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sexta-feira, 22 de outubro de 2021

Deus Ama, The Shape Mata


Halloween Kills cumpre à risca a promessa do título. Não é apenas o longa mais matador da franquia, como também é o recordista de mortes em um único filme slasher. Por isso não deixa de ser curioso o perfil da trinca de roteiristas: o comediante Danny McBride, o cineasta indie Scott Teems (que até daria um bom serial killer) e o também diretor David Gordon Green, um craque no drama. Trio fora da curva trocando novas ideias com velhos fantasmas.

A chefia realmente botou o peão Michael Myers pra suar a máscara full time, fora as horas extras. O que, no caso, se traduziria como o Halloween 2018, que trouxe a primeira etapa da mesma noite sangrenta, tal qual o clássico de John Carpenter em relação a Halloween II (Rick Rosenthal, 1981). Fosse um bloco único, o body count explodiria e disputaria o campeonato direto pela divisão dos filmes de ação-brucutu.

De fato, fica claro que a melhor maneira de apreciar a obra é numa sessão com os dois filmes em sequência, coisa que me vejo fazendo num futuro bem próximo. Porque vale a pena. Muito.

Apesar dos longas não terem sido filmados simultaneamente —o que chegou a ser cogitado em 2018— e da produção ter amargado 1 ano de gap pandêmico, a continuidade-pacing-ritmo flui à perfeição. Novas sagas pessoais são agregadas às anteriores e vários personagens secundários do run original são resgatados/desenvolvidos para interagir na festa. O que é louvável. A maioria dos diretores se limitaria apenas a espalhar ovos de Páscoa em pleno Dia das Bruxas.

Isso também se estende ao núcleo principal, com a boa química entre Andi Matichak, Judy Greer e Jamie Lee Curtis, a eterna Laurie Strode. Além, claro, de Will Patton, aqui poupado da síndrome de Sean Bean que acometeu sua filmografia nos últimos tempos.


A história faz pontes com os eventos do 1º filme e fornece mais pistas sobre seu lugar no universo da franquia.

Logo de início, enquanto o redivivo oficial Hawkins (Patton) é socorrido, ele relembra a fatídica noite de 40 anos atrás, quando participou da caçada a Michael Myers, logo após este sobreviver aos tiros do Dr. Loomis. Ou seja, agora temos a confirmação de que Halloween II é desconsiderado nesta encarnação (embora que: 1 - a personagem Annie Brackett, BFF da Laurie de raiz, apareça numa imagem de arquivo extraída daquele filme; e 2 - Michael Myers revele um olho vazado num framezinho maroto). O flashback é concluído de forma dramática e lega ao personagem, além de profundidade, um trauma para a vida.

Aliás, Haddonfield poderia muito bem ser a capital mundial do stress pós-traumático. A quantidade de habitantes sequelados por metro quadrado é absurda, batendo fácil os insones da Rua Elm e os transudos do acampamento Crystal Lake.

Em Halloween Kills, o pacato subúrbio vira o epicentro slasher do cinema atual. A jornada sanguinária atinge ali novos patamares, criando um microcrosmo orgânico, reativo, com uma atmosfera de terror e histeria digna de uma placa de boas vindas escrita por Dante Alighieri. Algo que só vimos, quando muito, no 4º exemplar da franquia, o subestimado Halloween 4: O Retorno de Michael Myers (Dwight H. Little, 1988), com seus caipiras da milícia caça-Myers. A escalada de tensão é muito bem conduzida na sequência do hospital. Além de ser um tapa na cara da mentalidade de rebanho, tão frequente nos dias atuais.

Fora o bom resgate do personagem Tommy Doyle, agora um coroa sedento de vingança interpretado por Anthony Michael Hall (sim, estamos velhos), me impressionou o retorno da atriz Nancy Stephens como Marion Chambers, a ex-assistente do Dr. Loomis. É seu quarto Halloween —e o 2º em uma linha temporal paralela— e começa no filme como a mais longeva sobrevivente de um ataque direto do tubarão Myers.

