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domingo, 4 de março de 2007

DIRETOR FANTASMA


"Spawn was much much better than this". Essas palavras calaram fundo na minha mente quando li o review do Harry Knowles sobre Motoqueiro Fantasma (Ghost Rider, 2007). E ele estava lá, desfiando passionalmente sua fúria fanboy-mor em cima de mais um suposto desperdício de um bom personagem dos quadrinhos. Analisando friamente, nada de novo até aí, visto que o diretor é o mesmo Mark Steven Johnson, do meio-médio-ligeiro Demolidor e responsável por uma nova enfermidade chamada transtorno obsessivo-compulsivo de Elektra*. O mal de Johnson é muito peculiar. Ele soa como se fosse um subproduto de Paul W. Anderson (de Aliens vs Predador), que por si só já é um subproduto de diretor-operário. A ironia é que Johnson tem boas idéias conceituais (Demolidor mesmo tem várias delas), mas as anula uma a uma impiedosamente em lances de absurda previsibilidade. Pra piorar, não parece ter a mínima intimidade com diálogos inspirados ou roteiros bem amarrados. E neste filme, além de dirigir, ele adapta e roteiriza... ou seja, Motoqueiro Fantasma é 100% Mark Steven Johnson, um cineasta 25%.

De qualquer modo, o filme é bastante fiel à premissa dos quadrinhos e condensa tudo que o Motoqueiro tem de melhor. Seu alter-ego é o motoqueiro Johnny Blaze com a roupagem e os poderes do motoqueiro Daniel Ketch. Nicolas Cage finalmente conseguiu o tão sonhado papel de super-herói e não faz feio no que lhe diz respeito. E a história é aquele mesmo causo faustiano contado na Marvel Spotlight #5, só que mais enxuto. O jovem Johnny (Matt Long) e seu pai, Barton Blaze (Brett Cullen), fazem um espetáculo com acrobacias em motos. Nas horas vagas, Johnny encara outro espetáculo, de nome Roxanne Simpson (Raquel hhhmmm Alessi). Um belo dia, ele descobre que seu velho pai tem câncer e está em fase terminal. É quando aparece o boitatá-de-Armani Mefisto (Peter Fonda), com um providencial contrato debaixo da asa. Sem maiores espiritualidades, Johnny vende sua alma pra aprender a tocar guitarra... digo, salvar a vida de seu pai do mal irremediável. Desse mal irremediável, melhor dizendo, pois o mesmo empacota na primeira manobra arriscada de sua apresentação, configurando aí uma autêntica sacanagem dos diabos.

Amargurado, Johnny cai na estrada e embarca numa carreira-solo bem sucedida, mas vazia. Os anos passam e ele reencontra seu antigo amor, Roxanne (já esculpida com as curvas de Eva Mendes), que, óbvio, virou jornalista. Como esmola demais o santo desconfia, Johnny também recebe a desagradável visita de Mefisto – o ser mega-satânico está reivindicando sua parte no contrato para conter a rebeldia de seu filho, Coração Negro (Wes Bentley).


Um grande mérito foi manter intacta não só a presença cavernosa do Motoqueiro, como também a enorme extensão de seus poderes - o personagem é muito poderoso, mesmo para os padrões super das HQs, e isto é claramente demonstrado aqui em diversas situações. Seu vozeirão gutural ficou ótimo, de meter medo em vocalista de death metal. Rola Crazy Train, do Ozzy. O maneiríssimo Olhar da Penitência está lá também. E quando seu "uniforme" fica totalmente caracterizado, com os vinte quilos de couro preto, corrente atravessada e espinhos metálicos, bate até um certo regozijo nerd. Nem o Homem-Aranha foi tão justiçado. Outra boa sacada foi o background sintético do Blaze pré-Motoqueiro. Ficou tudo mais ágil e marcante. Nos quadrinhos, a trajetória do rapaz (que era adotado) é um dramalhão texano daqueles. E uma vez mais, Johnson prova que, tirando alguns poucos Aflecks, é certeiro no que tange à escolha do elenco. Além do easy rider Peter Fonda, também tem meu tio Sam Elliott num papel que, fora ele, apenas meu outro tio, Clint Eastwood, poderia personificar com tal foderocitude, son. Rrrc. Cusp.

