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quinta-feira, 20 de junho de 2024

A águia voou


Donald McNichol Sutherland
(1935 - 2024)

Se foi o Donald Sutherland. Ficam a lenda, a obra fantástica, o senso de humor inabalável e a cara de pau inacreditável que exibia nas entrevistas e aparições públicas. Sutherland não era só grande, era gigante como a vida.

A eulogia escrita por seu filho Kiefer, além de poderosa e tocante, cunha uma sentença que define a carreira do homem:
Nunca se deixou intimidar por um papel, seja bom, mal ou feio.
Ele interpretou de tudo mesmo. Em 65 anos de profissão, nunca se deixou apanhar pelo typecasting. Nada mais foi preciso, apenas o seu incondicional amor à arte.

Não que seja algo que já não faça há eras, mas a hora é de homenagens e de umas Sessões Donald Sutherland. Não podem faltar os hits Inverno de Sangue em Veneza, Klute - O Passado Condena, Casanova de Fellini, A Águia Pousou, Os Doze Condenados, M*A*S*H, O Buraco da Agulha e, lógico, Os Invasores de Corpos. Só filmaços, impressionante. E o melhor de tudo, não são nem a ponta do iceberg.

Thank you for everything, Mr. Sutherland

sexta-feira, 16 de maio de 2014

12 Horas: Viva! (outro dia)


Nunca pensei que um dia o canastrão Kiefer Sutherland fosse me arrancar lágrimas. Ainda mais em companhia de uma (ex-) ilustre desconhecida, de nome Mary Lynn Rajskub. Mais do que a aguardada conclusão de 24 Horas, a dramática cena em os personagens Jack Bauer e Chloe O'Brian se despedem através da câmera de um drone foi uma perfeita metáfora à química dos dois atores ao longo da série. Nas palavras do próprio Bauer, nem ele mesmo esperava que Chloe fosse durar tanto e muito menos que criassem um elo tão forte ao ponto de se tornarem essenciais um pro outro.

Posso estar enganado, mas o que senti ali foi emoção genuína nos dois lados do monitor: era Kiefer conversando com Mary Lynn, prestando o devido respeito e admiração. E agradecendo por tudo o que passaram juntos.

O mesmo era facilmente aplicável ao ponto de vista do telespectador. Logo que apareceu, achava que aquela geek retraída e obsessiva-compulsiva seria mais uma estatística na extensa lista negra da série tão logo surgisse a primeira encrenca. "Melhores já caíram", pensava eu. O que eu não esperava é que ela se tornaria melhor ainda.

O final da série, qualquer que fosse, tinha que ser com eles. Não podia ter sido melhor.

E a vida continua.


Nesses quatro anos, tive que aprender a conviver sem minhas 24 overdoses de café com adrenalina. A abstinência foi tensa. E dá-lhe Homeland aqui, Rubicon acolá e, saindo da seara EUA/terroristas, The WireGame of Thrones, The Walking Dead e alguns outros. Todos grandes paliativos, mas, ainda assim, paliativos. Não digo que 24 era melhor nem pior. Era, simplesmente, única. Como o tempo exerce um estranho efeito cicatrizador, acabei me esquecendo um pouco sobre o que sentia tanta falta.

Mas isso até eu ouvir mais uma vez o famoso reloginho em 24: Live Another Day. A sensação, não podia ser diferente, foi de arrepiar. Fora a certeza de que delivery igual ao dessa série, não existe. O formato é de uma Scania perdendo freio na ladeira: clímax do início ao fim, não existe construção; é puro e desembestado payoff em 24 capítulos - ou, no caso desta nova incursão, em 12, apenas.

É pouco, mas generoso se comparado ao eletrizante (e infelizmente muito atual) longa Redemption, de 2008. Quantas séries já puderam se dar ao luxo render tantos projetos alternativos? E mantendo o mesmo grau de relevância de quando estreou, há 13 anos?

O que, convenhamos, nem é tão difícil se considerar que a matéria-prima da série é a escrotidão da raça humana em variados aspectos... sendo, portanto, infinita.

Bauer: o que for necessário.

24: Live Another Day tem esse título à 007 não é à toa: a trama se passa em Londres, quatro anos após a última temporada. Jack, adivinha, corre contra o tempo (e contra tudo e todos) para impedir um atentado ao presidente dos Estados Unidos - mr. James Heller, por sinal - que lá está para fechar um acordo decisivo com o governo inglês. Nesses três episódios até aqui parece que a série nunca acabou, a fórmula continua impecável. E pelo jeito, também não perderam a mão quando a questão é a crueldade com seus personagens. Basta ver o que aconteceu com Chloe nessa entressafra.