Destaque também para o arrepiante cameo do próprio Dr. Loomis, eternizado pelo saudoso Donald Pleasence e aqui representado por Tom Jones Jr., diretor de arte do filme. Mórbida semelhança.


O filme também faz atualizações importantes e controversas para os fãs die hard da série: saem a habilidade quase psíquica de Michael rastrear Laurie e a sua obsessão em eliminá-la. Considerando que o filme anterior estabeleceu que o parentesco entre eles não passava de um hoax, realmente não fazia sentido manter os artifícios —o próprio Carpenter classificou tal parentesco como "estúpido" e que só saiu do papel para preencher o fiapo de roteiro do 2º filme.

Longe de mim discordar do Carpinteiro, mas sempre achei essa a peculiaridade mais intrigante da série, quiçá de todo o subgênero. Só comentando.

Ao mesmo tempo, isso evidencia alguns aspectos negativos da trama, especialmente o abrupto déficit intelectual das protagonistas. Primeiro, pela já desmistificada fixação familiar de Michael, onde a solução para o Clã Strode-Nelson seria simplesmente pegar a estrada direto pra, sei lá, Porto Seguro. Depois, a insistência suicida de Allyson (Matichak) em se unir à caçada a uma criatura que, diante de seus olhos, acabou de massacrar policiais, meia Haddonfield e ainda se mostrou à prova de tiro, porrada, facada e fogo no parquinho.

Nada que não pudesse ser creditado, com alguma boa vontade, ao calor do momento e à comoção generalizada daquela comunidade em choque. Com exceção da cena final, na garoteada incrível da mãe de Allyson, Karen (Greer), na antiga casa de Michael. É o equivalente ao clichê da loira subindo as escadas ao invés de fugir pela porta. Só que pior.

Uma pena, porque a construção foi sensacional. A sequência toda que começa com Michael cercado por um grupo de moradores de Haddonfield inclusive me remeteu ao antológico quebra de Max Cady no beco, em Cabo do Medo. E foi ali que a coisa acabou recuperando parte de sua mística perturbadora.


O filme reforça a figura mascarada de Michael Myers como um elemental do medo, uma força da natureza. Sua lenda o precede. Mas, principalmente, é o que a máscara projeta. Isso explica em parte a impotência física da maioria de suas vítimas —uma delas só escapa porque remove o adereço parcialmente ao se debater. Em outra perspectiva, é a única lógica que Michael parece obedecer, além de matar pessoas das maneiras mais brutais (ou apenas eficientes, dependendo da situação). Em ao menos duas cenas bem reveladoras, fica clara a devoção de Michael à máscara, como se fosse uma ferramenta de trabalho tão essencial quanto uma faca. Ou provavelmente mais.

"The Shape" conclui sua jornada daqui a um ano, em Halloween Ends. Mas o mal, sabe como é, nunca termina...

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Feliz pré-Dia das Bruxas

Contextualização é vida. Com todo o hype em torno de Star Wars nos últimos anos, o que mais vi por aí foram missivas classificando a trilogia original de datada e/ou superestimada. O que não concordo sob nenhum aspecto, mas gosto pessoal é uma paradinha, assim, inalienável. O problema é quando ignoram algumas considerações essenciais - que, no caso em questão, era simplesmente o fato de que os parâmetros da época eram anacrônicos. Antes do Star Wars '77, havia só Star Trek e todas aquelas produções de baixo orçamento do Roger Corman. E antes disso, Barbarella, Flash Gordon, Buck Rogers... a pré-história da aventura sci-fi. O impacto de Star Wars - e Superman - naquele cenário foi imenso. Efeitos especiais como aqueles, nem em sonho, e estabelecer uma mitologia pop como aquela era ainda mais improvável.

Isso tudo é facilmente aplicável ao clássico Halloween (1978), de John Carpenter. O filme oficializou o subgênero slasher e teve influência primordial na cultura pop da década de 1980 - e que ainda perdura com intensidade bastante similar. O que hoje é facilmente administrável aos paladares do público, seja pelas reprises, pelas sequências e pelas incontáveis cópias e filhotes bastardos do cinema, livros e HQs, na época gerou um zeitgeist inesperado.

