quinta-feira, 3 de agosto de 2006

THE EVIL THAT LATENESS DO


Sempre tive a sensação de que Kevin Smith seria o escritor perfeito para o Homem-Aranha. Achava que os dois nasceram um pro outro, mesmo antes de Smith se aventurar pelas HQs. Lá pelos idos de Barrados no Shopping/Procura-se Amy, mais ou menos. Enquanto no primeiro filme ele teve a manha de escalar ninguém menos que Stan Lee, em carne e mito (e lhe fazer perguntas como "o pau do Coisa também é de rocha laranja?"), no segundo ele chafurdou geral e botou um trio de quadrinhistas para protagonizar. Mas a ligação com o Teioso vai mais além. Kevin Smith é mestre em destrinchar a vidinha de pessoas comuns (nós!) e situações cotidianas, muitas vezes até dando picas pra continuidade da ação. O que é o genial O Balconista, senão um bando de gente jogando conversa fora durante uma hora e meia? Este aspecto mais informal e despretensioso seria o lado "Peter Parker" de Smith. E a visão peculiar do diretor quando se trata do campo minado que é um relacionamento de verdade? Parker + MJ, travado. Já o senso de humor malandro do aracnídeo corresponderia às típicas observações de Smith sobre o establishment, o showbiz e a cultura pop, sempre carregado de deboche e ironia. Isso sem falar nas 978 referências que Smith metralha por segundo, seja em filmes, entrevistas ou nas HQs de Bluntman & Chronic.

Adicione aí uma dupla de artistas "da hora" (o casal Terry & Rachel Dodson), liberdade editorial suficiente pra fuçar no passado de alguns personagens e voilá. O projeto parecia reluzir no horizonte com a intensidade de uma supernova. Melhor que isso, só se fosse o PT Anderson se aventurando em um conto new yorker do Aranha. Ou então o Lou Reed (já pensou o velho Lou reescrevendo O Garoto que Colecionava Homem-Aranha?). Pelo menos foi essa a impressão que eu tive. Em 2002.

"The Evil That Men Do", o tal projeto, começou arrepiando, com vários previews instigantes sendo divulgados na rede. 99% deles traziam uma Gata Negra quase radioativa de tão gostosa - o que me levou, tempos depois, a dedicar um CdMTxXx inteirinho só pra ela. O casal Dodson estava inspirado e mostrou com quantas curvas se justifica um oba-oba. A mini (em seis partes) estreou em agosto de 2002, mais ou menos na época em que eu descobri que existia vida fora do Kazaa. O tom inicial era de entretenimento leve e descompromissado, com um clima sempre agradabilíssimo. O pacote pop perfeito. Smith estava irresistível nos textos. Normal, pois ele é fã também, e a primeira coisa que fez foi devolver à Gata Negra toda a sensualidade que há tempos lhe negavam (anos-luz da lenga-lenga chorosa envolvendo Wilson Fisk e o poder de "má-sorte"). Logo nas 3 primeiras páginas, Smith nos coloca a par dos pensamentos mais íntimos da gatinha Felicia Hardy, in the shower (onde mais).


A premissa era simples e mostrava o Aranha investigando a morte de um estudante da mesma escola onde seu Parker-ego leciona. Aparentemente, o jovem sofreu uma overdose de heroína, o que contraria seu perfil de bom rapaz. Pra piorar, a autópsia não revela qualquer traço de química ilegal em seu organismo. Nem um tapinha sequer. Correndo por fora, a Gata sai de seu exílio voluntário em Los Angeles para descobrir o paradeiro de sua amiga Tricia Lane, que simplesmente evaporou em New York. Como não poderia deixar de ser (ou poderia?), os dois casos estão conectados e fornecem o subterfúgio perfeito pra felina reencontrar seu ex-aracno-affair. Kevin Smith não economiza na pimenta e coloca os dois pra trocarem faíscas com os olhos. A narrativa é bem ágil, mesmo sendo bastante verborrágica. Com balões e recordatórios abarrotados de informação, ele registra praticamente todas as impressões dos personagens. Uma referência de estilo mais recente seria Brian Michael Bendis nos seus melhores dias (Alias, Daredevil), acrescido de um humor afiadíssimo. E que humor! A seqüência em que a dupla "tortura" a bandidona Scorpia pra extrair uma informação é de rachar o bico. Já o esperado reencontro dos personagens rende diálogos (e pensamentos!) memoráveis, até resolvendo antigos impasses na relação. Como pano de fundo, uma conspiração meio barra-pesada que pode ou não envolver um figurão de New York com francas aspirações políticas. Mas era só o pano de fundo. Definitivamente, o clima era de comédia romântica recheada de duplo sentido e temperada com uma boa dose de ação. Um Alta Tensão super-heróico.

E assim foi até a 3ª edição, publicada num já longínqüo outubro de 2002, quando Kevin Smith trancou a matrícula e foi cuidar de outros projetos (filmar Jersey Girl pra Miramax e cumprir a agenda de sua produtora View Askew). Saiu sem deixar bilhete ou recado com a vizinha, e só voltou a encostar no roteiro em meados de 2005 ("the impossible has happened") - fazendo com que a mini só voltasse a ser publicada em janeiro último e concluída em março... quase tropeçando em Civil War, portanto. Cabe dizer que o gordinho barbudo foi bastante criticado, sendo até acusado de anti-profissional.

O problema é que nestes meses de "seca", pensava-se que ele já tivesse recebido integralmente por um serviço que não havia concluído (configurando aí um cambalacho ao melhor estilão Tim Maia). Bobagem. Ficou-se sabendo depois que a Marvel Comics só paga por scripts completos e já entregues. Sendo assim, Smith só recebeu quando de fato terminou. Mas ainda havia uma outra questão, dessa vez menos passível de defesa. Um delay na vida de um cara desses significa muita coisa. Lotes de informações novas ou atualizadas e uma visão mais complexa do mundo. Isto se refletiu diretamente na atmosfera "National Lampoon" da HQ e o que veio a seguir começou a justificar o título sombrio da minissérie.

"The Evil That Men Do" é uma citação ao solilóquio de Marco Antônio na tragédia Júlio César, de Shakespeare. O trecho é "The evil that men do lives after them; But the good is oft interred with their bones." ("O mal que os homens fazem vive após eles; Mas o bem é enterrado com seus ossos"). Não, nunca li o velho William (no máximo, assisti o Hamlet do Brannagh). Só sei disso porque também é o título de uma ótima canção do Iron Maiden. Metal é cultura! De qualquer forma, caiu como uma luva. Ou como uma tempestade. Quem acompanhou os capítulos anteriores levou uma ripada na nuca com o quarto round - mesmo com a conclusão pra lá de arrepiante da 3ª edição. Sinceramente, fiquei tão confuso que até pensei que tivesse perdido alguma edição "3½" ou algo do tipo. Kevin Smith revirou tudo de ponta cabeça de tal forma que as novas informações literalmente te soterram desde a primeira página e você só pode balbuciar "não, isto não pode estar acontecendo... deve ser um pesadelo". O casal Dodson também retornou à prancheta e ambos tiveram de se readaptar. A arte-final de Rachel ficou mais claustrofóbica, as cores (agora de Lee Loughridge), antes suaves e ensolaradas, ficaram mais saturadas e os ângulos e feições de Terry adotaram um ar pesaroso e introspectivo.


Ok, isto faz de "TETMD" um trabalho irregular na mais perfeita acepção da palavra. O hiato quilométrico entre uma metade e outra foi crucial em todos os apectos. Mas embora muitos discordem, irregular não é, necessariamente, algo ruim. Tudo bem que uma certa pré-disposição ajuda na hora de assimilar informações (o que parece ser uma anomalia meio rara por aí). O fato é que Kevin Smith conseguiu conferir mais profundidade e dimensão no perfil psicológico dos personagens do que eles pouco ou jamais tiveram em suas longas bi(bli)ografias. Isto inclui desde os vilões até o próprio Aranha e, em maior grau, a Gata Negra.

Como disse o próprio Smith: "É uma história muito melhor agora do que se eu a tivesse completado em 2002". É vero. Senão, vejamos: o diálogo inicial entre Felicia e um certo advogado da Cozinha do Inferno chega a ser atordoante, tamanho o fluxo de novidades de cair o queixo; o momento em que Peter tenta convencer Matt Murdock de que precisa de sua ajuda, revezando entre o bom-humor (Peter lembra de uma história vexatória - fase pré-Miller - na qual Matt fingia que estava morto e que na verdade era o seu irmão gêmeo) até a mais pura, deslavada e emocionante amizade; Murdock (de novo) lembrando que é PhD no campo Mulher Com Problema (Mary Tyfoid, Viúva Negra, Heather Glenn, Karen Page, E. Natchios, Maya Lopez, etc, etc); a "instrutiva" participação do mutante Noturno; a bem sacada natureza dos misteriosos poderes dos vilões (cujo background envolve até um notório carrasco nazi); o clima pesadão à Sobre Meninos e Lobos em uma linha narrativa específica (simplesmente impossível não relacionar).

