Com RED, Warren Ellis deu uma aula de comixploitation que fez cafetões como Todd McFarlane e Mark Millar parecerem coroinhas. A HQ em três edições estreou lá fora em setembro de 2003. Ganhou algum destaque na mídia especializada, já que se tratava de Ellis, mas nada que transcendesse o hype da semana. Não vingou uma série fixa e terminou como mais um projeto engavetado da defunta WildStorm, caindo no mais absoluto esquecimento. Seis anos depois, a inesperada ressurreição via cinemão hollywoodiano. Sem lobby, sem campanhas virais, sem memes, sem marketagens, sem auto-promoção: o esforço de Ellis foi ínfimo. E isso inclui seu próprio trabalho no recheio da revista.
Apesar de ter lido sobre RED na época e de ainda manter Warren Ellis na minha lista dos 5 quadrinhistas do Templo Shaolin, simplesmente deixei passar. Não nutri interesse ou, já que é Ellis, fui adiando a leitura indefinidamente, não lembro bem. Pra usar o termo da moda, procrastinei. Com a chegada do filme e o timing (sempre cambota) da Panini, finalmente fiz as honras. E fiquei surpreso.
O plot é manjadão. Agente aposentado da CIA vira alvo da agência da noite pro dia. Só. Paul Moses, o agente, é o arquétipo durão da 3ª idade, na melhor tradição Wayne/Eastwood/Bronson. Mas com uma faceta suscetível à sensibilidade, criada após os anos de serviços sujos que teve que fazer pelo seu país (vide a página 59, que mostra as suas "obras" mais famosas). É um lado que ele administra levando uma vida reclusa, lendo as cartas de sua sobrinha distante e em ocasionais conversas ao telefone com Sally, sua supervisora em Langley. Aliás, é nesse ponto em que Ellis escreve os diálogos mais frugais e intimistas da mini - e, provavelmente, de toda a sua carreira.
Mas o carro-chefe aqui é a criatividade gráfica de Ellis em perfeita sintonia com o traço dinâmico e anguloso de Cully Hamner. O artista não mede esforços na composição dos cenários, nas soberbas perspectivas (nesse ponto, dá um show) e na violência curta e grossa - e sem recorrer a efeitos de "áudio", o que deixa as imagens ainda mais pungentes. Juntos, os dois liberam o inferno. Não fazem feio nem perto de Ennis/Dillon.
Finalizar RED em tempo recorde tem tanto a ver com sua boa narrativa quanto com sua despretensão. É tudo tão ralo e direto que, vez ou outra, me lembrou de Comando para Matar, a obra máxima do digníssimo Joseph Loeb III. Uma bobagem só, que jamais sustentaria sozinha o roteiro do (ótimo) filme. Mas uma bobagem confessa.
Uma HQ que certamente reembolsa o preço de capa (R$ 7,90) em diversão pura e desembestada. Passa rápido, porém.
Que John Carpenter compôs a trilha de quase todos os seus filmes, até a minha avó sabia. Mas o que nem eu e nem a velhinha sabíamos, é que o mestre juntou sua banda e gravou um clip para o filme Os Aventureiros do Bairro Proibido.
Pelos olhos verdes de Miao Yin... Mas que é um troço sensacional, ah, isso é.
Postagem originalmente publicada em 20 de abril de 2010
Já dizia Marceleza: "eu vi o futuro, baby... ele é passado".
Novos tempos, velhos problemas. Tive que reeditar este post, sem a música do título para audição em streaming e sem o link para download. De acordo com um polido e-mail do Blogger, uma notificação foi recebida alegando que os direitos autorais em questão foram infringidos, conforme previsto nos termos de seu DMCA. E foram infringidos mesmo, ainda que os links não representassem nada mais do que uma merecida divulgação - certamente, um ponto de vista que não interessa à gravadora da vez. De uma maneira não-lisonjeira, Terry Reid continua sendo um dos segredos mais bem guardados do rock.
Mesmo consumindo uma infinidade de grupos e artistas do final dos anos 1960 até final dos anos 1970 (época em que o rock pendurou a palheta, segundo Lester Bangs), só fui saber da existência do cantor a pouco tempo - e acredito, da mesma forma que muita gente. Foi através do filme Rejeitados pelo Diabo, que trazia nada menos que três faixas suas na trilha sonora. Todas fantásticas, mas foram os hiptonizantes créditos finais, ao som da linda Seed of Memory, que me abriram as portas da percepção. Agradecerei ao Rob Zombie ad eternum.