Certamente, a esmagadora maioria do público que entrou naquelas salas de cinema em outubro de 1978 não imaginava o que iria testemunhar (eufemismo para "cagaço que iriam passar"). E, graças ao canal Kyle J. Wood’s DarkCastle2012, podemos ter uma breve ideia da reação ao clímax do filme na ocasião de seu relançamento, em 1979.


O vacilo inacreditável de Laurie Strode compensou com o resultado. Pelos gritos da audiência, a cena com The Shape se erguendo ao fundo realmente aterrorizou todo mundo. Eu sabia que não era coisa só minha...

sexta-feira, 25 de maio de 2007

Operação Resgate
Edição split: Connelly Begins x Motorista Fantasma




O italiano Dario Argento já estava muito no lucro quando realizou Phenomena (idem, Itália, 1985). O filme foi precedido pelo cult Profondo Rosso, de 1975, pelo hit subterrâneo e masterpiece do giallo Suspiria, de 77, por Inferno, de 1980, e pelo casca-grossíssima Tenebrae, de 82. Uma quadra gótica de dar inveja à qualquer aficcionado e que ainda será descoberta e regurgitada pelo circuitão como se fosse algo recém-inventado por algum "visionário" de Hollywood...

Mesmo inserido em um traçado final que Argento arquitetou - concluído por Opera, de 87, e Trauma, de 93 - Phenomena talvez tenha sido o primeiro passo para uma concepção mais acessível das pirações dark do cineasta. De muitas maneiras, estava conectado ao que andava sendo feito de moderno em thrillers de horror na época - cujas diretrizes básicas foram fornecidas em grande parte por ele mesmo (e Fulci, Lenzi, Bava, Avati...). Em tudo ali, Argento soava mais dinâmico, atual.

Indo tão fundo quanto a poça que meu café fez aqui, o cinema de Argento e Sua Gangue foram essenciais para retirar o terror do estágio trash-exploitation patrocinado por Roger Corman e os condes romenos da Hammer Films.

Esta impressão de abertura, apesar de ser mérito de um conjunto de fatores, inevitavelmente saltava aos olhos só de conferir o cast principal: estrelavam o saudoso Donald Pleasence, que, além da moral de ator respeitável, era figurinha fácil em incursões mais comerciais (fora que ele era simplesmente o Dr. Loomis, arquiinimigo de Michael Myers, em Halloween!), e uma jovenzinha de catorze anos que literalmente encantou Argento, após vê-la num pequeno papel em Era Uma Vez na América, do amigo Sergio Leone.

Jennifer Connelly, além da... do... ah, de tudo... esta mulher é... já exibia timing, carisma e maturidade absurdos em cena. E charme. Valha-me Deus. Sua participação em Phenomena excede o espaço reservado à sua personagem e o arquétipo que ela possa representar - mas já retorno ao ponto.


A premissa era um mix dos elementos mais caros à cinematografia de Argento, sendo que a primeira metade remete a uma estética de suspense slasher e a segunda ao horror surrealista enegrecido por uma pesada atmosfera onírica (já dizia John Carpenter que assistir Argento era como "estar preso num pesadelo"). No primeiro ato, uma jovem dinamarquesa (Fiore Argento, filha do diretor) perde o ônibus e acaba se perdendo também. Procurando por ajuda, a menina vai parar numa casa de campo, onde é recebida na base de correntes e tesouras. A seqüência é bastante tensa, sendo finalizada de maneira crua, chocante, mesmo para os padrões atuais ("Se o cara faz isto com a própria filha, que dirá com o resto" - dogg, filósofo malaio) - por outro lado, a beleza técnica da cena é inegável... nada se compara a um bom exercício de hiper-realismo, ainda que o realizador seja dado ao surrealismo (trocadilho realmente ruim).

