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quinta-feira, 27 de junho de 2013

Fui metralhado, esmagado, despejado, sequestrado, traído, espancado e tudo que ganhei foi essa camiseta da I.M.A.


Uma coisa é certa: Homem de Ferro 3 (Iron Man 3, 2013) não joga na retranca. O filme é uma surpresa total. Recapitulando, Jon Favreau trouxe uma bagagem muito bem definida quando assumiu a franquia e a mesma se fez sentir em cada frame de Homem de Ferro e Homem de Ferro 2. Houve uma saudável relação de troca entre mitologia e contador. Com Shane Black não foi diferente, por mais heterogêneos que os elementos pudessem parecer. E nem eram tanto assim, afinal. Favreau é cria pop dos anos 2000, enquanto Black foi um dos principais idealizadores do cinema de ação dos anos 80. De tal modo que a bagagem, dessa vez, era pop, mas numa versão estrondosa. Para manter a coesão, prevaleceu a melhor constante da série: o bem-calibrado elenco conduzido por um Robert Downey Jr. tão viciado em dopamina quanto o Wolverine de Rafael Grampá. Ainda assim, os efeitos da nova fórmula foram mais visíveis que uma superdosagem do Extremis do filme.

Homem de Ferro 3 é um curioso exercício de estilo feito pelo cara que criou alguns dos meus heróis de adolescência. É bem interessante fruir o filme por essa perspectiva, ainda que aqueles que nasceram a partir de 1988 (como eles estão se proliferando!) não façam a menor ideia do que eu estou querendo dizer. O ponto é: estreitam-se os laços com o cinema, projetando os personagens e seu universo a um status cada vez mais liberto de suas origens, só que preservando suas características mais caras e sua paixão. O que os torna cinematograficamente mais genuínos, por assim dizer, e com menos fuça de fast-food prensado na chapa por uma joint venture.

O que pode advir disso, no futuro? Filmes "de super-herói" com tramas totalmente originais, sem relação direta com histórias ou arcos pré-existentes? Um universo 100% autossuficiente e independente dos quadrinhos, com legitimidade o bastante para interagir com eles como uma autêntica realidade alternativa from another media? Só Stan Lee sabe.

Por hora, o pacote garante apenas o que estava no anúncio - Shane Black dirigindo um Homem de Ferro. Para bom comedor de pipoca na casa dos 30, a sensação de déjà-vu era até esperada: uma aventura com obstáculos aparentemente intransponíveis para os (as) mocinhos (as), um vilão com delírios de grandeza, conhecedor do potencial destrutivo da mídia e com tentáculos estendidos até a banda podre do sistema e, claro, um ato final nitroglicerínico em uma enorme estrutura de trabalho operário onde os dois pólos finalmente colidem num porrada-palooza que resolve até questões que não podem ser resolvidas via porrada. Black não se furta nem em detonar a casa do herói, ao melhor estilo Máquina Mortífera.

Riggs & Murtaugh approves!


O roteiro, escrito por Black em parceria com Drew Pearce (Pacific Rim), trabalha o protagonista fora do contexto a que todos se acostumaram. Mas antes faz questão de marcar o território em que pisa, resgatando o típico m.o. hedonista de Stark, que já começa o filme estendendo uma festa de reveillon para uma one night stand de responsa com a cientista Maya Hansen (Rebecca Hall). Na mesma tocada, aproveita para reconstituir o background típico do vilão-cientista louco com um Aldrich Killian (Guy Pearce) socialmente disfuncional e sumariamente humilhado pelo herói em seus dias pré-redenção. Clichê, é verdade, mas daquele tipo que funciona pela simplicidade.

A mesma impressão se faz presente na figura do misterioso Mandarim (Sir Ben Kingsley), o clássico antagonista do Homem de Ferro nos gibis, aqui introduzido por flashes televisionados que o vendem como a maior ameaça ao "mundo livre". O que inicialmente gera certa dúvida sobre quem é o vilão principal, tal qual ocorreu com a dupla Ivan Vanko-Justin Hammer na aventura anterior. Mas à medida que a trama avança, os papéis vão sendo gradativamente ajustados - e que papéis.

