Mostrando postagens com marcador Ben Affleck. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ben Affleck. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 19 de junho de 2023

The Flash


Não deixa de ser irônico como The Flash lida com o colapso de um multiverso ao mesmo tempo em que representa o fim do Snyderverso. Certo, o próximo filme do Aquamomoa vem aí, mas com uma fita de retardatário amarrada no tridente. Definitivamente, é The Flash quem apaga a luz. Amargando a ressaca, a Warner tira algumas lições desse grande e ambicioso projeto fracassado. O DCEU sob direção de James Gunn é a maior prova disso, além de ser um obelisco de esperança com jeitinho de ilustração do Alex Ross — a menos que Parademônios engravatados baguncem o meio de campo, mas aí já é papo para os próximos anos.

Antes de tudo, é preciso reconhecer: o filme de Andy Muschietti é um sobrevivente como poucas vezes se viu na história do cinema. Com pré-produção datando de 2020, os atrasos, já turbinados pela falta de planejamento após a saída de Zack Snyder, quase se converteram em geladeira com o derretimento da imagem pública do Garoto Enxaqueca Ezra Miller, que tentou gabaritar o código penal mais rápido que a velocidade da luz (hã, hã?). Ao menos uns dois crimes sérios da lista já teriam implodido sua carreira/vida e abortado o filme em definitivo, não fossem o zeitgeist confuso desses tempos millennialescos e o orçamento de 220 mi + publicidade aterrorizando os acionistas.

Orçamento bastante inchado numa conta que, ao que tudo indica, não vai fechar. Mas quer saber? The Flash até que merecia um afago das bilheterias.

O filme é divertido. Mas só se você for bem versado na arte de baixar a expectativa (num nível equivalente ao de parar os próprios batimentos cardíacos com a força do pensamento). E, principalmente, se abstrair da profusão acima da média de furos óbvios de roteiro, de furos não tão óbvios de roteiro, de furos dentro da lógica interna, do enxame de piadinhas constrangedoras, da incoerência no uso dos superpoderes, dos excessos do Miller, da corrida do Miller, da presença do Miller e, claro, do CGI tão ruim quanto o da série da Mulher-Hulk. E isso é uma ofensa à mãe de todos os funcionários do departamento de F/X da Warner.

Venham pra cima se tiverem coragem, bundões!

Fiuu. Essa coisa de filme de hominho escala rápido.

The Flash adapta a premissa da saga Flashpoint, escrita por Geoff Johns com arte de Andy Kubert e publicada em 2011. Fazer isso em terra arrasada pós-Snyder e pós-Henry Cavill logo no 1º filme solo do Cruzado Escarlate denota culhões. Ou pura falta de noção mesmo.

Na trama, o Flash Barry Allen volta no tempo para impedir o assassinato de sua mãe. No retorno da viagem, ele encontra uma realidade muito diferente. A pior mudança é uma Terra sem o Superman e na iminência da invasão do General Zod, conforme visto em O Homem de Aço. Para ajudá-lo contra o exército de kryptonianos, o Grão-Vizir da Velocidade conta com a ajuda da sua versão aborrescente daquela realidade, do Batman do Tim Burton e da Supergirl Kara Zor-El.


Supergirl recarregando as pilhas no Castelo Wolfenstein, digo, na Mansão Wayne

Difícil acreditar, mas essa concepção de Liguinha improvisada se desenrola de maneira mais orgânica e funcional que a Liga do Joss Whedon e a Liga do Snyder Cut. Quem diria, não era preciso muito. Só coração.

Vale mencionar que a mesma premissa foi executada de forma muito superior na então ótima série do Flash na CW, com direito a Flash Reverso e tudo mais. Fora que Ezra Miller não lustra nem as botas amarelas do Grant Gustin. E aguentar uma versão ainda mais histriônica dele por dois terços do filme foi dose pra Gorila Grodd. Mesmo assim, ele encontra o tom do papel duplo lá pela metade, me lembrando por que achava esse moleque talentoso em primeiro lugar. Foi antes de abarrotarem sua conta bancária com os dólares-DC. Confira Depois da Escola (2008), Jornal dos Predadores (2010) e Precisamos Falar Sobre o Kevin (2011) e me diga se estou mentindo. Podia ter sido tão melhor...

