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sexta-feira, 9 de maio de 2025

Fantasma 0800


De volta ao diário da selva: sábado último (3) rolou o Free Comic Book Day, tradicional evento que visa revitalizar o hábito da leitura (e o hábito da compra) através da distribuição de gibizinhos na faixa para a galera. Em sua maioria, são quadrinhos-promo produzidos especificamente para o dia, não aquela superedição de luxo com lombada redonda, corte trilateral, fitilho e hot stamp de ouro 18 quilates.

No Brasil, que surpresa, essa prática não pegou, embora contabilize alguns exemplares de brinde em meus alfarrábios. Lá fora, com a bolha há muito estourada, a coisa continua de vento em popa e mais necessária do que nunca. Todos os big players participam.

Como esperado, não há nada muito relevante acontecendo nessas obras em termos cronológicos. Intros, interlúdios e curtas fechados são o padrão, mas isso não significa limitação criativa. Neste sentido, The Phantom #0, da Mad Cave Studios, foi um dos mais divertidos que li na FCBD 2025.

O que não é difícil em se tratando do legendário Fantasma. Com capa-chamariz do indefectível Greg Smallwood e um absoluto respeito pelo legado, a edição foi deveras bem produzida. Tenho certeza que até o criador Lee Falk ficaria orgulhoso.

Segundo o roteirista Ray Fawkes (xará do Moore, um dos nomes mais importantes na trajetória do personagem), a pesquisa para este início foi um mergulho nas antigas tirinhas e histórias clássicas. A ideia era uma volta às raízes simplistas, aventureiras e descomplicadas, mas com um verniz atualizado. Uma estratégia que, provavelmente, explica a impressionante longevidade comercial do herói, que no ano que vem completará 90 escaldantes primaveras.

Ou seria mais alguma artimanha de autoperpetuação do Espírito-que-Anda?

O "novo" tratamento geracional, mais um, soa ainda mais adequado pela indie Mad Cave – qualquer semelhança com a Caverna da Caveira é bacana pra caralho. A editora fundada em 2014 é notória por seu trabalho em busca de novas caras, além do extenso catálogo de novos títulos. Mas também licencia medalhões como Flash Gordon e Defensores da Terra da mesma King Features Syndicate do Fantasma, além de contemporâneos consagrados como Dick Tracy. Um raro know-how do clássico e do novo, portanto.

Geralmente espero uns dias até que os títulos da FCBD estejam disponíveis nas melhores, hm, importadoras. Dessa vez, resolvi comprar o gibi online pelo módico preço de 0,00 dólares americanos (sem tarifa). É mais divertido. Colocaram até em pré-venda na Amazon!


Com 22 páginas, fora capas e calhau, este #0 é até encorpadinho. A arte é do talentoso Russell Mark Olson, aqui um meio-termo entre Goran Parlov e Bruce Timm. O roteiro poderia ter recorrido a qualquer um dos inimigos tradicionais, como o General Bababu, o Barão Grover ou até a Irmandade Singh, mas ao invés disso aposta no suspense, funcionando quase como um thriller da selva.

A história abre com o 21º Fantasma na Sala das Crônicas registrando mais uma noite de vigilantismo pelas selvas de Bangalla. Cruzamento perfeito para a narração em off acompanhar o herói na trilha de um grupo de poachers – que, na minha humilde e muito cristã opinião, merecem um inferno pior que o dos nazistas. O texto de Fawkes, no entanto, não se rende a obviedades e desenvolve o cenário de maneira classuda e instigante.

E inclusive confronta o Fantasma com os aspectos sociais daquela atividade ilegal, algo realmente inesperado. No final, após uma breve e espirituosa participação da (Srta.?) Diana Palmer, o roteirista ainda crava aquele cliffhanger maroto.

Os caras são bons. Tomara que a Mad Cave Studios dê o sinal verde para a continuidade do título.


O Espírito-que-Anda está andando em excelente companhia.

sexta-feira, 6 de setembro de 2024

A volta da Legião Alien


Quase não lembrava que o Predador e os Aliens são propriedade da Marvel desde 2020. Em que pesem dois crossovers de 2023 (Predator versus Wolverine e Predator versus Black Panther), a sensação de espera por material inédito com os Aliens foi de uns 57 anos. E finalmente veio, com pompa e muita circunstância: a mini em 4 partes Aliens versus Avengers tem roteiro de Jonathan Hickman com desenhos de Esad Ribić e a 1º edição chegou às lojas no finalzinho de julho, às vésperas da estreia de Alien: Romulus. Timing impecável. Esses editores Hyperdyne modelo 341-B com inibidores de comportamento são os melhores.

A trama se passa algumas décadas no futuro da "linha do tempo deslizante da Marvel"® e este primeiro capítulo é quase uma intro estendida. Após uma infestação sistematicamente plantada de Aliens, várias civilizações caíram, entre elas o Império Intergaláctico de Wakanda e a Terra. Mesmo os esforços dos meta-humanos foi insuficiente, dada a virulência da reprodução dos Xenomorfos. O planeta foi literalmente tomado por milhões de Aliens. Entre escombros de um mundo pós-apocalíptico, ainda persiste uma pequena resistência formada por Hulk, Capitã Marvel, Valeria Richards, o Homem-Aranha Miles Morales e por um sugestivo "Velho da Weyland".

Neste início, a pegada é de gibi cinematográfico, aos moldes do que Mark Millar fazia em seus tempos de Supremos. Muita ação, algumas dicas importantes espalhadas pelo caminho e um ou dois diálogos preparando os próximos rounds.