Mas talvez o maior mérito de Smith em "TETMD" tenha sido colocar Felicia Hardy frente-a-frente com os demônios de seu passado obscuro. Isso sem tropeçar em clichês e sem recorrer à soluções fáceis. O resultado é que eu gosto muito mais da Gata Negra agora do que antes, se é que isto é possível. Na conclusão, Smith ainda fornece um link para a revitalização de um dos inimigos mais esdrúxulos do Aranha. Do jeito que foi feito, os desdobramentos parecem promissores.

De fato, a segunda metade de "TETMD" é muito mais história que a primeira. Mais intrincada, crível e tridimensional. Praticamente uma humanização da proposta anterior. Ainda assim, não foi desta vez que vi meus ídolos se reunirem em perfeita harmonia. No entanto, após a catarse proporcionada pelas duas últimas edições, algo ficou bem claro pra mim: não foi Kevin Smith quem atrasou, foi "The Evil That Men Do" que chegou muito, muito cedo.

Só pra lembrar: a Panini Comics está publicando a minissérie por aqui, sob a alcunha "O Mal no Coração dos Homens" - razão pela qual abordei o espírito da HQ e não seus fatos e escolhas criativas. Já pensou, você comprando a revista religiosamente e levar com um spoiler bem na cara?


dogg, a pensar. E na trilha: o estonteante álbum de estréia do Black Stone Cherry.

quinta-feira, 27 de julho de 2006

JACK SPARROW E OS CAÇADORES DA ARCA PERDIDA


No começo dos anos zero (esquisito demais isto... Anos zero... Tomara que passe logo para começar a chamar de anos dez, que também é estranho, mas vá lá... Bem melhor que anos zero) estávamos vivendo o momento onde as adaptações de quadrinhos recentemente feitas colhiam seus primeiros louros, já semeando o campo para uma seqüência alucinante de anúncios de novos filmes nesta linha, além de adaptações também de video-games (foi desta gosma que surgiu Uwe Boll, o Ed Wood dos anos zero - ARRRGHH), o que me fez elocubrar a respeito do paradeiro daquilo que existiu um dia sob o nome de roteiro original. Não que não curta filmes de quadrinhos e tal - tipo da possibilidade ridícula em se tratando deste blog - mas diversidade é interessante também. Eis então que começaram a anunciar a possibilidade de produzir um filme sobre uma atração de parque de diversões! Pensei: Aí forçaram! Atração de parque de diversões é o cúmulo. É muita falta de boas idéias mesmo. Ainda por cima sendo esta atração da Disney, o que traz consigo a idéia inequívoca de filme água com açúcar.

Era natural que, ao acompanhar as novidades acerca dos filmes que me interessavam, as notas de produção de Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra (Pirates of the Caribbean: The Curse of the Black Pearl, 2003) viessem misturadas, mas mesmo assim desdenhei muito, a ponto de nem ver trailers e não saber qual seria o elenco. Por acaso, por força de uma namorada da época, acabei por ver o filme no cinema e logo de cara percebi algo de bom poderia ter, já que Johnny Depp estava no elenco. O resultado final foi muito positivo. Achei tudo muito divertido, engraçado e com uma dose de aventura que, se não era extraordinária, ao menos valia o ingresso. Claro... O filme devia 87,25% de seu êxito a Depp e seus trejeitos e sotaque, sem isto seria um filme ordinário (prova disto tive umas duas semanas atrás, quando vi o filme novamente na TV, só que dublado... Graça nenhuma). Foi o suficiente para respeitar a seqüência. Não estava apreensivo nem nada, mas tinha ótimas expectativas. E não me decepcionei.


O primeiro era um balão de ensaio. Claro, visava a bilheteria das férias, mas para saber se conseguiria arrancar muito mais dinheiro do público em seqüências, tinha que testar a empatia de personagens daquele tipo, já há algum tempo sem dar as caras no cinema. Além disto, arriscou também ao não colocar nenhum destes personagens como protagonista, quer dizer, até acho que o Will Turner de Orlando Bloom seria este cara, mas o ator é tão inexpressivo que foi nivelado aos "coadjuvantes". Em Piratas do Caribe: O Baú da Morte (Pirates of the Caribbean: Dead Man's Chest, 2006), com balão de ensaio já digerido, naturalmente ousaram mais, muito mais. A começar pela própria estória, onde duas linhas independentes seguem seu caminho, cada uma com complicações suficientes para render um filme independente, mas convergem mais à frente e criam outras tantas situações. Por óbvio, um roteiro deste tipo não pode ser executado em menos de 2 horas, sem contar que é um tanto quanto complicado manter a atenção do público desta forma, a não ser que tenha ação suficiente. E ação não falta. Não diria que é non stop, já que há de se criar os elos entre os acontecimentos, mas o filme é dinâmico o suficiente para fazer as duas horas e meia passarem voando e não percebermos alguns furos aqui e ali. Mas furo em filme é que nem celulite... Se a mulher não tem, não é de verdade.

Pareceu-me menos "engraçado" que seu predecessor, certamente pelos maneirismos de Jack Sparrow não serem mais novidade para ninguém (segundo Depp, a composição do personagem é uma mistura de Keith Richards com Pepe Le Gambá... vai saber), mas isto foi compensado com um jogo de situações que há muito não vejo. Os problemas e soluções vividos pelo personagem são tão bem escritas e executadas que não sentia o mesmo prazer que tive ao assistí-las desde as aventuras de Indiana Jones, especialmente a seqüência da gaiola de ossos - regurgitada após na forma de um moinho d'água - onde faltou pouco colocarem o hino de Indy para tocar. Todas as seqüências do Kraken (Kray-ken ou Kráken?...rs...) também são competentíssimas.


Comentei também quanto ao estereótipo que filmes da Disney têm, e o curioso é que este aqui passa longe disto. Morre gente a dar com pau, mutila-se mais do que em muito filme que se pretende terror, humor-negro em situações propícias e, principalmente, a falta do herói de caráter indiscutível (Orlando Bloom não conta). Não que ter estes elementos seja sinal de filme bom, longe disso, mas é interessante sob o ponto de vista dos pré-requisitos que a gigante do entretenimento estaria partindo em suas obras. Para um filme da Disney, diria que tem gente lá quebrando seus paradigmas, só para usar uma expressão chatíssima de ambientes empresariais. Talvez seja estímulo de gente politicamente incorreta tirando mingau da sua cumbuca, como Shrek, por exemplo.

Por falar em rótulos, vejo por aí o pessoal classificando PdC como um "ótimo filme de piratas", mas creio que este tipo de designação encarcera o filme num rótulo que diminui sua envergadura. É um filme com elementos do mundo fantástico, transcendendo em muito a definição do que seriam filmes de piratas, ou seja, aqueles embates em alto mar que têm muito mais a ver com Errol Flynn do que com Johnny Depp. As figuras que povoam os roteiros da cine-série constituem uma mitologia à parte, assim como os respectivos das séries Star Wars e Senhor dos Anéis, por exemplo. Por falar nos elementos fantásticos, os efeitos dos piratas mortos-vivos do primeiro já eram ótimos, mas a caracterização dos marujos do Holandês Voador é qualquer nota. Em alguns momentos não sabia ao certo para onde olhar, já que naqueles seres tudo se move, tudo me era curioso, inclusive o capitão, Davy Jones, um Homem-Coisa genérico, interpretado por Bill Nighy, único ator à altura de Depp e também cheio de trejeitos que, mesmo embaixo de toda aquela maquiagem, ainda mostravam que era o roqueiro Billy Mack o dono dos tentáculos.

Como esperado, Depp ainda é o ponto alto do filme, mas o roteiro extremamente bem dirigido por Gore Verbinsky faz com que não seja mais o único trunfo, o que é muito bom. Ele, para mim, é o melhor ator de sua geração (de onde vieram Brad Pitt, Tom Cruise, Christian Slater, Keanu Reeves e outros). Costumo dizer que, se há Depp no elenco, pode até ser que o filme seja ruim, mas certamente Depp é muito bom. Claro, tem lá suas exceções medianas, mas normalmente ele é o destaque. Keira Knightley faz a boneca que tem que ser, chegando a protagonizar uma cena de comicidade até mesmo ingênua, mas bem bacana, mas sua atuação não superou a do macaquinho morto-vivo que servia de alívio de tensão para o Capitão.

