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sexta-feira, 26 de abril de 2013

Merle Dixon, fast and loose


Arte sensacional de Ashlee V. Casey, a.k.a Czaritsa. E não foi só inspiração momentânea não, o trabalho da menina é impressionante. Confira em seu deviantART.

Dica do Sandro Dixon.

Michael Rooker, zumbis e Motörhead...


Quão iconicamente foda é esta cena?

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Always Look on the Bright Side of Life


Chegamos ao mid-season de The Walking Dead e até aqui a série segue firme numa agenda à parte dos quadrinhos. Alterações nas subtramas e nos perfis dos personagens, mortes inesperadas ou fora da ordem original são tão parte do cenário quanto o núcleo protagonista de sobreviventes. Ou os zumbis. Para os leitores da saga de Robert Kirkman é um deleite manter a postura de mestre do jogo ao mesmo tempo em que se surpreende (positivamente ou não) com as novidades que pipocam pelo monitor.

Mas mesmo com o grau de imprevisibilidade acima da média, o desvínculo nunca chega a ser total: na prática, é quase uma versão "Terra-2" da HQ, uma realidade alternativa onde a ordem dos fatores é diferente, mas os resultados quase sempre são os mesmos. Não tão impactantes, como já era previsto, mas invariavelmente tétricos. Neste sentido, a atual fase conduzida por Glen Mazzara foi categórica. O inferno são os outros. E nós também.

A première foi arrasadora, tanto em termos dramáticos quanto no broadcasting. Escrito pelo próprio Mazzara (que aqui mantém diligentemente o ótimo nível de seus roteiros para a série) e dirigido por Ernest Dickerson (do bom Sobrevivendo ao Jogo e do péssimo Bones, com Snoop Dogg), o episódio da volta foi eletrizante, recheado de gore e zombie-action generoso. E ainda reservou cenas surpreendentes, como a solução encontrada por Rick (Andrew Lincoln) para salvar Hershel (Scott Wilson) da infecção fatal - o que, na perspectiva dos leitores da HQ, representou uma interessante fusão de Hershel com Dale, finado na telessérie, mas ainda bem vivo na revista até aquele ponto. Se o amálgama continuar, dias ainda mais negros virão para o bom velhinho...

A única ressalva fica mesmo na ótima sequência de abertura com os protagonistas se esgueirando pela estrada em busca de abrigo. Ao mesmo tempo em que eu finalmente recebia da série o retrato da mais pura miséria humana há muito ansiado, me emputeci decepcionei deveras num momento que quase pôs tudo a perder: a cena em que Carl descobre uma lata fechada de comida para cães, cujo consumo é prontamente vetado por Rick em nome da dignidade.

Bola fora.

Já vimos um rato a caminho da grelha em Exterminador do Futuro e um saboroso ratoburguer em O Demolidor, mas nem é preciso ir tão longe. De cara, lembro de dois worst case scenarios onde um enlatado para caninos até caiu bem mediante as circunstâncias.

O primeiro é óbvio.


O segundo, precursor na iguaria, Digby - O Maior Cão do Mundo, figurinha fácil na Sessão da Tarde safra anos 80.


Diacho, até eu sinto vontade de dar umas garfadas nas latinhas de patê de frango do meu cachorro. Mas tenho medo de gostar, comer tudo e deixar o totó a ver navios!

Resumindo, o valor nutricional daquela lata só não era mais importante do que seu valor metafórico. Ao ser descartada foi negado aos personagens o rito de passagem para aceitação daquela nova e terrível realidade, acorrentando-os por mais algum tempo à ilusão de um american way of life ainda intacto.

De qualquer forma, duvido muito que Daryl deixou aquela latinha por lá dando sopa...

No capítulo seguinte, veio o tenso embate entre o grupo de Rick e os "residentes" da prisão. Mais lances imprevisíveis e violentos deram uma noção mais clara de que a telessérie seguia por uma marginal paralela à da revista. Particularmente esclarecedora foi a cena em que Rick impede o início de uma rebelião com uma singela facãozada na cabeça do detento Tomas - um hispânico agressivo e genérico, ocupando o lugar que no gibi era do enigmático e assustador nigga Dex. Curto e grosso, nosso herói aqui há muito já não se prende em dilemas éticos, embora o mesmo não se possa dizer dos morais.

O episódio foi revelador também quanto ao planejamento e à cadência do plot da prisão. Aquele crescendo sufocante de tensão que residia na HQ, intercalado com momentos de alívio cômico e/ou triviais, na TV virou um trem desgovernado indo direto para a 666ª estação do inferno. Os planos de limpeza, contenção e humanização do lugar, mais as ambições de Hershel em aplicar ali seus conhecimentos agrícolas foram sumariamente ignorados. Estratégia questionável, afinal, não deixou quase nenhuma esperança para ser cruelmente despedaçada mais adiante. Desde o início o lugar era só dor e amargura.

Por algum motivo, The Walking Dead live-action não faz joguinhos com os brios do espectador. Não lança mão de sutilezas, tampouco alimenta falsas expectativas. Talvez o formato não comporte isso, talvez algo simplesmente tenha se perdido na transição. Ou talvez fosse perverso demais.

O curioso é que esse arranque em ritmo grindcore não prossegue onde ele era mais aguardado: Woodbury, a comunidade liderada pelo infame Governador.


Apresentado bucolicamente no 3º episódio, o Governador e sua pacata cidadezinha recebem Andrea (Laurie Holden) e Michonne (Danai Gurira), recém-capturadas pelo redivivo Merle Dixon (Michael Rooker) - que, afinal, não era o Governador, veja só (embora ache difícil crer que Frank Darabont não tenha considerado isso seriamente em seu run). Aqui o Governador - ou Phillip! - é retratado como um líder zeloso por sua comunidade e pelo espírito de coletividade que cultiva ali. Chega a policiar suas atitudes e discursos em público para sempre passar uma mensagem positiva aos habitantes. Mesmo os eventos de vale-tudo-com-zumbis à noitinha são seguros e têm lá seu aspecto de entretenimento society.