É bastante curiosa a efetivação da companhia Weyland no Universo Marvel. Parece que ela sempre esteve lá (e seu logo invertido para o "AVA" da capa reforça a impressão). O mesmo para a dupla de cientistas Shi'ar – e ainda considerando a real natureza de um deles – conduzindo experiências com Facehuggers impregnando Krees e Skrulls. É tão harmonioso e casual que chega a ser, putz, realista.

Esse "entrelaçamento quântico" de dois universos complexos chega a lembrar o mesmo mecanismo do clássico crossover dos X-Men com os Novos Titãs. Além de ser algo particularmente arriscado na perspectiva editorial.

Nos encontros dos Aliens com os super-heróis DC, como Batman, Superman e Lanterna Verde, foi dispensada a segurança do selo Elseworlds e a ação corajosamente se passa no presente da cronologia. Warren Ellis foi mais longe e usou os Aliens para fechar as contas do StormWatch.

Já Hickman, foi, digamos, mais conservador. Afinal de contas, a mini não é exatamente um What If...?. Não pegaria bem com os executivos da Disney um Xenomorfinho estourando o peito da Tia May e isso se tornando automaticamente canônico (viva!). Neste sentido, Aliens versus Avengers se aproxima do futuro sombrio da boa Saga dos Super Seven, da DC, com os super-heróis envelhecidos e derrotados num mundo tomado por uma invasão alien... ígena.

Quanto à adaptação, o próprio Hickman chegou a comentar: "foi complicado encontrar uma maneira de fazer essas duas coisas funcionarem juntas, mas acho que Esad e eu chegamos a algo que funciona para os fãs de ambas as franquias."

Ainda é cedo para um juízo de valor, mas, apesar da média alta, o roteirista parece ter sido pego na curva algumas vezes.

SPOILER

Por exemplo, se Valeria estava impregnada, por que os Aliens a atacavam?

FIM DO SPOILER

Evidente que é só a ponta do iceberg. E vindo da visão macro do Hickman, fiquei na pilha pelo escopo geral desse worst case scenario. O objetivo dessa edição #1 foi cumprido, portanto.

Aliens versus Avengers #2 chega às lojas (e às melhores importadoras do pedaço) em 6 de novembro. Looonge...

sexta-feira, 11 de novembro de 2022

Dominando o mundo


Que semana excruciante². Mas ao menos me impulsionou para relembrar e revisitar algumas obras. No caso do já saudoso Carlos Pacheco, lembrei de The Order, minissérie de 2002 que ele capeou ao lado do conterrâneo Jesús Merino. Na época, a capa da 3ª edição me impactou, já que remetia ao clássico confronto Vingadores x Defensores em versão atualizada.

Infelizmente, Pacheco não faz a arte interna, que varia entre Matt Haley, Chris Batista, Luke Ross, Dan Jurgens, Bob Layton e Ivan Reis com artes-finais de Dan Panosian e Joe Pimentel. Um time competente e bom de deadline.

Na trama, os Defensores decidem que o mundo está um caos e que precisam impor uma Nova Ordem Mundial. Meio como um Defensores-encontra-Stormwatch-e-Authority. Logicamente, há algo mais por trás das aparências e o roteiro do Kurt Busiek consegue tecer um pano de fundo instigante.

Nas 6 edições, fica escandaloso o nível do grupo. Os Defensores clássicos são muito poderosos. Dr. Estranho, Surfista Prateado, Namor e Hulk juntos é uma insanidade editorial e, agora distante do anacronismo narrativo da década de 1970, o céu é o limite. Isso fica latente quando eles atropelam exércitos mundo afora e também os integrantes de suas formações posteriores sem o menor esforço. E claro que ainda rola aquele tira-teima maroto com os Vingadores.

Naquela época, havia um acúmulo de tralha cronológica nas HQs dos Defensores. Lá fora, a equipe estava em baixa, a série própria não foi pra frente (fechou em 12 edições, apenas) e nada desse material foi lançado por aqui. Busiek ainda tenta desembolar alguns fios, como a vida pessoal de Samantha Parrington, a obscura alter-ego-compartilhada da Valquíria, e sua relação com a Patsy "Felina" Walker e o Falcão Noturno II. Mas fatalmente pipocam conceitos e personagens há muito abandonados, como a entidade Gaea, o bizarro mago Papa Hagg e o vilão Yandroth. De fato, há um excesso de background pouco (ou mal) contado, dando a sensação de pegar o bonde andando. Ou melhor, descendo a ladeira a mil.

Talvez por isso, The Order segue inédita no Brasil. Mas se mantém dinâmica e divertida, especialmente nesses tempos de autoritarismo alucinado. Gibi de porradaria honesta e com substância. Bem que merecia um TPzinho daqueles de 30 mangos...

Ps: e acabamos de saber que Kevin Conroy, a Voz do Batman, se foi ontem, aos 66. Que tristeza.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

Meu Amigo, o Esmagonauta


O Hulk volta a esmagar tudo em "Smashtronaut! - Part One" —"Esmagonauta" é tradução filé by BZ® (Panini, joga aí uns três lobos-guarás na mão e estamos conversados). Com a numeração automaticamente zerada, a HQ marca o retorno do Verdão após a bombástica fase O Imortal Hulk, do roteirista Al Ewing com o artista paraense Bené "Joe Bennett" Nascimento. O run deu uma bem-vinda revitalizada no mythos do Gigante Esmeralda com seu mix de thriller metafísico-psicológico e um body horror gore/splatter que arrancaria sorrisos doidos de David Cronenberg e do saudoso Stuart Gordon. Uma perspectiva inusitada, mas profundamente arraigada na essência do personagem.