Algumas referências mais recentes dão as caras, como analogias descaradas ao Anonymous, Julian Assange e a proliferação dos drones norte-americanos ao redor do planeta. A bela Yvonne Strahovski (Chuck e Dexter) vem compondo uma promissora contraparte ao Jack, bem como a excelente Michelle Fairley (mais conhecida como Catelyn Stark), assustadora, talvez querendo vingança por traições de vidas passadas em tempos imemoriais...

Do lado novelão, claro que o prato principal será o inevitável reencontro entre Bauer e Audrey (Kim Raver) e, naturalmente seu pai, o então presidente. Não há cola no mundo que possa juntar esses cacos. Mal posso esperar.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Jackstroke


Season finale é uma caixinha de surpresas. Enquanto algumas séries começam a missão embebidas em hype, apenas para corresponderem com mais lugares-comuns e questões não resolvidas, outras seguem pelo caminho oposto, se superando a cada episódio, como se toda cena seguinte fosse a derradeira. Esse 8º dia na vida de Jack Bauer deveria ser obrigatório em oficinas e cursos de roteiristas. Não pela alta média de saídas criativas ou pela fina arte de repaginar as fórmulas da série, mas pela capacidade de prender a atenção (e os batimentos cardíacos). Nesse ponto, 24 Horas é imbatível. Tem sido, aliás, desde a fatídica 14ª hora. A partir dali a coisa realmente extrapolou.

Nessa 22ª hora, o mashup dos melhores elementos de ação e espionagem chega ao seu clímax. Após um episódio arrasador (aquela sequência do cerco no shopping deu vontade até de pagar ingresso e a cena da tortura do sniper russo é a mais arrepiante já executada por Bauer), agora acompanhamos nosso anti-herói favorito galgando a pirâmide conspiratória como se fosse um Wally West possuído pelo Necronomicon. Muitas coisas ali só veríamos num filme do Bourne. Outras, nem num filme do Bourne.

As interpretações estão uma uva: Cherry Jones, no papel da Presidente Allison Taylor, continua ótima em sua personificação do sonho americano corrompido; Mary Lynn Rajskub eficiente como sempre com a Chloe entre e a cruz e o Bauer; Freddie Prinze Jr. convincente como nunca foi na vida; Bob Gunton, que eternizou seu Secretário Ethan Kanin na mitologia da série, já está fazendo falta; e Michael Madsen, meu Deus, foi um legítimo às escondido na manga... jogadas de mestre como essa já motivaram muitas mortes em cassinos do velho oeste.

Mas o destaque gritante nessa reta final não poderia ser outro senão Gregory Itzin, o redivivo Presidente Logan. Talvez o antagonista definitivo da série, numa postura inicialmente metódica e cerebral emendando numa tresloucada corrida de volta ao poder (a cena das gravatas foi hilária), o ator superinterpreta - recurso perigoso - com todos os exageros gestuais e tiques a que isso dá direito.

Desde os momentos em que envenena as decisões da presidente até a torrente de informações que minam de sua boca à menor pressão de Bauer, sua performance esteve irresistível. Nem Roberto Jefferson faria melhor.

Bem...


O banho de sangue promovido por Bauer nessas duas últimas horas pode até soar refugo de ação standard, o que é mesmo, mas com a classe que faz a diferença. Não por acaso, a trilha sonora que embala o exército-de-um-homem-só lembra bastante as orquestrações de Jerry Goldsmith em Rambo 2. Mais sintomático ainda é quando Bauer se arma até os dentes para o sequestro de Logan. Receita de intimidação urbana é aquilo ali. Arsenal hardcore, o traje protetor pesadão e a máscara mezzo Jason mezzo Batman.

Isso, mais o redentor massacre no gabinete do Ministro Novakovich, dá a dica da forma mais clara possível: Bauer, eletrocutado, com duas facadas no bucho, contusões variadas e estresse físico over, só pode ser sobrehumano. Não como um super-herói, mas talvez como algo mais... compatível.

Próxima fase: Presidente Yuri Suvarov. Na minha opinião, antes disso a escalada revanchista acaba. Proporções globais e termonucleares demais na parada.

sábado, 3 de abril de 2010

"Derrubem quantos puderem"


Uma catarse com som & fúria e alguma classe no meio. Assim foi o 14º episódio da oitava temporada de 24 Horas. Mais adrenalizada do que nunca, a série sintetizou nesta hora boa parte de suas melhores características. Teve de tudo: um presidente americano sendo pressionado, a conspiração subsequente, ação frenética, agentes heróicos sacrificando suas vidas em campo, Jack Bauer no modo DefCon 1 e a eterna corrida contra o relógio. Tudo cimentado com uma argamassa de tensão dura como um murro na cara. Um autêntico must see.

