segunda-feira, 15 de outubro de 2007

BEYONDER BEYOND


The New Avengers: Illuminati #3 me confirmou uma velha suspeita: mais que "Casa das Idéias", a Marvel Comics é o "Depósito das Idéias". Hoje vejo mais claramente as pontas soltas largadas à bangu ao longo de sua cronologia, apenas para faturar em premissas mais adiante. O que existe lá é um oceano de assuntos mal-resolvidos. Não por acaso, vários arcos da editora parecem ter sido tramados com mais de vinte anos de antecedência. Assim fica "fácil", a deixa já estava lá, à espera de um roteiro. Tudo em nome da continuidade quadrinhística, claro, mas os editores abusam. A lista destes, hã, "spectro-plots" é longa, variada, mesmo se pegarmos exemplos mais recentes. Temos de Yelena Belova, Nicky Fury, Wanda e Capitão até a pequena Danielle Cage. Todos vivendo numa completa incompletitude (isso é Gil ou Caetano?) e no aguardo da redentora resolução (Gessinger?).

Isto pra não citar as pendências-monstro deixadas por Eternos de Neil Gaiman e, mais polêmica ainda, World War Hulk. E nem queira entender as origens co-relacionadas do Visão e do Tocha Humana original.

A propósito, só fui saber outro dia que botaram a Contraterra na conta do papa. Pobre Alto-Evolucionário. Tanta coisa para nada, afinal.

Por sorte, esses ganchos recorrentes até fazem parte do charme. O próprio Brian Michael Bendis, na bacanuda As Incríveis Aventuras de Stan Lee, desconstruiu essa mania de resgatar trasheiras há muito esquecidas ("mini em seis edições: ROM, O Cavaleiro Espacial!"). No mais, tem de ser muito chato pra não gostar de uma boa recapitulação - quando é boa, que fique claro... esqueça o processo de puterização a qual foi submetida a santíssima e virginal Gwen Stacy.

Seja como for, um bom timing é imprescindível nesses casos. Pena que na maioria das vezes, nem todo o timing do infinito-e-além! parece ser o bastante. O que me leva ao personagem-símbolo de toda essa embromação que a Marvel adora botar no congelador pra esquentar depois no microondas.


Beyonder é, sem dúvida, um dos maiores elefantes brancos já produzidos pela Marvel, equiparado apenas, talvez, pelo Sentry. Nos final dos anos 80, finda a saga Guerras Secretas, o personagem ficou que nem o Terminator se John Connor morresse: "useless". Não sabia até que ponto o mega-evento foi uma desculpa para produzir uma linha de brinquedos, cards, álbuns e tralhas quetais, mas lembrava que era de uma tosqueira até divertida. Relendo hoje... sim, eu reli... acrescento que é burraldo, pueril, boboca e cara-de-mamão, mas se fosse filme seria um daqueles Sessão-da-Tarde-movies que todo mundo fala mal, mas adora assistir escondido. Guerras Secretas é Quake Arena. Heróis contra heróis contra vilões contra vilões. E vice-versa.

Como de praxe, o advento de um indíviduo todo-poderoso se fez necessário pra reger a patota toda. Criado por Jim Shooter e Mike Zeck, Beyonder não era uma força da natureza unidimensional (como o Anti-Monitor), nem um niilista mega-estratégico (como o Thanos recente do Jim Starlin). Ele era de uma ambivalência passiva, um observador distante. Também não dispunha de um corpo físico, sendo representado por um tipo de feixe de energia. Quase uma sarça ardente. Sua natureza supostamente divina era pura simbologia bíblica, criacionista, onisciente e onipotente no microcosmo proposto pela saga.

Mas aí a aventura chega ao fim - inconclusivo, como sempre - e fica a questão. O que fazer com uma personagem-deidade instituída num contexto maniqueísta?



Beyonder, brincando com seus action-toys e envergando um modelito Clóvis Bornay

Guerras Secretas II, claro. Desta vez, a premissa era justamente Beyonder à procura de um papel naquele universo. O exercício criativo foi até interessante. Sendo ele mais entidade que propriamente um indivíduo, os heróis, vilões e pessoas comuns acabavam incluídos no processo. Esta era a deixa: ao confrontarem uma força da natureza inevitável, eles reafirmavam todos os alicerces éticos e psicológicos que os fazem únicos e admirados/odiados. Quase um raio X de suas profissões de fé.

A continuação se estendeu pelas principais publicações Marvel da época. Em seu decorrer, foi interessante ver como a idéia era limitada na própria simplicidade. Beyonder era o Alfa e o Ômega. Só Deus sabe como esse fardo é pesado. Logo, toda aquela conceitualização metafísica caía por terra, pois o personagem buscava auto-realização do ponto de vista mundano. Tarefa impossível, incompletos que somos - tal qual a cronologia Marvel.