O Batman redivivo de Michael Keaton, em contrapartida, opera à margem de toda essa bagunça de cronologias, realidades e abordagens. É um dos maiores e melhores fanservices já cometidos por um filme de super-herói. Entrega o que todos querem ver e aumenta as apostas sem desviar um átomo daquilo que ele propôs lá em 1989. É o melhor Batman de todos os tempos? Nunca foi. Está rolando uma distorção revivalista por aí aliada a uma generalizada falta de memória (e reprises) que acho interessante. Mas foi como rever um velho amigo que salvou o dia em sua época e que acaba de salvar mais uma vez. É a grande razão para assistir The Flash. E deixa uma vontade irresistível de ter mais daquilo. Para um fanservice, não há elogio maior.

Só para não passar batido: Sasha Calle está ótima como a sofrida & sexy Supergirl, apesar do zero desenvolvimento. Merecia um lugarzinho ao sol no Gunnverso. E é triste ver Antje Traue e o grande Michael Shannon — respectivamente Faora e Zod — voltando só para bater cartão. Sem falar nos cameos protocolares da Maravilha Gal Gadot, a esta altura alçada a um abajur no DCEU, e do Batman Ben Affleck, usando uma máscara medonha que deve encher a bandidagem gothamita de terror.

O clímax chafurda no anticlímax. Infelizmente, o que era para ser uma grande celebração ao Universo DC no Cinema, se apoiou numa concepção artística feiosa — a tal Cronosfera parece arte de IA debochada — e em bonecos de massinha digital sem a menor vontade de convencer como humanos. Mais uma boa ideia indo pelo ralo. No final, do filme e da cena pós-créditos, fica claro que Muschietti resolveu incendiar a casa antes de apagar a luz. Sentido passa longe. Outra coisa para abstrair, creio.

Mas o que me espanta mesmo é a inépcia do Flash para lapidar seus loops temporais. Tom Cruise em No Limite do Amanhã e Bill Murray em Feitiço do Tempo resolveriam a parada em umas 14 ou 15 campanhas. Passeio no parque...

segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

S de Sacanagemquefizeramcomigo


O Snyderverso não vale um copo de cachaça, mas é inegável que haviam elementos certeiros no meio da tralha. Henry Cavill, cansei de falar pra ninguém, é o Superman perfeito que nunca foi — e que, agora sabemos, nunca será. A bolada nas costas que a Warner deu no rapaz (que dropou série de cult following garantido) foi um dos maiores exemplos de como as coisas funcionam nos meios corporativos de Hollywood.

Como ironia final, os três segundos de Cavill na cena pós-créditos de Adão Negro me pareceu "apenas" o melhor Super desde o Christopher Reeve. Dava pra ver que a atitude estava lá. Inclusive atitude-JLU, se me permite o exagero.

Ao menos, é ponto pacífico que o James Gunn conhece do riscado. Aliás, é um dos únicos caras na indústria hoje aptos a encabeçar a reestruturação do DCEU — que já perdeu seguidas oportunidades de protagonismo durante a apagadíssima Fase 4 do Marvel Studios.

Em sua coluna no UOL, o Roberto Sadovski destrinchou com propriedade esse cenário de terra arrasada. Ou de crise infinita...

sexta-feira, 26 de março de 2021

...And Justice League for All


Todo cuidado é pouco com o que é dito hoje em dia. As ideias mais absurdas podem escapar do picadeiro e virar realidade numa escalada atordoante. Tem nego virando presidente desse jeito. E foi assim com Zack Snyder's Justice League, o outrora mítico Snyder Cut. O ponto zero foi quando os fãs de sua filmografia à frente das produções DC, inconformados com o Josstice League, viralizaram a famosa hashtag. Em seguida, o diretor começou a jogar verde em sua conta no Vero. O "Team Snyder" ganhou corpo quando Jason Momoa, Gal Gadot e até Ben Affleck retuitaram em coro. Da noite pro dia, o Snyder Cut ganhou contornos de Snyder Cult. Mas foi com Ray Fisher desancando Joss Whedon em praça pública que o processo deu aquela turbinada. O filme virou algo a ser visto (assim como alguns bocós a serem eleitos) para finalmente esfregar na cara desse mundo ingrato o que ele perdeu.

Claro que a Warner já havia endossado a recauchutagem da produção há mais tempo que isso. Afinal, rolou ali uma aditivada de 70 milhões de doletas e, até onde sei, o Coringa do Heath Ledger não inspirou nenhum acionista da empresa a queimar montanhas de grana. Pode crer que antes de qualquer anúncio muitas horas de PowerPoint rolaram no financeiro.

