quinta-feira, 25 de novembro de 2021

Cristina de Sousa Lima, jornalista


Tina é garota de gibi que nós amamos. E acho pontual que, entre todas as personagens, logo ela tome a frente de assuntos mais espinhudos, como foi o caso da Graphic MSP Respeito. Parece mesmo que ela nasceu pra isso —ainda mais em se tratando do monstro do momento.

Mas nunca que esse aí é o traço do Mauricio... ;)

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

Centro de Repouso Residencial Solar Qualité Arkham


Com a Edição Absoluta de Batman: Asilo Arkham, a Panini deu uma boa perspectiva do cenário atual do mercado de HQs. Por mais que a "nova tabela" dos gibizinhos venha causando estrago nos últimos anos, ainda é acachapante a naturalidade com que se lança algo com preço acima dos outrora virginais duzentos mangos. E sem direito a chazinho de "BLACKPANINI" *. É muito louco: omnibus e demais cases luxuosos estreando —e triunfando— no Brasil em meio a uma das piores crises econômicas de sua História.

Fico imaginando se um dia vamos rir disso, como rimos hoje, sei lá, das cores psicodélicas dos gibis da Bloch ou dos nomes abrasileirados que os personagens americanos ganhavam aqui. Provavelmente não.

Embora todo o segmento tenha encarecido de forma sem precedentes, é verdade que a variedade do material também deu um salto em direção aos padrões da matriz gringa. Ainda falta muito chão até chegar lá, mas já é interessante poder optar por um tomo bíblico compreendendo fases inteiras ou pelos práticos TPs coletando um arco por vez. Claro, a caça de preços tem papel de destaque nessa conta. E deveria ter mais, afinal vivemos na Era de Conan.

Na nova versão de Asilo Arkham, lançada lá fora em 2019, fica claro o quanto se paga pelo luxo. Nada muito diferente do direcionamento comercial da editora. A história em si é média-metragem de 96 páginas, plus guardas, plus expediente/créditos. Nos extras, bios, textões de Dave McKean, Karen Berger e Grant Morrison (será que traduziram?), estudos de personagens, tratamento inicial do roteiro, artes preliminares e galeria, totalizando mais de 120 páginas de mimos Deluxe.

Tudo dimensionado em big formatão 20.5 x 31 cm com capa alternativa e caixa-luva com as lindíssimas artes de McKean (oh, o pleonasmo). De fato, a edição passaria fácil por um artbook do ilustrador britânico.

O que a suntuosa e luxuriante edição da Panini não traz —e nem trouxe em suas desastrosas edições anteriores— é um dos maiores trunfos da versão da Abril: a fabulosa letrista Lilian Toshimi Mitsunaga.


Quando trabalhou na edição nacional de Asilo Arkham, em 1990, Mitsunaga tinha dez anos no ofício. Até ali já havia feito colaborações marcantes em quadrinhos da Martins Fontes, VHD Diffusion e da própria Abril, mas o espetacular letreiramento de Asilo Arkham foi seu grande momento na época —e, sem dúvida, um dos pontos altos de sua brilhante carreira.

Letreirar as fontes do mestre Gaspar Saladino não é para qualquer um(a). Com a perícia da velha escola, Mitsunaga emulou minuciosamente a tipografia de cada diálogo (balonado ou não), recordatório e inscrição criado por Saladino. Lembrando que, em Asilo Arkham, cada personagem tinha um estilo de letreiramento próprio, como uma forma de refletir o estado psicológico de cada um.

E tudo feito à mão, num irretocável exercício de estilo artesanal.



Lilian Mitsunaga, com sua voz de ASMR e fã do grande letrista John Costanza, dava ali mais um exemplo de evidente amor pelo trabalho sem saber que também daria um banho em todas as preguiçosas versões posteriores de Asilo, mesmo com a infinidade de programas e packs de fontes digitais à disposição hoje.

É verdade que a nova mega-edição traz o melhor trabalho de letreiramento da Panini para Asilo até aqui. Méritos do letrista Fábio Figueiredo, que deu todo o esforço, seriedade e profissionalismo que a incursão exigia. Realmente digno de nota, ainda que, claro, não se compare, até por motivos outros —por exemplo, a (blasfema) "remasterização" das letras originais de Saladino na versão gringa, seguida à risca pela edição nacional.

É a eterna briga da Forma vs. Conteúdo.

Por essas e outras, não me desfaço da minha velha edição por nada. O trabalho de Lilian Mitsunaga em Asilo Arkham segue incomparável. O nível é simplesmente outro. E não é pra menos. Até o Instagram dela é uma delícia letreirística.