O Governador tem uma bela foto com a esposa e a filha na sala de estar. Orador talentoso, tem até uma boa justificativa para a TV LZD ligada 24/7 em sua suíte particular. Também não é chegado em nenhuma estripulia sexual envolvendo crianças ou cadáveres ou os dois ao mesmo tempo.

Fosse eu o responsável pelo casting da série, minha 1ª, 2ª e 3ª opções para o papel do Governador seria John Hawkes, John Hawkes e John Hawkes. Se Inverno da Alma é um dos meus filmes preferidos de todos os tempos, em grande parte é por causa "daquilo" que ele fez lá. Isso sem falar da oportuna semelhança física com o vilão. Contudo, o inglês David Morrissey desempenha seu trabalho com inegável competência. Só não é o mesmo personagem da HQ.

Seu Governador é um figurão classudo, austero, sedutor. Por meros detalhes, Phillip (may I?) não ganha a carteirinha oficial do bom samaritano. Um deles foi o massacre de um grupo de soldados (espertamente ligados ao gancho do helicóptero). Sem maiores aprofundamentos, foi o mais próximo que a série chegou de um dos pilares da sociedade pré-apocalipse. Uma pena. Seria interessante saber se ainda existem mais equipes militares operando isoladamente por aí ou mesmo algum resquício agonizante do antigo governo.

Na sequência veio "Killer Within", o episódio mais marcante dessa meia-temporada. Se por um lado certamente deixou os espectadores incautos com os nervos a mil, por outro fulminou os veteranos em TWD com uma série de sentimentos conflitantes. Foi um episódio poderoso, excepcionalmente visceral para uma série de TV. Sem precedentes mesmo. O problema é que a catalisadora da maior parte desses sentimentos foi a sra. Rick Grimes, Lori (Sarah Wayne Callies). Ao lado do Governador, ela era a personagem-chave para a pergunta que tanto nos atormentou até aqui: será tão punk quanto foi nos quadrinhos?

A reposta, logicamente, não.

Por mais brutal que tenha sido, foi apenas uma saída politicamente correta para um material muito mais extremo. Para efeito de perspectiva, nos quadrinhos Lori e sua bebê recém-nascida protagonizaram nada menos que o clímax do arco da prisão e do Governador. Quem leu a fatídica edição #48 nunca esquecerá aquela aterradora splash page, até porque já está irreversivelmente fundida ao córtex. E seus piores pesadelos terão a gloriosa arte-final do Charlie Adlard.

Em que pese também a precocidade daquilo em relação à cronologia da revista, sacrificando: 1) a construção em médio/longo prazo de uma atmosfera de apreensão relacionada à gravidez de altíssimo risco da personagem; e 2) a posterior desconstrução da esperança em um futuro melhor que ela e sua filhinha recém-nascida despertariam em Rick e no grupo. Nada feito.

Fica pra próxima.

Mas em meio às baixas e ao caos provocado por sabotagens e pela invasão de mortos-vivos, tivemos um bônus a ser comemorado efusivamente!



T-Dog (IronE Singleton) foi um dos presuntos mais escorregadios de toda a longa antologia do horror. Foi um valoroso oponente, mas finalmente se rendeu ao cartão de identificação amarrado no dedão de seu pé desde sua 1ª aparição. Pelo bom jogo que proporcionou, ganhou umas honrarias na saída: teve mais diálogos e motivações relevantes neste único capítulo do que em todas as temporadas juntas.

Mais ainda, se despediu como um herói, o ex-gangsta.


Na dúvida se seria "my friend" ou...

Lembranças ao Tupac!

Se a saideira de Lori foi bastante suavizada, coube a Carl (um Chandler Riggs imerso) dar um ponto final àquela via crucis, num momento genuinamente perturbador. O episódio termina com Rick em choque, perdendo seus últimos fusíveis que ainda prestavam.


Durante os dois capítulos seguintes, Michonne e Andrea divergem suas opiniões a respeito do Governador e seguem caminhos separados. Na prisão, enquanto o grupo está enterrando seus mortos e providenciando os cuidados para a filha ainda sem nome de Lori, Rick mergulha numa bad trip aparentemente sem volta. Por sorte, calhou de ter ali uma válvula de escape perfeita que ele jamais teria num mundo civilizado: uma prisão cavernosa com corredores lotados de mortos-vivos. Ele então perpetra um zumbicídio generalizado, quase liquefazendo Glenn (Steven Yeun) no processo. Em certa altura daquele cenário de horror triste e degradante acontece uma sequência em que não me contive nas gargalhadas: Rick entrando na sala da caldeira onde estava o corpo de Lori, seguindo uma trilha ensaguentada que termina num zumbi gorducho fazendo a siesta após uma lauta refeição! Cruel, eu sei. Sou desprezível.

Após uma rápida catarse em que pensei que Rick abriria o bucho do desmorto glutão e abraçaria aos prantos os restos semi-digeridos de sua consorte, se inicia o plot do telefone. Que eu, particularmente, considerei uma boa sacada de narrativa da HQ, servindo para ilustrar em breves quadrinhos o fuzuê psicológico a que Rick foi submetido desde que o Governador e a prisão passaram por sua vida. Mas também sei que não teve o mesmo apelo para vários leitores, cujos argumentos contrários são igualmente pertinentes. Seja como for, a subtrama foi comprimida entre um episódio e outro, limitada a uma ponte en passant que serviu para pontuar aquele acesso de fúria e trazer Rick de volta à Terra e ao posto de pai e líder do bando.