O sucesso de público e crítica, porém, não conseguiu evitar alguns perrengues pelo caminho. Mais notadamente a ascensão-e-queda do veterano e talentosíssimo Bené, que não sossegou até implodir sua carreira (provavelmente em definitivo) pelo mainstream dos comics.

Primeiro, chamou atenção ao vibrar com a agressão ao jornalista Glenn Greenwald, depois emendou com artes e posts curtidos em extremismo até finalmente ser dispensado pela Marvel e desconsiderado inclusive para projetos futuros. E o que já não era tão bom parece que piorou. Parafraseando o filósofo João Francisco Benedan, é mais um legítimo representante do movimento white pardo, essa anomalia aberrativa que só existe e se reproduz no Brasil.

Todo esse furdunço reaça-gama acabou gerando mais repercussão do que a própria conclusão da saga —um pecado capital, já que foi uma das fases mais bacanas e aclamadas do Golias Verde em anos. Pessoalmente, curto tanto que nem me adiantei pelas "importadoras": sigo adquirindo meus exemplares religiosamente na editora brasileira credenciada. Dessa forma, antes do derradeiro TP #10, resolvi conferir a nova série desde já, pra ver se entendo alguma coisa.

Afinal, pegar o bonde da cronologia andando é como andar de bicicleta pro marvete com vista cansada e dor nas costas.


O arco em seis partes é escrito pelo texano Donny Cates (Surfista Prateado: Escuridão, Thor: O Rei Devorador), atual bam-bam-bam do massaveísmo super-heroístico. O cara é criador do Motoqueiro Fantasma Cósmico, pelo amor de One-Above-All. A quantidade abusiva de punchlines e splash pages duplas megacolossais dão a impressão de ouvir as onomatopeias gritando a cada porrada desferida. É edição-porrada.

Até rola aquele momento onde um pequeno contigente Todos-os-Heróis-Marvel é reunido pelo Dr. Estranho para... ganha um Surpresa com card de tigre quem acertar... caçar o Hulk. De novo. Mas o grosso da edição é um vale-tudo —tudo mesmo— entre Hulk e Tony Stark com algumas unidades Hulkbuster. É curioso ver o desenhista Ryan Ottley pendendo aqui entre um Ed McGuinness surtadão e a visceralidade não-retranqueira de seus tempos de Invencível. A maneira que o Verdão encontra para se libertar de uma armadilha de adamantium é de emocionar até o Thunderbolt Ross. Coisa linda.

Mas a grande questão é saber se Cates tem bala na agulha para segurar o tchan pós-Imortal. Parece que tem. Sei lá. Não finalizei Imortal ainda e a ideia aqui era saber se daria pra entender alguma coisa. Claro que deu. Ou melhor, não muito. Quase nada, pra ser sincero. Mas, de início, deu pra notar que a rererediviva Betty Ross, em seu melhor estilo mocinha-normalista-pós-família-nuclear, não é aquilo que parece. E que algo estupidamente cabuloso aconteceu em El Paso. Com vítimas. Muitas delas.

O que levou Banner a ficar furioso com o Hulk.

De novo².


Banner, aliás, está bem babacão, num nível quase Hank Pym de zé-ruelismo. Parece mais sagaz do que o normal e lá pelas tantas cita até A Profecia (que referência mais 70's). Contudo, no geral, está a parsecs de distância daquela época do "Hulk-é-um-bom-camarada-mesmo-com-a-cabeça-trocada". Tenho que admitir que o "conceito Esmagonauta" não é novo (você já leu isso na fase Peter David ou em qualquer das trocentas sessões com o Dr. Samson), mas a perspectiva é. A tônica é de pancadaria enche-linguiça servindo de intro. Gloriosa pancadaria, que se registre nos autos.

É basicamente uma edição disso culminando numa splash tão celestialmente massaveiorama que só o Stark mesmo seria capaz. Ele só precisava de tempo e grana. Por sorte, ele tem as duas coisas. Sabe como é.

Na conclusão, Hulk dá um mergulho numa Muralha da Fonte versão 616 e, do lado de cá, me toca alguns sinos. Seja na fase Encruzilhada, na fase Planeta Hulk ou na fase Imortal, a chave para o sucesso parece que é tirar Banner/Hulk da sua zona de conforto —o que, no caso, se traduz como tanques e helicópteros partindo pra cima, tal qual na imagem do topo.

E certamente, Cates vai começar a contar essa história de verdade a partir da próxima edição. A menos que haja um esquadrão Caça-Hulk esperando por ele do outro lado. Ou o Homem Quintrônico.

Nah, Cates não seria tão massaveio...

Ps: ...veremos isso no próximo dia 15.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

No centenário de Jack Kirby quem faz a festa é você... com os importados


Num mundo perfeito, 2017 seria comemorado pelo público e editoras nacionais de quadrinhos como se fosse o aniversário de alguma grande cidade ou de algum santo padroeiro. Como sabemos, esse foi o ano do centenário de Jacob Kurtzberg (1917-1994), também conhecido como Curt Davis, Jack Curtiss, Lance Kirby (esse é ótimo), Jack Kirby. Ou simplesmente o apelido mítico que ganhou de Stan Lee: "The King".

Do fim dos anos 1950 até o fim dos anos 1970, Kirby dominava. Atualizou a estética e a dinâmica das HQs com uma fúria reformista nunca vista antes - e raríssimas vezes depois. Fez a ponte entre complexidade e simplicidade, desenvolvendo um estilo próprio que o permitia produzir páginas e páginas em ritmo industrial sem oscilar na qualidade. Nunca ninguém produziu tanto em tão pouco tempo quanto Kirby. Era praticamente um Jimmy Page dos gibis. Seu legado para as artes e para a indústria é incomparável, exercendo reflexos vívidos até hoje.