* Atualização 24/11:


Sim, teve chazinho de "BLACKPANINI", sim. Fraquinho e requentado, é verdade, mas vamos ser justos.

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

You would love me when I'm angry

Fato: só John Byrne ama mais a Mulher-Hulk do que eu. E posso até conceber que alguns órfãos hardcore de Orphan Black amem mais a fabulosa Tatiana Maslany do que eu. Mas as duas juntas, ah... pode pegar a senha e ir pro final da fila.


Prévia tudo de bom, mesmo mostrando pouco, afinal é teaser, uma das invenções mais maquiavélicas e salafrárias do 9º círculo do inferno. Mas não deixei meu amor pelo combo Tatiennifer inebriar meu pensamento lógico: a Selvagem Mulher-Hulk é algo complexa para adaptação live action, perigando cair nas forçadas de barra mais disfuncionais ou simplesmente no mais puro trash. Sem falar que a pegada será mais bem humorada e quase nada Selvaaaagem.

Estou ciente e pragmático sobre os riscos, mesmo vindo de um estúdio que produziu hits com um guaxinim e um tronco falantes.

Mas a referência à série clássica do Verdão e a sagazíssima homenagem ao saudoso Bill Bixby foi tão legal...


Putz, tô dentro. Manda mais.

segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Goodbye, Mighty Isis


Joanna Kara Cameron
(1951 - 2021)

Joanna Cameron (ou JoAnna, dependendo do crédito) não era muito conhecida pelas últimas gerações, mas tem seu lugar no rodapé da história da cultura pop. Iniciou a carreira de atriz no finzinho da década de 1960 e figurou em algumas poucas produções para o cinema —a TV logo se tornou seu habitat natural/profissional, mas quase estrelou Love Story (1970) no lugar de Ali MacGraw, o que seria uma dramática mudança de eventos. No fim, acabou concentrando sua atuação em participações em seriados, dos famosos Daniel Boone e Columbo a pérolas da obscuridade televisiva.

Seu grande momento, no entanto, foi protagonizando Poderosa Ísis, série produzida pela Filmation e co-criada pelo próprio Lou Scheimer (que certamente reaproveitou alguns elementos dali para sua She-Ra, anos depois). Ísis durou breves duas temporadas, de 1975 a 1977, mas a caracterização marcante de Joanna como a super-heroína/deusa egípcia rendeu um título próprio nos quadrinhos DC e um crossover no seriado Shazam!, além de um cult following canino através das décadas.

Depois disso, Joanna fez apenas cameos em algumas séries. Um deles, no notório seriado setentista do Homem-Aranha —de biquíni, com a benção de Rá. Seu último trabalho em frente às câmeras foi, ironicamente, no telefilme Swan Song, de 1980.

A partir dali, sua vida se passou distante dos sets de filmagem: trabalhou por 10 anos como enfermeira cuidadora e atualmente atuava como gerente de marketing em dois hotéis no Hawaii. No máximo, fez algumas raras aparições em comic cons. Mas o legado como a pioneira super-heroína já estava garantido na posteridade.

Não por acaso, a notícia de sua passagem foi divulgada por uma ex-companheira de set, Joanna Pang, a Cindy Lee de Poderosa Ísis.


A série era voltada ao público infantil, com narrativas simples, lições de moral e orçamento muito mais limitado do que a série da princesinha Marston. Mas a figura carismática de Joanna personificada como a super-heroína, mesmo com indumentária simplória, eclipsava demais complicações.

Joanna era magnífica.


E Poderosa...


Thank you for everything, JoAnna!

sexta-feira, 22 de outubro de 2021

Deus Ama, The Shape Mata


Halloween Kills cumpre à risca a promessa do título. Não é apenas o longa mais matador da franquia, como também é o recordista de mortes em um único filme slasher. Por isso não deixa de ser curioso o perfil da trinca de roteiristas: o comediante Danny McBride, o cineasta indie Scott Teems (que até daria um bom serial killer) e o também diretor David Gordon Green, um craque no drama. Trio fora da curva trocando novas ideias com velhos fantasmas.

A chefia realmente botou o peão Michael Myers pra suar a máscara full time, fora as horas extras. O que, no caso, se traduziria como o Halloween 2018, que trouxe a primeira etapa da mesma noite sangrenta, tal qual o clássico de John Carpenter em relação a Halloween II (Rick Rosenthal, 1981). Fosse um bloco único, o body count explodiria e disputaria o campeonato direto pela divisão dos filmes de ação-brucutu.

De fato, fica claro que a melhor maneira de apreciar a obra é numa sessão com os dois filmes em sequência, coisa que me vejo fazendo num futuro bem próximo. Porque vale a pena. Muito.