No filme, Connelly também é Jennifer, só que Jennifer Corvino, filha de um famoso ator americano, que é enviada à Suíça para estudar num renomado colégio internacional para moças. Logo que a menina chega ao país do sigilo bancário, vemos que ela tem o estranho dom de interagir telepaticamente com insetos. E também sofre com pesadelos tenebrosos e um tipo de sonambulismo hardcore (daqueles de levantar dormindo, ir pra guerra e voltar a tempo do café da manhã). No colégio, ela divide o quarto com Sophie (Federica Mastroianni), uma francesa bobinha mas ordinária com quem rapidamente faz amizade. No entanto, a recepção das demais alunas não é nada hospitaleira e Jennifer já chega batendo de frente com a coordernadora da instituição, a Sra. Frau Brückner (vivida por Daria Nicolodi, ex-esposa do nepotista Dario). Pra completar o cenário, estão ocorrendo vários assassinatos hediondos na região.

A principal característica destas mortes é a decapitação das vítimas. Na maioria dos casos, as cabeças nunca foram encontradas. Donald Pleasence interpreta o Prof. John McGregor, um entomologista paraplégico que está auxiliando a polícia a elucidar os crimes através da perícia nos cadáveres, consumidos por vermes e larvas de insetos - o que cria um estranho vínculo com as habilidades especiais de Jennifer. Não demora muito até os dois se conhecerem e sentirem uma empatia quase imediata.

O tempo começa a fechar quando as alunas do internato se tornam os novos alvos do serial-killer. Ao mesmo tempo, as crises de sonambulismo de Jennifer ficam mais intensas e parecem estar ligadas sensorial/paranormal/mística/darioargentamente ao frenesi dos assassinatos.

Mas isto é na primeira hora. Depois a coisa parte pro giallo-core de sempre.


A metade final de Phenomena é pra deixar os admiradores de Argento se sentindo em casa. Não chega a soterrar espectador com claustrofobia (pra isto, existe Suspiria), mas a pegada é inconfundível. É como se Jennifer parasse de ter pesadelos para vivê-los ipsi literis. Em certo ponto, a identidade do assassino é envolta em um clima tão obscuro que ele quase se torna uma entidade onipresente dentro do filme. De fato, não dá pra antecipar totalmente o desfecho (ainda bem que teve um - assista e passe por essa paranóia também), já que os indícios dão conta de que ali operam forças que não são deste mundo.

Falando no sobrenatural, não há o que reclamar sobre a exploração dos poderes de Jennifer no filme. Os mesmos são utilizados ao máximo de sua capacidade e assim Argento acabou criando uma perfeita (e igualmente poderosa) contraparte para a ameaça do assassino. Nenhuma chance foi perdida aqui - com o tempo e o aprimoramento, a menina se torna a Fênix Negra dos insetos. E isto não é apenas uma referência en passant: não sei bem porque, mas desconfio que Jean... digo, Jen, iria se adaptar muito melhor numa certa escola em Westchester, NY, do que aquela na Suíça. Se a coincidência for pouca, confira as cenas em que o Professor... hã, McGregor ensina a Jen como controlar seus poderes e o macete pra sair do estado de sonambulismo.

Como se não bastasse, McGregor também é acometido da monumental irresponsabilidade que todo tutor dos quadrinhos tem para com seus jovens pupilos. Não satisfeito com o trabalho da polícia, o bom professor (obcecado em vingar uma antiga assistente) resolve colocar a menina de catorze anos no encalço do maníaco sangüinário. E não pense que existe alguma margem de segurança aí.

Nas duas últimas longas seqüências do filme, o climão de pesadelo generalizado toma conta e Alice, digo, Jennifer, vai descendo até o ponto mais baixo do inferno. Impressionante como ela ainda consegue manter um fiapo de sobriedade diante das situações tenebrosas que passa. Ah, mas isto só dura até o mergulho numa vala escrotíssima cheia de cabeças, membros decepados, tripas, vermes, coliformes e detritos diversos. Perto disto aqui, a chuveirada de suínos em decomposição de Saw 3 é como dividir uma hidro com a Hellen Ganzarolli. Mal deu pra acreditar que ela caiu ali mesmo.

Daí pra frente, alguns lugares-comuns do gênero surgem quase que de forma caricatural, incluindo o final fake, à Jason Voorhees do primeiro filme, e um inusitado final-pra-valer, que combina bizarria e violência gráfica extrema.