Findos os trâmites burocráticos e conferido o resultado, arram, originado na HBO Max, o novo Liga da Justiça atropela a 1ª versão (o que convenhamos, não é mérito algum). É, fácil, o melhor filme do Zack Snyder no DCEU - considerando que Watchmen não pertence ao segmento.

Mas, de novo, é filme de autor. E esse autor é Zack Snyder.

(Pensando bem, até o cinema do Michael Bay é "cinema de autor". E nem precisamos do nome dele estourando retinas no título para reconhecer o istáile)

Sob sua administração, o termo "Snyderverse" é bem mais acurado que "DCEU". É o extremo oposto do padrão de adaptações proposto pelo Guillermo del Toro de tempos idos e que deveria ter sido canonizado e tombado como patrimônio pop cultural obrigatório.

Talento nunca foi o problema: ainda acho bacanudos o Dawn of the Dead hardcore, a rinha de corujas de A Lenda dos Guardiões, o capa & espada YMCA de 300, o citado Watchmen sem lula alien fake e, provavelmente sua mais elegante e visionária obra que um dia uma raça superior descobrirá e dará o devido reconhecimento, o videoclipe de quase duas horas Sucker Punch.

Sem contar os superpunchs do caótico Homem de Aço, provando que o negócio do Zeca é a (troc)ação.


A dorsal da história, co-escrita por Snyder, Chris Terrível... opa, Terrio e Will Beall, permanece intocada: é a mesma disputa dos heróis pela posse das Caixas Maternas contra as investidas do representante Lobo das Estepes, louco para limpar sua barra com o gerente Darkseid lá na matriz Apokolips. Se o conteúdo segue sem alterações em relação à Liga 2017, a forma é bem diferente.

Apesar da resolução em 4:3 para assistir na Admiral da sua vó (vai dizer que acreditou que era pro IMAX) e da divisão das 4 horas do filme em 6 capítulos revelarem a fina habilidade do diretor de lamber sua própria caceta em rede mundial, é verdade que ao menos 40% dessa pretensão é convertida em relevância na tela. Todos os personagens ganharam mais fluidez, desenvolvimento e contextualização, para mais (Cyborg) ou para menos (Aquaman). De fato, Vic Stone é quem mais se aproxima de algum protagonismo, mas não chega a guiar o espectador pela trama, como qualquer roteiro mais malandro faria. Ajudaria uma grandeza se Ray Fisher fosse melhor ator.

Já o Superman é o verdadeiro MacGuffin dos 5/6 iniciais do filme (vixe). Teve mais tempo para reviver, fazer um amistoso do time do sem-camisa contra o time dos superamigos, curar a ressaca-monstro e juntar os cacos de memória nos bucólicos cafundós do Kansas com uma terapia intensiva de cafunés de Lois Lane e de sua mãe Salve Martha. Insípido toda vida no papel, Henry Cavill encarna aqui o Azulão (ou seria Escurão?) em sua melhor versão do que é, sem nunca ter sido.

A Mulher-Maravilha, por sua vez, teve poucas e pontuais alterações. Foram para a lixeira o infame papai-e-mamãe com o Flash e os seguidos closes na bunda da Gadot presentes no Gross Joss Cut. Mesma coisa com o Batman - não o bundalelê, infelizmente. Não sei se foi pelo bate-bola extra com o Alfred do genial Jeremy Irons, mas parece que Affleck está genuinamente à vontade e se divertindo com o personagem, pela 1ª vez. E desejar isso pra alguém vestido de Batman é pedir o mínimo, pela sua própria sanidade mental.

Difícil mesmo é fazer algo que salve o Flash do Ezra Miller, que, quando não está esganando moçoilas islandesas, mostra como não se corre em frente a uma câmera. Tem duas boas tentativas: o salvamento de sua futura namorada Iris de um acidente de trânsito, numa sequência melosa, esquisita (ah, aquela salsicha) e interminável; e mais ao final, num momento que remete brevemente à icônica cena de sacrifício do Barry Allen em Crise nas Infinitas Terras. Melhora um pouquinho a impressão geral. É só não lembrar da tranqueira que é aquele uniforme. Ih, é mesmo. Tsc, aaah...