Parece bom, né. Mas não é bem por aí não. Johnson ainda continua matando seus bons rompantes com a frieza de um serial-killer, e a partir da segunda metade, ele o faz com talento ímpar. É aí que eu entendo melhor a fúria Knowlesca: o cineasta parece se esmerar para garantir que o produto final seja milimetricamente razoável e nada mais, mesmo com todas as condições favoráveis para deslanchar (o extremo oposto de Bryan Singer, na época do 1º X-Men). Johnson assume a ponta sem grandes dificuldades, mas aperta o freio bem no meio da curva. Essa atitude irrita mais do que se o filme fosse uma pilha de merda fresca.

Em Motoqueiro Fantasma existem momentos de puro vazio contextual. Não raro o personagem, com todo aquele visual dark hardcore, "trava" em cena e não diz a que veio, e quando diz não tem a menor importância - é impossível lembrar das falas do Motoqueiro segundos após as mesmas. Fonda e Elliott não passam de coadjuvantes de luxo – Elliott então, é praticamente despejado do filme em uma última cena cheia de buracos na lógica (não podia só ter pego carona na moto pra poder ajudar mais?). Já Coração Negro tem um poder com um efeito sinistrão, mas passa o filme inteiro se utilizando de seus assistentes – demônios buchas que representam as forças elementais. Cage, por sua vez, insiste em apontar o dedo em riste, ficar uma eternidade em silêncio pra finalizar dizendo alguma pasmaceira óbvia – maneirismo canastrão repetido ad nauseum (de quem terá sido a idéia...). Isso pra não falar na fixação do personagem por Carpenters e balinhas de jujuba (!!).

A apenas quinze minutos do final, eu imaginava se uma boa briga entre o Motoqueiro e Coração Negro não resolveria a parada. Sim, resolveria. Mas Johnson já tinha jogado a toalha há quarenta minutos atrás. Imagine o Deacon Frost, vilão do 1º Blade, com as mesmas motivações e planos para dominação do mundo, mas sem a luta final. Este é Coração Negro, que, por sinal, não tem nada demais em sua forma verdadeira, à despeito das declarações exageradas do diretor.

Um ano de pós-produção pra isto. Estou impressionado.


Parabéns Johnson, você conseguiu. Motoqueiro Fantasma é o filme mais mediano dos últimos tempos. Pelo menos rendeu aquela simulação em flash no site oficial.

Ah, mas eu não tenho webcam... tsc.


A propósito, um breve adendo:


Nicolas Cage já topou com um motoqueiro dos infernos, certa vez. Tal de Leonard Smalls, motoqueiro solitário do Apocalipse... ou algo que o valha.






Puxa vida, aquele cara era bem durão para uma metáfora.


Parabéns Eva Mendes. Beijão na boca!

domingo, 28 de janeiro de 2007

DIABOLE VERTSES EN UN VESES

"Who, in their right mind, could possibly deny the 20th century was entirely mine?"
John Milton (Advogado do Diabo, 1997)

E pelo andar da carruagem, o coisa-ruim anda fazendo uma senhora campanha de publicidade também no século 21. É um tanto desesperador que esta frase tenha sido cunhada numa época pré-11/9, pré-Afeganistão, pré-Iraque, pré-tsunami, pré-mensalão, e por aí vai. Certa vez, li uma teoria sobre o livro/filme O Exorcista que explicava que aqueles eram tempos de crise moral e política nos EUA, somadas aos horrores de uma guerra perdida, à escalada da violência urbana e à ausência geral de valores espirituais. Ou seja... o ambiente perfeito pro demo fazer a festa (começando por garotinhas indefesas). Longe de ser um expert nos aspectos técnicos das manifestações cramulhísticas, imagino que, sendo uma entidade abstrata em nosso plano, a sugestionabilidade coletiva é uma poderosa arma em suas garras. Não que o tinhoso seja o causador da merdaiada em que o ser humano vive se metendo. Seu 'trabalho' é muito mais discreto. Afinal, como profanou humildemente John Milton... "não sou titereiro... apenas preparo o cenário. Você é quem puxa suas próprias cordas".

Na cultura pop convencionou-se tornar a figura do belzebu em algo mais concreto e, nessa, o conceito do anticristo foi prontamente adotado. No cinema, ele aparece mais freqüentemente como uma força invisível e irreprimível (vide o Bzão O Príncipe das Sombras) ou como moleques assustadores com um "666" tatuado em algum lugar do couro (A Profecia, O Bebê de Rosemary). Mas isso é só no caso da paternidade ser do próprio Satan-in-chief. O esquema todo é cheio de regras e estratégias porque o livre-arbítrio, graças a Deus, tá na área.