Vale lembrar, após os créditos ainda tem uma cenazinha que não acrescenta nada, mas diverte. Quem não viu antes pode ver abaixo. O terceiro já está filmando e, a julgar pelo final muito bem sacado deste, vai ser mais um arraso.

segunda-feira, 24 de julho de 2006

A GUERRA DE MARK


Isto está começando a se tornar uma espécie de afirmação do óbvio e, ainda assim, de forma repetida. Tentarei fazer um pouco diferente desta vez: Se houvesse Mark Millar's facts, um deles seria: "Chuck Norris é o Cara!!! Mas o Cara é Mark Millar". Tá bom, eu sei, horrível, mas pelo menos foi diferente e mantém a idéia que queria passar. Mark Millar é o roteirista de quadrinhos mais competente em franca produção atualmente.

Sempre gostei muito de tudo o que ele escreveu, mas é inegável que fica muito mais à vontade em contextos que lhe permitam criar roteiros de repercussão global do que em ambientes menores, mais íntimos, campo que Bendis domina com facilidade e Ed Brubaker é discípulo destacado. Isto é facilmente percebido na diferença de qualidade de seus trabalhos em Superman: Red Son, The Authority e os dois arcos de Wolverine em comparação, por exemplo, com seu trabalho em Marvel Knights Spider-Man e Chosen. Em janeiro abusei dos elogios ao segundo volume de Ultimates e, neste meio ano que passou, foram divulgadas as linhas gerais de seu novo trabalho, algo grande e fenomenal que o próprio já vinha alardeando há algum tempo, uma saga que atingiria o Universo Marvel de ponta a ponta, com a participação mais maciça de personagens já vista: Civil War. Já vimos confete jogado por coisa parecida por aí e, falo por mim, já tinha me condicionado a associar que este tipo de alarde significava algum novo vilão overpowered ou um personagem já conhecido, mas numa virada igualmente overpowered e que ameaçava a todos. Algumas foram boas, outras nem tanto, mas certamente privilegiavam contextos grandiloqüentes, onde personagens populares, mas cuja importância é mais sentida nas coisas pequenas do dia a dia – Homem-Aranha e Demolidor, por exemplo – eram relegados a papéis coadjuvantes. Estas sagas eram claramente pontos fora de curva e invariavelmente apresentavam finais forçadíssimos, ou seja, eventos que, de tão grandiosos, saltavam absurdamente daquele contexto mais "pé no chão" da Marvel (até onde o termo permite, claro, já que falamos de quadrinhos de heróis). A maioria, apesar de ruidosa, apresentava nenhuma ou poucas conseqüências a médio prazo, sendo relegadas ao esquecimento na sua relevância para a cronologia atual. Massacre, por exemplo, de conseqüências atuais só tem uma: Bishop. Um personagem que perdeu o sentido de existir após a saga e hoje vaga perdido como uma assombração no mundo mutante.

Quem costuma vir aqui certamente está familiarizado com o que vem a ser Civil War, mas não custa apresentar o caso àqueles que não são tão afeitos aos quadrinhos. Parto para a sinopse oficial: Um reality show que mostra super-heróis de quinta categoria resulta em centenas de mortos quando um dos vilões explode a si mesmo. A opinião pública torna-se hostil aos vigilantes e o governo americano aprova uma lei de registro de todos os seres que detenham habilidades super-humanas. Com isto, a comunidade de heróis encontra-se dividida e uma guerra entre eles tem início, já que os que se recusarem a submissão ao registro e ao controle da SHIELD serão considerados foras-da-lei e, ato contínuo, caçados.


Premissa até simples, não? Então destaca-se dois dos maiores ícones do supergrupo mais categórico da editora e os colocam como líderes de seus "exércitos": Homem de Ferro de um lado e Capitão América do outro. E já aqui Millar mostra que é escritor acima da média. Se fosse feita uma enquete onde o plot da saga fosse apresentado para qualquer "comicófilo" (que termo horroroso) e perguntassem qual time estaria contra o registro e qual estaria a favor, creio que seriam unânimes em apontar a encarnação da retidão moral, do american way of life e da obediência cega ao governo como o cara que lideraria a equipe pró-registro. No entanto, mesmo que sua identidade seja pública, é o Capitão América quem ergue o primeiro punho contra a lei, ao passo que o novíssimo Tony Stark fascista pós-Extremis coloca o sistema em seu favor de forma covarde, indo na contramão do que parecia ser sua opinião até bem pouco tempo antes dos eventos em Stamford, onde ocorreu a explosão.

A saga é positivamente pretensiosa, apesar de se mostrar fantástica nos detalhes minimalistas. Além das ocorrências em diversas publicações normais mensais, contará ainda com as edições de Civil War, mais outras tantas criadas apenas para a saga (check-list aqui). É complicado acompanhar tudo, não tenho este tempo todo à disposição, mas pelo que já foi possível ver, Millar não estava brincando quando dizia que seria a saga mais abrangente já feita na Marvel. Vemos a participação de diversos personagens que eu já não via há mais de década (alguém lembra de Solo? "Enquanto eu viver, o terror morre!"). Sentimos como o cenário os afeta de uma forma bem mais clara. Por mais que as participações destes personagens obscuros sejam até breves, são bem mais relevantes para o contexto geral do que as participações já mencionadas do Demolidor em sagas passadas, só para citar um dos grandes personagens da editora.


O leitor mais atento percebe também que os motivos não nascem do nada. Os eventos que levaram a ela a tornam quase obrigatória, uma conseqüência natural do que vinha acontecendo em todas as revistas da Marvel. Algo planejado há anos, portanto, bem diferente daquele produto confuso e mal acabado que foi Infinite Crisis na editora rival. Para percebermos o nível do planejamento neste trabalho, precisamos de uma revisão de eventos ocorridos nos últimos dois anos. Tivemos nesta época Avengers Disassembled, que começou a arrumar a cama para o que tomou lugar hoje. Ali alguns heróis relevantes foram mortos por uma integrante com poderes descontrolados do grupo de moral mais ilibada da Casa de Idéias. A conseqüência natural foi uma equipe onde os integrantes tinham muito pouco a ver uns com os outros, mas que serviram a um, aliás... dois propósitos bem funcionais: por um lado colocou a revista dos Vingadores mês após mês no Top Ten de revistas mais vendidas dos EUA, por outro propiciou um meio para House of M. Esta última foi bem meia boca, mas seu principal legado para a cronologia foi a redução da população de centenas de milhares de mutantes em todo o globo a apenas 198 (Decimation), o que facilitou o trabalho do governo em controlá-los com Sentinelas tripulados em uma área de contenção. Era já o primeiro ato de controle de super-poderes.

Concomitantemente, ocorreu o especial em cinco edições Secret War, onde Nick Fury criou uma equipe para um serviço sujo na Latvéria que nos apontou os principais pré-requisitos de Civil War, começando pela destituição de Nick Fury do comando da SHIELD. Este especial apresentou também o investimento sistêmico e secreto que a SHIELD faria em uma divisão própria de meta-humanos, bem como a nova e insegura diretora: Maria Hill. Não bastando o fardo de substituir uma lenda, a nova diretora teve que lidar com o descontentamento declarado que o Presidente dos EUA manifestava a respeito da quantidade e atuação de super seres no planeta, bem como os efeitos deles na balança de poderes no mundo, reforçando como gostaria que eles sumissem.

No ano que se seguiu, fomos apresentados ao Illuminati. Um grupo formado por Tony Stark, Charles Xavier, Raio Negro, Stephen Strange, Namor e Reed Richards. Este grupo foi introduzido num retcon que o mostra como um comitê de representações de grupos de super-seres da Terra que, após a guerra Kree-Skrull, com objetivos comuns, trocariam informações e estariam mais presentes na "política" dos super-seres, para evitar desastres potenciais. O grupo, por influência da SHIELD e através do Homem de Ferro, decidiu recentemente que o Hulk tornou-se uma ameaça não mais aceitável, o que os levou a banirem-no para o espaço (Planet Hulk). Mais uma ação de "controle".


De tudo o que foi listado até agora, nada foi escrito por Millar. Na verdade, tudo, menos Planet Hulk, foi levado por Bendis, que, para mim, perde de Millar por um nariz o título de "O Cara". O próprio Millar dizia ano passado que planejava Civil War com Bendis, e o trabalho foi muito bem feito. Vendo tudo o que passou, as únicas pontas ainda soltas nas motivações do estouro de Civil War são, para mim, a postura apaixonada e incoerente de Reed pelo registro e o papel que Hulk terá quando retornar. Claro, porque ele retornará (o que, se realmente ocorrer, será uma recorrência do que vem acontecendo em Ultimates – tanto o v1 quanto o v2).

E o Homem de Ferro nunca foi tão presente. Bancou os New Avengers e participou de uma série de situações que colocaram Peter Parker numa condição de dever de honra para com ele, foi transformado num bichinho de estimação que seria a carta na manga que Stark pôde usar em Civil War #2, quando Peter mostrou sua identidade em público. Além disto, recentemente pagou o Homem de Titânio para atacá-lo em Washington e vem tendo encontros fechados com o presidente desde antes da aprovação do Ato de Registro.