Também revemos a gangue Stark quase intacta, à exceção da Viúva Negra e do agente Coulson, compreensivelmente indisponíveis. Estão lá o best buddy de Tony, ex-Máquina de Combate e atual Patriota de Ferro, Rhodey (Don Cheadle), o ex-motorista e atual chefe de segurança Happy Hogan (Fraveau, ex-diretor) e a adorável Pepper Potts (a adorável Gwyneth Paltrow), como sempre cobrindo os plantões do chefe/namorado. Mas ao contrário do que parece - e isso é uma constante na franquia - ela não fica relegada ao arquétipo da mocinha em perigo e influi ativamente na história, mesmo nas sequências de ação. E o faz de forma séria, sem autocaricatura, com entrega e conteúdo, inclusive na bonita cena inspirada na irmã do Ayrton Senna, Viviane.

Tudo bem que Pepper é raptada e amarrada lá pelas tantas, tal qual uma pin-up dos anos 40, mas isso ainda é Hollywood... a quase-festa do pijama dela com a fabulosa Rebecca Hall valem por qualquer deslize e minutinhos extras lá na terra de Morpheus.


Essa característica mainstream também se estende à Cheadle, dono de uma grande capacidade dramática, mas aqui a serviço de um thriller de ação dos anos 80 - e se divertindo muito com isso, diga-se. Definitivamente está mais à vontade e afinado com a proposta. A gag em que ele recebe um telefonema de Stark durante uma batida como o "Patriota de Ferro" é ótima. Já Favreau se destaca mais pela imensa humildade aqui demonstrada (artigo raro naquelas colinas) do que pelo perfil canastrão de seu Happy Hogan. A saída meio à francesa foi sob medida.

Obviamente, a produção é esteticamente desnorteante, explosiva e frenética, mas sem muita aderência nos neurônios. É um autêntico blockbuster padrão da Hollywood atual, ainda carente de novos Steven Spielbergs, Ridley Scotts e James Camerons. Podia muito bem ser o Michael Bay ali, sem que isso seja necessariamente algo ruim - e muito menos um elogio. O diferencial é o crossover envolvido: heróis que se arrebentam, sangram, erram, precisam de ajuda e vazam quando estão em desvantagem é herança oitentista do diretor; esses mesmos heróis sendo arremessados de um lado pro outro por uma explosão ou invés de morrerem carbonizados, desmembrados ou retalhados é convenção cartunesca daquele cinemão. Shane Black, por sinal, fez um excelente estudo sobre isso há alguns anos.

Da mesma forma, para espectadores veteranos, colocar Miguel Ferrer como o vice-presidente daqueles estados é entregar o jogo muito antes dos play-offs. Ficou tudo meio óbvio no momento em que seu nariz cruzou a tela. "Let the sun come out, you big, bad G.I. Joe"...

Eventualmente, a tal credibilidade cinematográfica entra em rota de colisão com tudo aquilo que faz os quadrinhos tão apaixonantes para os leitores - e que é aguardado silenciosa e khomeínicamente numa transposição o mais literal possível, ignorando até mesmo o fato de ser uma experiência em celulóide, não celulose. E o que vi em Homem de Ferro 3 foi o prenúncio de uma inssurreição fanboy.

Sabres de luz, pistolas Zillion e nunchakus do Panthro em riste! Morte aos infieis! Excelsior!!


O Mandarim clássico das HQs personificava o velho estereótipo chinês negativo tão disseminado na ficção ocidental de tempos idos, de Ming, o Impiedoso até o Dr. Fu Manchu. Com a escalação de Kingsley e seu visual sugestivo, com calça militar, óculos Ray-ban e pose de “el General”, era fácil chutar que a coisa não seria a epítome da fidelidade. O Mandarim aqui lembra uma batida de frente entre o comandante Fidel Castro e o extravagante Muammar Gaddafi. É um mashup de ditadores terceiro-mundistas que desqualifica até mesmo as raízes chinesas de seu codinome. Parecia até proposital...

Apesar das suspeitas, não cheguei a ir tão longe a ponto de decifrar o "Código Mandarim" antes do tempo. Me perguntava sim, onde um icônico, épico e defasado vilão se encaixaria numa trama já comprometida com Extremis, dra. Hansen e Killian com sua agenda de vingança contra Stark. Seria muito longa pra pouca metragem. Naturalmente, a surpresa foi grande quando a cortina finalmente se abriu, aliada a uma boa dose de incredulidade e confusão. Curti or not curti, eis a questão.