Phenomena é um filme estranho, que se alimenta de suas próprias imperfeições. Consegue ser incrivelmente equivocado em alguns momentos e brilhante em outros tantos. A cena em que Jennifer, numa paisagem idílica, segue um inseto para descobrir o paradeiro do assassino é belíssima, por mais esquisito que possa parecer. A bad trip sleepwalker da moça é realmente assustadora e incômoda. O já citado prólogo do filme é primorosamente escrito, filmado, montado e o escambau. Momento clássico mais do que obrigatório.

E sim, há várias outras questões sobre Phenomena a serem debatidas fervorosamente, mas a mais contundente é esta: Jennifer Connelly foi rainha do grito em seu primeiro filme como protagonista (engula esta, Jamie Lee Curtis!).

Jennifer já era uma gigante em cena. Sua atuação era um diamante quase lapidado, demonstrando a mesma carga de sensualidade, inteligência e certa introspecção que se vê hoje. A atriz literalmente brinca de empilhar as convenções estilísticas do filme. Mesmo porquê, o cinema de Argento é extremamente hermético, autoral, segmentado por opção - basta ver os diálogos dela com as travadinhas Sophie e Sra. Brückner... a menina passeia livre em cena. Elegante e sagaz, Connelly nunca se entrega ao preciosismo e veste a camisa sempre que necessário. Um show. Só a presença dela já faz valer a assistida.


Infelizmente, a carreira internacional do filme recebeu um duro golpe ao ser lançado nos Estados Unidos. A censura da época - mais slasher que nunca - mutilou quase trinta minutos da produção e o lançou com o não-poderia-ser-mais-genérico título "Creepers". No Brasil, o título original foi mantido, mas a cópia era a mesma editada nos EUA. Só em janeiro de 2006, a versão integral finalmente foi lançada aqui, em DVD, via Works Editora, encartado na edição #6 da revista Cine Monstro.

A trilha sonora de Phenomena é foda. Pra caralho. Argento não titubeou e meteu a antológica Flash Of The Blade, do Iron Maiden, quase inteira durante uma seqüência em que o assassino caça uma vítima. Lá pelas outras tantas, foi a vez da descarrilhante Locomotive, do Motörhead. Motör-fuckin'-head, man. Ficou parecendo um daqueles clipes incidentais de Donnie Darko, só que pra macho. Genial.

E não pára por aí. Bill Wyman, ex-baixista dos Stones participa com uma trilha de arrepiar e Claudio Simonetti também está lá. Simonetti (nascido em São Paulo), que todo fã de horror deveria conhecer, foi tecladista no dino progressivo Goblin, onde compôs para outros filmes de Argento, além do inesquecível tema do mega-clássico Dawn Of The Dead, de George A. Romero, entre outras belezinhas memoráveis. Não é à toa que vários grupos heavy, gothic e prog metal devem as calças pro cara. Influência melódica primordial.

O tema principal de Phenomena também ganhou um "pseudo-clipe", que Simonetti fez entre as gravações do filme. Visto hoje, é tosco no último - como todo clipe daquela era recém-MTVitimizada, aliás. Mas sabe como é... música pronta, câmeras ligadas, cenário em cima, Jennifer Connelly lá de bobeira...


Recentemente, Simonetti fundou a banda Dæmonia, que faz releituras metalizadas para os clássicos que ele compôs para o cinema. O projeto é imperdível.


Próximo!





Lembro como se fosse ontem: meu sonho de consumo adolescente eram o Ford Falcon V8 Interceptor do Mad Max, o De Lorean DMC-12, óbvio, e o Dodge M4S Turbo, de The Wraith, a Aparição (The Wraith, EUA, 1986). Muitos anos depois, ainda não sou milionário e mesmo se fosse, dificilmente conseguiria adquirir este último. Como se tratava de um modelo conceitual, a Dodge só fabricou 1 unidade original (na época, pela bagatela de 6mi US$) e mais seis clones (1mi US$, each) devidamente destruídos durante as filmagens. Desde então, o Pontiac '82 preto da Supermáquina subiu uma colocação na minha lista.

