Quando as coisas vão mal, nada melhor que uma guerra. Ou duas. Até nisso a trajetória do
Homem de Ferro avança em paralelo com o sistema tecnocrata que defende (já concluindo aqui o rompante
Jabor'esco). E no caso do Latinha, as coisas estavam indo
realmente mal. Após
A Guerra das Armaduras, a clássica dupla formada por
David Michelinie (argumento) e
Bob Layton (desenhos e arte-final) permaneceu no título por algumas poucas edições. A saideira de Michelinie foi na divertida
Iron Man #250 (lançada em
GHM #41) e Layton apenas roteirizou esporadicamente. Com o rodízio de profissionais duvidosos que se seguiu - gente do calibre de Fabian Nicieza, Dwayne McDuffie e o terrível Herb Trimpe - praticamente todos os ganchos em andamento foram descontinuados em edições pra lá de capengas.
Foi neste clima que estreou a aguardada
Guerra das Armaduras II, seqüência notável pela colaboração entre
John Byrne e
John Romita Jr. Mas antes de reingressar ao campo de batalha, o Vingador Dourado enfrentou algumas turbulências. Na derradeira fase escrita por Michelinie,
Tony Stark fez uma série de
"acordos" com o governo para escapar dos processos provenientes dos estragos causados na primeira guerra das armaduras. Depois,
se aliou a um de seus piores inimigos com resultados desastrosos e, em seguida, foi baleado por uma ex-amante enciumada. Ficou paraplégico nessa (em um
cliffhanger digno da novela das oito!), mas se recuperou com o implante de um microchip que substituía as terminações nervosas afetadas. Por fim, um quase-alento: a
trégua com o Cap - embora constatando que a velha amizade havia acabado e as coisas nunca mais seriam as mesmas.
Já sem a batuta de Michelinie, o herói ainda teve de assistir sua nova e poderosa armadura sendo
destruída por um subvilão de quinta. O que deu lugar à série
Mark III-A e ao
modelo XIV, o primeiro com o prático "display de interface por neurosistema", permitindo a Stark o acesso remoto às armaduras através de ondas cerebrais, mesmo a grandes distâncias. Uma espécie de embrião do conceito do Extremis.
Originalmente, a solicitação de
Guerra das Armaduras II contava com Bob Layton no roteiro e Romita Jr. nos desenhos, mas a parceria durou apenas 1 edição (a sensacional
Iron Man #256, publicada no Brasil estranhamente em
Wolverine #21, ao invés da
Incrível Hulk habitual). Num lance mal-explicado, Layton pulou fora para a
Valiant Comics, sendo substituído por John Byrne em cima da hora. Sendo assim, o início oficial da continuação se deu em
Iron Man #258 e durou até
IM #266 (aqui,
Incrível Hulk #127-136).

O arco começa com Stark e
Rhodey testando as novas instalações de treinamento - um tipo de
Sala de Perigo versão Latinha - e o desempenho de sua mais recente armadura. A seqüência inicial é eletrizante, com Stark controlando duas armaduras ao mesmo tempo contra um
droid monstruoso e o traço do Romitinha em sua pegada mais hardcore. Após o "exercício", Stark sente algumas dores estranhas, logo preteridas por um incidente na usina nuclear da
Stark Enterprises.
Chegando lá, o Homem de Ferro tenta conter um vazamento radioativo e enfrenta ninguém ninguém menos que o
Homem de Titânio (morto durante
Guerra das Armaduras). Incrédulo, o Latinha dribla o "fantasma" e consegue impedir a tragédia nuclear deslocando o
reator inteiro para o fundo do oceano. O Greenpeace não aprovaria, mas...
Depois do sufoco, Stark tenta descansar e sofre um baita lapso de tempo, acordando após 3 dias, em outro estado (!), num quarto de hotel com uma ilustre e deliciosa desconhecida. Por sinal, este é um dos três subplots constantes em
GdA II. Os outros dois respondem pela
melhor personificação do vilão
Laser Vivo e pelo retorno/releitura do adversário mais clássico do Homem de Ferro: o
Mandarim.