Igual à maioria dos leitores de gibis com barba na cara e contas chegando sem parar, sou um entusiasta dos clássicos. Detesto quando modernizam meus personagens favoritos ou quando pretensamente os "melhoram". Mas tento ser razoável e sensato na medida do possível, pautando minhas opiniões nos resultados práticos. Mandarim era um mastermind megalomaníaco e estilizado cujas motivações arcaicas já não cabem na concepção cinzenta de mundo que se tem hoje. Particularmente, a última vez que o vi em ação nos quadrinhos, semi-repaginado, a coisa terminou muito mal pra ele.

O que fariam agora? Descaracterizariam tudo em nome dos novos tempos? O reciclariam para uma melhor analogia ao cenário atual, com uma China comercialmente aquecida e economicamente instável? Ou mergulhariam como kamikazes na Era de Prata, o fazendo encontrar dez anéis místicos dentro da espaçonave avariada de um dragão alienígena? Realmente esse não é dos personagens mais fáceis de se trabalhar em outro contexto - isso já tinha ficado claro em sua versão "abstrata" na animação O Invencível Homem de Ferro.

Mesmo assim, a saída pela esquerda foi de uma frieza estratégica notável. Ainda mais sabendo que foi aprovada pelo crivo da Marvel Studios, até aqui bastante criteriosa com a adaptação de seus personagens. Essa bateu até o "Sentinela" de X-Men 3. No âmbito narrativo, no entanto, foi genial o recurso do hoax. Impactante e desconcertante ao mesmo tempo, contrariando todas as expectativas. Gostando ou não, ninguém ficou incólume: todos se importaram o suficiente para defender uma opinião a respeito. Tal qual o herói, o espectador também foi arrastado pra fora da sua zona de conforto. Missão cumprida, roteiro.

Ainda acho que o Mandarim daria um grande vilão numa adaptação pra valer (é difícil, não impossível), assim como acho que uma coisa necessariamente não invalida a outra. A facção terrorista Os Dez Anéis realmente existe naquele universo, tendo sequestrado Stark no primeiro filme. E provavelmente não adotaram esse nome porque são fanboys de J.R.R. Tolkien. Killian pode ter se apropriado de uma lenda urbana à Keyser Soze sobre um suposto Mandarim que seria o #1 da organização. Talvez tenha até despertado a fúria do verdadeiro Mandarim, que até então só operava nas sombras, providenciando assim um arqui-inimigo definitivo para futuras sequências.

Sabe o que dizem sobre sonhar...


É notório o quão estreitos são os vínculos de Robert Downey Jr. com o personagem Tony Stark. Chega ao ponto de poucos saberem exatamente onde termina a persona de um e onde começa a do outro. E os filmes anteriores espertamente trataram de deixar isso bem nítido, às vezes até em sacrifício da narrativa. Com as regras ligeiramente alteradas, foi fascinante observar "ambos" despidos de seus superpoderes e comendo poeira ao nível do cidadão comum. Boa parte de Homem de Ferro 3 envereda no formato road movie + cidadezinha do interior, com direito a ajudinha de ilustres desconhecidos, como o hilário "cara da TV" e até um coadjuvante cômico mirim (não-chato, o que já é algo positivo). Chega a evocar o mesmo sentimento de solidariedade popular visto nos filmes do Aranha pelo Sam Raimi - aliás, uma de suas qualidades mais pungentes. E, principalmente, foi uma jornada que serviu para reparação não apenas da nova armadura, mas do próprio Tony, em plena ressaca de Os Vingadores.

Foi uma bela sacada focar o impacto psicológico sofrido por um gênio narcisista convicto após ser atropelado por uma situação muito além de seu controle e compreensão. Deuses, alienígenas, monstros, tecnologias desconhecidas, buracos de minhoca... o estrago pós-traumático beira o colapso total e, apesar de Tony se desconectar do espectador algumas vezes em decorrência disso, rende muito em tridimensionalidade. Afinal batia mesmo um coração lá dentro daquela armadura.