Com os demônios de Rick de volta à garrafa, a série finalmente começa a se alinhar (um pouco) com a trama original. Não por acaso é onde começa a ficar mais empolgante no sentido do dramático da coisa, com Glenn e Maggie (a linda Lauren Cohan) encontrando Merle enquanto este estava à caça de Michonne. O desfecho previsível (os pombinhos sendo subjulgados pelo caipira putardo) serviu para Michonne finalmente bater aos portões da prisão e encontrar Rick e seu grupo. Numa cena visualmente bacanuda, diga-se.

Coberta de sangue e vísceras apodrecidas, a katana-girl caminhou lentamente entre vários zumbis até o alambrado sob o olhar surpreso de Rick. Não teve o mesmo impacto que chegar lá com dois mortos-vivos acorrentados, sem os braços e sem os maxilares, mas foi uma entrada triunfal mesmo assim.


A reta final da meia-temporada foi centrada em Michonne voltando à Woodbury com Rick, Daryl (Norman Reedus) e o ex-detento (e ex-guarda-costas do Wayne Gretzky) Oscar. Eles, com o objetivo de resgatar Maggie e Glenn. Ela, querendo a cabeça do Governador-Phillip. Inexplicavelmente, Michonne não chega a mencionar que tanto Andrea quanto Merle estariam por lá também. Mais estranho ainda é sua atitude de voltar àquele lugar apenas pra se vingar do Governador, quando o normal seria ter simplesmente continuado sua fuga pra longe dali. Soou como maluquice da personagem ou uma tremenda forçada de barra do roteiro, mas a verdade é que representou mais um problema causado pela suavização do material dos quadrinhos.

No original, Michonne é presa, torturada e violentada por dias a fio pelo Governador. O ódio que a movia suplantava qualquer bom-senso e instinto de autopreservação. Sua motivação havia se transformado numa força da natureza. O mesmo não acontece com a Michonne da TV, onde está entregue a uma sede de vingança sem embasamento suficiente e no mínimo exagerada. E infelizmente, em descompasso com a impressionante personificação de Gurira, que eu juraria que não só leu a HQ como submergiu por lá e nunca mais voltou.

Em meio à ação, uma nova trama paralela tem início, com Tyreese (Chad Coleman, de The Wire), sua filha e mais três pessoas aportando na prisão. Finalmente, o Tyreese deu as caras! Um dos personagens mais marcantes da HQ não podia ficar de fora, mesmo que tarde demais para qualquer coisa que lembre sua trajetória no original. Resta torcer para que os planos reservados para ele tenham ao menos a metade daquela qualidade.

Na conclusão, um cliffhanger também problemático, com o Governador-Phillip, já caolho, tirando da cartola uma rinha entre os irmãos Daryl e Merle, a quem acusa de traição. Hã? A menos que isso sinalize um princípio de incêndio que culminará num Governador quase tão doidão quanto o dos quadrinhos, soa como um twist (mal-) encaixado às pressas.

The Walking Dead segue indomável para os leitores e, a julgar pelos ratings, cada vez mais atraente para o público médio. Merecido. Uma das melhores características dessa adaptação é não se importar em agradar ninguém. E isso também é marca registrada dos escritos de Robert Kirkman.

Afinal, nada melhor do que a espetacular cena de Glenn amarrado e lutando contra um zumbi como terapia para aquela atordoante edição #100...

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Keep walking


Chegamos à meia-temporada de The Walking Dead e não foi nenhuma evisceração, nem algum zumbi carcomido que me deixou mais aterrorizado. Foi o artigo do Hollywood Reporter sobre a saída misteriosa de Frank Darabont da série e as desastrosas intervenções da AMC para esticar a margem de lucro. Algo polemizador, mas com análises e especulações bastante pertinentes, o texto pinça um cenário de horror nos bastidores. Elenco atônito com a dispensa do showrunner, cortes radicais no orçamento e polêmicas em torno da equipe criativa. Nem parece que a série é o maior hit da casa, superando até os números mais otimistas - os outros dois grandes da AMC, Mad Men e Breaking Bad, nem arranharam a lataria. Ao que tudo indica, a raiz do problema parece ser os imbróglios financeiros da própria network que entraram em conflito com Darabont e resultaram na saída do mesmo. E nesse ponto, a malversação de verbas no final da primeira temporada não contribuiu em nada.

O que me leva a concluir que a adaptação teve que se adequar ao modelo enxuto de produção imposto pela AMC. A primeira medida foi cortar direto na carne necrosada: menos zumbis povoando os episódios, mais drama e tensão entre os humanos. Pular o arrepiante arco no condomínio Wiltshire States e antecipar a estadia dos sobreviventes na fazenda de Hershel Greene foi o passo seguinte para diminuir custos. Sem mais aquele grupo de desesperados pegando a estrada enfurnados num trailer fedorento, passando fome e sede, sem dormir, sempre fugindo de hordas de mortos-vivos e ainda penando num inverno de lascar - que aliás, seria um detalhe importante (e caro) na trama do condomínio.

Ainda que esse arco não seja essencial para a saga, é importante sob o aspecto psicológico. É um intensivão de tudo aquilo que The Walking Dead trata e do que os protagonistas tanto temem: sobreviver em condições subumanas e zumbis doidos por um naco de carne. Eles deviam passar por isso antes de chegarem à fazenda. Tornaria sua angústia em permanecerem lá mais palpável, tridimensional. Ou, no mínimo, colocaria nosso amigo Shane mais próximo de seu fatídico ponto de ebulição. Fora que evitaria a barrigada narrativa que eventualmente se formou ao longo desse primeiros 7 episódios.