Preciso confessar que curto o Aquaman Czarniano e achei acertada a manutenção dos diálogos-ponte com seu filme solo. Até dá pra fazer vista grossa para o skysurfing usando um parademônio como prancha. O que não dá pra passar batido é o visual do Cyborg, que continua um Megatron(bolho) altamente distrativo no pior sentido. Tanto que o personagem fica muito mais interessante e cativante quando é autoprojetado de corpo inteiro em ambientes virtuais, numa boa sacada conceitual do diretor.

E realmente não precisava da ceninha "olha o Homem de Ferro aprendendo a voar em 2008". Toma vergonha, Snyder.

Se a edição mandou todas as bobagens do Whedon pra ponte que caiu, muita coisa do próprio Snyder podia ter ido também. A estreia de J'onn J'onnz, o "Martian Manhunter" (hmm...), esculhamba completamente o único momento em que Snyder consegue ser emocional sem ser brega. Surreal. A sequência inteira do resgate dos cientistas nos subterrâneos de Gotham é bem fraca, especialmente a cena em ultramegapowerslow motion do Flash ajudando Diana a alcançar sua espada durante uma queda (para... literalmente... nada!), a parte em que os heróis correm um sério risco de morrer afogados e o pavoroso batveículo Nightcrawler (prefiro o Kurt Wagner), tão viável e eficiente quanto os veículos do desenho do He-Man. Desculpa aí, Tanque de Ataque, tu era gente boa.

Claro que não podia deixar de mencionar outro TOC Snyderiano: as músicas. Tem que ter, claro, mas não precisa ser uma jukebox. A escolha dos temas sincronizada com as cenas soa tão expositiva quanto um recordatório do Chris Claremont – mais ainda, porque os caras estão literalmente falando o que está acontecendo... Nick Cave cantando "há um reino, há um rei" enquanto Aquaman caminha num píer é o cúmulo da obviedade. E, numa menção desonrosa, enche o saco a voz feminina cantando ao fundo toda vez que a Mulher-Maravilha resolve partir pra porrada.

Mas também tem coisas legais, como as mulheres do vilarejo cantando enquanto Aquaman retorna ao mar, demonstrando o nível da reverência e da adoração daquele povoado pela figura do relutante monarca. Boa.


Por fim, as cenas com a família russa foram sabiamente limadas e o ato final foi reformulado como um bloco mais coeso e focado. A luta decisiva contra Lobo das Estepes (que ganhou um tapinha no CGI) não chega a ser ruim, mas fica a dever. Ainda mais em comparação com sua eletrizante campanha em Themyscira. E a introdução de Darkseid – com visual quase OK e tronco emborcado – ficou surpreendentemente climática e bem elaborada, arrematando com a cena arrepiante do vilão e os heróis se encarando em silêncio através do portal. É a vitória do "menos é mais" sob condições adversas.

Porém, como uma espécie de assinatura artística do diretor, ele mesmo decide contrabalancear a boa impressão com os epílogos mais prolixos do universo conhecido. Dá pra entender a piscadela para uma incerta continuidade no encontro entre LeLex Luthor e Exterminador. O que não dá pra entender é a fixação no Coringa faz-de-conta do Jared Leto chegando a tal ponto que rende a cena mais constrangedora do ano (sim, eu sei que ainda estamos em março). Quer Coringa, Batman, Liga e o Superman boladão num cenário pós-apocalíptico, reveja o cinemático do DC Universe Online. E desapega de vez.

O que realmente impressiona nesse Liga da Justiça é a rara (raríssima) oportunidade de correção histórica dentro do cinema blockbuster. Mesmo com os vários problemas e idiossincrasias, Zack Snyder entrega um bom filme da superequipe mais emblemática dos quadrinhos – também, só me faltava passar uma tarde inteira assistindo um filme meia-boca ou, pior, um novo Batman v Superman. Mais legal ainda é ele ter tido essa chance, por todas as dificuldades pessoais e públicas inimagináveis que atravessou nos últimos anos.

Um pouco de justiça poética, pra variar.

domingo, 14 de fevereiro de 2021

Vocês sangram?

Vão sangrar.


Então está aí a realidade do Justice League's Snyder Cut. Ao menos o cabra não é de deixar assuntos pendentes. E só precisou levantar 70 milhões de doletas na moralzinha.

