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quinta-feira, 11 de abril de 2024
A Lenda de Trina Robbins
Se foi a pioneira Trina Robbins. Este mês não está fácil. E nem chegamos na metade.
Nascida Trina Perlson, depois Trina Castillo (do ex Art), depois Trina Petit (pseudônimo) e finalmente Trina Robbins (do ex Paul Jay), ela teve uma trajetória que beirou o surreal. Estilista, modelo, quadrinista, pesquisadora, escritora e ativista, também foi figurinha tarimbada na cena psicodélica americana dos anos 60. Amiga próxima de Jim Morrison e do pessoal do The Byrds, foi homenageada por Joni Mitchell na música “Ladies of the Canyon”. É pouco?
Sua vida se confunde com a própria evolução da cultura pop underground moderna e do papel das mulheres dentro da indústria dos comics. Renderia fácil um livro ou uma série.
Sua carreira começou ainda na adolescência, quando escrevia e desenhava para fanzines. Era o iniciozinho da década de 1950. Com o passar dos anos, chegou a posar para a capa de algumas dessas publicações – o que abriu caminho para alguns trabalhos como modelo pin-up para revistas masculinas até o começo da década seguinte.
Na mesma época, ela integrou a gênese do Underground Comix, sendo uma das poucas mulheres envolvidas no cultuado movimento. Produziu muito material durante os anos 60/70, mergulhando de cabeça nas causas feministas e advogando pelo espaço das mulheres num mercado quase totalmente masculino. É dela a primeira tirinha lésbica já registrada, Sandy Comes Out, publicada na Wimmen's Comix #1 de novembro de 1972.
Robbins nunca foi de fazer média e esculachava sem dó inclusive companheiros de underground. Nem a misoginia satírica de Robert Crumb escapava: “É estranho para mim como as pessoas estão dispostas a ignorar a horrível escuridão do trabalho de Crumb... O que diabos há de engraçado em estupro e assassinato?”
Outro que levou uma trauletada de luxo foi o nosso Mike Deodato. Robbins classificou a Mulher-Maravilha que ele desenhou nos anos 90 como uma “pinup hipersexualizada quase nua.”
⭐ Errada não está... tenho as edições e é realmente impagável de tão apelativo. Em contrapartida, ela é a co-criadora da Vampirella e a designer da sua aparência, digamos, hipersexualizada e quase nua.
Outra marca história conquistada por Robbins diz respeito justamente à princesa de Themyscira: em 1985, ela se tornou a 1ª artista feminina a desenhar a Mulher-Maravilha desde a sua criação em 1941. E só levou 44 anos.
Entre trabalhos para a DC, Marvel, Eclipse, Star e outras, passou a se dedicar à pesquisa da História dos Quadrinhos com foco na participação das mulheres no segmento. Isto porque, segundo ela, todos os demais pesquisadores “só queriam saber de Stan Lee e Jack Kirby.”
Em 1985, publicou seu 1º livro, Women and the Comics (inédito por aqui), em parceria com Catherine Yronwode. E não parou mais – sua bibliografia de não-ficção é extensa.
Trina era casada com o veterano quadrinista Steve Leialoha. Ao contrário dele, infelizmente, ela foi pouquíssimo publicada por aqui.
Parece que foi ontem que a mencionei no post de despedida da Ramona Fradon, numa lista com as maiores precursoras das mulheres nos quadrinhos. Pesquisar e escrever sobre Trina é apaixonante, mas parece não haver final à vista. Ela foi demais para uma vida só.
E sim, nos áureos tempos também foi um tremendo brotinho, mora?
Que mulher.
terça-feira, 18 de fevereiro de 2020
A Marvel fazia essa mágica
Sob o risco de cometer um post "no meu tempo é que era brabo" de velhusco reclamão, vamos lá: curtir quadrinhos hoje é sopa no mel. Com toda a exposição e aquiescência que só o mainstream pode oferecer, agora é tranquilo sair por aí com uma camisa do Coringa, assistir um filme da Marvel no cinema, passar numa comic shop e pegar uns gibis na volta. No meu tempo é que era brabo.
Se hoje pouco se discute a condição dos quadrinhos enquanto forma de arte séria (quiçá se discute ainda), há uns 30 anos o preconceito do mundo adulto contra os gibis era mato. Não importava se fosse Watchmen ou o Demolidor do Mazzucchelli. Passou dos seis anos e ainda lia "revistinha", boa coisa não era.
Naquela época, muito antes da Internet, montar uma defesa de caso era difícil. A ingenuidade e inexperiência argumentativa da juventude não ajudavam.
Talvez por isso, uma certa propaganda da Abril tenha funcionado tão bem comigo.
O anúncio "A Marvel Faz essa Mágica!" saiu brevemente na 2ª metade dos anos 1980 nos títulos da linha adulta da editora - especificamente nos magazines Aventura e Ficção e A Espada Selvagem de Conan. O texto narrava a experiência imersiva de ler quadrinhos numa perspectiva lúdica e quase onírica (quem nunca?), enquanto a ilustração de um jovem adulto lendo revistinhas no intervalo do trabalho era um vislumbre da aceitação e da normalidade que eu tanto desejava para a minha relação com os quadrinhos.