Nos quadrinhos, essa burocracia infernal, bem mais complicada que uma "simples" possessão (à Etrigan/Jason Blood, da DC), pode ser contornada quando o cão em questão pertence à uma classe inferior - 1/3 dos anjos originais já é um número que demanda alguma pesquisa censitária. Nota-se também que um objetivo de vida mais modesto e não tão ambicioso, tal como "conquistar/destruir o mundo", é um facilitador do processo. Foi assim com o sacana Violador (arquiinimigo do Spawn), da Image, que, se não me falha a memória, é filho de um demônio jurássico old school com uma humana (é isto mesmo, Fivo?).

Já o sinistro Coração Negro, da Marvel, é um caso à parte.


Wes Bentley recebendo o exú Coração Negro: a forma humana do vilão

Criado por Ann Nocenti e John Romita Jr. em 1989, ele debutou numa história do Demolidor (Daredevil vol.1, #270 - publicada no Brasil em Superaventuras Marvel #122). Coração Negro é filho do super-capeta Mefisto, que o concebeu sem envolver qualquer miscigenação - o pequeno Coraçãozinho, além de 100% Negro, é 100% Cramulhão - detalhe que acho interessante. Ensaiando uma versão blasfema do Deus cristão, Mefisto envia seu único filho para a Terra em busca de uma espécie de redenção invertida. E para isto, nada melhor que vilipendiar os valores e ideais de alguma alma justa, incorruptível e altruísta - é ou não é a descrição per se do Demolidor (a.k.a Demônio Audaz)?

Em seus primeiros dias, Coração Negro é instinto puro. Através dos recordatórios, Ann Nocenti (mulher sensacional... ainda vou escrever muito, mas muito sobre ela) detalha minuciosamente cada sensação e etapa do aprendizado da infante criatura das trevas. O resultado lembra o texto de algum documentário estilo Desafios da Vida, com predadores famintos cercando filhotinhos desgarrados. A prosa de Nocenti é ágil e muito bem-sacada, o que impede o roteiro de se tornar pretensioso e enfadonho. Mesmo assim, ela aposta no seguro e suaviza ainda mais a atmosfera com uma participação especial do Homem-Aranha - outro herói sempre às voltas com dilemas éticos e ideológicos.

E Romita Jr., atravessando a primeira e definitiva re(/volu)formulação em seu estilo, insere em sua concepção visual o mesmo clima descomplicado das palavras de Nocenti. Fora que seu design para Mefisto, além de radical, é bem mais aterrorizante que o Conde Drácula cover habitual.


Provavelmente... nunca havia pensado nisso e nem sei se confere de fato... Romita Jr. tenha se reinventado de maneira tão efetiva visando a interação ideal com a narrativa de Nocenti. Acredito mesmo que ele tenha empreendido uma busca pela química perfeita entre suas imagens e o texto dela - deixando pra trás a influência paterna inicial (wow) para descobrir sua verdadeira ID artística, o que resultou numa das melhores parcerias dos quadrinhos, merecedora de TPB's, sketch-books e edições especiais ad nauseum (alô Panini!).

Segue abaixo a história da treta de Murdock e Parker versus o vilão de coração negro. Scans by me.


Peter Fisto: Easy Rider from hell
Sinceramente, tento não esperar muito da adaptação de Motoqueiro Fantasma - onde também estrearão na telona o papai Mefisto (ou Mefistófeles) e Coração Negro (Jr). Apesar dos ótimos previews, teasers e trailers, o figura Mark Steven Johnson sempre será o diretor do decepcionante Demolidor. Mas, olhando pelo lado positivo, grande parte das deficiências que deram as caras em Demolidor (sem trocadilho) serão contornadas pela natureza e poderes sobrenaturais do personagem-título. E o cast é bastante animador. Além de Nicolas "droga-eu-queria-mesmo-era-o-Superman" Cage, também tem o meu tio Sam Elliott, o sempre promissor Wes Bentley, a instituição harley-davidsoniana Peter Fonda e a explosively hot Eva Mendes.

E não sei até que ponto se pode confiar nas declarações do diretor, mas que elas são instigantes, isso são: "Coração Negro é mostrado no que eu considero sua 'forma humana' na maior parte do filme. Mas ao longo da história nós recebemos dicas do que existe debaixo desse disfarce. No clímax descobrimos seu eu verdadeiro - e ele é horroroso. Haverá um pouco do visual clássico da HQ adicionado de alguns elementos de horror".

Mefisto te abençoe, meu filho. Motoqueiro Fantasma estréia nos EUA em 16 de fevereiro. No Brasil, dizem que será em 02 de março.

Na trilha: Paradise Lost, One Second Live.