Kneel before Zack, Michael Bay.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

The Dark Affleck Returns

O anúncio foi feito, não adianta espernear. E vai se acostumando, pois a coisa deve ir longe.


"Sim, Comissário. É o Batman."

Grandes estúdios não têm o hábito de plantar trollagens em escala global sobre seus projetos mais aguardados. Sendo assim, vamos destrinchar um pouco melhor essa porrada que você tomou quando abriu seu browser naquela manhã de sexta-feira (que não era 13, mas era 23).

O projeto do crossover cinematográfico do Batman com o Superman não é novo. Há pelo menos 10 anos vem sendo ruminado pela Warner, mesmo antes do boom super-heróico via Marvel Studios. Mas sempre retornava à gaveta, talvez pela falta de precedentes de um universo integrado dos quadrinhos no cinema. O mais perto que chegaram foi em 2002, num projeto que seria dirigido por Wolfgang Petersen (Mar em Fúria) e que acabou não saindo do papel - felizmente, visto que o script era uma trasheira de grosso calibre.

Mesmo o enorme sucesso da trilogia do Batman de Christopher Nolan não parecia animar os executivos a apostarem numa série de franquias interligadas. Mas os filmes da Marvel chegaram e mudaram as regras. Foi um sinal verde para a Warner e até para a Fox, que já quer os X-Men coexistindo com o Quarteto Fantástico no cinema.

Parafraseando Marcelo Rezende, corta pra 2013: Ben Affleck como o novo Batman já é o maior meme ligado à adaptações de HQs dos últimos anos. Fazia tempo que um filme em pré-produção não gerava tanto feedback - a esmagadora maioria negativa (71% dos tweets, desde a última medição), num consenso que reconhece a trajetória ascendente de Affleck como cineasta, mas que ainda não o livra da condicional por ter protagonizado Demolidor - O Homem Sem Medo em 2003.

É injusto dizer que foi culpa exclusiva dele o fato dessa adaptação ter sido decepcionante. Mas teve a sua parcela...


Em geral, as vozes a favor defendem sua evolução como ator e/ou condenam veementemente a expressão de opiniões sobre algo que ainda nem saiu do papel. Mas dedução e especulação são habilidades desenvolvidas pelo ser humano ao longo de milhares de anos de evolução. Não vamos reprimi-las agora, não é?

Primeiro os contras.

A contratação de Affleck representa não apenas um enorme retrocesso no programa de adaptações cinematográficas da DC, mas principalmente, revela que os executivos da Warner ainda não compreenderam o fenômeno. Herói com um rosto conhecido do grande público? Não há necessidade disso e talvez nunca houve. O público que irá lotar as primeiras sessões será o mesmo que compra os quadrinhos religiosamente há anos e o mesmo que espalhará a palavra aos 4 cantos da internet. Simples assim. Essa estratégia de "rostos familiares" como chamariz de público leigo deve ser relegada ao núcleo coadjuvante, como foi feito em O Homem de Aço - e penso agora que a escolha de Henry Cavill deveu-se mais à influência de Christopher Nolan que qualquer outra coisa.

Talvez a ideia seja fabricar um novo Robert Downey Jr. que conduzirá a DC à terra prometida de Hollywood. Mas parece que esqueceram que Downey Jr. foi cozinhado em fogo brando nos dois longas que precederam Os Vingadores e, principalmente, esqueceram quem ele era antes de vestir a armadura do Homem de Ferro. Uma dica: não era um mega-star.

O fim da trilogia "realista" do Batman também marca o início do grandioso UDC nas telonas. Isso não é pouco. Estamos num daqueles momentos-chave, onde novos conceitos e abordagens têm que ser explorados. E o morcego, com perdão do trocadilho, precisa de sangue novo. Não de um déjà vu.

Há uma sensação muito forte de que Ben Affleck não é Bruce Wayne. Nunca imaginei o sr. Wayne com a cara do Christian Bale também, mas, além de ser um ator diferenciado, Bale emergia de um background sombrio, perturbador e visceral, construído com performances memoráveis em filmes como Psicopata Americano e O Operário. Em outras palavras, não deu certo por acidente. Bale já estava com um pé no velho poço abandonado.

Também foi escrito por aí, ad nauseum:

"A escolha de Heath Ledger para o papel do Coringa também foi duramente criticada na época e antes ele era o cara de '10 Coisas que eu Odeio em Você'". 