Lá fora, a artilharia Kirbyana foi incessante - não apenas neste ano comemorativo, mas nas últimas décadas. Lançamentos a todo vapor, nada sai de catálogo e a variedade de opções é impressionante. Mesmo.

Apesar disso, não é bem um cenário de reconhecimento que se vê por estas bandas atualmente, a começar por uma boa parcela dos fanboys. Já li cada bobagem sobre a arte de Kirby e ignorância sobre o contexto da época que hoje desconfio que aquelas famosas ponderações de Umberto Eco eram sobre alguns leitores de HQs. Como bem resumiu o Daniel Lopes, do Pipoca & Nanquim: "tolos".

E não ficou muito melhor com o tributo magrinho que a Panini reservou para o ano do centenário com os dois volumes de Lendas do Universo DC: Super Powers, num equívoco seletivo de dar gosto. É material inédito por aqui, certo, mas nada representativo do que foi o Rei no auge. Isso era pra ser lançado bem depois de Quarto Mundo, Kamandi, OMAC e Etrigan, o Demônio, só pra ficar na jurisdição DC. Ou, no mínimo, pra anteceder metade dessas sagas ainda em 2017.

Vão-se os centenários, ficam os importados. Se descaso é mato nessa terra, sejamos os capinadores.



Machine Man - The Complete Collection foi irresistível. Curto demais a versão 1.0 do X-51/Aaron Stack/Homem-Máquina - e de menos o upgrade Inspector Gadget engraçadinho que ele recebeu nos anos recentes. Então foi uma rara oportunidade de fechar tudo que achei legal de um personagem numa tacada só. Ou melhor... em duas.

O calhamaço é graúdo: além das participações no título do Hulk e da Marvel Comics Presents, as 440 páginas também trazem todas as 19 edições da série original do Machine - ou "Mister Machine", como era chamado em sua estreia oficial na quadrinhização do Rei para o clássico 2001: Uma Odisseia no Espaço, não compilada aqui por conta dos direitos que mofam ad eternum nos cofres da MGM.

E tudo bem que não se trata de um material 100% Kirby. Afinal, ele divide metade da série solo com outro criador peso-pesado - ninguém menos que o genial e genioso Steve Ditko. Excelsior!

Nada mal como uma (Almost) Complete Collection.



The Demon by Jack Kirby é uma que entrou no meu target desde o início da pré-venda. Isso foi lá pelo ano passado, mas pareceu uma eternidade.

Uma baixa terrível, literalmente, de última hora: a substituição da capa original da The Demon #1 (set/1972), clássica e espetaculosa, por uma arte em detalhe que mais parece um flash do Etrigan com enquadramento ruim. Que o autor dessa ideia cumpra uma pena exemplar nos círculos inferiores.

E já que toquei no assunto, a Amazon anda meio salafrária ultimamente. Alguém mais encomendou aquele Cavaleiro das Trevas anunciado com capa prateada e recebeu a versão anterior, com as silhuetas do Batman e do Super?

O TPzão coleta as dezesseis edições originais de The Demon, cuja publicação atropelou os planos ambiciosos do Rei para seu xodó, a megassaga Quarto Mundo - cancelada após o sucesso nas vendas do diabão amarelo. O que, imagino, deve ter deixado Seu Kirby muito enjuriado pela sua demoníaca criação.

Deve ser a maldição do gênio da raça. Fazer o quê, se até pra chupinhar beber em fontes alheias, o Rei dava um show de preciosismo nas referências?

Seja como for, o capeta rimão aportou direto no quadrante 666 da coleção.


Há que se fazer a menção honrosa aos divertidíssimos The Demon vol. 1: Hell's Hitman e The Demon vol. 2: The Longest Day, com a dobradinha Garth Ennis/John McCrea imersa em insanidade e anarquia, e para The Demon: From the Darkness, de Matt Wagner e Art Nichols - provavelmente a melhor história do Etrigan já escrita.

Em outras palavras, o Demônio do Rei Kirby está em excelentes más companhias.


E o Máquina também.

terça-feira, 8 de julho de 2008

GATA EM TETO DE ZINCO FRIO


Após duas páginas de Patsy Walker: Hellcat, a primeira coisa que pensei foi "porque diabo eu tô lendo uma HQ de menininha?". Bom, posso ser criativo e pensar em alguns motivos... lá vai. Já li quadrinhos "de menininha" antes. Exemplos mais recentes foram Ultra, dos Luna Brothers, e Lost Girls, de Melinda Gebbie e Alan Moore. E da minha época, tiveram umas paradas mais cult, como as já saudosas Estranhos no Paraíso, de Terry Moore, e Love and Rockets, dos hermanos Hernandez. Todas representando 2 coisas: Um - quadrinhos de primeira; e Dois - uma boa espiadela no diário subconsciente destas maravilhas supremas da natureza. No choque com um universo ainda dominado por estereótipos sexistas e vexatórios, não deixa de ser curioso o resgate desta personagem em particular.

Patsy Walker é das antigas. Pertencia ao cast da Timely Comics, que veio a formar a Atlas Comics e, finalmente, a Marvel Comics. Ironicamente, ela seguia o modelo de teenager feminina bem-comportada da época (anos 40-50). No início da década de 70, foi repescada naquele depósito de idéias da editora e reformulada no padrão super-heróico. Nascia a Felina/Gata do Inferno/* espaço reservado à criatividade do novo tradutor *.