Millar é corajoso também. A identidade secreta de Peter era uma das vacas sagradas dos quadrinhos, daquelas que todos brincaram, mas nunca conseguiram desvelar. Ele não só fez isto como reviveu um ícone. Há tempos o Capitão América é um dos personagens mais chatos dos quadrinhos. Na primeira oportunidade, Millar o renovou, tirou aquela pecha de herói, colocou um perfil de personagem que age na base d'os fins justificam os meios e o Capitão Ultimate é um dos personagens mais interessantes daquela revista. Já tinha feito trabalho semelhante nos dois arcos que escreveu para Wolverine recentemente e está reproduzindo seu toque de Midas com o Capitão América da cronologia normal, onde aquele cara que personificava a obediência cega à bandeira agora se permite ter os olhos injetados de ódio, ir contra o governo americano e até às últimas conseqüências pelo que acha certo. Voltou a ser um personagem interessante. Foi o destaque da primeira edição, só perdeu o destaque na segunda para a revelação de Peter e, na terceira, voltou ao foco, mesmo que seja por estar apanhando como cachorro vadio.

Algumas certezas já são possíveis de se ter como conseqüências de Civil War. Homem de Ferro e Capitão América não poderão mais coexistir na relação de poder de outrora, onde Stark financiava a liderança de Rogers. É claro também que os objetivos do Presidente para a comunidade de heróis são bem mais cinzentos do que podem sugerir, bem como a legitimidade do “acaso” na explosão de Stamford, que desencadeou o Ato. Há a certeza também de que até o fim da saga muita coisa virá, pois o racha na Família Fantástica ainda não foi explorado o suficiente, nem a participação dos mutantes no evento, o conflito interno e as conseqüências do posicionamento do Homem Aranha, o retorno de Thor, Magneto pós-Coletivo e, principalmente, a guerra batendo às portas da Atlântida de Namor ou aos Inumanos e Raio Negro.



A imagem de cima é de Wolverine #42 e a de baixo de
Civil War #1 - sensação de trabalho em equipe.

Paralelamente, Millar vem contando também com gente muito inspirada nas revistas que participam da saga, além de um claro trabalho de equipe, conforme a imagem acima demonstra. O normalmente irregular Paul Jenkins vem fazendo trabalho belíssimo em Civil War Front Line, onde o conflito é contado e vivido pela ótica de outros personagens, como repórteres e vítimas, dando uma inversão de visão interessantíssima que já vimos em Marvels e no recente Guerra dos Mundos, só para citar outra mídia, mas nunca de forma concomitante. Marc Guggenheim (de CSI: Miami) vem desempenhando um bom papel também nas páginas de Wolverine em companhia de um surpreendentemente maduro Humberto Ramos, que conseguiu evoluir seu trabalho de algo irreconhecível para o que já pode ser chamado de estilo. Straczynski e Roberto Aguirre-Sacasa também cumprem bem seu papel em Amazing Spider-Man e Sensational Spider-Man, respectivamente.

Civil War é uma das, senão a melhor coisa que aconteceu recentemente nas revistas tradicionais. Falo isto com segurança, é obrigatório. O final da terceira edição é de cair o queixo. Para não perder tempo gastando palavras sem necessidade, faço minhas as palavras do Demolidor:


Artigos relacionados --

Avengers Disassembled:
Artigo 2 - 28/01/2005
Artigo 1 - 16/11/2004

New Avengers:
Artigo 3 - 15/01/2006
Artigo 2 - 30/03/2005
Artigo 1 - 9/12/2004

Wolverine:
Artigo 1 (Enemy of the State) - 30/03/2005
Artigo 2 (Agent of SHIELD) - 05/05/2005

Ultimates v1:
Artigo 1 - 07/07/2004

Ultimates v2:
Artigo 1 - 14/04/2005
Artigo 2 - 16/01/2006

Ultimates Cartoon:
Artigo 1 - 02/03/2006

Superman - Red Son:
Artigo 1 - 10/07/2004

terça-feira, 6 de junho de 2006

VANITY FAIR


"Behold! I send you out as sheep amidst the wolves"

Nada mais propício que um 6/6/6 para falar sobre as maravilhas que só o capeta pode proporcionar. O assunto é vasto! Poderia brincar com aforismos sobre fim do mundo: guerras do "demônio" do leste contra o oeste que provocariam o Apocalipse, o nascimento do anticristo, enfim, um seis de junho de 2006 seria estímulo para abordar muita coisa que já foi feita com o tema, mas também tornaria tudo muito disperso. Então preferi dar uma olhada mais atenta na abordagem que mais me impressionou até hoje, a ponto de perceber que The World's Worst Issues não tem nada a ver com o décimo oitavo anjo.

Até gostaria de falar sobe A Profecia (se tivesse visto), mas, em se tratando do anjo caído e assuntos afins, fico logo com a caracterização que julgo mais perfeita e adequada àquilo que imagino que seria sua persona. Advogado do Diabo (Devil's Advocate, 1997) é daqueles filmes que ficam fácil no meu top ten. Considero-o perfeito em todas as suas possibilidades, inclusive (e talvez principalmente) nos defeitos. Irônico, pois o texto de hoje escolheu um filme que passa ao largo do terror, gênero onde o cramulhão é habituée, e refugia-se em uma mistura de suspense e, sei lá, drama? Os americanos têm uma categoria ótima para este caso: thriller. Designação apropriada para aquilo que é ao mesmo tempo terror, suspense, drama, ficção e, por outro lado, não é nada disto. É o tipo de filme que te estimula, excita, deixa apreensivo, enfim... it thrills you. Simples assim. Curioso como algo banal como a classificação de um filme torna-se complicada ou "desencaixada" quando tentamos enquadrá-lo em categorias cartesianas, racionalmente criadas, e torna-se a coisa mais simples do mundo quando o classificamos segundo um critério emocional, passional, de acordo com o que sentimos enquanto o assistimos.

O filme acerta até na escolha do título. As duas palavras da versão original conseguem, numa tacada só, ser a sinopse, o tema e a matriz do filme; além de, por mais óbvio que seja (e tudo sempre é óbvio depois que é feito), compor um trocadilho perfeito e espirituoso como poucos. Difícil alguém não ter visto, mas somos apresentados a Kevin Lomax, jovem advogado de uma cidade do interior que nunca perdeu um caso na vida, mesmo que não acredite na inocência das pessoas que defende. Seu desempenho chama a atenção de um dos maiores escritórios de advocacia de Nova Iorque que o convida a fazer parte de sua equipe. A possibilidades de independência financeira e realização profissional convencem o jovem advogado que, ao chegar à cidade grande, passa a conviver com o presidente do escritório, John Milton, um envolvente advogado que atua em todo o globo e cuja presença magnetiza o ambiente. Não sei se estaria sendo injusto com Scarface e outras obras que sempre surgem na memória quando falam no nome de Al Pacino, mas o que ele faz com John Milton é literalmente demoníaco. Já ouvi por aí que um bom ator destaca-se em suas falas, mas atores excepcionais destacam-se em seus silêncios. Se esta frase fosse um verbete de um dicionário qualquer, ao lado teria a foto de Pacino em Advogado do Diabo. De preferência na cena da igreja, onde, num olhar só, é capaz de passar desprezo, sarcasmo, orgulho, vaidade e a mais perfeita "filhadaputicidade" que já vi por aí. Costuma-se dizer que o demo possui pessoas, incorpora, coisa e tal. Se for verdade, Belzebu deve estar revoltado, pois Pacino o possuiu, incorporou e chamou de minha nega! E pensar que o próprio Al achou que não estaria à altura do papel. Graças a Deus Pacino foi o Capeta.


Sua encarnação do demônio é, paradoxalmente, das mais simples que já vi. Alguns discordariam. Diriam que é dos mais complexos, que a lógica pela qual funciona não é a do maniqueísmo barato que povoa 90% das obras do gênero, que flutua nos tons de cinza da existência ao invés de sentar-se confortavelmente no trono do lado negro, que aqui adquire tridimensionalidade ímpar, dificilmente percebida em outras obras. Concordo com tudo, mas vejo que esta complexidade só existe se tentarmos ver o filme com a mesma característica cartesiana que torna difícil classificá-lo segundo o gênero. John Milton não deve ser entendido. Há que ser absorvido. Tudo aquilo que acima seria usado para dar a dimensão de um personagem complexo, ouso tomar como argumentos para mostrá-lo como simples ao extremo. Ele não pensa no que faz, deixa que o rio tome seu curso, que as coisas aconteçam como têm que acontecer, por mais que pareça o inverso. Vive em meio ao povo, só anda de metrô e faz da verdade sua maior arma. Simples assim².