The Wraith é o patinho bonito da filmografia do diretor/roteirista Mike Marvin. O cara simplesmente não fez nada que prestasse depois deste filme, chegando a dirigir até um daqueles pornôs soft reprisados à exaustão no Cine Band Privé. Aqui, no entanto, ele soube dosar energia, boas sacadas e despretensão na medida certa, resultando num filme bastante divertido, mesmo descontando as oitentices típicas (que, por mim, tudo bem).

Aliás, The Wraith não é exatamente um filme de terror, nem suspense, nem sci-fi e nem ação, mas traz características de todos estes gêneros em seu DNA, fluindo simultaneamente. E funciona como um ponto a favor, pois durante o tempo todo se espera uma postura pré-definida que nunca chega e se amarra de forma ainda mais curiosa. Fora que mantém o sensorial sempre no full mode.

Dá quase pra elogiar esta concepção descompromissada (mas não desfocada) da narrativa, só que, pela ficha corrida do diretor, imagino que foi involuntário mesmo.



A história é aquele chocolate. Você sabe como é, o gosto que tem, mas... Nos cafundós do Arizona, uma gangue de piratas do asfalto faz o rapa em quem transita pelas estradas do perímetro. O líder do bando é o sociopata Packard Walsh (Nick Cassavetes, ele mesmo, filho do grande John e o diretor de Um Ato de Coragem e Alpha Dog) e os demais são Rughead (Clint Howard, ainda mais bizarro na sua fase new wave), o maluco viciado em fluído hidráulico Skank (David Sherrill) e o smeagolzinho expert em carburadores Gutterboy (Jamie Bozian), entre outros buchas com a inscrição "morgue" tatuada na testa.

Em geral, eles "propõem" um racha aos motoristas incautos, valendo o carro do perdedor. Mas isto é só por diversão, já que os bad guys, além de serem trapaceiros assassinos, têm os motores mais envenenados da região. Seus carros já eram tunados antes mesmo de inventarem o termo. Na cola dos punks, está o Xerife Loomis (Randy Quaid), que sempre come poeira atrás de um flagrante e está investigando o assassinato de um rapaz, possivelmente morto pela quadrilha.

Até que um dia, um forasteiro de nome Jake (Charlie Sheen) chega ao lugar e já vai se engraçando pra cima de Keri Johnson (Sherilyn Fenn, a Helena de Encaixotando Helena, novinha e um tesão), ex-namorada do garoto assassinado e território do malvadão Packard. Apesar das ameaças do maluco, os dois estão dispostos a deixar a natureza seguir seu curso.

Tudo se encaminha para mais um homicídio providencial, até que um misterioso carro preto com turbina de F-15 e design futurista surge reivindicando a supremacia das estradas - e jogando bem mais pesado que os vilões. A partir daí, sobram cadáveres, acidentes espetaculares e muito aço retorcido.



Segundo o diretor, o filme é uma adaptação livre de O Estranho sem Nome, um western sobrenatural do Eastwood pós-Leone. Ah, bom. Se é assim, sim. Isso explica muitas coisas, mesmo as não-explicadas. Mas o Mike dem-moderfóquer Marvin conseguiu deixar tudo ainda mais enigmático, principalmente na conclusão (e olha que em O Estranho sem Nome - spoiler - tinha um cowboy que desaparecia no final). Possibilidades não faltam para tentar explicar a natureza fantástica e os incríveis feitos do super-carro...

Ele pode ter vindo do céu (acho que não), do inferno (acho que sim), pode ter sido um fusquinha 76 abduzido e tunado com tecnologia alien, pode ser um projeto secreto do governo americano (eles fazem de tudo lá), pode ter vindo do futuro (exatamente, acabaram as idéias)... é só escolher. Qualquer hipótese faz sentido porque as pistas que Marvin vai deixando durante a história não fazem o menor sentido.

