumores de que a idéia original de Bob Layton para Guerra das Armaduras II - com Romita Jr. no traço - era fora-de-série. Tendo em vista a qualidade da edição única em que os dois trabalharam juntos (a já citada Iron Man #256), só posso imaginar o melhor. Mas isso é algo que jamais saberemos.


Na trilha: Sucking The 70's na agulha do winamp, fazendo a festa stoner aqui.

7 comentários:

Fivo disse...

Impressionante como Japonês, quando quer ser escroto e agressivo, é imbatível. Esse Machine Girl é obrigatório.

Tu arrumou essas revistas do IM em sebo ou baixou mesmo?

doggma disse...

Sebão. Agora tô redescobrindo a fase Byrne no Cap. Bom pra caramba!

Luwig disse...

Você realmente precisa assistir a 'A Invasora' (À l'intérieur / Inside) de Alexandre Bustillo.

Como bem disse o Rennmero do Bunker, quanto menos você souber sobre ele, melhor!


http://www.renmero.com/blog/2008/inside-ou-gore/

Luwig disse...

A propósito, acabei de lembrar o motivo de ter gostado muito mais desse período da carreira de John Romita Jr. do que a atual.

A impressão que tenho é que hoje ele procura um contraponto em seu modus operandi estilizando o que já é essencialmente estilizado.

O resultado não é de fato um decréscimo na qualidade do seu traço (como o caso do nosso caquético Frank Miller), mas sim o surgimento de fagulhas de irregularidade*.

Vide os resultados dissonantes ao longo de todo run nos recentes Pantera Negra, Wolverine, Eternos e Kick-Ass.


* Que, claro, pode até ser justificada pela desculpa da década: prazos cada vez mais apertados.

doggma disse...

H-hmm... pelos screenshots, este "Inside" parece uma diversão bastante agradável. Já tá na lista.

Fora os exemplos que você citou, tem aquele que considero o "clímax", que foi World War Hulk... Mas acho que nem é tanto pelos prazos. No DD fase Nocenti o ritmo de trabalho era alucinante e neste Iron Man aí descambava pra insanidade editorial. Mesmo assim seu traço tinha um carinho e um cuidado todo especial pelos personagens e pelo texto. Além disso, Romitinha ainda estava se redescobrindo com a mudança de estilo. Para um artista não há coisa mais empolgante criativamente.

Acho que é só velhice mesmo. O John Byrne que o diga. E o Miller não quer mais saber de quadrinhos há muito tempo.

Alcofa disse...

eu realmente nunca fui grande fã do hombre de fierro ... mas qdo releio esta saga em especial (a minha primeira guerra da lataria ta incompleta), vejo o quão bão Byrne era com praticamente qqer personagem que pegava.

tempos aúreos ...

e realmente, a luta do lata contra o mandarim naquele GHM é um épico!!! pena que não teve o traço do Romita Jr ...

grande abraço!

doggma disse...

A porrada Mandarim versus Latão foi realmente... FodásticA (>>estilo logotipo do Metallica). Cara, o china se fudeu no final, rs... Byrne foi cruel demais ali.