Já de colante high-tech, garrinhas e com uns poderes psíquicos aí, integrou Vingadores, Novos Defensores e teve no currículo dois casamentos mal... hm, pessimamente sucedidos. O primeiro foi com o vilão Cão Raivoso, o outro com Daimon Hellstrom, o Filho de Satã (cuja mini que está saindo agora em Marvel MAX é um chute bem naquele lugar que dói), onde ela foi parar no inferno, literalmente.

Um dos recursos que sempre gostei na Marvel é o constante ressurgimento de personagens B engavetados há tempos (ainda espero o retorno dos infames Guardiões do Deserto!). Como a maioria representou uma fatia mercadológica de sua época, não deixa de ser um interessante exercício criativo realocá-los no século atual. Ao menos em tese, tendo em vista as boas redefinições de Luke Cage e Punho de Ferro.


Nesta estréia de Patsy Walker: Hellcat, minissérie em cinco capítulos, a roteirista Kathryn Immonen (patroa do Stuart) rebusca aquela jovialidade dos primórdios, ignorando sabiamente seu background pesadão (que não era mais do que um monte de sucata cronológica, afinal). Trazendo de volta o apelo teen/girlie em contraponto ao cenário super-colorido - ambos traduzidos com maestria pop no traço 'immoneano' de David LaFuente -, temos aí o que seria a versão atualizada e perfeitamente comercializável da heroína. Distante do cinismo outsider de Jessica Jones em Alias e mais próxima do subtexto de auto-conscientização feminina de DC Apresenta: SJA Arquivos Confidenciais #1 (aquele, com a poderosa Poderosa) - de onde parece ter se inspirado também no clima divertido e ensolarado, a despeito da localização.

Na história, Patsy é um dos mimos do Tony Stark pós-Lei de Registro. Estatizada de carteirinha, ela não é nem um pouco contestadora e parece mais interessada em curtir a vida de heroína patrocinada pelo governo. Um dos ganchos mais bem-humorados, num jeitinho feminino de ser, são os quadros estilizados onde ela vislumbra uma previsão exageradamente otimista de algo potencialmente ruim (ali, não pude evitar, me pareciam alucinações de alguém chapado de estrogênio e LSD). Não sei se foi o meu lado Cássia Eller lendo, mas achei uma boa sacada da sra. Immonen. Meio que aproveitando o desejo de Patsy de integrar missões de grande porte, Stark a encaixa (sem trocadilhos) num reconhecimento no 50º estado da Iniciativa, ainda sem monitoração de uma super-equipe (também!). Lá ela encontra a fauna caipira local e sobrenatural. Algo envolvendo misticismo indígena ancestral, afins, quetais e similares.

Mesmo com um início 110% rosa-choque no qual só consegui prestar atenção no decote da moça, vale um crédito extra até o momento de sua convocação. Espertos diálogos bate-pronto (estilo Bendis sem a chatice da Mary Jane ultimate) e, principalmente, o charme e simpatia irresistíveis da protagonista. Irresistíveis, porém, até segunda ordem (ou edição). Sabe como são as mulheres...

Na trilha: a mulherzona do BellRays cantando. Que mulherzona! E que cantando!

segunda-feira, 16 de abril de 2007

A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO HULK


Parece que a notícia do dia nos meios pop quadrinhísticos (quiçá cinematográficos!) foi Edward Norton embebido em radiação gama para o próximo filme do Hulk. Norton é um dos melhores atores de sua geração e sua presença neste projeto com certeza muda, e muito, a percepção geral sobre o que virá a ser o filme. O primeiro longa foi bastante criticado, principalmente pela intensa carga dramática conferida pelo diretor Ang Lee (não inesperadamente: ele cansou de repetir que faria uma "tragédia grega", nestas palavras) - do lado de cá, acredito que este primeiro momento foi absolutamente necessário antes de qualquer outra coisa.

Mas a história se repete - se antes a novidade insólita foi a toda-boa Jennifer Connelly, agora é a vez de Norton garantir uma atuação de alto nível e, porque não, ser um baita chamariz de público (principalmente após a moralzinha mais popularesca adquirida via O Ilusionista). Tomara que não seja pedir demais que La Connelly retorne ao cast, juntamente com o grande Sam Elliot. Eu até ajudo a pagar.

Se alguém tem experiência em dupla personalidade é Ed Norton. A primeira vez que vi o sujeito foi em As Duas Faces de um Crime, com Richard Gere estrelando. O thriller era meia-boca toda vida até seus dez minutos finais, quando é revelada a presença de um monstro gigante em cena. Quem assistiu o filme na época saiu atropelado. Na ocasião, Norton saiu recolhendo indicações - Oscar incluso - e prêmios a rodo (conta quantas vezes aparece o nome dele aqui). Já em Clube da Luta, seu alter-ego, o paranoid Tyler Durden, era uma força anti-sistema de caráter (auto-)destrutivo. E o Hulk não é nada mais que uma simbologia grotesca e per se deste mesmo conceito.

A verdade é que daí pode sair qualquer coisa (até mesmo o primeiro nuke da filmografia de Norton), mas ao menos há uma certeza: Bruce Banner nunca esteve tão próximo de seu sociopata interior.


No final de 2005, "todo mundo" foi aterrorizado pela imagem acima. Até então, só sabíamos que uma das tretas mais clássicas dos quadrinhos - Wolverine contra Hulk, gafanhoto! - ganharia sua versão no Universo Ultimate, onde tudo vale, tudo é permitido, de golpe abaixo da linha da cintura a dedada no olho. Mas ninguém estava preparado pra isto, for Christ's sake. Viajando pela web como parte de um preview da história, a força dessa imagem foi um trampo marketeiro de primeira linha. E reflete à perfeição o que é a Marvel Comics sob a gerência de Joe Quesada, para o bem ou para o mal. O fato é que a mesma foi o papel de parede de todos os computadores que usei na época. Já vinha em resolução 1024x768 mesmo. Fui fisgado legal, admito.