Destaques: a sufocante cena no gabinete do secretário Ethan Kanin (Bob Gunton, que ator!) e o modo como ela se interliga à sequência espetacular da emboscada no túnel. Timing perfeito em todos os ângulos.

O único senão nesta reta final é que cada episódio outstanding como esse inevitavelmente me lembra que a série está com os dias, ou melhor, as horas contadas. Surreal ver os envolvidos já ensaiando os agradecimentos finais. Essa ficha vai ser ruim de cair.

terça-feira, 23 de março de 2010

CPI da CTU


Spoilers de 24 s08

Nem terroristas, nem intel, nem tecnologia: o maior problema da CTU sempre foi a improbidade administrativa. É assim desde a primeira temporada, naquele fatídico ano de 2001. Mesmo agora, nessa nova encarnação da agência, o problema persiste. Impressionante como não inventaram ainda um modo de escanear até o último neurônio de seus empregados. Após o caminhão desgovernado chamado Nina Myers, isso deveria ser obrigatório pra quem prestasse concurso para atuar lá. No 13º episódio da oitava temporada, mais um ciclo de traição e jogo duplo se inicia, o que já virou até tradição na série - junto com outras convenções que também deram as caras ontem à noite.

A primeira delas: o agente Owen. Quem é veterano de 24 sabe que ele pertencia ao vasto núcleo perecível da série. Mas até que tive alguma esperança em relação ao garoto. Seria curioso vê-lo vivo no último episódio, superando as expectativas e sobrevivendo após um dia inteiro na companhia de Jack Bauer. Conseguiu aguentar algumas horas. Considerando tudo, nada mal para um novato.

E até agora, nada de destravarem o chefão escondido da temporada. Apenas subchefes encabeçados pelo terrorista Samir Mehran. Que fez história na série, num senhor 12º episódio: nukeou a CTU com um P.E.M. - como ninguém pensou nisso antes? E também corrompeu seu staff interno com um agente infiltrado.

Dana Walsh/Jenny Scott até semana passada era uma analista sênior talentosa com um passado problemático. A traição em si não foi exatamente uma surpresa. Surpresa maior foi ter vindo dela, sempre com uma postura passiva ao extremo diante dos contratempos - particularmente nos últimos episódios, com um sabujo sociopata em seu encalço (o oficial de condicional Bill Prady). Dessa vez, a loira resolveu no braço. E ainda deve armar para a minha querida Chloe mais pra frente.

Já disse e repito, não trabalharia na CTU nem se me pagassem em euro. Hmm... meio-expediente, talvez.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

FIGHT FIRE WITH BAUER


Olha só que coisa. Mesmo com tudo o que já aconteceu em 24, a série nunca foi tão didática quanto no último episódio (o oitavo, sétima temporada). O que rolou ali foi um intensivão da metodologia anti-terror - e anti-ética - de Jack Bauer. Um compacto de tudo o que polemiza o personagem de Kiefer Sutherland e, porque não, daquilo que é o coração da série. Uma sequência em particular (a da imagem acima) é emblemática neste sentido: trata-se de uma única situação de campo, onde o ex-CTU, auxiliado por uma agente do FBI, tenta extrair uma informação crucial de um agente duplo. Movido por uma deadline iminente e antecipando a recusa do sujeito em abrir o bico, Bauer o coloca sob a mira, enquanto a agente do FBI invade a casa do cara e coloca a família dele (mulher e um bebê de 11 meses) sob a mira. Para Bauer é só mais um dia no escritório. Mas para a agente Renee Walker...

A agente Walker tem personificado os brios do espectador liberal nesta temporada. Ao mesmo tempo em que admite alguma tortura e coação por um bem maior (que seja), se recusa a trilhar de vez o caminho negro de Bauer, que absorve isso como oxigênio. Ela tenta evitar baixas. Ele, controla os danos. Isso deu muito certo antes (lembra de como ele quebrou o vilanesco Stephen Saunders na terceira temporada?). A única exceção (Christopher Henderson, mentor de Jack, ou seja, Satã em pessoa) só confirma a regra.

Uma das boas sacadas do roteiro foi mostrar a agente sendo seduzida pelo modus operandi de Bauer (reacionário e com tempo de resposta mach-5) em contraponto aos protocolos e burocracias sem fim do Bureau - este, sem dúvida, representado em terno e gravata pelo diretor assistente Larry Moss, de quem a Agente Walker é protégé. É dele uma missiva lapidar para Jack: "são as regras quem nos fazem melhores" - ao que ele prontamente responde: "não hoje".