Deixe-me dar algumas informações privilegiadas sobre Deus. Deus gosta de
assistir. É um pervertido. Pense nisto. Ele dá ao homem instintos.
Ele lhes dá este dom extraordinário e então o que Ele faz?
Eu juro; pela Sua própria diversão, pela Sua própria e
íntima piada cósmica, Ele estabelece as regras em oposição!
É a maior sacanagem de todos os tempos! Olhe! Mas não toque. Toque,
mas não prove! Prove, mas não engula. Hahahaha… e enquanto
você fica pulando de um pé para o outro, o que Ele está
fazendo? Ele está gargalhando! Ele é um sádico! Um senhorio ausente! Venerar a isto? NUNCA!!


A genialidade do filme te impede de dizer até mesmo que o demônio é mau. Mesmo quando retrata o significado das mulheres para o capeta, a despeito dos exageros de proporções bíblicas dos relatos do Al Satanás, não é diferente das posturas machistas de outrora, mas que ainda hoje perduram aqui e ali, onde o homem fala o que a mulher espera ouvir para conseguir o que quer e apenas o que quer. Claro, o que Charlize Theron (em começo de carreira e já ótima) sofre deliberadamente é um absurdo, mas a pedra fundamental de seu sofrimento, seu marido, não faz nada que tenha sido obrigado e ainda ajuda a tacar umas pás de cal. E ele faz isto porque quer. Em nenhum momento Milton usa de artifícios sobrenaturais para fazer com que Kevin Lomax tome as decisões que toma. Vemos o caos crescendo inexorável e puramente devido aos defeitos daquele que fora feito à imagem do criador. O diabo chega ao cúmulo de ser "bonzinho", propõe o porto seguro para Lomax – insiste na proposta – e mesmo assim ele falha, a vaidade mete o pé na porta com tudo! Toma conta dos eventos. Impressiona.


Não temo estar revelando spoilers quando menciono o capeta, pois, por mais que o fato só venha a ser revelado lá pelo final, é o tipo de verdade daquelas que todos sabem, como inconsciente coletivo, antes mesmo de começar o filme. Nem acho tampouco que esta seja a grande questão da obra.


"Melhor reinar no inferno do que servir no Céu"
________________________Kevin Lomax, citando Paraíso Perdido, de John Milton, o autor


Lá no começo eu disse que o filme acerta até nos seus erros. Pois é... 15 entre 10 pessoas acham Keanu Reeves uma porta. Um boneco de Olinda tem mais presença dramática do que ele. O cara que fez Cigano Igor o usou como meta no seu "laboratório" para composição de personagem. Entretanto, não vejo outra pessoa para ser Kevin Lomax. A opção inicial era Brad Pitt, depois John Cusack e Edward Norton, mas estes são muito mais atores que Reeves. Entendo o seguinte, Lomax não poderia ser interpretado por alguém brilhante. Ele tinha que ser falho. Legitimamente falho. Aliás... ser falho e ser escada. E isso é com ele mesmo. Afinal, John Milton é um personagem cuja verborragia inebria, o tempo inteiro incendeia as sensações com suas interpretações do homem e do cotidiano. Poucas vezes um filme teve tantas frases de efeito. Não é nem uma questão apenas de quantidade, mas principalmente de significado. Tantas frases que dá vontade de decorar e falar por aí de vez em quando. E não são soltas, gratuitas, pois todas se encaixam: usam de elementos alegóricos como céu, inferno e diabo para passar a mensagem básica de que, se as coisas não dão certo, não há nenhuma questão sobrenatural a atribuir culpa senão à própria natureza humana. Perceba que neste post reforço bastante que o filme se faz presente muito mais pela naturalidade do que se sente do que pela frieza do que se pensa.


Por mais que tenha o demônio como seu protagonista, a projeção é idônea. Nada mais natural do que representar os princípios torcidos da justiça do que ver o emissário do inferno como um advogado. Afinal, o advogado observa a lei, não faz justiça. O discurso final é suficientemente bem articulado para ser aplicado tanto a favor de Deus quanto do Diabo. Ninguém pode chegar e dizer que aquilo passa ao largo da verdade. Aqueles que desmerecem religiões podem usá-lo para defender ainda mais seus pontos de vista, da mesma forma que os defensores da fé podem usá-lo exatamente para dar mais força ao que acreditam. No fundo, o que sobra é a responsabilidade de cada um com seu meio e o que fazem com o tal do livre-arbítrio. Os argumentos do personagem de Reeves na defesa de seus clientes eram factuais, mas nem por isto justos. E certamente muito mais tendenciosos que os do próprio Milton.


"Free will. It's like butterfly wings: once touched, they never get off the ground.
No, I only set the stage. You pull your own strings. Free will, it is a bitch!"


Há filmes que, com o tempo, passam a gozar de mais prestígio. Que na época de seu lançamento, sabe-se lá o porquê, tiveram recepção aquém do que era esperado. Advogado é um destes. Ainda hoje não vejo o senso comum o colocando no panteão daquelas obras inabaláveis. Seu diretor, Taylor Hackford, continua desconhecido – era uma versão cinematográfica de one hit band até fazer Ray, filme que vingou muito mais por Jamie Foxx e seu Oscar do que propriamente pela qualidade de roteiro. Claro, teve filmes interessantes no passado, mas nada que chame atenção. Há que se destacar aqui suas opções técnicas para ênfase de elementos necessários, ou metáforas e citações presentes o suficiente para serem notados sem tornarem-se pseudo-personagens. Hackford destaca-se, por exemplo, ao mostrar como a tentação leva o homem ao limite, quando Milton conversa com Lomax no beiral da "varanda" de seu escritório, ou na representação do purgatório em relevo decorando a casa do demônio - dantesco -, onde ele não dorme e "fode todos em todo lugar". Até sincero este demônio se dá ao luxo de ser. Não sei e não creio que tenha sido intencional, mas Pacino não é exatamente um modelo de beleza e é baixinho, o que faz com os outros atores sempre o olhem de cima para baixo: "Underestimated from day one! You'd never think I was a master of the universe now, would ya?"

Sempre quis escrever sobre Advogado do Diabo, mas não é velho o suficiente para abordar como algo bom de antigamente nem novo o bastante para contribuir na avaliação de um lançamento. Só que em 1997 não existiam blogs e, se não aproveitasse o 6/6/6, teria que esperar mais 1000 anos para outra deixa.


"Vanity, definitely my favorite sin!"

segunda-feira, 29 de maio de 2006

$NIKT!



"No one ever talks about extermination. They just do it. And you go on with your lives, ignoring the signs around you. And then one day, when the air is still and the night is fallen, they come for you. Only then do you realize that while you're talking about organizing and committees, the extermination has already begun. Make no mistake, my brothers, they will draw first blood. They will force their cure upon us. There is only one question you must answer:
Who will you stand with?"


Como o mundo dá voltas. Durante muito tempo, adaptações cinematográficas de histórias em quadrinhos eram consideradas malversação de verbas dentro de Hollywood. Pra cobrir as lacunas no seguimento de ação blockbuster, os estúdios tiveram de fabricar seus próprios super-heróis. O resultado foi a safra de action-heroes dos anos 80 e parte dos 90. Com o tempo, as idéias foram rareando e a sempre crescente demanda por escapismo pueril eliminou essa triangulação criativa (que eu chamo de ágioarzenegger) e foi beber direto nessa fonte que usa colante e cueca por cima da calça. Mas primeiro tiveram de amansar a fera carnavalesca que existe lá. O pacote ganhou uma roupagem mais dark e sóbria (bastiões mitológico-freudianos como Homem-Aranha e Superman são a exceção) e o uso intensivo de CG para tornar o impossível possível. Entre uma coisa e outra, ocorreu um saudável troca-troca (no bom sentido) de posições (eu já disse que é no bom sentido) entre profissionais dos quadrinhos e do cinema.

Ainda assim, uma adaptação dos X-Men soava como um desafio-mor no contexto geral, justamente pela incompatibilidade dos fatores envolvidos. Personagens demais, tempo de menos e, se o diretor não for adepto de Roger Corman, orçamento exorbitante. Resolveram tentar. Tinha tudo pra ser um único longa constrangedor, tosco e fracassado, mas Bryan "Who's your daddy?" Singer provou que sim, era possível. Exibindo poderes mutantes, ele transmutou cash rasteiro e argumento simplório em personagens carismáticos, direção classuda e atmosfera envolvente. Olhando hoje, o filme-debut dos X-Men revela uma malandragem soberba de Singer em maquiar eventuais buracos e limites orçamentários. Tudo isso e mantendo um apelo popular que garantiu a boa carreira nas bilheterias e a inevitável continuação. Roteiro bem acabado, todos os atores principais de volta e um investimento more expensive: X2, foi um filme praticamente perfeito dentro de sua proposta, onde Singer pôde se dar ao luxo de apenas deixar fluir seu inegável talento. Quando as coisas são assim, não há nada a temer. Engraçado como isto se dá de forma quase matemática ("dê-me um orçamento decente, um bom diretor e eu mudarei o mundo" - dogg, filósofo iugoslavo). Para um projeto que já atraiu o interesse até de James Cameron (e ninguém me tira da cabeça que ele desistiu por considerá-lo infilmável), pode-se dizer que os mutantes, antes de tudo, já são vitoriosos por conseguirem concluir sua primeira trilogia, em X-Men: O Confronto Final (X-Men: The Last Stand, 2006). Hooray!


