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sexta-feira, 4 de novembro de 2022

Além do samba iluminado

A prévia não deixa dúvidas: Andança: Os Encontros e as Memórias de Beth Carvalho, com roteiro de Leonardo Bruno e direção de Pedro Bronz, parece fazer pela Madrinha do Samba o que Vale Tudo com Tim Maia fez pelo Síndico do Soul.

Talvez até mais.


Quem viu o documentário Rush: Beyond the Lighted Stage, de 2000, nunca esqueceu de uma cena icônica e universal: o vídeo caseiro em que o guitarrista Alex Lifeson, então com 17 anos, comunica aos pais que pretende largar a escola para seguir carreira numa banda de rock — e se esqueceu, não me importo em recordar. É sensacional. E o vídeo de arquivo do Prince com 11 anos dando sua opinião sobre uma greve de professores em sua cidade?

Esse tipo de achado arqueológico é ouro puro. E Andança periga ser uma mina gigantesca.

Salta aos olhos a autoconsciência da inesquecível Beth em documentar tudo que vê pela frente. Nem imagino se já tinha consciência de que estava cunhando um material de acervo histórico da música brasileira também. Mas estou louco para descobrir.

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Acabou Moreira


Cresci ouvindo a música de Moraes Moreira. Não porque eu procurava: era só passar em frente a qualquer tevê ou rádio ligados. Moraes era a personificação da cultura popular brasileira, sem fazer esforço. Nos anos 1980 era a trilha - involuntária que fosse - de qualquer feirinha de rua, de qualquer periferia, de qualquer Carnaval dentro e fora de época.

E isso tudo porque eu ainda peguei o bonde andando. No fim da década de 1960, ele fundou os Novos Baianos juntamente com Baby Consuelo, Pepeu Gomes, Paulinho Boca de Cantor e Luiz Galvão. Uma das melhores seleções já montadas na Música. Com Moraes foram apenas seis anos (a mil) que entraram para a História.

Redescobrir os Novos Baianos anos depois foi, para mim, como a "2ª vinda". Moraes deixou de ser a trilha incidental de todos os dias para virar objeto de culto. De estudo. De paixão pela música e seus trocentos significados.

Novos Baianos F.C. (Solano Ribeiro, doc, 1975)

"Na verdade, quando o Moraes estava nos Novos Baianos, nós dividíamos a direção musical. Eu acho que o Moraes foi e é a principal figura, centralizada, dos Novos Baianos, porque tudo nascia do Moraes. Eu tenho a maior convicção de falar isso, porque o Moraes tinha uma maneira de fazer música que era só dele. Ele pegava as letras do Galvão, que na maioria eram livros, não eram letras, e começava a destrinchar aquilo de uma maneira, tirava aqui, encostava ali e eu ficava observando aquilo. Ele foi uma grande escola para mim em termos de composição, porque hoje eu tenho um trabalho de composição também, que acontece dentro da minha história. Eu ficava colado com o Moraes o tempo todo e por meio desse relacionamento musical a gente desenvolveu essa coisa dos Novos Baianos, a direção musical dos Novos Baianos. Quando o Moraes saiu, em 1974, eu me senti um pouco sozinho, porque eu estava segurando uma onda em que, na verdade, todo mundo já sabia o que queria ser. Nessa época, eu chamei o Jorginho para me ajudar, meu irmão Jorginho Gomes, que é um músico extraordinário e me ajudou, ainda que os Novos Baianos mais agonizassem do que sobrevivessem nos quatro anos seguintes, com quatro discos, porque com a saída do Moraes ficou uma lacuna musical, dentro da parte de composição. O Moraes era aquele empuxo, a turbina que dava a largada para a gente chegar em cima e cada um colocar sua onda, mas a gente conseguiu sobreviver e fizemos bons discos, como o Caia na estrada…, que é um excelente disco. Com a saída do Moraes e o Jorginho em ajudando, a partir daí eu comecei a ser mesmo o diretor musical dos Novos Baianos."

– Pepeu Gomes.

Moraes Moreira, o líder musical de um grupo de exímios craques. Hoje o Brasil deu adeus a um mestre.

Muito obrigado por tudo, Moraes!

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

O Legado Zéfiro

Mais uma rodada por conta do camarada Sandro: no fabuloso documentário curta-metragem Zéfiro Explícito (2012), de Sergio Duran e Gabriela Temer, é passada a limpo a história de Alcides Aguiar Caminha, datiloscopista da Imigração, compositor e alter-ego do mitológico Carlos Zéfiro, o deus pagão dos catecismos.


Anos atrás escrevi algumas linhas em tributo ao Zéfiro, voraz consumidor de catecismos que sempre fui. Mas foi a 1ª vez que tive acesso aos pormenores da história toda pela boca dos próprios envolvidos. Os depoimentos de Ota, Juca Kfouri e do filho do Homem foram bem mais que especiais - foram essenciais. Chegam a ser inspiradores.

Nada mais justo que, em tempos de FICs, FGDQs e CCXPs, o comercialismo desenfreado dê um descanso e o legado desse autêntico patrimônio popular não fique mais uma vez esquecido.

Entrevista quase protocolar no Jô Onze e Meia. O relógio realmente parecia estar correndo para o bom e velho Zéfiro...