Aí saiu a primeira edição. A primeira de uma minissérie de seis. Fevereiro de 2006. Escrita por Damon Lindelof, co-criador e roteirista de Lost, e desenhada pelo excelente Leinil Francis Yu, de Superman: O Legado das Estrelas. Nada mal, hein. No mês seguinte (março, pra constar), houve um apagão e nada da revista. Tá, era bimestral. Beleza. Em tempos de Evil That Men Do, Daredevil: Father e Ultimates 2, a paciência virou a maior das virtudes. Em abril, ueba, lá estava a HQ seguindo seu curso na 2ª edição.

E foi a última vez que a vi.

Atualmente, Ultimate Wolverine vs. Hulk jaz em alguma geleira próxima daquela em que o Capitão América foi resgatado. Ou em algum ponto obscuro da ilha de Lost, onde nem os Outros se atreveriam a chegar. A história do atraso desta 3ª edição virou lenda urbana nos meios editoriais. Primeiro, ela foi re-solicitada para maio. Após, teve lançamento oficial agendado pra 12 de julho e nada aconteceu. Re-solicitada novamente para 9 de agosto, e na seqüência para 20 de setembro, 25 de outubro e, mais uma vez sem sucesso, para 27 de dezembro. Por fim, foi anunciado seu cancelamento provisório até que todas as edições restantes estejam completadas.

Eu nem ligaria se fosse, p.ex., o Aranha Ultimate de Bendis/Bagley. Mas o que acontece aqui é justamente o contrário. Ultimate Wolverine vs. Hulk estava se encaminhando pra ser uma das coisas mais divertidas publicadas nesta década. As duas únicas edições são um tour-de-force irresistível de humor negro e boas sacadas.


A premissa é aquela mesma juramentada e sacramentada pelo universo normal dos personagens - a SHIELD quer a cabeça do Hulk numa bandeja e vê em Wolverine a saída mais prática pra resolver a parada. A seqüência insanamente gore do Wolvie sendo partido igual Doritos vem logo nas primeiras páginas, já entregando a disposição monstruosa de Lindelof/Francis Yu. Depois disso, corta pra alguns dias antes, quando Nick Fury tenta convencer Wolverine... pensando bem, "convencer" não foi bem o caso.

Fury: "Você fará, Logan?"
Wolvie: "Yeah. Eu farei."
Fury: "Eu não tenho de ameaçar você? Te dar uma moto multi-milionária? Te oferecer um pedaço do seu passado misterioso?"
Wolvie: "Você disse que ele é durão. Vai ser divertido."

Nesse interím, o Hulk/Banner (que saiu vivo da execução termonuclear vista em The Ultimates 2 #03), fez uma excursão literalmente devastadora por vários países da Europa e acabou desembocando no Tibet atrás de paz interior. Como sabemos, o Hulk Ultimate é cruel até a medula óssea e seus acessos de fúria não perdoam ninguém. Só mesmo alguém da linhagem sagrada do Dalai Lama poderia ajudá-lo... no caso, este seria o Panchen Lama e é aí que eu paro porque a cena é hilária e não dá pra revelar mais.

No frigir dos ovos, a última coisa que nos resta é a esperança. Miremos no exemplo da lendária 13ª edição de Ultimates 2 que está aí, na boca do caixa, com shots descaralhantes de páginas óctuplas aquecendo a chama que existe em nossos corações. Raspas e restos me interessam. Não tenho dignidade, pois sou fã de HQs. E como Leinil Francis Yu não é de dar satisfações, vou de Ed McGuiness mesmo.




Na edição #50 de Wolverine, McGuinness e o irregularzão Jeph Loeb mandam um 'curta-metragem' bastante divertido, onde Wolverine relembra detalhes aparentemente não divulgados de seu primeiro encontro com o Hulk, logo na estréia do baixinho canadense.

A referência é clara e evidente. Leinil & Lindelof (parece dupla sertaneja) até constam nos agradecimentos, mas o modo como a história termina é particularmente sugestivo. Só espero que não seja uma alusão ao destino da mini.


Pelo menos, terei alguma distração durante a espera. Como a "batalha do século", por exemplo.



...que por acaso é revanche. Hulk já perdeu uma vez pro Raio Negro. Quero ver agora, no jogo de volta.




Se o novo confronto for tão sóbrio quanto este...


Edward Norton em Hulk 2... surreal.

segunda-feira, 24 de julho de 2006

A GUERRA DE MARK


Isto está começando a se tornar uma espécie de afirmação do óbvio e, ainda assim, de forma repetida. Tentarei fazer um pouco diferente desta vez: Se houvesse Mark Millar's facts, um deles seria: "Chuck Norris é o Cara!!! Mas o Cara é Mark Millar". Tá bom, eu sei, horrível, mas pelo menos foi diferente e mantém a idéia que queria passar. Mark Millar é o roteirista de quadrinhos mais competente em franca produção atualmente.