Guitarrista e songwriter talentoso, boa-pinta, com um vozeiraço abençoado e postura rockeira autêntica, numa época em que isso tudo bastava para virar um megastar. Mesmo assim, Terry Reid parece ter sido riscado de qualquer menção na imprensa musical dos últimos... ahn, 1975, 2010... 35 anos. A pergunta foi inevitável: onde foi que tudo deu tão errado?
Então fui à cata de algumas das (escassas) informações disponíveis sobre Reid na web. Me surpreendi com o que li. Não é uma história redentora, mas cheia daqueles tropeços épicos que mudam (pra pior) tudo o que vem a seguir. Só posso compará-lo a um Wilson Simonal da vida, no quesito "esse cara poderia ter sido grande".
Inglês de Huntingdon, nascido em 1949, montou uma banda na escola aos 15, The RedBeats. Reid chamou atenção rápido. Após uma apresentação, em 1966, o baterista do The Jaywalkers ficou tão impressionado que o convidou para integrar o grupo, já na fita para abrir para o Rolling Stones no Royal Albert Hall. Projetado para uma carreira solo e com o 1º álbum na praça (Bang, Bang You're Terry Reid, de 1968), excursionou com Cream, Jethro Tull e Fletwood Mac, entre outros. Mas é o ano de 1969 que leva o troféu.
Fechado para abrir a turnê americana dos Stones (aquela, do fatídicoFestival de Altamont), Reid declinou de uma proposta dos sonhos. Com o fim do Yardbirds, Jimmy Page o convidou para o posto de vocalista do New Yardbirds, o embrião do Led Zeppelin. Não só não aceitou, como recomendou o jovem cantor da Band of Joy, Robert Plant, que abriu um de seus shows. E tem mais.
No mesmo ano, o vocalista Rod Evans saía do Deep Purple. A primeira opção de Ritchie Blackmore & cia? Terry Reid. Novamente uma recusa, e assim seu conterrâneo Ian Gillan entrava para a História.
Reid seguiu com turnês, participações em festivais e uma trinca solo arrasadora: Terry Reid (1969), o elogiado River (1973) e, meu preferido, Seed of Memory (1976), um clássico southern enterrado fundo nas areias do tempo. Péssimos empresários, seguidas trocas de gravadora (Atlantic, Capitol e ABC), mais a fraca recepção do álbum Rogue Waves (1979) praticamente encerraram aquela etapa da carreira de Reid.
Nos anos 1980, ele trabalhou como músico de estúdio e até ensaiou um retorno em 1991, com o álbum The Driver - uma incursão AOR/hard rock artificial, melosa e inacreditavelmente tardia. O máximo que conseguiu foi emplacar a faixa Gimme Some Lovin' (cover do Spencer Davis Group) na trilha do filme Dias de Trovão. Era o fim.
Um dado interessante sobre o lance com o Deep Purple é que os primeiros discos de Terry Reid tinham influências soul e r&b num contexto muito parecido com o que o grupo inglês faria anos mais tarde, na fase Coverdale-Hughes. Um bom exemplo é a música Dean, que abre o álbum River - abaixo, numa execução matadora em Glastonbury, com direito à partilha de um Big Marley sem filtro e o calor de uma audiência bem... "despojada", no auge do paz & amor, do "make love not war", "é proibido proibir" e por aí vai.
"Dean" live at Glastonbury Fayre 1971 - Terry Reid, the first track featured in the film of the original Galstonbury Fayre. Amazing band and great vocals - joined on stage later by Linda Lewis
E é curioso como o mesmo Blogger/Google que embarreirou os serviços de outra empresa no post original, liberou a mesma faixa publicamente no YouTube. Então, lá vai, de novo, Seed of Memory.
(pelo menos, nesse meio tempo, deu pra alcançar uma garrafa de Johnnie).
Viagem.
Voltando ao "fim". Isso, em termos musicais, pode muito facilmente significar "cult". Para Terry Reid, significou o resgate de algumas canções pelas trilhas dos filmes Crimes em Wonderland e Rejeitados pelo Diabo (essa, mais que uma trilha; uma celebração e reverência).
E também o cover da sensacional Rich Kid Blues que os Raconteurs de Jack White gravaram em seu 2º disco, Consolers of the Lonely.
Mas, principalmente, os shows pequenos e intimistas que Reid tem feito nos últimos anos, onde recria seu clássico a cada noite, numa versão muito superior e embriagada na experiência de quem já viu tudo, já fez o dobro e que, certamente, não se arrepende de nada e ainda faria tudo de novo.