Poucas vezes Jack esteve tão sóbrio e incisivo quanto nesta cena de confronto ideológico. Faltou pouco pra ele dizer algo como "sou o melhor no que faço" ou "peace sells, but who's buying?". Um badass, enfim.

A sétima temporada segue irrepreensível. Pra quem se surpreendeu com o tour-de-Rambo que foi 24: Redemption (achei um filmaço sim), posso adiantar que a trama está muito bem elaborada e cheia daqueles excessos narrativos quase-saindo-dos-trilhos que marcaram os melhores momentos da série. E pra quem estranhar a calmaria inicial, os dois últimos episódios (#7 e #8) são totalmente punk, hardcore e death metal. Na verdade, só há uma coisinha que ainda não comprei totalmente, mas sem ligações diretas com o andamento dos plots. Que, por sinal, nem vou resumir quais são para não atrapalhar a surpresa (não dessa vez!).

Ah, e evite o Wiki de 24. Estraguei um episódio só de correr o olho ali. Os caras contam tudo!

Na trilha: War Pigs!

sexta-feira, 28 de janeiro de 2005

OSSOS DO MALDITO OFÍCIO








Fuck me. E não é que Jack Bauer matou mesmo o Chappelle?! Coagido pelo super-terrorista Stephen Saunders, o presidente David Palmer autorizou a execução de Chappelle para evitar que um vírus letal fosse disseminado e vitimasse milhões de cidadãos americanos. Aparentemente, Chappelle, que investigava o fluxo das contas bancárias de Saunders ao redor do globo, atingiu algum ponto sensível no esquema do terrorista. Seja qual for, foi embora com Chappelle, pois nem ele mesmo sabe do que se trata (Nota do "editor" do blog - agora eu já sei do que se trata!).

Ryan Chappelle é (era...) o diretor da CTU e exerceu um papel fundamental nas 3 primeiras temporadas de 24 Hs (até quando não aparecia e era apenas citado). Sisudo, Chappelle mantinha uma frieza inigüalável em momentos pra lá de tensos e críticos, e exigia mesma postura do resto da equipe. Foi isso que triplicou o efeito dramático do ocorrido. Assim que soube por Bauer de sua condição descartável, sua parede de profissionalismo quase desabou. Méritos para a excelente atuação de Paul Schulze (Mutação 2, O Quarto do Pânico), entre o austero e o patético. Mas o pior foi vê-lo indo para o matadouro voluntariamente (como não poderia deixar de ser, pois o algoz era o Jack Bauer... se correr o bicho pega, se ficar...) e resumindo a sua vida antes do inevitável ato final.

Meu amigo... eu não trabalharia na CTU nem que o salário fosse em euro.


O LADO NEGRO DA WANDA






Se elas soubessem aonde essa conversa vai dar...

Eu já comentei aqui sobre o brilhantismo de Brian Michael Bendis em Avengers Disassembled. Foi brilhante mesmo, uma pérola recente. Principalmente por um detalhe que eu não atentei na época. Não sei se foi intencional ou se foi pura felicidade inesperada, mas ele amarrou a série de forma soberba ao apontar a Feiticeira Escarlate como a grande vilã.

Relendo histórias antigas, notei que a Wanda sempre foi dona de um background bastante curioso. Dividida pelo desejo de ser mãe (lembra da analogia que fiz com Grace, de Os Outros?) e seu amor por Visão (que nem é humano, é um sintozóide), fica subentendido num roteiro imaginário o fato dela ter feito escolhas erradas e reprimido as certas - durante anos. Psicologicamente, isso tem o efeito de uma bomba nuclear instável, prestes a explodir à menor pressão. E foi o que aconteceu durante e no final de Disassembled.




Descobrindo por Agatha Harkness que tem um poder praticamente ilimitado

Detalhe: o primeiro exemplo é de 1987 e o segundo de 2000. E não são apenas esses. Várias aventuras e situações decorridas ao longo dos anos revelam que Wanda sempre esteve em contato com um certo "lado negro" (personificado pelas suas frustrações e pela sua incapacidade de dominar todo o seu poder sem enlouquecer no processo) e que algum dia esse caldo ainda ia derramar feio. Parece incrível, mas a impressão é de que tudo isso foi feito já tendo a Feiticeira insana de Disassembled em mente. Agora toda a história antiga que eu leio da Wanda me dá essa sensação de conspiração escarlate.

Loucura, não? Por isso que eu comentei que Bendis foi brilhante em Disassembled. Possivelmente sem querer, ele traçou o perfil psicológico definitivo da Feiticeira e conferiu conhecimento de causa em sentido reverso com um alcance histórico de, no mínimo, 25 anos de roteiros escritos contendo a personagem.

dogg, ouvindo uma mulher interessante cantar.