
Dia desses, numa roda virtual de amigos, comentei que David S. Goyer "é tão diretor quanto o Maradona é técnico". Pesou na equação sua desenvoltura na direção perigosa de Blade Trinity e Alma Perdida, que deveria se chamar "Hora Perdida" (mesmo com um pôster subornando simpatia). Também opinei que, como roteirista, ele tem a qualidade de tornar eventuais furos irrelevantes diante do objetivo principal. Se não tããão irrelevantes, pelo menos uma coisinha assim, digamos, mais perdoável se a farra for boa no saldo final. Obviamente que, quem execrou Dark Knight inteiro porque não recebeu um relatório detalhando tudo que o Coringa fez depois da invasão à festa, não vai concordar. Mas numa análise simplista, porém limpinha, é mais ou menos isso aí: o cara supervaloriza a relação dos personagens com a premissa e isso é quase tudo o que importa. Os detalhes discutíveis ele deixa para os fóruns de discussão.
O que me faz imaginar se ele não seria o escritor perfeito para algo como Heroes. No mínimo, a salvaria do tédio total. E antes que me esqueça, ao inferno com Heroes. Essa eu abandonei faz tempo - embora considere seriamente um comeback depois que a Mia, de Californication, abriu os horizontes da Clair-bear. Cruzamentos interséries são o que há!
Sempre achei que uma boa edição e uma equipe competente de revisores resolveriam as deficiências de Goyer. E a teoria se confirmou há pouco: FlashForward busca essa mão-de-obra especializada na melhor fonte da atualidade, a indústria americana de telesséries. Os dois primeiros episódios são as melhores coisas que já vi com ele na direção, fácil. Narrativa fluída, promissora, climão de apocalipse-na-hora-do-rush, personagens e plots bem conduzidos e triangulados com facilidade notável.
Goyer, que, ao lado de Brannon Braga, adaptou o roteiro baseado no livro de Robert J. Sawyer (nunca fui apresentado), realmente fez um trabalho muito bom... para o que se espera dele. O terceiro episódio, dirigido por Michael Rymer, é ainda melhor no que diz respeito à cadeira do chefe. Mas vamos dar um desconto. Não dá pra exigir que ele encarne um Orson Welles de uma hora pra outra.

A premissa de FlashForward reafirma o apelo comercial do sci-fi dos dias atuais. O gênero está mais em alta do que nunca, à frente de temas místicos/sobrenaturais e até dos policiais, que até pouco tempo eram os hors concours da audiência. Muito disso se deve ao sucesso Lost, da mesma ABC que adquiriu a opção de FlashForward da HBO. As duas séries não dividem apenas a network, mas também o conceito básico: distorções no tempo servindo como pano de fundo para dramas pessoais. Adicione à fórmula uma boa dose de suspense e ação policial e temos aí um case pop funcional e impecável. Até agora, pelo menos.
No plot central, todas as pessoas do planeta sofrem, ao mesmo tempo, um apagão que dura pouco mais de dois minutos. É mais do que o suficiente para uma tragédia generalizada. Aviões caem aos milhares, hospitais se transformam num caos, o trânsito vira uma Death Race 2000. Nas ruas, o cenário é de horror. Corpos amontoados, carros destruídos, prédios em chamas. Após o susto inicial, descobrimos que o apagão não foi um simples lapso de tempo. Em comum, todos tiveram uma premonição: uma visão de si mesmos, seis meses no futuro. Ou seja, um flash forward (duh!). Enquanto o mundo vai se recuperando, o FBI inicia uma investigação, encabeçada pelo agente Mark Benford (Joseph Fiennes), que, na sua visão, estará muito próximo de desvendar o fenômeno. A trama ganha ares de conspiração quando a câmera de segurança de um estádio registra uma figura misteriosa caminhando tranquilamente durante o apagão.
O maior gancho da série é o impacto psicológico do evento na vida de cada um. As reações são tão variadas quanto fascinantes - desde o flash forward do personagem Aaron Stark, onde a sua filha aparece viva, quando ele acreditava que ela havia morrido no Afeganistão, passando pelo Dr. Bryce Varley, que estava prestes a cometer suicídio quando viu que tudo iria melhorar no futuro, até a agente Janis, que estará grávida mesmo que no presente não tenha nenhuma expectativa disso acontecer. Mais complicado é o flash da esposa de Benford, a Dra. Olivia (Sonya Walger, a Penny, de Lost), que se viu corneando o marido dali a seis meses - mesmo o amando tanto quanto, sei lá, a Penny ama o Desmond.
Mas em termos de "dead line" (literalmente), ninguém bate o drama do agente Demetri, parceiro de Benford, que não vê nada em seu flash.

Na ficção, distúrbios temporais sempre dão boas deixas para zoar com a percepção do espectador. Pequenos detalhes que vão se concretizando como uma versão Godzilla do déjà vu mais forte que você já teve. Em FlashForward, os detalhes das previsões vão dando as caras mesmo quando o personagem em questão os evita - ou seriam eles desencadeados justo porque o personagem tenta evitá-los? Esse tipo de discussão não tem fim. Se continuar sendo bem desenvolvida, a ideia pode render mais que os seis meses regulamentares.
Também existem várias convergências com Fringe, especialmente no terceiro episódio. Quando Benford viaja até um presídio alemão para negociar informações cruciais com um prisioneiro (um velho nazi escaldado), a lembrança de Olivia Dunham confrontando o assustador David Robert Jones, na mesma situação, é quase imediata.
A abordagem "distorção temporal vs. prazo limite" já rendeu ótimas séries no passado, como Seven Days e a saudosa Early Edition, embora seja em Lost que FlashForward encontre sua maior referência - bem mais no estilo narrativo irresistível do que em easter-eggs largamente viralizados.
Certamente, há muitas possibilidades a serem exploradas naquele universo. Afinal, só agora tivemos o primeiro flashback em FlashForward...