Era a minha peça publicitária predileta sobre HQs, mesmo que relegada ao lado interno das capas (pregando, então, para convertidos, mas que se dane). Sempre ficava vários minutos admirando aquele conceito pseudo-interativo antes de embarcar no gibi propriamente dito e... participar das aventuras.
O autor da (para mim, icônica) imagem é o ilustrador brasileiro Carlos Franco. Ok, Sherlock, o mesmo nome que está na plaquinha de identificação na mesa do "jovem adulto", mas a carência de informações sobre ele me deixava na dúvida. Ainda assim, descobri que o artista trabalhou nas duas edições da Ação Policial, antologia de contos da Abril lançada no mesmo período. A assinatura e o estilo de pintura são inconfundíveis.
O que eu não sabia, no entanto, era que a arte do Carlos Franco se tratava de um genuíno "after" Steve Leialoha.
A promo "Marvel Makes the Magic!" foi lançada em 1984, como parte de uma campanha de popularização dos quadrinhos entre o público adulto da Marvel (estratégia também adotada por outras editoras). A peça teve alta rotação nas páginas da maravilhosa Epic Illustrated - versão da Marvel para a Heavy Metal clássica - e também em pôsteres exclusivos para o mercado americano.
Leialoha já era um veterano da Marvel àquele ponto, contabilizando trabalhos em Marvel Team-Up, Howard the Duck, Star Wars, Adam Warlock e finalizando Carmine Infantino em Spider-Woman (sem contar Sandman e seu Eisnerizado trabalho em Fábulas, mais pra frente). A ilustração pouco difere da composição posterior de Franco, mas fica evidente a cada pincelada que é mais obra de um arte-finalista que de um desenhista.
O que eu não sabia, no entanto²... é que mesmo a arte de Steve Leialoha seguia a estrutura e as marcações concebidas pelo arte-finalista e colorista Tom Palmer em seu original nunca publicado.
Um autêntico visionário e o verdadeiro criador da coisa toda, vamos dar o crédito.
Mas a inesquecível versão de Carlos Franco foi a melhor...
Se hoje pouco se discute a condição dos quadrinhos enquanto forma de arte séria (quiçá se discute ainda), há uns 30 anos o preconceito do mundo adulto contra os gibis era mato. Não importava se fosse Watchmen ou o Demolidor do Mazzucchelli. Passou dos seis anos e ainda lia "revistinha", boa coisa não era.
Naquela época, muito antes da Internet, montar uma defesa de caso era difícil. A ingenuidade e inexperiência argumentativa da juventude não ajudavam.
Talvez por isso, uma certa propaganda da Abril tenha funcionado tão bem comigo.
O anúncio "A Marvel Faz essa Mágica!" saiu brevemente na 2ª metade dos anos 1980 nos títulos da linha adulta da editora - especificamente nos magazines Aventura e Ficção e A Espada Selvagem de Conan. O texto narrava a experiência imersiva de ler quadrinhos numa perspectiva lúdica e quase onírica (quem nunca?), enquanto a ilustração de um jovem adulto lendo revistinhas no intervalo do trabalho era um vislumbre da aceitação e da normalidade que eu tanto desejava para a minha relação com os quadrinhos.
Era a minha peça publicitária predileta sobre HQs, mesmo que relegada ao lado interno das capas (pregando, então, para convertidos, mas que se dane). Sempre ficava vários minutos admirando aquele conceito pseudo-interativo antes de embarcar no gibi propriamente dito e... participar das aventuras.
O autor da (para mim, icônica) imagem é o ilustrador brasileiro Carlos Franco. Ok, Sherlock, o mesmo nome que está na plaquinha de identificação na mesa do "jovem adulto", mas a carência de informações sobre ele me deixava na dúvida. Ainda assim, descobri que o artista trabalhou nas duas edições da Ação Policial, antologia de contos da Abril lançada no mesmo período. A assinatura e o estilo de pintura são inconfundíveis.
O que eu não sabia, no entanto, era que a arte do Carlos Franco se tratava de um genuíno "after" Steve Leialoha.
A promo "Marvel Makes the Magic!" foi lançada em 1984, como parte de uma campanha de popularização dos quadrinhos entre o público adulto da Marvel (estratégia também adotada por outras editoras). A peça teve alta rotação nas páginas da maravilhosa Epic Illustrated - versão da Marvel para a Heavy Metal clássica - e também em pôsteres exclusivos para o mercado americano.
Leialoha já era um veterano da Marvel àquele ponto, contabilizando trabalhos em Marvel Team-Up, Howard the Duck, Star Wars, Adam Warlock e finalizando Carmine Infantino em Spider-Woman (sem contar Sandman e seu Eisnerizado trabalho em Fábulas, mais pra frente). A ilustração pouco difere da composição posterior de Franco, mas fica evidente a cada pincelada que é mais obra de um arte-finalista que de um desenhista.
O que eu não sabia, no entanto²... é que mesmo a arte de Steve Leialoha seguia a estrutura e as marcações concebidas pelo arte-finalista e colorista Tom Palmer em seu original nunca publicado.
Um autêntico visionário e o verdadeiro criador da coisa toda, vamos dar o crédito.
Mas a inesquecível versão de Carlos Franco foi a melhor...
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