Mas deixando de lado a panfletagem e o radicalismo fanboy, rapaz... a temporada estreou em alto nível.


Pelo visto, colocar o protagonista se esgueirando embaixo de algum veículo abandonado é uma constante promissora na série. Dessa vez foi o elenco principal inteiro ralando o peito no asfalto enquanto uma manada de zumbis fazia sua marcha pela fome. A sequência é de jogar o miocárdio num barril de Red Bull e desde já uma das mais nervosas e divertidas já produzidas por uma série de TV. Mesmo que você me pergunte "mas peraí, de onde vieram todos aqueles zumbis?", eu daria ao menos umas três alternativas bem satisfatórias e seguiria para o próximo tópico.

O episódio segue criando cenas de forte apelo, novamente superando o material original com o cliffhanger trágico do Carl e definindo o perfil de alguns personagens dali em diante - mais notadamente o presunto ambulante T-Dog (se machucando sozinho e sangrando em bicas) e o senhor de todas as fodezas, mr. Badass-Redneck-with-a-Fucking-Crossbow Daryl.

O segundo capítulo é quase todo calcado no drama da família Grimes e a taxa de zumbis/m² despenca. Só aumenta no clímax eletrizante com Shane e Otis encurralados na escola por uma turba putrefacta. Para os leitores da HQ, o episódio também reservou uma redenção em especial: Hershel e Maggie, em carne e osso. E aí bate novamente aquela sensação meio onírica e surrealista, provavelmente a mesma de ver justas personificações de Yorick, 355, agente Graves, Jesse Custer, Leo Patterson. Jessica Jones. É um espetáculo à parte ver personagens marcantes transpondo as dimensões ficcionais. Quase dá pra ver as rachaduras na 4th wall. E isso não tem nada a ver com atuações dignas da Palma de Ouro. É a empatia que conta.

Os episódios seguintes se dividem entre a recuperação de Carl, o início do relacionamento de Glenn e Maggie, o segredo de Lori, o clima desconfortável entre Hershel e o grupo de sobreviventes, a crescente desestabilização de Shane e, claro, as incessantes buscas por Sophia. Muito do clima de terror agregado ao tema da série é colocado em 2º ou até 3º plano, dando lugar à extensos build ups dramáticos e alívios cômicos ou emocionais. Todos relevantes e bem conduzidos, mas com uma consequência imediata que remete à sangria orçamentária explicitada lá no início: a escassez de zombie action.

A economia ficou evidente no episódio 4, "Cherokee Rose", com o surgimento das criaturas se dando de forma singular e, digamos, concentrada, numa espécie de compensação em moeda splatter.


O que é um deleite para os olhos durante uma lauta refeição em algum boteco pé-sujo - porém não o suficiente para espantar a sensação de que a fazenda por vezes se torna um improvável oásis para os personagens.

Só pra ficar num exemplo recente, uma das (várias) coisas negativas da série Falling Skies - ambientada no mesmo formato pós-apocalíptico com ameaças monstruosas à espreita - é justamente ver os protagonistas convivendo, brincando e fazendo planos num território neutro (no caso, uma escola), tranquilos, à luz do dia. É uma zona de conforto que destoa das circunstâncias e que se repete em The Walking Dead.

Talvez a narrativa do arco simplesmente não deslanche na TV tão bem como na HQ, onde tudo é minimalista por natureza. Ou talvez eu esteja mal-acostumado com os humanos vivendo como ratos (e comendo ratos) na franquia do Terminator.


Se na 1ª "temporada" as impressões já haviam sido positivas, nessa 2ª, Daryl está sendo a grande revelação. Interpretado à perfeição pelo ator Norman Reedus (o Scud, de Blade II, é mole?), o personagem, além de ser o mais esperto no trato com mortos-vivos, tem ganhado uma bem-vinda complexidade. Não por acaso, o episódio "Chupacabra" foi um dos melhores até aqui. Com um cameo especialíssimo de Michael Rooker, Daryl mergulha numa autêntica bad trip hillbilly pontuada pela aparição de seu irmão, o Governad... aham, Merle Dixon. Um excelente e intenso momento-solo. Ou, nas palavras do próprio Reedus, "Amargo Pesadelo encontra Motörhead".

Alternando um pouco o ângulo sobre o personagem, cabem algumas considerações. Daryl é um caçador e rastreador, um sobrevivente nato. Come esquilos crus como se fossem doritos. Obviamente é o tipo de pessoa que qualquer um iria querer ao seu lado numa situação daquela. Também é um personagem criado especialmente para a série, ao passo que um elemento muito importante nos quadrinhos ainda não deu qualquer sinal de vida na telinha: Tyreese.

Aos que acompanham a HQ, desnecessário dizer o quão Tyreese é um dos personagens mais queridos e carismáticos criados por Robert Kirkman. A despeito da boa probabilidade que o autor havia dado para sua inclusão ainda nessa temporada, nada é muito certo desde que as coisas andaram tumultuadas na coxia. No cast publicado no IMDb para esta temporada, por enquanto, nada feito.

Responsável por várias sequências de cair o queixo, Tyreese faz o tipo badass motherfucker na mesma escala de Daryl. Caso ele apareça, certamente irá arrancar elogios dos espectadores incautos. Caso nunca apareça por uma união de fatores (redundância + corte de orçamento), Daryl poderia naturalmente assumir os seus passos na série, como vem fazendo, aliás. Quem sabe até concluir a sua saga de maneira ainda mais perturbadora que o próprio Tyreese na HQ.

Daryl, de joelhos em frente à prisão... será?