O estado clínico de Stark se agrava, passando para perda total de coordenação motora e movimentação involuntária. Com isto tudo, o
playboy (no bom sentido!) ainda tem de enfrentar a fúria do sindicato dos funcionários da Stark Enterprises, que estão em greve e ameaçam invadir a sede da empresa - revolta fomentada por um ex-empregado sindicalizado e baderneiro de carteirinha (qualquer semelhança com o atual MST é uma triste coincidência). O clímax é algo insólito, com o herói contendo uma multidão de grevistas, ao melhor estilo batalhão-de-choque-de-um-homem-só. Faltou só rolar
"Street Fighting Man"... ou
"Street Fighting 'Iron' Man".
Após vários exames em uma sala isolada, Stark descobre que estava sendo manipulado através do microchip que lhe possibilitou andar novamente. O microchip foi criado por uma subsidiária "laranja" da
Corporação Marrs, dos irmãos
Desmond e
Phoebe Marrs, notórios desafetos do herói. A conspiração estava sendo dirigida pelo obcecado
Kearson DeWitt, que buscava vingança por achar que Stark roubou o projeto do Homem de Ferro de seu pai, um brilhante engenheiro que morreu na miséria.
Vilão tridimensional, ponderado e, diria até, bem passível de uma adaptação cinematográfica.
No geral, a saga mantém uma narrativa acelerada, dinâmica, sem muitas pausas entre um gancho e outro. Mesmo com três plots intensos se desenvolvendo ao mesmo tempo, a unidade do arco é invejável. A reinvenção do Mandarim é simplesmente genial. Com uma roupagem bastante influenciada pelo
nosferatu chinês
Lo Pan (preciso informar o filme?), ele ainda ganhou a companhia de um ótimo personagem, o enigmático
Chen Hsu. É de longe a versão mais interessante e
poderosa do velhusco vilão, agora com bala na agulha até pra colocar o infame
Fin Fang Foom como seu cão de guarda.
Curiosamente, toda essa linha narrativa transcorre independente das demais. O Mandarim e suas ações nunca chegam a interagir com o Latinha, servindo apenas como intro para a saga posterior - concluída em
Iron Man #272 (
GHM #48), já sem o nanquim abençoado de Romita Jr. Contudo, acabou rendendo uma edição espetacular (
Iron Man #261/
Incrível Hulk #130), onde cada página é dividida em duas situações distintas ocorrendo ao mesmo tempo. Uma grande sacada de Byrne, inquestionavelmente em seu auge como roteirista - detalhe que, sem dúvida, faz transparecer o espírito por trás do arco.
Guerra das Armaduras II vence pelos talentos individuais. Não tem qualquer ligação com a primeira aventura e acaba sendo comparativamente inferior - apesar da arte fabulosa e dos vários pontos altos do argumento. Se não fosse pelo final, com uma pancadaria titânica entre
dois Homens de Ferro e o calculista DeWitt devidamente 'tunado', nem o nome da saga faria sentido. Fica óbvio que foi apenas uma estratégia comercial, visto que a idéia de uma seqüência tinha boa aceitação por parte dos leitores e o título (um dos mais longevos da Marvel) afundava numa crise interminável após saída de Michelinie.
Em seu
site oficial, John Byrne
chega a comentar a situação Defcon-1 a qual foi submetido pelo então editor da revista, Howard Mackie. Foi o seu melhor dentro de uma
deadline absurda. Se isto for levado em consideração, o resultado final passa de ótimo para impressionante. E imperdível, note bem, pela química rara entre Romitinha e Byrne. Para admiradores da composição estética e narrativa da arte seqüencial, é um show de emocionar até o Scott McCloud. Resumindo, ficaria lindo num encadernado em cima da estante.
Há rumores de que a idéia original de Bob Layton para
Guerra das Armaduras II - com Romita Jr. no traço - era fora-de-série. Tendo em vista a qualidade da edição única em que os dois trabalharam juntos (a já citada
Iron Man #256), só posso imaginar o melhor. Mas isso é algo que jamais saberemos.
Na trilha: Sucking The 70's na agulha do winamp, fazendo a festa stoner aqui.