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quarta-feira, 3 de julho de 2024

Jerry & Joe, Joe & Jack


Que Jerry Siegel e Joe Shuster comeram o pão que a DC amassou por causa do Superman, todo mundo sabe. A pindaíba da dupla foi nervosa: Siegel, a esposa e a bebê passavam fome num apartamento minúsculo sob constantes ameaças de despejo e Shuster, quase cego e sem condições de desenhar, dormia em bancos de praça. Já a DC, bem... Superman tinha vendas mensais estimadas em mais de 1 milhão de exemplares na época em que os dois foram demitidos.

Eventualmente (e por intermédio de Neal Adams), a editora do Detetive resolveu levar à dupla alguma justiça, ainda que tardia e irrisória. Mas durante aquele meio-tempo, só restava a Siegel fazer o que sabia melhor, escrever. E muito. E com raiva, muita raiva. Ele escreveu inúmeras cartas diretamente para a DC descascando a editora e seus diretores.

Hoje em dia, Jerry Siegel seria infernal nas redes sociais.

Escavando ao acaso pelo site-lojão MyComicShop, topei com algumas dessas correspondências à venda. Uma delas é a notória "Maldição de Natal" que Siegel enviou para Paul Sampliner, fundador da distribuidora Independent News Co., braço da National Periodical Publications, do grupo DC.


O que, decodificado pelo Google Translator e copydeskado pelo escriba da casa, seria algo como:

“Paul: Pode aumentar a alegria de sua festa de Natal saber que terei que ir para o Relief.* — Enquanto você ganha milhões com as minhas criações... — Você não me daria a chance de escrever novamente e ter uma vida decente. — Ao se apropriar do SUPERBOY, você me destruiu. — Mas todo mundo sabe como você recompensou o criador de SUPERMAN e SUPERBOY por ajudá-lo a fundar seu império de quadrinhos. — Você pode ver o que eles realmente pensam de você, não nas palavras deles, mas no que eles NÃO dizem... e nos olhos deles. — Eles sabem que você me destruiu por lucro e que não está oferecendo ajuda à minha família para que possamos sobreviver. — Como você pode usufruir suas conquistas, sabendo que elas estão sendo construídas sobre a minha carreira destruída? O DINHEIRO vale isso? Quando você enfrentar seu criador, ele aceitará as letras miúdas dos ‘#legalismos’ de seu advogado? Você está preocupado com sua alma imortal? — Quando você come, bebe e tem abrigo, lembre-se de que o homem que você destruiu enfrenta a pobreza. — Quando você comemorar na sua Festa de Natal, lembre-se que estarei lá em espírito, olhando para você, caminhando ao seu lado e perguntando: — POR QUE VOCÊ FEZ ISSO COM OUTRO SER HUMANO? — POR QUE VOCÊ ESTÁ ME FORÇANDO A IR AO RELIEF? — ENQUANTO EU VIVER, E DEPOIS, ASSOMBRAREI VOCÊ E OS SEUS. DIANTE DE DEUS, COLOCO UMA MALDIÇÃO SOBRE VOCÊ. — Jerry Siegel”
* um dos programas sociais do governo americano.

Outra missiva era uma singela lembrança a Jack Liebowitz, fundador da National/DC Comics, pelo casamento de sua filha. Nos dias atuais, uma medida protetiva e um processo por stalking seriam certos.

“Querido Jack: Congratulações pelo noivado de sua filha Linda Ann com Ronnie Stillman de University Heights, Cleveland. — UMA VEZ, morei em University Heights, Cleveland, em uma bela casa, até que uma injustiça podre arruinou a minha vida e a minha carreira. — Sinceramente, Jerry Siegel — Criador do SUPERMAN”

Mas a carta mais surpreendente, sem dúvida, veio dos geniais Jack Kirby e Joe Simon... em apoio à DC contra o malévolo Jerry Siegel!

“Prezado Sr. Liebowitz: Foi com um sentimento de profundo desgosto e vergonha que lemos a literatura malévola publicada por um antigo contemporâneo, Jerry Siegel. — Tendo sido anteriormente associados à sua organização em uma capacidade semelhante, sentimos que é nosso dever desmentir uma exibição tão chocante e indecente e assegurar-lhe que as opiniões mordazes do Sr. Siegel certamente não são compartilhadas por ninguém da antiga equipe da D.C. Estamos em contato com todos eles e eles estão tão indignados quanto nós com a injustiça deste ataque. — Tenha certeza de que sua justiça e generosidade, especialmente durante os anos de serviço de guerra, embora obviamente perdidas pelo Sr. Siegel, não foram esquecidas por aqueles que conhecem a verdade. — Sinceramente, Joe Simon e Jack Kirby”

Lembrando que, nesse período (circa 1951), Kirby e Simon estavam nadando em dinheiro com os quadrinhos românticos que faziam para a Crestwood Publications. Só as revistas Young Romance e a spin-off Young Love, juntas, vendiam dois milhões de cópias/mês.

Seis anos depois, porém, o próprio Kirby passaria a sentir o que sentia Jerry Siegel.