Jeffrey DeMunn e Jon Bernthal renderam um dos embates mais bacanas da série como Dale e Shane, respectivamente. O veterano DeMunn, presença assídua na filmografia de Darabont, não só consegue capturar todas as nuances do sensato Dale, como o sintoniza ao seu próprio método de atuação. Literalmente roubou o personagem. Do outro lado da balança, o ótimo Bernthal faz um destilado de puro instinto e reação. É notável a degradação moral de Shane indo sistematicamente de encontro a Dale, sua antítese imediata. É algo que nunca ocorreu nos quadrinhos e que certamente deve ter sido um dos grandes arrependimentos de Kirkman - que, na função de produtor executivo, está ganhando a chance inacreditável de lapidar a sua obra enquanto bate recordes de audiência. Sem brincadeira, o sujeito deve achar que está num sonho.

Andrea, por sua vez muito bem representada por Laurie Holden, chegou a protagonizar uma cena de sexo com Shane num lance inexistente nos quadrinhos, mas ao meu ver muito bem sacado (afinal, foi a gota d'água para Dale). A forma como a atriz transita por sentimentos diametralmente opostos, como fragilidade/frieza, é impressionante. Preciosismo cênico de encher o olhos, embora não seja surpresa pra quem se lembra dela como a inesquecível Marita Covarrubias, dos bons tempos de Arquivo X, e como a agente Olivia Murray, em The Shield.

Sobre o sul-coreano Steven Yeun há pouco a se comentar. O cara é o próprio Glenn esculpido em cerâmica oriental. Parece até que Kirkman se baseou nele para o personagem da HQ. E é o ator mais sortudo da série, visto que Maggie é interpretada pela delícia cremosa Lauren Cohan (a mercenária Bela, de Sobrenatural). A química dos dois ainda é apenas razoável, já que seus personagens têm perfis muito diferentes. Bela... ou melhor, Maggie tem um gênio bem mais forte que nos quadrinhos, enquanto ele mantém o mesmo tom passivo do original.

Apesar disso, a dupla tem se afinado nas cenas mais recentes e alguma evolução já desponta no horizonte, com direito a Glenn no zombie massacre mode.


Ah, o amor pós-apocalipse zumbi é lindo.

A atriz Sarah Wayne Callies, em contrapartida, carrega um enorme fardo nessa série. Lori Grimes é a típica personagem sofrida de drama pesado, enrolada numa teia infinda de segredos, conflitos maritais e maternais e outros dilemas sem qualquer solução razoável. Era exatamente assim na HQ e no entanto foi dela o momento mais chocante de toda a saga. Nos créditos finais de cada episódio deveria haver uma menção especial abaixo do nome da atriz: "há um build up em andamento aqui, fellas. E o payoff vai te deixar com as pernas bambas".

Na mesma tocada, Melissa McBride também lida com sentimentos pra lá de tortuosos como Carol, a mãe de Sophia. É um papel difícil, visceral, não tão fácil de assistir, mas que ela conduz com perícia ímpar. Como ela mesma disse, interpretar Carol "é como presenciar uma batida de carro". No mínimo.

IronE Singleton tem poucas ferramentas à disposição. Seu Theodore "T-Dog" Douglas é um personagem irrelevante que precisa morrer violentamente o quanto antes. O mesmo vale para os coadjuvantes da família Hershel, praticamente invisíveis.

Quanto ao garotinho Chandler Riggs, o Carl, parafraseio um amigo: "não dá pra esperar muito de um ator criança assim, mas pra mim tá ótimo". Leia num tom menos rabugento e é isso aí.


Já expressei minha admiração pelo trabalho do britânico Andrew Lincoln antes, mas não dá pra não repetir a babação. Muito magro neste mid-season, o ator está imerso no protagonista Rick Grimes. Mesmo descontando os suportes de make-up, efeitos, luzes e o escambau, é visível o estado precário de Rick. Especialmente após ele doar 99% do sangue para salvar a vida do filho. Parecia que o homem ia desmontar a qualquer momento em cena. Performance entregue e impressionante, na escola punk rock de De Niro e Christian Bale. Narrativamente, porém, acabou sendo apagado pelo pró-ativo Shane. Rick continua sendo um líder?

E Hershel Greene. É quase certo que o experiente Scott Wilson nunca nem passou na frente da revista (estou no aguardo pela entrevista no blog da série), portanto é fabuloso como um ator com esse perfil tradicionalesco tenha comprado a premissa com tanto fervor. Soa um tanto menos rústico e austero que na HQ, mas a elegância e sobriedade que ele empresta ao personagem justificam qualquer coisa. Quem não se emocionou com o seu semblante arrasado no clímax do episódio 7 é porque teve o coração devorado por um zumbi há muito tempo.

A fazenda de Hershel também foi palco de uma das grandes questões de The Walking Dead: a real condição dos zumbis. Estariam mortos de fato ou gravemente enfermos? Há cura? Kirkman assimilou esse item da mitologia comum em torno das criaturas, que remonta ao folclore haitiano original. Homens sendo envenenados com extrato de datura, declarados clinicamente mortos, enterrados vivos, desenterrados e, induzidos a um estado de transe, escravizados por algum mestre bokor - Wes Craven fez um filme ótimo sobre isso, A Maldição dos Mortos-Vivos.

Da mesma forma que na HQ, a discussão é apenas superficial. Compreensível, já que sobrevivência é a ordem do dia. Mas recapitulando o polêmico arco do CDC, algumas das críticas apontavam que aquela explicação científica acabaria com a ambiguidade da questão, que seria abordada mais tarde no plot do celeiro de Hershel.


Bobagem. Se a ideia inteira do CDC foi ruim, não foi por isso. Nenhuma das informações divulgadas pelo cientista representou uma reviravolta na mitologia dos mortos-vivos.

Na verdade, foi apenas uma versão moderna daquilo que George A. Romero já havia exposto (literalmente) numa cena didática do filme Dia dos Mortos, seu clássico de 1985.