"Since the dawn of existence, there have always been moments when the course of history shifted. Such a turning point is upon us now. The conflict between the better and worst angels of our very nature. Whose outcome will change our world so greatly... there will be no going back. I do not know if victory is possible. I only know that great sacrifice will be required. And because the fate of many will depend on a few, we must make the last stand."


O processo não foi dos mais harmoniosos. Halle "Cat-Woman" Berry extorquindo atenção, Singer trocando a Mansão X por um condomínio em Krypton, um novo diretor catado às pressas... Achei que a coisa começava a adquirir contornos framboesísticos - impressão logo suplantada por um teaser do caralho que provocou a mesma sensação de quando reencontramos velhos amigos depois de muito tempo. Podia jurar que o espírito "singeriano" ainda estava por lá, em cada cena, em cada frame... do discurso inflamado de Magneto (Ian MacKellen) à voz compenetrada do Professor Xavier (Patrick Stewart), passando pelos urros de Wolverine (Hugh Jackman). No entanto, elementos meio duvidosos também davam as caras. Um roteiro estilhaçado entre uma suposta "cura" para o gene mutante e uma versão da clássica fase da Fênix Negra, enquanto tenta encerrar todo o primeiro momento dos X-Men nos quadrinhos, ainda às voltas com a antiga Irmandade dos Mutantes liderada por Magneto.

E havia a questão do diretor Brett Ratner, que, embora competente, era apenas um operário. Ainda que eu tenha gostado demais do seu trampo em Dragão Vermelho (nada, nada, Ratner superou Ridley Scott de longe na franquia do Lecter), sua missão era simplesmente concluir o trabalho concebido e desenvolvido por um dos melhores diretores da atualidade - servicinho, convenhamos, muito além de sua alçada. Não por acaso, X-Men 3 foi achatado em econômicos 104 minutos, como se o próprio diretor, consciente de seu lugar no Universo, adotasse a postura "fale pouco pra não falar besteira".


Enquanto X2 entrelaçava as subtramas William Stryker/Wolverine's past, X-Men 3 traz uma narrativa com elementos mais heterogêneos. De um lado, a estratégia do governo norte-americano para a contenção mutante trazida a público sob o rótulo de "cura" e do outro, o retorno de uma Jean Grey (Famke Janssen) com TPM suficiente para explodir a Lua. Isso, em particular, foi colocado da melhor maneira possível dentro daquele universo: sai a entidade alienígena incorporadora, entram os bloqueios psíquicos que Xavier implantou em Jean ainda jovem, com o intuito de protegê-la e aos demais de tamanho poder. Decisão necessária ou arbitrária? Xavier excedeu em sua prepotência e privou Jean de escolher seu próprio destino? A interessante questão foi levantada e, após uma ótima cena de discussão com Wolverine, só pude lembrar do Professor X autoritário e (supostamente) manipulador da versão ultimate.

Desde que a sinopse foi divulgada oficialmente, não fiquei muito empolgado com a premissa envolvendo a cura para a mutação. Sendo um admirador das HQs, vejo a principal característica dos mutantes como uma força irreprimível da natureza, um processo evolutivo inevitável. Mesmo assim, fui surpreendido pela funcionalidade de tal artifício. Serviu tanto para forjar uma bela introdução para Warren Worthington III, o Anjo, quanto para garantir seu futuro frente às Indústrias Worthington (mais precisamente, após usar sua mutação para salvar a vida do pai xenófobo). Além, é claro, de justificar a visível relutância em certas cenas que, teoricamente, fariam desta produção o capítulo mais "Jim Lee" da franquia.


"Don't you know who I am? I'm Juggernaut, bitch!"


Pelo que se vê na telona, o orçamento de - dizem - 150 milhões de doletas não pareceram suficientes. Para conhecedores dos quadrinhos então, é algo latente. Será que o Universo X é assim tão caro? Tudo bem, alguns momentos são mesmo de dilatar a pupila na tentativa de assimilar tudo o que está se passando. A antológica seqüência em que Magnus manipula a ponte é a principal delas - poucas vezes uma cena fez tanta justiça à sentença "isto é quadrinhos puro!" Ao mesmo tempo, vemos um Colossus (Daniel Cudmore) sem qualquer função prática, apesar da boa caracterização visual. A coisa chega a resvalar em pura displicência, quando o personagem, em sua forma metalizada, distribui porrada a granel em mutantes peso-pena, desconsiderando totalmente o seu elevadíssimo nível de força. O que nos leva ao juggernaut Fanático (Vinnie fuckin' Jones, man... e sem sotaque!), felizmente aqui, com a finesse de sempre. Pra começar, não há qualquer treta entre ele e o mutante russo. É um crime reunir estes dois num filme e não agitar aquele vale-tudo de trincar placa tectônica. Temos de nos contentar com um baculejo divertidíssimo entre o imparável Juggy e o "nanico" Wolverine na residência dos Grey. Mas é tudo tão breve que chega a ser crueldade com o espectador.

Outro flagrante do capital de giro fantasma é a ausência do Efeito Fênix, marca registrada da personagem. Mesmo assim, a sugestão visual empregada para ilustrar o incomensurável poder de Jean é de arrepiar - algo indomável, invisível, aterrorizante. Mas, sem dúvida, o imenso pássaro de fogo tragando tudo à sua volta fez falta... Não foi desta vez que a belíssima e aterradora visão de Chris Claremont/John Byrne ganhou vida nas telonas. Já a aguardada briga de torcida mutante, embora funcional na narrativa, ficou aquém do esperado. Mas nesse ponto, sou compreensivo. Se até nas HQs é raro um super-pancadão coletivo realmente empolgante, quem dirá a execução disso em live-action. Talvez no dia em que chamarem o George Pérez pra fazer o story-board de algumas cenas...


O roteiro, de Zak Penn e Simon Kinberg, pouco arrisca no que tange à interação entre os personagens. Neste sentido, é um tanto burocrático. Quando se solta um pouco, consegue um bom resultado. Um bom exemplo é a hilária troca de "gentilezas" entre Wolverine e Fera (Kelsey Grammer, o Frasier, arrebentando), aqui um representante da comunidade mutante no Orkut... digo, no Congresso norte-americano. Falando em Grammer, ele protagoniza uma cena sensacional, quando experimenta a sensação de parecer um homo-sapiens. Apenas com o olhar, ele transmite um misto de alívio, realização, melancolia e culpa. Naquele momento, ele poderia largar tudo pelo que lutava e acreditava. Tocante. Deus abençoe os bons atores. Outra sacada interessante foi a "quebra de contrato" entre Magneto e Mística (Rebecca Romijn-Dogg... não custa nada sonhar) - o que finalmente confere à fascinante azulzinha o caráter dúbio e individualista que ela tem nas HQs. Já a deslocada Vampira (Anna Paquin) ganhou o status de coadjuvante, enquanto o Homem de Gelo ("homem" o caramba, é o guri Shawn Ashmore) passou a ciscar no terreiro de Kitty Pryde (a bezerrinha Ellen Page), que, além de se tornar intangível, também tem o poder de ficar mais nova a cada episódio. Eu diria que o Iceman deu uma de papa-anjo ali, mas ia pegar mal pro Warren.

Como sempre, muitos criticarão o aparente descaso com o personagem Ciclope (James Marsden), ainda que esteja em concordância com sua relevância nos filmes anteriores. Já está na hora de aceitar que a dinâmica de uma adaptação não tem de ser, necessariamente, a mesma do material de origem. O que aconteceu foi apenas sintomático. Apesar de admirar o trabalho do Marsden (confira o filme 24º Dia), vejo a opção do roteiro como algo que pode render bastante no futuro. O mesmo se pode dizer do destino de dois outros personagens (ainda que, no caso da Jean Grey/Fênix Negra, a simples aproximação do mutante Jimmy "Sanguessuga" fosse uma medida menos extrema). Quanto ao que acontece com Xavier, achei ousado e muito bem tramado. Gostei bastante, tanto pela circunstância de quebrar o encosto da poltrona quanto pelo genial subterfúgio pós-créditos - além da esperta referência à "fase Shiar" do Professor X.

X-Men 3 é caótico, no bom e no mau sentido. Não tem o charme e a espirituosidade do primeiro filme, nem o esmero técnico e a força dramática do segundo, mas é corajoso, eficiente e, acima de tudo, fiel ao background estabelecido. Amarrou todas as pendengas sinistramente levantadas pelos dois anteriores e apontou novos rumos para os que virão - e com certeza virão. Com a 4ª abertura mais rentável de todos os tempos, já posso até ouvir o "snikt" dos executivos ecoando pelos corredores da Fox.