Claro, como fã da obra de Warren Ellis e Adi Granov, eu gostaria que a história fosse adaptada na íntegra, com todo seu potencial intacto, não que o Extremis fosse reduzido a uma mera batidinha de chili com lava. Talvez fosse pedir demais que Tony sofresse tal upgrade, ao invés do downgrade brochante, mas coerente, do final. Fora a negligência criminosa do roteiro ao mandar aquele maravilhoso e vasto catálogo de armaduras direto pro Valhalla. Mas, felizmente, o filme se garante como puro entretenimento à moda (não tão) antiga. Então consigo lidar com tudo isso numa boa.

Talvez com exceção de uma coisa... sem AC/DC?

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Tony Stark 2 (Retro-review)


Homem de Ferro 2 (Iron Man 2, 2010) foi sintomático no que tange ao bem sucedido processo de adaptação do herói para o cinema. É um legítimo blockbuster com cara de blockbuster e gostinho de verão, pipoca e feriado de 4 de julho yankee. Entre uma coisa e outra, vêem-se as virtudes, sintetizadas no tratamento de luxo que só uma marca de sucesso tem o direito, como também os defeitos. Aqueles mesmos que acometem o cinemão do Tio Sam temporada após temporada e que tem um pouco a ver com o mercantilismo agressivo em cima da arte e a facilidade de informação gerando um contraditório emburrecimento das novas gerações. Um pouco, porque o ingrediente principal trouxe um princípio ativo tarja preta: o hellraiser Robert Downey Jr.

Se no filme original o estilão solto e desencanado do diretor Jon Favreau fez do Latinha um personagem de cinema viável e carismático, em Homem de Ferro 2 ele quase rodopiou na pista. Todas as traquitanas high tech inacreditáveis, os dilemas morais advindos da parceria com os militares e o pega-pra-capar dos bastidores da alta classe executiva ficaram minúsculos diante do personagem magnético e larger-than-life que é Downey Jr./Tony Stark, alter-ego do herói. Favreau, talvez percebendo que o roteiro de Justin Theroux (Trovão Tropical) não daria conta sozinho, recorreu ao que funcionou melhor no 1º filme, que foi o bom-humor e a despretensão. Que em Homem de Ferro 2 traduziu-se em quase desleixo e um pé no besteirol.

Talvez fosse o caso de terem apostado numa abordagem mais sombria e menos piadista, um "O Império Contra-Ataca" versão Latinha. O timing era apropriado. Mas preferiram seguir a velha receita hollywoodiana do "bigger, stronger & faster". Afinal de contas, Downey Jr. e Stark eram agora grandes e ensolarados astros pop, certo? Mais ou menos. Grandes sim, mas ensolarados só na crosta. O fator que alçou ambos ao sucesso foi justamente suas nuances mais obscuras e lascivas. Quando anunciaram o 1º filme não faltou quem relacionasse o estilo de vida de Downey Jr. a de um certo hedonista ficcional envolto em escândalos com mulheres, alcoolismo e altas cifras. Eles nasceram um pro outro.

Não que eu esperasse uma dramatização deprê de O Demônio na Garrafa, queria apenas ver o protagonista soando mais humano e não tão acima do bem e dos maus. Mas no final das contas, até que o estrago não foi tão grande assim. Poderia ter sido muito pior.


Um aspecto positivo do filme foi expandir o cenário corporativo em torno das empresas Stark, algo bem recorrente nos quadrinhos que rendeu (e ainda rende) uma galeria de CEOs rivais do herói - dos irmãos Desmond e Phoebe Marrs, da Corporação Marrs, até Edwin Cord, dono da Cord Conglomerate, além de Ezekiel Stane, filho do aparentemente finado Obadiah "Iron Monger" Stane. O escolhido da vez, no entanto, foi um inimigo mais tradicional: Justin Hammer, encarnado pelo sempre ótimo Sam Rockwell. Providencialmente rejuvenescido, motivado e sem escrúpulos como manda o figurino Armani dos jovens multi-bilionários empreendedores. É mais um concorrente do que propriamente um arqui-inimigo. Mas carece da malícia e do intelecto que já fez o Tony Stark dos gibis comer o pão que Mefisto amassou várias vezes. O que é um pouco frustrante e se fez sentir quando Hammer é ingenuamente levado no papo pelo 2º vilão constante no filme.