Pra mim parece mais um dos tributos de Darabont ao Godfather of all Zombies. Não sei quantos mais destes serão presenciados até seus derradeiros trabalhos frente à série, mas tomara que Glen Mazzara, o novo showrunner, mantenha a tradição. E o respeito.


E que conclusão surpreendente. Nem me importa que tenha se afastado, e muito, do que aconteceu nos quadrinhos. Aquele clímax foi The Walking Fucking Dead até a medula. Minha maldita ficha só caiu mesmo quando a trama assim o quis. E isso é mais do que posso dizer da maioria dos roteiros que pululam por aí. Sem redenção às portas do inferno, deixai toda a esperança vós que entrais, quando não houver mais lugar no inferno os mortos vagarão pela Terra, dance with the dead in my dreams listen to their hallowed screams e tudo o mais. Compensou? Pra caralho.

A série retorna no episódio "Nebraska", no dia 12 de fevereiro, em pleno carnaval, a festa da carne. As apostas estão estratosféricas. O caldo que tinha que entornar na fazenda já entornou. Shane já está "no ponto". E alguns ajustes não fariam nada mal. Minha sugestão: mais Rick Grimes, mais zumbis, mais urgência, mais baixas.

E se não for pedir muito, uma pequena escala num certo condomínio antes do provável cliffhanger final dessa temporada...

quarta-feira, 27 de abril de 2011

É hora da festa!


Antes de recolher as minhas bolas que caíram no chão, deixo a questão: será que jogar com o Romero seria uma espécie de God-mode?

Ps: "Do you wanna paaaartteee..." Não ouço nada tão grudento desde "America Fuck Yeah"...

domingo, 21 de novembro de 2010

Veni, vidi, zombie


3º episódio de The Walking Dead e eu ainda com aquela expressão besta de realização. É o segundo capítulo sem a direção do figuraça Frank Darabont, já alçado ao cânone pelos leitores da HQ após o piloto antológico. Mas não só os aficcionados pela odisseia undead de Robert Kirkman, Tony Moore e Charlie Adlard estão nas nuvens: a série coleciona recordes de audiência e elogios de gente influente de várias esferas - destaque para o artigo do New York Post, especulando que The Walking Dead pode se tornar para a AMC o que Os Sopranos foi para a HBO. A mobilização popular em suporte às filmagens em Atlanta foi tamanha, que os produtores tiveram que recusar voluntários. Infame ou não, aqui vou eu: no futuro, todos serão zumbis por quinze minutos.

Tecnicamente, o texto está impecável. A estratégia adotada nessa adaptação deveria servir de bíblia para toda e qualquer futura incursão nesse veículo. Um dos aspectos mais bem-sucedidos do roteiro foi expandir os pequenos ganchos da HQ até transformá-los em subtramas completas. Um novo olhar para a mesma história, mas de um ângulo diferente. O que faz da série algo quase tão inédito para os leitores quanto é para os leigos. Quem diria que o cerco policial do início do piloto (compactado na 1ª página da HQ) era precedida de um crescendo tão tenso e eletrizante?

Mais ainda, quem diria que uma introdução tão polêmica e gráfica seria tão aclamada?


Outra façanha, dessa vez no 2º episódio, foi unir dois momentos da trama (edições #2 e #4) e realocar a ponte entre elas (#3) para o final, esticando a tensão do reencontro de Rick com Lori e Carl. Provavelmente, seria o que Kirkman faria hoje, mais experiente. Participando da série como produtor executivo, é palpável sua contribuição na adaptação, o que deixou tudo muito fluído, natural e sem grandes concessões. Pelo menos até agora.

Uma curiosidade: Darabont disse que usou o filme A Noite dos Mortos-Vivos como bíblia para os zumbis de The Walking Dead. Assim, vemos detalhes na série que remetem diretamente ao clássico de George A. Romero. Zumbis quase rápidos se misturando com outros bem lentos e danificados, e também ataques a animais, algo que muitos estranharam (o que teve de gente se remoendo de dó do cavalo!). Lembrando que no filme de Romero, os mortos-vivos não dispensavam nem insetos. Fora a cena em que um dos desmortos usa uma pedra para quebrar uma porta de vidro - mais que uma referência, uma homenagem.

O elenco está irrepreensível. Qualquer dúvida que já tive em relação à Andrew Lincoln caiu por terra há muito tempo. Ele traduziu a essência de Rick Grimes para a tela como se conhecesse a HQ de cabo a rabo. A excelente impressão continua com Sarah Wayne Callies, no papel de Lori - pelo jeito, a Sara, de Prison Break, ainda vai expiar (e muito) seus pecados -, e Chandler Riggs, o guri que interpreta o Carl.

O moleque é bonitinho e tal, mas sabe mandar um puta olhar de jagunço quando quer. Tipo da atitude que vai precisar (e muito), conforme o avanço da série.


Os demais atores do núcleo principal mantêm o nível. Jon Bernthal vai montando de maneira crível a desestabilização emocional de Shane e também é notável os bons desempenhos de Steven Yeun (é o próprio Glenn!), Laurie Holden (Andrea) e a gatinha Emma Bell (Amy), do bacana Pânico na Neve. Mas, na minha opinião, o melhor em cena até aqui foi Lennie James, que participou do piloto no papel de Morgan Jones. A sequência em que ele quase se despede da esposa pela mira de um rifle é emocionante. Só essa cena já vale a assistida. Uma das melhores atuações que vi em séries.