Sempre gostei muito de tudo o que ele escreveu, mas é inegável que fica muito mais à vontade em contextos que lhe permitam criar roteiros de repercussão global do que em ambientes menores, mais íntimos, campo que Bendis domina com facilidade e Ed Brubaker é discípulo destacado. Isto é facilmente percebido na diferença de qualidade de seus trabalhos em Superman: Red Son, The Authority e os dois arcos de Wolverine em comparação, por exemplo, com seu trabalho em Marvel Knights Spider-Man e Chosen. Em janeiro abusei dos elogios ao segundo volume de Ultimates e, neste meio ano que passou, foram divulgadas as linhas gerais de seu novo trabalho, algo grande e fenomenal que o próprio já vinha alardeando há algum tempo, uma saga que atingiria o Universo Marvel de ponta a ponta, com a participação mais maciça de personagens já vista: Civil War. Já vimos confete jogado por coisa parecida por aí e, falo por mim, já tinha me condicionado a associar que este tipo de alarde significava algum novo vilão overpowered ou um personagem já conhecido, mas numa virada igualmente overpowered e que ameaçava a todos. Algumas foram boas, outras nem tanto, mas certamente privilegiavam contextos grandiloqüentes, onde personagens populares, mas cuja importância é mais sentida nas coisas pequenas do dia a dia – Homem-Aranha e Demolidor, por exemplo – eram relegados a papéis coadjuvantes. Estas sagas eram claramente pontos fora de curva e invariavelmente apresentavam finais forçadíssimos, ou seja, eventos que, de tão grandiosos, saltavam absurdamente daquele contexto mais "pé no chão" da Marvel (até onde o termo permite, claro, já que falamos de quadrinhos de heróis). A maioria, apesar de ruidosa, apresentava nenhuma ou poucas conseqüências a médio prazo, sendo relegadas ao esquecimento na sua relevância para a cronologia atual. Massacre, por exemplo, de conseqüências atuais só tem uma: Bishop. Um personagem que perdeu o sentido de existir após a saga e hoje vaga perdido como uma assombração no mundo mutante.

Quem costuma vir aqui certamente está familiarizado com o que vem a ser Civil War, mas não custa apresentar o caso àqueles que não são tão afeitos aos quadrinhos. Parto para a sinopse oficial: Um reality show que mostra super-heróis de quinta categoria resulta em centenas de mortos quando um dos vilões explode a si mesmo. A opinião pública torna-se hostil aos vigilantes e o governo americano aprova uma lei de registro de todos os seres que detenham habilidades super-humanas. Com isto, a comunidade de heróis encontra-se dividida e uma guerra entre eles tem início, já que os que se recusarem a submissão ao registro e ao controle da SHIELD serão considerados foras-da-lei e, ato contínuo, caçados.


Premissa até simples, não? Então destaca-se dois dos maiores ícones do supergrupo mais categórico da editora e os colocam como líderes de seus "exércitos": Homem de Ferro de um lado e Capitão América do outro. E já aqui Millar mostra que é escritor acima da média. Se fosse feita uma enquete onde o plot da saga fosse apresentado para qualquer "comicófilo" (que termo horroroso) e perguntassem qual time estaria contra o registro e qual estaria a favor, creio que seriam unânimes em apontar a encarnação da retidão moral, do american way of life e da obediência cega ao governo como o cara que lideraria a equipe pró-registro. No entanto, mesmo que sua identidade seja pública, é o Capitão América quem ergue o primeiro punho contra a lei, ao passo que o novíssimo Tony Stark fascista pós-Extremis coloca o sistema em seu favor de forma covarde, indo na contramão do que parecia ser sua opinião até bem pouco tempo antes dos eventos em Stamford, onde ocorreu a explosão.

A saga é positivamente pretensiosa, apesar de se mostrar fantástica nos detalhes minimalistas. Além das ocorrências em diversas publicações normais mensais, contará ainda com as edições de Civil War, mais outras tantas criadas apenas para a saga (check-list aqui). É complicado acompanhar tudo, não tenho este tempo todo à disposição, mas pelo que já foi possível ver, Millar não estava brincando quando dizia que seria a saga mais abrangente já feita na Marvel. Vemos a participação de diversos personagens que eu já não via há mais de década (alguém lembra de Solo? "Enquanto eu viver, o terror morre!"). Sentimos como o cenário os afeta de uma forma bem mais clara. Por mais que as participações destes personagens obscuros sejam até breves, são bem mais relevantes para o contexto geral do que as participações já mencionadas do Demolidor em sagas passadas, só para citar um dos grandes personagens da editora.


O leitor mais atento percebe também que os motivos não nascem do nada. Os eventos que levaram a ela a tornam quase obrigatória, uma conseqüência natural do que vinha acontecendo em todas as revistas da Marvel. Algo planejado há anos, portanto, bem diferente daquele produto confuso e mal acabado que foi Infinite Crisis na editora rival. Para percebermos o nível do planejamento neste trabalho, precisamos de uma revisão de eventos ocorridos nos últimos dois anos. Tivemos nesta época Avengers Disassembled, que começou a arrumar a cama para o que tomou lugar hoje. Ali alguns heróis relevantes foram mortos por uma integrante com poderes descontrolados do grupo de moral mais ilibada da Casa de Idéias. A conseqüência natural foi uma equipe onde os integrantes tinham muito pouco a ver uns com os outros, mas que serviram a um, aliás... dois propósitos bem funcionais: por um lado colocou a revista dos Vingadores mês após mês no Top Ten de revistas mais vendidas dos EUA, por outro propiciou um meio para House of M. Esta última foi bem meia boca, mas seu principal legado para a cronologia foi a redução da população de centenas de milhares de mutantes em todo o globo a apenas 198 (Decimation), o que facilitou o trabalho do governo em controlá-los com Sentinelas tripulados em uma área de contenção. Era já o primeiro ato de controle de super-poderes.