Ivan Vanko foi interpretado laconicamente pelo freak Mickey Rourke, escolha tão estranha quanto o mix no qual foi criado. Vanko é uma mistura do bandido de 5ª Chicote Negro com o manipulador e vingativo Kearson DeWitt (de Guerra das Armaduras II), cujo background e motivações foram transpostos integralmente para o filme. Munido com um visual de figurante de Mad Max e um sotaque atroz - ah sim, e com dois chicotes de energia - Vanko até ameaça um páreo mental interessante com Stark. A cena em que Tony vai vê-lo na detenção e comenta onde ele errou na luta é de um cinismo faiscante. Poderia ser o início de um belo embate entre dois talentosos inventores, mas a coisa segue por um caminho um pouco mais rasteiro.

Uma notinha bizarra (outra) vai para o destoante bichinho de estimação de Vanko, uma cacatua ou algo parecido. Coisas de Mickey Rourke, sem sombra de dúvida.

Do lado dos aliados, a coisa rende melhor. Clark Gregg novamente preenche as lacunas como o intrigante personagem agente Coulson, mas não está só. Além da presença mais frequente do Nick Fury de Samuel L. Jackson - finalmente liberto do gueto end credits - Homem de Ferro 2 marca a improvável estreia da Viúva Negra nas telonas. Scarlett Johansson, sempre eficiente e bombshell toda vida, não tem a postura e o olhar de quem já passou um dobrado com lavagens cerebrais, treinamentos desumanos e missões suicidas. Nem cara de russa ela tem. E admito que, apesar de adorar a Scarlett, eu torcia por Emily Blunt, a primeira atriz considerada para o papel. Seria perfeita, mas o agente dela não fez o dever de casa, então estamos aqui com uma boa Viúva, mas não a Viúva dos meus sonhos.

Em que pese a favor da menina a evidente dedicação nas cenas de luta, bem frenéticas, coreografadas e visualmente generosas, se é que você me entende.


Mas a escalação mais complicada talvez tenha sido para o tenente-coronel James "Rhodey" Rhodes, amigão de Stark e seu eventual insider nos círculos militares. No 1º filme Terrence Howard havia oferecido uma atuação discreta, mas marcante. Mesmo o gancho que teve com a armadura do Máquina de Combate ganhou em proporção e acabou gerando certa expectativa. Que, graças a desacordos financeiros, ficou no vácuo. Então, por mais que o novo titular, Don Cheadle, fosse um bom ator - não é; é um brilhante ator; dê um play no seu DVD de O Diabo Veste Azul e fuce nos extras o teste de elenco que o homem fez em 1995, mas segure o queixo - o desafio seria considerável ao lidar com um personagem que já tinha rosto, tom e personalidade.

Se Howard era mais informal e flexível ao administrar a ponte Stark-Exército, Cheadle é mais austero e comprometido com os irmãos de farda. Querendo ou não, o perfil psicológico do personagem acabou redesenhado. E acaba sendo irônico o fato dele protagonizar com Tony a sequência mais dispensável e nonsense do filme: a treta do Homem Bêbado de Ferro com o Máquina Militar de Combate numa festinha privada na bacanuda casa de Stark em Malibu - poderia ser o Charlie Harper vomitando ali na armadura.

Camp até o talo, a tal cena remete às brigas de herói versus herói mais forçadas e sem sentido dos quadrinhos. Não sou um patrono da minha querida 9ª arte, mas não gostei de ver uma de suas piores facetas indo parar na telona quando tem coisa bem melhor esperando a vez. Nesse ponto, pensei que o run do Jon Favreau na franquia já estava mesmo de bom tamanho.

Aliás, é bom ver as pequenas participações do 1º filme sendo mantidas, como o próprio Favreau como o buddy-driver Happy Hogan e mesmo a teteia Leslie Bibb como a jornalista que Stark papou logo na arrancada. E Gwyneth Paltrow faz o que pode pela Pepper Potts que é ser, rigorosamente, Gwyneth Paltrow. Não a Gwyneth Paltrow enigmática e cool de A Força de um Passado, mas a Gwyneth Paltrow pós-Oscar, facinha e pura brisa de verão. Geralmente não sou de aplaudir casaizinhos em tela - acho isso um passo e meio para o fim - mas considero acertada a união dos pombinhos hesitantes aqui presentes.