Instant karma é isso aí. Felizmente, quem é Rei...

sábado, 5 de novembro de 2011

Working class superhero


Há apenas oito anos atrás, Superman: Legado das Estrelas dividia opiniões sobre a necessidade de recontar uma conhecidíssima história - no caso uma já muito bem recontada por John Byrne em Superman: O Homem de Aço, de 1986. Felizmente, em nome da globalização e de um projeto muito bem cuidado pelo roteirista Mark Waid e pelo desenhista Leinil Francis Yu, a empreitada acabou se justificando. Mas como os melhores inimigos do Superman, o famigerado relaunch sempre retorna. Ele está para a DC assim como a "morte" está para a Marvel. E em ambas as editoras, conceitos como bom-senso e continuidade parecem ter retornado pra caixa de sugestões.

Ciente de que não estou revelando o mistério da energia escura aqui, lá vai: relaunch é uma merda. Ruim se for de um único personagem, pior se for de todos excetuando o que é conveniente. Decisão editorial do tipo que me faz lembrar que leitores de Tex, Zagor, Mister No, Dylan Dog, Martin Mystère, Júlia Kendall e Mágico Vento nunca reclamam. Nada, nem um pio. Taí um clube que eu gostaria de entrar. Mas as coisas são o que são. Metallica e Lou Reed gravaram mesmo juntos, colocaram o Kelso no lugar do Charlie e o Flamengo foi espancado na Sul-americana. "Keep calm and..."

Ao menos a nova proposta para o Azulão é original. Ou quase. É inovadora pra quem tem menos de 60 e não acompanhou outro perfil do Clark que não aquele ideal americano encarnado - a um mícron do übermensch fascistóide explorado em abordagens mais ousadas, como Superman: Entre a Foice e o Martelo (queria eu ter uma foice e um martelo pra acertar na moringa de quem criou esse título) e até a inesquecível série animada Liga da Justiça Sem Limites. Sendo assim, parabéns aos editores da Panini pelo timing afiado: DC+ Aventura #3 é uma modesta porém bela introdução para esse recomeço do Superman.

Na história "A Cara do Autor", um jornalista da velha guarda inadvertidamente dá vida ao velho Superman dos anos 30. O problema é que seu ideal de justiça límpida e efetiva não se aplica à complexidade dos dias atuais. O roteirista Joe Casey sabiamente evita situações apelativas (como um embate físico entre dois Supermen) e faz uma singela homenagem aos valores que o herói defendia em seus primeiros dias. Confesso que essa história me emocionou um tanto mais do que eu esperava, particularmente na resolução do entrevero. Muito bom. De bônus, a edição finaliza com a origem do Superman por Jerome Siegel & Joe Shuster, em duas páginas da mais pura síntese narrativa. Minimalista é pouco.

Action Comics #1 mostra que o novo Superman bebe na fonte primordial de Jerry Siegel, Bill Finger (co-criador não-creditado do Batman) e Don Cameron. Sem mais guerra dos mundos, hipervilões-deidades e space operas em 89 capítulos e 52 tie-ins (por enquanto). Clark voltou a ser o herói dos oprimidos, o defensor da classe operária, o sal da terra. E o escolhido para guiar o novo rumo do personagem talvez seja o mais apto em todo o cenário dos quadrinhos atuais.

Traça que é, Grant Morrison deve ter salivado com a possibilidade de usar tudo o que sabe após todos esses anos de acesso ilimitado aos Arquivos DC. E também deve ter chorado de amargura quando percebeu que nem tudo funcionaria de acordo com o objetivo comercial do relaunch. A coisa toda teria que ser adaptada aos novos tempos. Tempos de Zeitgeist, WikiLeaks, Anonymous, Occupy Wall Street. Tempos de recessão mundial. Estados Unidos e Europa pulando juntos para o abismo. Máscaras de Guy Fawkes dobrando as esquinas.

Desde o nada discreto título da história, "Superman versus The City of Tomorrow", até a dinâmica re-re-repaginada do herói, agora com os pés atolados no chão (literalmente, já que não voa, apenas salta), tudo está em plena sintonia com as pessoas que defende - todo o proletariado que uma grande metrópole como New York, ou Metrópolis, pode comportar. Já de cara, Superman detona um mega-empresário corrupto que celebrava seus novos ativos em seu luxuoso prédio, com direito a champanhe na sacada. Ficção? Talvez o título mais adequado para a história fosse "Superman versus The 1%".

Esse populismo todo provavelmente não vai durar. A 2ª edição já traz um gancho que sugere a volta do antigo background com ênfase no ficcional. Mas a mensagem da estreia não deixa dúvidas.

Narrativamente, porém, Morrison lança mão de alguns recursos bem previsíveis. Cidadãos comuns defendendo o Superman num momento de aperto e a vidinha suburbana do Clark praticamente reedita a fórmula consagrada pelo Homem-Aranha/Peter Parker. Uma operação militar tentando capturar o "monstro" também lembra a rotina de um certo grandalhão esverdeado. Se não depõe contra, muito menos a favor.

E o mais importante: o novo Superman, badass? Acalmai-vos, nerds exaltados de Midgard. Mais reacionário, talvez. Daquela grosseria da Era de Ouro pouca coisa foi mantida, mas nada que lembre a saudável (e visceral) rivalidade com Fletcher Hanks nos áureos tempos. Morrison se segurou, por motivos óbvios.

Ainda não será dessa vez que ele fará o "escoteirão" escapar de uma perseguição sem deixar testemunhas.




DC+ Aventura #3


Action Comics #1