Primeiro, as reações nem chegaram ao calcanhar do Bat-Affleck. Segundo, o Coringa é um passe livre para a anarquia, do tipo do-or-die/tá-com-medo-pra-quê-veio, sem meio-termo, um presente pra qualquer ator com sede de improvisação. Já o Batman é outra viagem, completamente oposta em tom, atitude e racionalização.

Quanto à 10 Coisas, uma comédia inofensiva, foi o pior argumento usado até agora. Afinal, até James Cameron carregou piano.

Também tem a variação piorada: "...antes ele era o cowboy boiola de 'Brokeback Mountain'".

O que, ao meu ver, é um grande elogio. Ledger, que já tinha impressionado em Os Reis de Dogtown, demonstrou ali o reflexo de um ator comprometido com a arte, ciente do papel e da dimensão de sua profissão e sem medo de desafios. Ou seja, a escolha só revoltou neófitos mesmo. Definitivamente, o Ledger-Coringa não é o parâmetro para essa comparação. Pelo menos não numa conversa séria.

Mas o maior problema é que Ben Affleck (ainda) parece um garotão boa-praça. Não vejo amargura, obsessão, rancor ou austeridade no seu olhar. Não consigo vê-lo dando esporro no "Clark" e enfiando lições de vigilantismo cinza-fascistóide naquela mentalidade pacata do Kansas.

Os prós?

Affleck de fato evoluiu como ator na última década. Nada estratosférico, apenas o suficiente para transitar pela tela discretamente e não cimentar os personagens em seus próprios maneirismos. Inclusive aprendeu até a dissimular tensão e seriedade de forma natural e convincente.


"Sr. Wayne, seu projeto de pesquisas está pronto." - "Obrigado, Lucius."

A maioria das críticas lembra de sua atuação como o Demolidor, pela semelhança óbvia de ser outro vigilante noturno dos gibis. Mas esquecem seu eficiente desempenho na pele do agente Jack Ryan, no thriller A Soma de Todos os Medos (2002), sucedendo ninguém menos que Alec Baldwin e Harrison Ford. Foi um dos melhores laboratórios que um ator poderia ter feito para o papel de Bruce Wayne/Batman. Espionagem, conspirações nos altos escalões do governo e deadlines dramáticas dividindo espaço com intensas sequências de ação - parece mesmo um dia no escritório do cruzado encapuzado.

Mas o mais importante é que Affleck transmitia credibilidade no papel. Sim, ainda soava como um novato, porém, um talentoso, confiável e obstinado. E com segurança o suficiente para duelar com gigantes do porte de Morgan Freeman, James Cromwell e Ciarán Hinds. A longeva aura de californian boy foi quase totalmente apagada.

Isso foi há onze anos - curiosamente, um ano antes de Demolidor. Se o Batman de Affleck for mais Jack Ryan e menos Matt Murdock, já é um começo.

Talvez o melhor aspecto dessa improvável parceria seja as ramificações do misterioso contrato. Os burburinhos dos sites de cinema dizem que o acordo é multifranqueado. Affleck se tornaria assim o responsável pelos próximos longas do Batman no cinema. Um acordão.


É inegável que Affleck se tornou um cineasta muito interessante. E não é de hoje: já em sua estréia na direção, no bom Medo da Verdade (2007), ele impressionou com uma construção sólida e um storytelling seco, sem perfumarias. Aliás, o crescendo atmosférico é das suas melhores características. Ele não tem pressa e valoriza o build up, ao contrário do estilo recortadinho de Nolan. Outro destaque é a sua estratégia de deixar os atores bem à vontade e com bastante espaço para trabalhar, mostrando que ele viu com atenção os filmes dirigidos pelo Clint Eastwood.

Sem dúvida, é um diretor cuja visão do Batman eu gostaria muito de conferir. Mas, pesando os prós e os contras do que sei sobre o dossiê Affleck, não diria que foi uma boa escolha como o ator que envergará o manto. Ainda mais com tantos candidatos em que a carapuça (ou a capa) cairia mais naturalmente. Aquele lance da afinidade com o lado negro, saca.

Enfim, coisas da Warner, como sempre. E tome o vídeo do Kevin Smith de novo.

Aliás...


...fico só imaginando o que Holden acharia disso.

Ps: Ok, ok, Bryan Cranston como Lex Luthor foi bola dentro...