Ainda que bastante previsível, o ato final é bastante divertido e guarda lá sua cota de referências futuras (Mandróides da Shield?) ou alternativas (o que não é aquele exército de robôs militares senão uns Sentinelas prontos pra arrebentar os malditos mutunas?). Justin Hammer paga por sua mediocridade nesta encarnação e Ivan Vanko volta para o mesmo lugar de onde saiu - ou talvez até pra outro melhor.


Homem de Ferro 2 está longe de ser ruim, mas acaba prejudicado por um excesso de situações em tela e pouco controle sobre elas. As subtramas envolvendo envenenamento por paládio e a mensagem ultra-mega-insanamente-truncada que o pai de Stark deixou pra ele soam tão esticadas quando vazias. Talvez Favreau não seja talhado para temas mais dramáticos e sérios. Ou talvez o roteiro não soube como matar essa bola dentro do contexto de um filme pop.

Favreau despediu-se do comando com uma tremenda façanha no currículo (Homem de Ferro, ícone pop? Get outta here...), o universo Marvel nos cinemas expandiu-se para além de Midgard e a Marvel Studios/Robert Downey Jr. garantiram a faculdade de seus trisnetos. O filme em si não é aquelas coisas, mas o terceiro lugar no pódio ninguém tasca.

Fase 2 aqui vou eu.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

IRON, IRON MAN


Stan Lee já dizia que Tony Stark era a persona quadrinizada de Howard Hughes, cujo talento pra fazer dinheiro só era comparável ao vício por adrenalina. Ou, nas palavras do homem, "um inventor, aventureiro, multibilionário, um sedutor e, finalmente, um maluco". 'Nuff said!

Homem de Ferro (Iron Man, EUA, 2008) parece buscar justamente essas coordenadas do mestre. E fica evidente que o grande achado do filme foi a escalação de Robert Downey Jr. Poucos atores são tão qualificados para personificar o playboy quanto ele - que conta, inclusive, com uma "valiosa" "experiência de campo", ao melhor estilo live fast, die young, que vitimou tanta gente boa ainda na curva ascendente. Mas onde Stark tem um quê de Willy Wonka, Downey tem de Keith Richards: talentoso, carismático (menção honrosa à Chaplin, de 1992) e quimicamente imortal. Um super-anti-herói da vida real, perfeito para o cargo - já comentei que ele aparenta ser um sujeito bacana?

Faço questão de destacar isso, pois nada pode ser tão definitivo numa adaptação. E raramente esses filmes têm acertado nas caracterizações. Felizmente, agora tem o Downey para engrossar a lista. Parece que já o estou vendo decidir entre a garrafa e a armadura. No filme, Stark se notabiliza por uma inesperada identificação com o espectador, senão na conta-corrente, ao menos no cinismo e falhas de caráter. Um ser humano de carteirinha, bon-vivant, mulherengo e um adorável calhorda.

Em outras palavras, um papel que é um verdadeiro presente para qualquer ator, mas não para qualquer ator.


O roteiro faz um mix bem resolvido do universo do personagem nos quadrinhos, desde a origem atualizada (à frente da ótima releitura de Warren Ellis, em Extremis) até citações para quadrinhófilos colecionarem e o ótimo desenvolvimento dos personagens secundários. Muitas informações em um curto espaço de tempo fluindo sem maiores desníveis narrativos, o que é, sem dúvida, sua maior virtude. Um grande trabalho do quarteto de roteiristas Mark Fergus, Hawk Ostby (ambos de Filhos da Esperança), Art Marcum e Matt Holloway.

O início da história é colocado para apresentar o espectador não-iniciado ao sempre espirituoso Tony Stark. Gênio inventor, bilionário e dono da Stark Enterprises (uma das maiores fornecedoras de armas para as forças armadas), ele é seqüestrado por um grupo de terroristas denominado "Os Dez Anéis" (boa!). Gravemente ferido, o magnata é salvo pelo Dr. Yinsen (Shaun Toub), também prisioneiro. No cativeiro, Stark se surpreende com o farto arsenal da guerrilha, fabricado pela sua própria companhia, e é forçado a reproduzir seu novo míssil tático, Jericho. Mas com ajuda de Yinsen, ele constrói na surdina uma armadura rudimentar à prova de balas e equipada com algumas armas.