Que tal uns Sentinelas de verdade da próxima vez?



BLUE SIDE OF THE MOON


O Vigia Uatu tem novos vizinhos... Área Azul - Observatório de Quadrinhos, Filmes & Cultura Pop é um espaço mantido pelo renegado Vigia Aron (alcunha dividida pelo Fivo, JP Volley e este humilde arauto), com a finalidade de promover discussões sobre a nossa tão amada cultura pop e, principalmente, repensar questões acerca da 9º Arte. A proposta é bastante segmentada (levando-se em consideração que o próprio BZ já é um lance segmentado), mas o intuito é justamente este: oferecer uma opção de debate para quem procura algo mais instigante que a superficialidade habitual.

A Área Azul já está visível no horizonte. Confira... e dê a sua opinião.

quinta-feira, 25 de maio de 2006

O CÓDIGO DEU ÁGUA


É... deu água...

Há filmes que resolvo assistir sem saber absolutamente nada a respeito. Assim corro atrás daquele sentimento tão raro de surpresa coroado com um "Caramba... que filmaço!" que há tanto tempo não sinto. Hoje em dia, especialmente depois da internet, é praticamente impossível para um cinéfilo conseguir isto, ainda mais quando se trata de um filme adaptado do maior hype dos últimos tempos. A expectativa era altíssima e, ao contrário do que fizeram com Batman e vêm fazendo com , o material de divulgação não revelara muito a respeito, o que é bom. Como não consegui assistir na estréia, a curiosidade não me impediu de ler críticas aqui e ali, onde destacavam-se quase unanimemente as opiniões negativas. Desta vez, agradeci aos céus por ter lido antes, de modo que já torcia o nariz na véspera, quando fui chamado para assistir o filme. Isso deu uma inversão de fase na expectativa: Eu tinha o dever pessoal de assistir, mas se antes esperava muito, agora esperava um lixo e só essa inversão conseguiu fazer com que eu saísse do cinema com a leve impressão de que a experiência havia sido boa - não sei bem se por causa do filme ou se porque sentei próximo à Danni Carlos. Legal olhar na cara de alguém e pensar "Já te vi semi-nua no Paparazzo!".

Claro, passadas algumas horas, com as impressões já mais arrumadas aqui na cabeça, se tentar identificar o que mais me chamou a atenção no filme, acabo percebendo que foi uma propaganda que veio antes até dos trailers. Quantas vezes vocês já foram ao cinema e uma das propagandas foi sobre algo que não seja bancado por uma empresa abastada? Raro! Livros então, nunca! Mas aqui teve! A propaganda começa com um close na Gioconda que, com o afastamento, recebe a narração em off dizendo que a obra a ser vista é de ficção e pergunta ao expectador se, após gastar tempo com o filme, prefere a ficção ou a verdade. Claro, de forma magnânima uma imagem vem mostrando as costas de Jesus estampadas na capa. Foi uma risada meio que generalizada na sala. Impressionou a forma como gastaram – isto não deve ser barato, ainda mais no Leblon – para impor sua crença.


Argh... a culpa é do Hanks!!!

Nunca achei Ron Howard um diretor fora de série. De suas obras, tenho para mim que a melhor delas foi sua filha. Do resto, ao menos como diretor, a impressão geral é a de um cara que cumpre o que lhe é passado sem inventar muito. Burocrático, portanto; mesmo que tenha ganhado uma série de Oscars por Uma Mente Brilhante. Se considerarmos que O Código Da Vinci (The Da Vinci Code, 2006) é adaptado de um livro cuja linguagem já é cinematográfica, vem a conclusão óbvia de que o cara não vai ter muito trabalho para transformar a linguagem de um livro em linguagem de cinema – sim, pois por mais que livro tenha linguagem cinematográfica, isto apenas o aproxima desta mídia, por óbvio. Ou seja, um burocrata poderia fazer isto.

Não fez. Além das tramas que se entrecruzam no livro, uma das suas principais atrações é a compilação de informações "rádio relógio" que, como já escrevi várias vezes, só servem para papo de bar; é a cachaça da leitura – quebra o ritmo, desafoga o cérebro e depois vai embora para a trama voltar. Estas passagens, agradáveis nos livros, são difíceis de serem adaptadas para o cinema (muitas foram cortadas) pois causam quebra de ritmo que, diga-se de passagem, é indubitavelmente o maior vilão da projeção. Ou a falta dele. A transposição de um livro para a tela grande pressupõe a necessidade de adaptações da forma para uma nova mídia. A impressão geral do resultado sugere que a linha adotada partiu para a reprodução da narrativa como escrita no original. Simples assim. Certa vez Stephen King, por ter odiado o resultado da adaptação de O Iluminado – livro bem bacana, diga-se de passagem - feita por Kubrick, o refilmou palavra por palavra. Além de imenso, o filme perdeu toda e qualquer noção de ritmo. Acabou virando uma série. CdV seguiu o mesmo caminho; o que temos é um filme soluçante, onde as seqüências são estanques, quase com vários sub-clímax, mas nenhum clímax final, se é que podemos classificar assim. Tal como O Iluminado de 1996, parece que estamos vendo uma série em forma de filme; os últimos 20 ou 30 minutos se prestam a algo que tem a cadência de uma longa despedida. Despedidas são chatas. Sempre. Com direito até a uma versão Dan Browniana com tempero de novela global para uma espécie de "Luke, I'm your father!".


E agora, meu Deus? Será que a gente volta para Anjos e Demônios?

O elenco parece o time do Fluminense. No papel é até bom, mas não sabe jogar junto. Ron Howard não foi um bom técnico nem mesmo com um Tom Hanks numa mão, uma Audrey Tautou na outra e... bem... digamos que se ele tivesse mais algumas mãos – para não ter que usar outras partes do seu corpo – ele teria ainda Ian McKellen, Jean Reno e Paul Bettany. Há de se convir que seja um elenco muito bom, todos já tendo mostrado bons trabalhos anteriormente. Entretanto, dos cinco, só Ian e Paul funcionam. O primeiro tira leite de pedra (sem trocadilhos, claro), enquanto o segundo tem o melhor papel para explorar e o faz bem. Não é suficiente. Os dois primeiros deveriam comandar, conduzir, mas parecem alunos da pré-escola aprendendo Educação Moral e Cívica com aquele interesse que lhes é peculiar. Por vezes, o caráter didático das interpretações de Hanks e Tautou beiram o teatro infantil ou atuação de propaganda eleitoral. Em nenhum momento passam credibilidade e, pombas!, Hanks é um dos meus favoritos! Concordo aqui com Dan Brown que, quando escreveu o "roteiro", já pensou em Harrison Ford. Não é melhor ator que Hanks, mas não tenho dúvidas que sua característica mais forte, mais entregue e mais kamikaze seriam muito mais convincentes num momento em que alguém chega e fala para tu que Jesus - sabe a quem me refiro, né? O Filho do Homem, não o guaraná - não é o que tu pensavas que fosse. São idéias-força que por si só deviam amarrar o público, mas a postura extremamente blasé dos dois não agarra nem corações nem mentes, só para pegar um termo batido. Pelo contrário, servem como Lexotan e deixam tudo meio letárgico. Os embates dialéticos que poderiam surgir com Tom e Ian dividindo a mesma tela transformaram-se em um capítulo de Telecurso 2º Grau (existe isto ainda?). E Audrey? Bem... Audrey pode ser uma menina adorável, mas é ainda assim uma menina. Uma Amélie Poulain. Já ouvi falar que Julie Delpy (Antes do Pôr-do-Sol) seria ótima para o papel. Bem, ao menos é mulher feita, tenho que concordar. Particularmente, preferia uma Eva Green (Os Sonhadores e Cassino Royale) ou Ludivine Sagnier (Swimming Pool). Jean Reno foi tão desperdiçado que parece que foi filmado por engano passeando pelo estúdio.


Se depender de mim e do resto do pessoal de camisola, nunca mais, rapá!

Há pontos fortes, claro. Muito mais para quem já leu o livro do que para o resto – minoria – da humanidade, já que a memória das palavras lidas, dos ambientes descritos e de pontos não inseridos na trama aguçavam a mente que naquele momento fervilhava para expulsar o Lexotan. Claro, nem tudo o que aparece é o que dizem ser. A Igreja de Saint Sulpice, por exemplo, foi feita em CGI (ficou bem mais limpa, diga-se de passagem), usando fotos 3D, pois não foi permitido filmar lá dentro, assim como na Abadia de Westminster, cujo interior foi reproduzido em outra igreja de Londres. As imagens do interior não eram tampouco detalhadas, mas ao menos foi possível ter uma idéia. Há também diversos sites por aí (eu mesmo escrevi a respeito aqui) e o livro ilustrado que já atendem este tipo de necessidade.