No fim, Guerras Secretas II se mostrou uma experiência tão vaga que foi difícil não preencher as lacunas como passatempo mental (um dos motivos pelo qual eu amo quadrinhos). Nietzsche, Sartre, John Milton, Saramago e até o Paul Rabbit entraram na dança, mas não fui muito longe: aquela trip toda me lembrou mesmo foi uma velha história do Angeli, na qual Deus desce à Terra para se humanizar e experimentar os prazeres terrenos, e termina como um mendigo alcoólatra com delírios de grandeza. A sarjeta é logo ali, rapá.


Ecumenismo xiita, se é que isto é possível

De volta à carga, Guerras Secretas III trouxe o Super Deus Marvel Hero pra zerar os restolhos de roteiro entornados no caminho. Mas a guerra desta vez durou só uma edição (Fantastic Four #319), under-the-radar ainda por cima. Um combinho integrado pelo Dr. Destino, Tocha Humana, Coisa e Ms. Marvel (a outra, não a Danvers caval'de jour), vão até o universo do Beyonder em busca de respostas e o encontram numa tremenda ressaca existencial. Pra começar, aquele universo em que ele vivia era ele. Toda a matéria, ordem, caos, pensamento, conceito, passado, presente e futuro. Ao desejar uma existência completa, Beyonder corrompia sua própria divindade - desejo é um abismo sem fim para alguém que pode tudo. Com isso, todo o multiverso-e-lá-vai-supercorda estava ameaçado por um deus imperfeito.

A solução foi encerrar sua essência num daqueles práticos Cubos Cósmicos da Marvel - gestor de entropia cósmica expresso -, tarefa levada à cabo pelo Homem-Molecular, que no processo também foi pro saco, ou melhor dizendo, pro cubo. Soube-se também que o próprio Beyonder era energia consciente originada de um Cubo (seria então um retorno às raízes?).

Na prática, esta foi a última vez que viram a face de Beyonder. Em Beyond! não era ele e sim o Estranho, segundo a arte vagabunda do Scott Kolins, e na comprida Aniquilação houveram referências, mas nada efetivo. Parecia que aquele era mesmo o fim da linha para um personagem talvez grandioso demais para aqueles padrões, mas acima de tudo, promissor ("por mais que as coisas se modifiquem, elas permanecem as mesmas" - imagina Beyonder na visão de Alan Moore fase Big Numbers, com todo aquele subtexto envolvendo Matemática Fractal e Teoria do Caos?).

E este era um fim que contrariava o velho recurso de deixar as opções em aberto. Será?



"Beyonder é... SPOILER!
E também é... SPOILER!!"

Claro que não... não na velha Marvel, não senhor... lá, um fim é sempre um início. Desde a primeira edição, The New Avengers Illuminati deixou clara sua vocação revisionista, destacando o que seria o início da infiltração Skrull na Terra (e dá-lhe Civil War na seqüência) e repescando elementos emblemáticos como as Jóias do Infinito e o rebelde Marvel Boy Noh-Varr. Mas a edição que ressuscitou Beyonder sem dúvida foi a mais sintomática neste sentido.

Os roteiristas Brian Michael Bendis e Brian Reed ignoraram solenemente tudo o que o personagem vivenciou a partir de Guerras Secretas II. De fato, Beyonder tem o mesmo visual yuppie daquela época, o mesmo olhar intrigado mezzo infantil e a insaciável busca por auto-realização - agora com um viés altruísta-obsessivo. (Re)Descoberto por alguns integrantes do Illuminati enquanto recriava Manhattan num asteróide nos confins da galáxia, novamente ele se vê numa situação de conflito iminente contra heróis da Terra.

Só que dessa vez, Dr. Estranho, Namor, Charles Xavier, Reed Richards e Raio Negro sabiamente pulam etapas (e tapas), usando um senhor trunfo que têm na mãos. A saída proposta pelos Brians foi de chocar até o decenauta mais indiferente.


Há de se elogiar a tensão da narrativa, que deu a dimensão exata do horror dos heróis em ficar frente a frente com um ser que poderia varrê-los da existência com um mero pensamento, por tédio, capricho ou descuido. É aterrador.

No mais, é difícil prever quais serão os desdobramentos dessas novas informações. À primeira lida, parece uma compilação de furos implorando para serem delatados, subvertendo tudo o que se soube do personagem até hoje. Mas sendo Beyonder quem é... ou quem não é... tudo é possível.

A conclusão, é claro, é totalmente aberta, dando a entender que assim ficará por um bom tempo. Evaziva e incompleta, como o próprio personagem.

Nada mais adequado, afinal, como já dizia o espetacular Stan Lee... "'Nuff Sa

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