Apesar dos longas não terem sido filmados simultaneamente —o que chegou a ser cogitado em 2018— e da produção ter amargado 1 ano de gap pandêmico, a continuidade-pacing-ritmo flui à perfeição. Novas sagas pessoais são agregadas às anteriores e vários personagens secundários do run original são resgatados/desenvolvidos para interagir na festa. O que é louvável. A maioria dos diretores se limitaria apenas a espalhar ovos de Páscoa em pleno Dia das Bruxas.

Isso também se estende ao núcleo principal, com a boa química entre Andi Matichak, Judy Greer e Jamie Lee Curtis, a eterna Laurie Strode. Além, claro, de Will Patton, aqui poupado da síndrome de Sean Bean que acometeu sua filmografia nos últimos tempos.


A história faz pontes com os eventos do 1º filme e fornece mais pistas sobre seu lugar no universo da franquia.

Logo de início, enquanto o redivivo oficial Hawkins (Patton) é socorrido, ele relembra a fatídica noite de 40 anos atrás, quando participou da caçada a Michael Myers, logo após este sobreviver aos tiros do Dr. Loomis. Ou seja, agora temos a confirmação de que Halloween II é desconsiderado nesta encarnação (embora que: 1 - a personagem Annie Brackett, BFF da Laurie de raiz, apareça numa imagem de arquivo extraída daquele filme; e 2 - Michael Myers revele um olho vazado num framezinho maroto). O flashback é concluído de forma dramática e lega ao personagem, além de profundidade, um trauma para a vida.

Aliás, Haddonfield poderia muito bem ser a capital mundial do stress pós-traumático. A quantidade de habitantes sequelados por metro quadrado é absurda, batendo fácil os insones da Rua Elm e os transudos do acampamento Crystal Lake.

Em Halloween Kills, o pacato subúrbio vira o epicentro slasher do cinema atual. A jornada sanguinária atinge ali novos patamares, criando um microcrosmo orgânico, reativo, com uma atmosfera de terror e histeria digna de uma placa de boas vindas escrita por Dante Alighieri. Algo que só vimos, quando muito, no 4º exemplar da franquia, o subestimado Halloween 4: O Retorno de Michael Myers (Dwight H. Little, 1988), com seus caipiras da milícia caça-Myers. A escalada de tensão é muito bem conduzida na sequência do hospital. Além de ser um tapa na cara da mentalidade de rebanho, tão frequente nos dias atuais.

Fora o bom resgate do personagem Tommy Doyle, agora um coroa sedento de vingança interpretado por Anthony Michael Hall (sim, estamos velhos), me impressionou o retorno da atriz Nancy Stephens como Marion Chambers, a ex-assistente do Dr. Loomis. É seu quarto Halloween —e o 2º em uma linha temporal paralela— e começa no filme como a mais longeva sobrevivente de um ataque direto do tubarão Myers.

Destaque também para o arrepiante cameo do próprio Dr. Loomis, eternizado pelo saudoso Donald Pleasence e aqui representado por Tom Jones Jr., diretor de arte do filme. Mórbida semelhança.


O filme também faz atualizações importantes e controversas para os fãs die hard da série: saem a habilidade quase psíquica de Michael rastrear Laurie e a sua obsessão em eliminá-la. Considerando que o filme anterior estabeleceu que o parentesco entre eles não passava de um hoax, realmente não fazia sentido manter os artifícios —o próprio Carpenter classificou tal parentesco como "estúpido" e que só saiu do papel para preencher o fiapo de roteiro do 2º filme.

Longe de mim discordar do Carpinteiro, mas sempre achei essa a peculiaridade mais intrigante da série, quiçá de todo o subgênero. Só comentando.

Ao mesmo tempo, isso evidencia alguns aspectos negativos da trama, especialmente o abrupto déficit intelectual das protagonistas. Primeiro, pela já desmistificada fixação familiar de Michael, onde a solução para o Clã Strode-Nelson seria simplesmente pegar a estrada direto pra, sei lá, Porto Seguro. Depois, a insistência suicida de Allyson (Matichak) em se unir à caçada a uma criatura que, diante de seus olhos, acabou de massacrar policiais, meia Haddonfield e ainda se mostrou à prova de tiro, porrada, facada e fogo no parquinho.

Nada que não pudesse ser creditado, com alguma boa vontade, ao calor do momento e à comoção generalizada daquela comunidade em choque. Com exceção da cena final, na garoteada incrível da mãe de Allyson, Karen (Greer), na antiga casa de Michael. É o equivalente ao clichê da loira subindo as escadas ao invés de fugir pela porta. Só que pior.