A grande sacada de The Wraith é deixar só uma nesguinha de margem para especulações e logo sentar uma machadada na cabeça do espectador. Os vários rachas que acontecem durante o filme são absolutamente empolgantes e quando o Dodjão M4S dos infernos (será?) dá as caras é porque a coisa vai ficar sinistra pra valer. Em 100% dos casos, as disputas terminam em mortes, despenhadeiros e explosões. Fora os Daytonas, Diplomats, Corvettes, GMC Sierras e Plymouths totalmente carbonizados - nota-se que metade destes foram providenciados pela Dodge himself, além, é claro, do carro "protagonista", o que explica o plotter da empresa num veículo sobrenatural (o mais irônico é que só aparece em alguns breves frames... seria uma tentativa de mensagem subliminar?).

Quanto ao motorista propriamente dito, há pouco o que se revelar. Ele aparece algumas vezes, usa um tipo de armadura bio-mecânica e traz consigo uma arma com luzinhas vermelhas que lembra muito uma calibre doze, dispara igual a uma calibre doze e faz o mesmo estrago que uma calibre doze faz. Fui levado a crer que se trata de uma calibre doze sobrenatural.

De qualquer modo, as seqüências de ação foram reforçadas por uma trilha sonora da hora (na época), que parece ter sido escolhida a dedo, sem limite orçamentário e com a fina flor da farofa oitentista. Pura festinha americana.

A corrida inicial rola ao som de Secret Loser, do madman Ozzy Osbourne. Depois tem a Rebel Yell, do papito original Billy Idol, o hit yuppie Addicted To Love, do magnata Robert Palmer, Matter Of Heart, da açucareira Bonnie Tyler, a poseríssima Never Surrender (LOL), do Lion (ROTFLOL), entre muitas outras pérolas pra ouvir no walkman, com o sol a pino, camiseta regata e óculos espelhados.



Apesar do lance com a Dodge ter abocanhado a maior parte dos custos, o filme traz efeitos especiais surpreendentes para a época. Um bom exemplo é o esquema (sacana) que o carro negro tem para destruir os adversários, no qual ele mesmo é pulverizado no processo e se reconstrói entre o fogo e os destroços. Outra cena espantosa é logo no início, quando o carro se materializa no meio de uma encruzilhada (chuta que é macumba!) - algo entre Close Encounters, De Volta para o Futuro e Exterminador do Futuro, versão econômica, mas criativamente promissora.

A propósito, se pensarmos que o possante de O Carro - A Máquina do Diabo é o Hannibal Lecter dos automóveis e Christine, o Carro Assassino é a personagem de Glenn Close em Atração Fatal com tração nas quatro ("A Tração Fatal"), o dodjão preto é o próprio Terminator. Ele mata a sangue frio e sem qualquer cerimônia. O que ele faz no galpão-oficina dos bandidos só pode ser coisa da Skynet. Extermínio automobilístico.

É muito engraçado ver o Nick Cassavetes fazendo papel de galã psicopata no filme. Mais engraçado ainda é o Charlie Sheen como um californian boy metido a fodão, com cabelinho arrepiado e montado numa jurássica XL (que, pelo visto, também é sobrenatural). Naquele mesmo ano ele encarnou um papel que era o total oposto - o junkie de Curtindo a Vida Adoidado. Hoje, fatura os tubos em Two and a Half Men.

Só para registro, sempre fiz uma baita confusão com os nomes de Sherilyn Fenn e Sheryl Lee. Em comum, as duas têm o fato de serem gostosas e musas do David Lynch (participaram de Coração Selvagem e da polêmica Twin Peaks - Fenn era a Audrey e Lee era a própria Laura Palmer, raison d'être da série). E tanto uma quanto a outra amargaram um limbo de produções trashescas durante os anos 90. Atualmente, Sherilyn (uma bela balzaca!) leva uma carreira discreta, com participações esporádicas em seriados famosos e produções made for TV (última frase powered by IMDb®).

The Wraith, a Aparição ainda rende boas sessões até hoje. Como todo bom pop movie. Mas adoraria que o maldito Mike Marvin respondesse algumas perguntas.

Como assim "as instruções estão no porta-luvas"?!


Na trilha: Cars, do Gary Numan.