Concomitantemente, ocorreu o especial em cinco edições Secret War, onde Nick Fury criou uma equipe para um serviço sujo na Latvéria que nos apontou os principais pré-requisitos de Civil War, começando pela destituição de Nick Fury do comando da SHIELD. Este especial apresentou também o investimento sistêmico e secreto que a SHIELD faria em uma divisão própria de meta-humanos, bem como a nova e insegura diretora: Maria Hill. Não bastando o fardo de substituir uma lenda, a nova diretora teve que lidar com o descontentamento declarado que o Presidente dos EUA manifestava a respeito da quantidade e atuação de super seres no planeta, bem como os efeitos deles na balança de poderes no mundo, reforçando como gostaria que eles sumissem.

No ano que se seguiu, fomos apresentados ao Illuminati. Um grupo formado por Tony Stark, Charles Xavier, Raio Negro, Stephen Strange, Namor e Reed Richards. Este grupo foi introduzido num retcon que o mostra como um comitê de representações de grupos de super-seres da Terra que, após a guerra Kree-Skrull, com objetivos comuns, trocariam informações e estariam mais presentes na "política" dos super-seres, para evitar desastres potenciais. O grupo, por influência da SHIELD e através do Homem de Ferro, decidiu recentemente que o Hulk tornou-se uma ameaça não mais aceitável, o que os levou a banirem-no para o espaço (Planet Hulk). Mais uma ação de "controle".


De tudo o que foi listado até agora, nada foi escrito por Millar. Na verdade, tudo, menos Planet Hulk, foi levado por Bendis, que, para mim, perde de Millar por um nariz o título de "O Cara". O próprio Millar dizia ano passado que planejava Civil War com Bendis, e o trabalho foi muito bem feito. Vendo tudo o que passou, as únicas pontas ainda soltas nas motivações do estouro de Civil War são, para mim, a postura apaixonada e incoerente de Reed pelo registro e o papel que Hulk terá quando retornar. Claro, porque ele retornará (o que, se realmente ocorrer, será uma recorrência do que vem acontecendo em Ultimates – tanto o v1 quanto o v2).

E o Homem de Ferro nunca foi tão presente. Bancou os New Avengers e participou de uma série de situações que colocaram Peter Parker numa condição de dever de honra para com ele, foi transformado num bichinho de estimação que seria a carta na manga que Stark pôde usar em Civil War #2, quando Peter mostrou sua identidade em público. Além disto, recentemente pagou o Homem de Titânio para atacá-lo em Washington e vem tendo encontros fechados com o presidente desde antes da aprovação do Ato de Registro.


Millar é corajoso também. A identidade secreta de Peter era uma das vacas sagradas dos quadrinhos, daquelas que todos brincaram, mas nunca conseguiram desvelar. Ele não só fez isto como reviveu um ícone. Há tempos o Capitão América é um dos personagens mais chatos dos quadrinhos. Na primeira oportunidade, Millar o renovou, tirou aquela pecha de herói, colocou um perfil de personagem que age na base d'os fins justificam os meios e o Capitão Ultimate é um dos personagens mais interessantes daquela revista. Já tinha feito trabalho semelhante nos dois arcos que escreveu para Wolverine recentemente e está reproduzindo seu toque de Midas com o Capitão América da cronologia normal, onde aquele cara que personificava a obediência cega à bandeira agora se permite ter os olhos injetados de ódio, ir contra o governo americano e até às últimas conseqüências pelo que acha certo. Voltou a ser um personagem interessante. Foi o destaque da primeira edição, só perdeu o destaque na segunda para a revelação de Peter e, na terceira, voltou ao foco, mesmo que seja por estar apanhando como cachorro vadio.

Algumas certezas já são possíveis de se ter como conseqüências de Civil War. Homem de Ferro e Capitão América não poderão mais coexistir na relação de poder de outrora, onde Stark financiava a liderança de Rogers. É claro também que os objetivos do Presidente para a comunidade de heróis são bem mais cinzentos do que podem sugerir, bem como a legitimidade do “acaso” na explosão de Stamford, que desencadeou o Ato. Há a certeza também de que até o fim da saga muita coisa virá, pois o racha na Família Fantástica ainda não foi explorado o suficiente, nem a participação dos mutantes no evento, o conflito interno e as conseqüências do posicionamento do Homem Aranha, o retorno de Thor, Magneto pós-Coletivo e, principalmente, a guerra batendo às portas da Atlântida de Namor ou aos Inumanos e Raio Negro.



A imagem de cima é de Wolverine #42 e a de baixo de
Civil War #1 - sensação de trabalho em equipe.

Paralelamente, Millar vem contando também com gente muito inspirada nas revistas que participam da saga, além de um claro trabalho de equipe, conforme a imagem acima demonstra. O normalmente irregular Paul Jenkins vem fazendo trabalho belíssimo em Civil War Front Line, onde o conflito é contado e vivido pela ótica de outros personagens, como repórteres e vítimas, dando uma inversão de visão interessantíssima que já vimos em Marvels e no recente Guerra dos Mundos, só para citar outra mídia, mas nunca de forma concomitante. Marc Guggenheim (de CSI: Miami) vem desempenhando um bom papel também nas páginas de Wolverine em companhia de um surpreendentemente maduro Humberto Ramos, que conseguiu evoluir seu trabalho de algo irreconhecível para o que já pode ser chamado de estilo. Straczynski e Roberto Aguirre-Sacasa também cumprem bem seu papel em Amazing Spider-Man e Sensational Spider-Man, respectivamente.

Civil War é uma das, senão a melhor coisa que aconteceu recentemente nas revistas tradicionais. Falo isto com segurança, é obrigatório. O final da terceira edição é de cair o queixo. Para não perder tempo gastando palavras sem necessidade, faço minhas as palavras do Demolidor:


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