Uma pena, porque a construção foi sensacional. A sequência toda que começa com Michael cercado por um grupo de moradores de Haddonfield inclusive me remeteu ao antológico quebra de Max Cady no beco, em Cabo do Medo. E foi ali que a coisa acabou recuperando parte de sua mística perturbadora.


O filme reforça a figura mascarada de Michael Myers como um elemental do medo, uma força da natureza. Sua lenda o precede. Mas, principalmente, é o que a máscara projeta. Isso explica em parte a impotência física da maioria de suas vítimas —uma delas só escapa porque remove o adereço parcialmente ao se debater. Em outra perspectiva, é a única lógica que Michael parece obedecer, além de matar pessoas das maneiras mais brutais (ou apenas eficientes, dependendo da situação). Em ao menos duas cenas bem reveladoras, fica clara a devoção de Michael à máscara, como se fosse uma ferramenta de trabalho tão essencial quanto uma faca. Ou provavelmente mais.

"The Shape" conclui sua jornada daqui a um ano, em Halloween Ends. Mas o mal, sabe como é, nunca termina...

sábado, 16 de outubro de 2021

Bat(man) Out of Hell

Sem dúvida, um trailer que fala por si só. Valeu a DC Fandome de hoje.


Há doze anos não fico tão empolgado com o Morcego nas telonas.

terça-feira, 28 de setembro de 2021

The Liefeld Experience

Guilty pleasure #214: canais com gibis sendo folheados. Nada muito elaborado, apenas o virar de páginas daquele quadrinho surrado e esnobado nas incontáveis passadinhas pela banca. Quase dá pra sentir o cheiro do papel velho, o que também é preocupante —quem me viu, quem me vê.

Já há um bom tempo ando com o nariz enterrado nos arquivos do Cartoonist Kayfabe, dos quadrinhistas Ed Piskor (X-Men: Grand Design) e Jim Rugg (Afrodisiac). Além da "folheada proibida" (quem nunca levou um puxão de orelha do dono da banca?), eles elaboram um exame página a página da HQ da vez com o melhor papo de boteco possível.

Uma das minhas folheadas prediletas é a da COLOSSAL e BOOOMBÁSTICA X-Force #1 (jun/1991), da dupla quintessencial do zeitgeist massavéio noventista Rob Liefeld & Fabian Nicieza. É uma maravilha. Mas não pelos motivos de sempre.


Sabiamente, os dois evitam a manjada malhação do(s) Judas. Até por quê, para aqueles que têm o mínimo de critérios —e sabemos que fanboys são muito criteriosos, não é?— seria como chutar cachorro morto.

Liefeld e Nicieza não valem um copo de Paratudo, o que é ponto pacífico (espero). Mas também é visível que, no meio do chorume, co-existia ali uma profusão de ideias promissoras, novas e/ou rearranjadas, ironicamente sabotadas pela própria imaturidade e inaptidão narrativa do par, sem um único filtro de bom gosto (ou bom senso) para administrar a sobrecarga de cultura pop. O que não impediu a edição de vender seus 5 milhões de exemplares só nos Estados Unidos da América Fuck Yeah.

Piskor/Rugg destrincham o blockbuster de Liefeld/Nicieza com uma lupa quântica. E em cada quadrinho amplificado saltam aos olhos as fagulhas de genuíno entusiasmo e dedicação pelo que eles estavam fazendo e que não é outra coisa senão a expressão máxima da experiência quadrinhística. E que, por sua vez, acabou recarregando a minha arriada bateria de gibizeiro das antigas.

Sim, chegou o dia que tanto temia: fiquei inspirado após ver um gibi do Rob Liefeld.

Claro que achei graça das romantizadas e hipérboles efusivas (disparadas, em sua maioria, pelo empolgado Piskor) em cima de sequências que são, em última análise, apenas quadrinho ruim com força. O mesmo para as insistentes analogias relacionando o "estilo" Liefeldiano ao do Fletcher Hanks, criador do Stardust the Super Wizard e da Fantomah. Ah, por favor. Onde o venerável Hanks era pura virulência e idiossincrasia (por sinal, ele também era um completo vida loca que bem merecia um filme ou uma série biográfica naqueles padrõezinhos HBO-filé), Liefeld é só um manqueta descendo a ladeira durante um terremoto. Mas é legal desopilar por alguns momentos e compreender melhor por que aqueles quadrinhos mexeram tanto com os corações e mentes da piazada da época.

No fim da viagem, antes de retornar ao meu Northrop Frye (pfff), um último espasmo foi inevitável: X-Force #1 é massa, velho.