No campo das novidades, muito me surpreendeu a escalação do veterano Jeffrey DeMunn para o (importantíssimo) papel de Dale. Colaborador de longa data de Darabont, DeMunn reedita aquelas combinações ator-personagem onde um parece que nasceu pro outro. Uma atuação de alto nível é o mínimo que se pode esperar daí - e será exigida... ah, se será. Quem lê The Walking Dead certamente teve espasmos musculares ao ver o boné australiano despontando no horizonte.

Por fim, e talvez o mais importante, o grande Michael Rooker no papel de Merle Dixon. Personagem inexistente na revista, é o típico white trash reacionário e racista. É a banda podre do grupo de sobreviventes - elemento constante em todo zombie movie. E talvez o primeiro vestígio de uma alteração realmente significativa (e duvidosa) nesta adaptação.

Crianças que não leram The Walking Dead... por favor, retirem-se da sala.

Spoilers adiante.


Pelo casting divulgado, Rooker sairá de cena por um tempo. Merle Dixon é personagem que com certeza dará trabalho num eventual comeback cheio de som, fúria e vendettas. Some 1 mais 1 e pronto: Governador. Será?

Até onde isso é bom? É Michael Rooker. Nesse ponto, está mais que bom.

Até onde pode ser ruim? Apesar de ser uma escória ambulante, Dixon não parece ter o perfil monstruoso do Governador. Ele é só um bandido caipira e arruaceiro. A não ser que entre o ponto A e o ponto B esteja uma experiência realmente traumatizante e enlouquecedora, não consigo vê-lo fazendo as coisas que o Governador faz em suas horas de lazer.

Aliás... não consigo imaginar as cenas de sadismo/pedofilia/necrofilia passando em canal que seja na Terra.

E gosto do fato do Governador aparecer como um desconhecido amigável à primeira vista e aos poucos ir se revelando mais cruel que o próprio capeta. É uma experiência que mudou a forma como Rick e outros personagens se portariam dali em diante em relação a outros sobreviventes - e deixou as histórias ainda melhores.

Mais uma coisa: será que a AMC terá cojones pra mostrar o destino de Lori e seu rebento?



Dúvidas, dúvidas. Daqui a pouco tem outro...

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Os primeiros passos


Sem enrolação, o trailer oficial de The Walking Dead --


No momento não tenho a isenção necessária pra analisar essa belezinha como deveria, mas...

- Está tudo bastante fiel à hq, incluindo os vários ângulos extraídos de lá;
- Lennie James parece excelente interpretando Morgan Jones;
- Teria me ferrado com a menininha zumbi... hesitei bonito só de ver a cena;
- Princípio de manada aos 3:38?;
- Michael Rooker!
- "I'm sorry this happened to you";

The Walking Dead estreia no canal AMC no dia 31 de outubro. O 1º episódio terá 90 minutos de caminhada.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Bom, mau e feio


Os recentes trailers de Jonah Hex não negam. Vem aí mais um genérico de ação pop-sobrenatural aos moldes de Elektra e Motoqueiro Fantasma, com uma boa dose de As Loucas Aventuras de James West. Isso pode até soar pessimista demais, mas aquelas cenas "divertidas" e modernosas passam a semanas de cavalgada do anti-herói original, um elo perdido entre Bronson, Van Cleef e Eastwood e um dos primeiros badasses de fato dos quadrinhos.

Pois o velho confederado ganhou boas chances de atravessar esse hype tosco com alguma dignidade. Um curta animado do Hex será incluído nos extras do Blu-Ray/DVD de Batman: Under the Red Hood. Hip Hip Hooray!

Segue o release oficial da Warner Home Video:

The second DC Showcase animated short, “Jonah Hex,” will appear as a bonus feature on the Special Edition Blu-Ray and 2-Disc Special Edition DVD release of “Batman: Under the Red Hood.”

Scripted by renowned author Joe Lansdale and starring the voices of Thomas Jane (Hung), Linda Hamilton (The Terminator), Michelle Trachtenberg (Mercy, Buffy the Vampire Slayer) and Michael Rooker (Days of Thunder), the DC Showcase short is based on the award winning comic series. The short is rated PG-13.

In the DC Showcase story, the tough-as-nails bounty hunter Jonah Hex always gets his man – until someone else gets to him first – in this case a murderous madam who wants to steal more than just her bounty from Jonah Hex.

“Batman: Under the Red Hood,” the next entry in the popular ongoing series of DC UNIVERSE Animated Original PG-13 Movies, arrives July 27, 2010 from Warner Premiere, DC Entertainment and Warner Bros. Animation. The full-length film will be distributed by Warner Home Video.


É só um curta. Mas se mantiver o nível das animações da DC, já será o suficiente, filho. Rrrc... cusp.

sexta-feira, 6 de outubro de 2006

A Noite dos Vermes Malditos de Outro Mundo


Viva à Troma! Só uma espelunca trash daquela abrigaria um maluco gente-fina como James Gunn. Não fosse isto, talvez ele roteirizasse os dois Scooby-Doo do mesmo jeito, mas não teria feito o mesmo pelo "tromântico" Tromeu & Julieta e, mais tarde, pelo remake fast and furious de Dawn of the Dead (aff, gozei). E talvez ainda, não tivesse ganho moral e autonomia suficientes para realizar este fuderoso Seres Rastejantes (SLiTHER, 2006). O filme é uma cria bastarda daqueles crossovers de comédia, horror e sci-fi típicos dos anos 80 - que Gunn com certeza curtia, afinal, o que ele faz aqui é uma reimpressão deluxe de Noite dos Arrepios, megacrássico oitentista burraldo e incrivelmente divertido. E mesmo que o cara tenha amansado a fúria hardgore adquirida em anos de podreira underground, sua nova incursão traz carnificina em quantidade satisfatória e respingante.