Então, como é que um filme onde os atores, com exceções, desempenham mal seus papéis, é mal montado, mal dirigido, mal executado e mesmo assim saio do cinema me sentindo bem? Simplesmente porque queria ver muitas coisas do livro e vi. Pena que as tenha visto como se fossem slides de Powerpoint - estanques - , quando deviam ser fluídas. Talvez tivesse outra impressão, se não tivesse lido o livro antes.

PS: Agora é moda falar mal do livro. Tem uma tal de aura intelectual por trás disto. Será que eu devo perder minha personalidade e seguir a manada?

Artigos relacionados:

Artigo 1 (2006) – Post sobre os Livros de Dan Brown
Artigo 2 (2005) – Post sobre Os Sonhadores

Artigo 3 (2005) Post sobre Anjos e Demônios e O Código da Vinci

terça-feira, 23 de maio de 2006

VIVE LA EXTREMIS REVOLUCIÓN!!


Dias atrás escrevi sobre as mudanças que ocorreram com o Homem Aranha e como acho que tudo aquilo é necessário. Não sou muito bom com títulos, então, dado o assunto, "Vive la revolución" pareceu apropriado. Até tem casos em que podemos planejar que os títulos de diferentes publicações sejam ligados, mas agora foi realmente coisa da vida e insisti na mesma falta de criatividade do título anterior, já que o revolucionado da vez é o Homem de Ferro.

Nunca fui fã do personagem. Na minha visão, ele sempre padeceu do mesmo mal que ataca a atratividade de personagens como Superman e Capitão América, por exemplo. Ou poderosos demais, ou auto-suficientes demais, ou com suporte demais, ou sem problemas demais, ou todas as opções mencionadas juntas. Demais. Claro... Superman é a personificação em celulose destas características, mas mesmo na Marvel, marcada por personagens mais humanos, ainda assim este tipo de coisa acontece. Capitão América pode não ter o poder de um Superman, mas é tão babado que nada o atinge, como se uma aura de confiança o protegesse. Não à toa sua contraparte ultimate - defeituosa até a alma - é bem mais interessante. E Tony Stark não é diferente. É um homem comum e alcoólatra, mas podre de rico e resolve tudo com uma facilidade que impressiona. Cria-se um paradoxo: é um homem comum tão meta-humano que não sei de quem este cara não vence. Tipo o Batman que, ao menos, tem a aura sombria que o torna mais atraente.


No mundo das histórias em quadrinhos tem coisas que há que se aceitar para que a diversão tenha sentido. Entretanto, como tudo, mesmo dentro de seus absurdos existem regras coerentes entre si. A mecânica especial das HQ´s. Não nego que já me peguei várias vezes pensando em como os poderes destes personagens funcionariam e, nesta viagem, um que para mim sempre se mostrou meio apelativo era o Homem de Ferro. O nível de tecnologia de sua armadura, o fato de não haver algo sequer próximo de seu potencial, partindo do princípio que Tony Stark, humano, faz tudo sozinho tornava tudo muito fora daquilo que eu julgava ser coerente dentro da incoerência. A armadura só teria sentido se Stark não fosse humano, mas ao menos mutante - tipo um Forge, por exemplo. Quando surgiu a versão ultimate, pensei: "Opa! Até que enfim uma visão do Homem de Ferro verossímil! Só poderia ser assim mesmo." Lembro que o Doggma chegou a discordar de mim, disse que, para ele, Stark era um fora de série e, se considerasse a versão clean desenhada por Adi Granov, seria mais condizente com o que ele imaginava possível.

E, para variar, o chefe estava certo. Sexta-feira comprei O Invencível Homem de Ferro - Extremis, e fiquei de queixo caído. A sinopse é idiota e até repetitiva dentro do próprio mundo de estórias do personagem: uma arma biológica é roubada de um laboratório onde trabalha uma amiga/ex-peguete de Stark e esta o chama para ajudar a resolver o problema. Simples, direto e certeiro. É uma premissa de roteiro tão batida e óbvia, com pontos chave tão bem definidos, que fica na cara que deve ter um algo mais para terem se dado ao luxo de trazer esta pompa toda ao arco. E que pompa! A equipe criativa é uma destas duplas que você deseja que nunca se desfaçam. Assim como Bendis/Maleev, Millar/Hitch, Lucy Pinder/Michelle Marsh e outros, Warren Elis e Adi Granov combinaram com o Homem de Ferro como se o personagem tivesse sido feito para eles. Ou por eles. Mas já que não foi, então eles o refizeram. Inexorabilidade da "natureza" é uma maravilha!

Como já cansamos de ver, o tempo de background do personagem pesou e tiveram que atualizar o passado de um cara por volta de seus trinta e poucos anos em 2005. A forma como o estilhaço veio parar no seu coração foi um pouco alterada, assim como o contexto em que se encontrou com Yinsen - o cientista japonês que o ajudou a fazer a primeira armadura. As conseqüências de suas invenções e a inequívoca condição de crescimento tecnológico americano intimamente vinculado ao suporte militar foram mais densamente definidas. Algumas outras questões morais, que até já foram inseridas em outros tempos, ganharam roupa nova pela imaginação de Ellis. Não sei se esta nova origem vai colar - fizeram isto com Homem Aranha e Superman, por exemplo, e não colou - mas não há como negar o talento de Warren Ellis ao pegar um roteiro batido e transformá-lo em algo eficiente. É, novamente, o "como" sobrepujando o "o quê". Costumo pensar que uma história em quadrinhos pode ser boa se não tiver desenhos bons, contanto que roteiro e diálogos compensem, sendo que não há estória boa se o desenho for bom, mas com roteiros fracos. Ellis abusa! Seus diálogos são afiadíssimos e, mesmo que o roteiro por vezes dê uma soluçada e nos apresente eventos que sabidamente não ocorreriam daquela forma se o objetivo não fosse redefinir o personagem.

A dupla criativa de Extremis nos presenteia com um conjunto perfeito, onde ótimos diálogos e roteiro recebem a companhia da impressionante e limpa arte de Adi Granov. O cara é um absurdo. No Myspace dele percebe-se que sempre foi tarado por robôs e afins, o que é algo perfeito para quem começou seu papel na Marvel com um personagem essencialmente máquina. Ao acabar de ler cada página, nos pegamos mais cinco minutos admirando seu desenho, sua anatomia simples, seus cenários, os detalhes técnicos da visão do Homem de Ferro que o fazem verossímil como Doggma havia falado, as fisionomias, poses etc. Curioso, pois é um perfil austero de imprimir seu estilo, mas esta austeridade não abre mão de dinamismo em momento nenhum. É possível sentir o movimento, inevitável imaginar os personagens se movendo nos momentos antes da cena desenhada e imediatamente após, até juntar-se com o próximo quadrinho. Tudo é de um esmero que justifica os atrasos nas datas de publicação da revista. A primeira - de seis - saiu em janeiro de 2005. A última saiu em março de 2006. Se me permito fazer alguma objeção é quanto à sua representação das pessoas. Se por um lado a anatomia é perfeita, por outro esta mesma perfeição as deixa "plastificadas", como que embalsamadas (tipo boneca de sex-shop, mesmo que eu nunca tenha visto uma ao vivo, er... bem.. colou?), mas aí a gente chama de estilo e fica tudo certo.


De qualquer forma, mesmo que a armadura, sob os detalhes de Granov e argumento de Ellis, tenha ficado verossímil, isto e a revisão da origem do personagem ainda assim seria um desperdício de talento e/ou oportunidade. Algo mais precisava ser feito. Algo mais precisava criar um sentido de mudança definitiva, de forma que esta série não ficasse no esquecimento no futuro, então os meus desejos são atendidos. Não basta mudar o Homem de Ferro. Há que se mudar Anthony Garot... ops... Stark. Deixamos de ter um "mero humano superpoderoso" e passamos a ter de fato o Homem de Ferro na mais perfeita acepção da palavra. Revelar mais é tirar a graça, então paro por aqui. E digo: não resisti e baixei as últimas quatro edições (dãã... alguém se surpreendeu?), mas vou comprar as próximas duas que a Panini lançar. Vale o dinheiro gasto. Pena que não tenham decidido lançar tudo de uma vez só. Um encadernado de 150 páginas. Ficaria muito mais bonito na estante.

"I am the Iron Man inside out!"
______________________Tony Stark
*** *** *** ***

A aplicação para cadastro e controle de revistas vem recebendo novidades com o tempo. Tela com os lançamentos do dia, gráficos rankeando desenhistas, roteiristas, personagens, publicações e sagas, melhorias no cadastro etc.

Para baixar, clique aqui (link down a long, long time ago).

A versão online terá muito mais funcionalidades, mas vai levar bem mais tempo.

Telas abaixo.

Tela de início, com as revistas a serem baixadas, botões de controle, gráficos de avaliação e releases de revistas por data.

Tela de cadastro da revista