Após uma fuga conturbada e de volta aos EUA, ele se dedica a aperfeiçoar o conceito da armadura (Projeto Mark) e dar fim à divisão de armas da Stark Enterprises. Para isto, tem de enfrentar seu sócio, o ambicioso e perigoso Obadiah Stane (Jeff Bridges). Ao seu lado, estão o Cel. Jim Rhodes (Terrence Howard, de Valente), seu melhor amigo, e Virginia "Pepper" Potts (Gwyneth Paltrow), sua leal assistente e um quase interesse romântico.


Homem de Ferro é um PG-13 de altíssimo nível e que não se deixa mutilar em criatividade por causa disso. Que nem antigamente. Existe aqui uma violência física considerável e algumas mortes, mas enquadradas de maneira implícita e até com certo bom humor, algo que Hollywood parece ter desaprendido nas últimas décadas. Há tempos eu me pergunto onde foram parar aqueles filmes tão divertidos que eu curtia na adolescência. Por esta facilidade em lidar com abordagens mais pop, o ator/diretor Jon Favreau se revela um cineasta da velha escola - mesmo sem pertencer à velha escola. Isto já era perceptível no ótimo Zathura: Uma Aventura Espacial (2005), bem como a sua simpatia por Caos & Destruição, aqui orquestrados com gosto de gás pela gigante ILM em associação com a Orphanage e a Embassy.

De fato, os efeitos são bem mais moderados que os de um Hulk (2003) ou de qualquer Homem-Aranha, no entanto, soam muito mais verossímeis, facilitados pelas composições geométricas do vilão e do herói. Que, aliás, conta com um elegante design, casando a concepção do artista Adi Granov com elementos de sua armadura clássica. Já o Monge de Ferro (apelido com que Obadiah se refere aos fabricantes de armas), que tem uma clara inspiração cinética no Cain, de RoboCop 2, é um protótipo maior e atualizado da armadura que Stark construiu precariamente. O que nivela o confronto final, onde Stark/Homem de Ferro se apresenta em péssimas condições - caso contrário, ele venceria facilmente com sua armadura, muito mais sofisticada. Uma boa sacada que talvez tenha arrefecido um pouco as possibilidades da seqüência. Decisão difícil, hein?

Um problema: Stark poderia ter sido mais poupado naquela aterrissagem de nariz, durante a fuga do cativeiro. Aquele trechinho sugeriu um direcionamento estilizado que pra mim teria sido o horror, o horror. Só pra não estragar a criança. Afinal, é o primeirão totalmente indie da Marvel Studios.


Acima de tudo, o que faz todos os mecanismos de Homem de Ferro funcionarem como um motor de uma Ferrari, é a interação do cast principal (incluindo aí as pontes que o roteiro cria entre os personagens e a direção técnica dos atores). Invejável. Aqueles quatro são a força do filme. Não vejo Gwyneth Paltrow soar interessante desde... desde... A Força de um Passado (sem trocadilhos, 1993). Pepper é tridimensional, frágil, corajosa e cativante. A cena em que ela dá uma "mãozinha" a Stark é uma das minhas preferidas, com humor - negro até - e uma boa troca dramática. Terrence Howard, apesar do espaço limitado, se sobressai ao espectro do mero sidekick, mesmo ao lado do magnético protagonista. Não é surpresa que tanto Pepper quanto Rhodes salvem o traseiro metálico de Stark em momentos-chave.

Outra boa idéia foi o JARVIS, acrônimo de "Just A Rather Very Intelligent System" (voz de Paul Betanny, o sujeito mais sortudo do mundo), e seus diálogos sutis e mordazes com o dono da festa.

E Jeff Bridges... é uma força da natureza. Sua caricatura vilanesca é uma delícia de se assistir, subvertendo aquela aura bom-mocista que predominou em sua carreira. Valeu cada fio de cabelo tosado. Com certeza, é o campeão do elenco - Downey Jr. não conta... é o próprio Stark cuspido pra fora dos quadrinhos.

Se esse filme fosse uma armadura, me serviria perfeitamente. Sem exageros: não saio do cinema tão satisfeito desde os anos 80, quando tudo parecia mais legal.


Mais uma coisa...


Não esqueçam do final dos créditos. Cameo mais cool do L.J. desde Irresistível Paixão?

A arte imita a arte que imitou a vida.


Na trilha: por coincidência, "Institucionalized", do Suicidal Tendencies, que rola no filme. Que trilha, hein.