O bacana é que, fora o talento para bizarrices gástricas, o cineasta é dono de um humor negríssimo e de um senso estético que salta aos olhos (e ouvidos) logo nos primeiros minutos do filme. O cenário, claro, é mais uma cidadezinha interiorana (com todo o tipo de freaks e sotaques marcando presença e dando um show à parte - contextualmente involuntário, mas Gunn, safado, faz de propósito). A história é aquela mesma que você cresceu assistindo - e por aí já se nota que o diretor resolveu abranger a porra toda além do escopo (já variado) de Noite dos Arrepios, enxertando nacos de vários ícones cinematográficos oitentistas, gerando uma espécie de Monstro de Frankenstein New Wave cujos pedaços foram suturados pelos açougueiros de Do Além. Embora a carga pop culturística se revele abarrotada de referências, a narrativa jamais se torna lenta ou desfocada.

...muito pelo contrário. O filme flui suave como uma matinê de sábado, excetuando os ocasionais vômitos de sangue e tripas que pontuam seus momentos mais moleques. O que provoca até um choque climático interessante. Na mesma hora em que você acompanha um tranqüilo bailinho comunitário, você também confere uma vítima infeliz sendo perfurada por esporões alienígenas que injetam dentro dela alguns milhares de embriões carnívoros. Tudo ao som de um animado country de salão. Yeah, son!


Eu ia comentar sobre a história e acabei viajando. Mas você já conhece a bagaça: um meteorito singra o espaço em direção à Terra (rebuscando a cena inicial de Predador/Enigma de Outro Mundo) e acaba caindo em uma 'ville estadunidense qualquer (premissa referencial que começa em A Bolha Assassina e termina em etc's ad infinitum). O estranho objeto logo é descoberto pelo desavisado Grant Grant (Michael Rooker). Perto do meteorito há uma bolsa orgânica - do tipo geléia pulsante - que dispara um ferrão no sujeito e passa a controlá-lo mental e, uuurgh, fisiologicamente. Aí começa a bagunça xenomorfo-zombie, e o "aprimorado" Grant² sai espalhando o terror pela cidadezinha. O objetivo é claro: Dominar o Mundo™!

Da mesma forma que Noite dos Arrepios foi forrado de homenagens à mestres do gênero (os personagens lá tinham sobrenomes como Raimi, Cronenberg, Hooper, Landis, Romero, etc), em Seres Rastejantes as tais reverências se infiltram na trilha sonora (atenção para o "momento Predador" do filme) e em cenas como a marcha undead à Jorjão Romero, no regurgitante sururu simbiótico (Bolha Assassina/Enigma de Outro Mundo, de volta à carga) e na sugestiva cena da banheira (direto de Calafrios, do Cronenberg). Quando o filme se ocupa em mostrar servicinho sujo, sai da reta. Dá mesmo a impressão de que, fosse o lance um pouquinho mais independente, seria uma das belezinhas mais carniceiras a ver a luz do dia. Não dá nem pra comentar muito pra não estragar as surpresas.

Aliás... neste quesito, as estrelas do filme - as lépidas e faceiras lesmas alienígenas - roubam a cena em suas tentativas de serem deglutidas pelos habitantes da cidade. Isso sem falar no seu "explosivo" método reprodutivo, que não fica nada a dever ao Alien mais babão. As bichinhas são tão sacanas e espertas que deu até pena quando algumas foram exterminadas.

O filme tem um elenco afiadíssimo. Vestiram a camisa e ligaram o "foda-se-isto-é-um-B-movie!" no volume 10. E essa característica vai do extra mais secundário (Gunn, inclusive, faz uma pontinha como um 'fessor nerdalhão), passando pelos hospedeiros de lesma alien até os personagens principais. Destes, eu fiquei feliz em rever a sensacional Elizabeth Banks (de O Virgem de 40 Anos) no papel de Starla, esposa do Grant², e Gregg Henry (de O Troco), que está impagável como o prefeito Jack MacReady (pescou?). E tenho de dar o braço a torcer: se Hollywood fosse mais esperta, encheria os bolsos de Nathan Fillion de grana. No papel do xerife Bill Pardy, ele reincorpora aquela mesma essência do anti-herói cínico e cara-de-pau que foi sua marca registrada em Firefly/Serenity. Long live Han Solo.


Mas o Laurence Olivier de Seres Rastejantes é, sem dúvida, Michael Rooker. Numa de suas raras chances de real destaque cênico, ele relembra aos mais velhinhos o carisma atropelante que demonstrou em produções mais sisudas, como Henry: Retrato de um Assassino e Mississipi em Chamas, e em trocinhos mais recentes, como Risco Total e Replicante. Mesmo debaixo de toneladas de látex e fluído viscoso (puta resultado final repugnante pra caceta), Rooker consegue transmitir toda a selvageria e fragilidade emocional atreladas ao personagem (ouço ecos de John Hurt, circa The Elephant-Man), e ainda manter o timing humorístico. É o cara.

James Gunn é amigão do maluco-mor da Troma, Lloyd Kaufmann, com quem co-escreveu o livro "All I Need to Know About Filmmaking I Learned from the Toxic Avenger" (qualquer um que participe de algo com um título destes merece o meu profundo respeito). Mas, por algum motivo que só pode ser explicado como uma bunda-molice em cadeia nacional, o box-office do filme não cobriu nem metade de seus custos de produção.

Não se engane: esta maravilha aqui é uma inequívoca pérola pop que será caçada desesperadamente num futuro no qual os DVDs foram substituídos por outro formato em que ele, claro, não será relançado - tal qual Noite dos Arrepios. Daqui a quinze anos você vai ver como isto aqui será cult pra caramba.


Na trilha: "Finished with my woman cause she couldn't help me with my mind... nanana-nanan... Can you help meeee... thought you were my frieee-eeeend... wooaaa yeah..."