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Lembro de quando vi o primeiro Jogos Mortais (Saw, 2004) e o sentimento era de que ainda existia vida inteligente em filmes que tratam do medo das pessoas, do sentimento mais cru do ser humano: o instinto de sobrevivência. Aquele trabalho foi muito bom; ouso – e não sou o único – a dizer que, de certa forma, era um filme que redefinia o gênero, criando uma linha um tanto quanto distinta nesta coisa de filmes-de-suspense-com-serial-killer, linha esta bem distante de Se7en – não concorrente – sentido inverso do que dizia a besta que criara a outra tagline.
Bem, como toda redefinição de gêneros, novas boas obras só costumam surgir em outros universos ficcionais, deixando clara a influência, mas assumindo identidade própria. Arriscar continuações da mesma franquia é dançar frevo na beira do precipício, ou seja, a queda é certa; é mais do mesmo; a história está aí para provar. Filmes que destacavam-se pela inventividade e tentavam uma seqüência caiam sempre na mesmice (A Noite dos Mortos Vivos, MIB etc), dando a impressão de que era o mesmo filme com atores novos, uma refilmagem. O próprio Se7en, na sua linha, deixou que outras produções explorassem o mesmo tema, sem arriscar se expor ao ridículo de uma continuação desnecessária, já que o primeiro amarrava todas as pontas possíveis (e aqui destaco que David Fincher é um dos meus preferidos – Se7en e Vidas em Jogo são obras-primas).
A continuação de Saw era óbvia, diversas pontas ficaram soltas ao final do primeiro e o sucesso alcançado nas bilheterias com tão pouco investimento trazia a certeza de uma continuação. E com o anúncio da sequel veio também a notícia de que os membros da equipe criativa do primeiro, apesar de já ter o rascunho do roteiro do segundo pronto, resguardariam-se ao papel de produtores, o que trazia ainda mais apreensão quanto à qualidade. Tudo isto (e mais os comentários negativos de amigos e fóruns) contribuiu para que minha expectativa baixasse absurdamente, a ponto de deixar passar algumas semanas de sua estréia para assistí-lo. E novamente digo: ainda existe vida inteligente em filmes que tratam do medo das pessoas, do sentimento mais cru do ser humano: o instinto de sobrevivência.
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Jogos Mortais II (Saw II, 2005), numa sinopse básica, trata da relação de um policial que vem vivendo um momento de crise com seu filho e, em paralelo, envolve-se em um caso do serial killer (apesar de nunca ter efetivamente matado ninguém) Jigsaw. Em um destes casos o psicopata coloca 7 ex-detentos e mais o garoto numa casa infestada de gás Sarin, com tempo de vida de 2 horas, sendo que a única coisa que o policial pode fazer é olhar. A partir daí, o filme toma um rumo que faz com que o espectador sinta-se assistindo realmente mais do mesmo. Algo básico, meio sem graça e previsível, deixando de lado a inventividade e caindo de cara no caldo da mesmice hollywoodiana. Este sentimento só muda com o final, quando quem viu o primeiro percebe que o roteirista, psicopata em potencial, idealizou os dois filmes de uma vez só. Aqui cabe uma reverência a Leigh Whannell. Ele era o fotógrafo preso no banheiro do primeiro filme e que assinava o roteiro em parceria com James Wan. Aqui, como já dito, não protagoniza, mas também assina o roteiro em companhia de Lynn Bousman. Percebe-se que a mente por trás do todo é realmente a dele.
Jogos Mortais II mantém o nível do primeiro filme. Ele parte de princípios fundamentais para quem deseja respeitar a inteligência do público, ao assumir que: [1] – já sabemos quem é o psicopata; [2] – já sabemos suas motivações; [3] – escondê-lo não tem mais efeito algum. Abusar destes pilares, base do primeiro filme, seria jogar água no feijão para esticar o almoço. Mataria a franquia. Então ele faz justamente o contrário, ou seja, pega estes três pilares e coloca em super-exposição. Vemos e "conversamos" com o psicopata durante a maior parte do filme, sendo que a todo tempo ele mostra todos os pontos que levarão à montagem do quebra-cabeça final, criando um elo com o anterior que chega a secar os olhos de espanto. Planejamento é o que há.
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Acrescentando mais um ponto em que Whannell demonstra o respeito pelo público, aqui ele deixa de lado outra das armas do primeiro filme quando, para criar impacto, mostra diversas armadilhas de Jigsaw, sedimentando seu perfil e background. Agora temos apenas um, mas que é ponto necessário para o que fica em tela durante todo o filme e, depois, percebemos que era mais um meio para outro fim.
A estrutura do anterior, com os pontos destacados mais acima, conferia à narrativa um ritmo cadenciado, dando coesão aos eventos. Aqui, tendo tudo estabelecido, a cadência dá lugar à força e ao sentimento de caos que impera, mas mesmo assim previsível, arrumando a cama para a festa de viradas dos últimos 15 minutos. Tudo aqui é maior: a ação, os ambientes, os conflitos e a armadilha. Sabemos que o que vemos não é o que acontece, mas a obviedade proposital dos três quartos de filme cria dúvidas quanto à capacidade de inovar no final. E temos ainda outra questão: dizem por aí que algo que acontece uma vez, pode não acontecer uma segunda. Mas se acontece a segunda, a terceira é inexorável. Só que Jigsaw, como sabemos, é canceroso. Esticá-lo até um terceiro filme seria uma ofensa que não condiz com o trabalho até aqui, então deve-se pensar na continuidade. A solução, clichê, é o único ponto fraco, mas não desabona a qualidade do filme que, novamente com atores desconhecidos, mostra como uma boa história pode se sustentar sem rostos famosos ou CGI a todo tempo, mesmo com um furo aqui e ali que dá para ignorar pela continuidade do filme.
E novamente baixo minha expectativa para um terceiro. Ainda bem.
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