terça-feira, 17 de junho de 2008

ELE ESMAGA


Tiraram o Hulk do divã. Se em O Incrível Hulk (The Incredible Hulk, 2008) ainda havia algum resquício de drama psicológico, foi prontamente esmagado na edição final. Mais notadamente uma cena constante no trailer, em que Bruce Banner (Edward Norton) comenta com o Dr. Samson (Ty Burrell) sobre seu problemão complicado. Chega a ser simbólica a retirada da seqüência, entregando o tom que predomina no resto do filme. Menos é mais aqui. Nada de traumas familiares e muito pouco sobre a dualidade do personagem. Sai a tragédia grega e entra luta greco-romana. Porrada de monstro gigante em Nova York. Na contramão do que fez Ang Lee em sua versão do Hulk, o cineasta francês Louis Leterrier limou tudo que fosse mais complexo do que um direto de esquerda - o que corresponde, em essência, por coisa de 70% de tudo que o herói tem a oferecer unilateralmente. Difícil mesmo é saber quem é o pai da criança verde anti-Jungiana aqui presente.

Não é de hoje que a Marvel Studios *** regards for the 2nd full-lenght, motherfuckers *** brada aos sete quadrinhos que o filme seria uma chuva de uppercuts e que Sigmund Freud não passa de um moleque. Ou seja, é projeto comercialmente bem pensado em disputadas reuniões de marketagem, o que eu adoro imaginar como seriam. Afinal, o que é hit hoje em dia? Pra início de conversa, tem de ser compatível com PS3. O resto ainda está pra ser identificado.

O filme também ganhou as tradicionais intervenções do Incrível Norton. Dizem que o ator sabe tudo de Jack Kirby, Stan Lee, Hulk e Base Gama e que seu hobby diário era reescrever partes do script. Ele mesmo declarou que não haveria outra maneira disso acontecer¹, o que revela uma confiança no próprio taco poucas vezes percebida na indústria - mas não tão bem-sucedida, já que a enorme relação de cenas e referências (bacanas!) deletadas quase configuram um novo longa com pegada totalmente diferente. Muito disso se deve ao fato de que O Incrível Hulk, em toda sua simplicidade providencial, é produto de um diretor cujo currículo ostenta produções como Cão de Briga e Carga Explosiva. Nada me tira da cabeça que ele foi um operário que seguiu à risca os memorandos vindos do último andar em envelope azul timbrado.

E realmente impressiona como esta proposta que privilegia o básico rende tanto. Faz parecer que a Marvel ou a Universal tinham esse filme na manga o tempo todo, tamanha a, por assim dizer, 'facilidade' da fórmula. Apesar de estabelecer uma seqüência situacional exata para o filme de 2003, O Incrível Hulk não é uma continuação no sentido usual. As relações aqui estão muito mais estreitas com a telessérie dos anos 70 - incluindo a leve alteração em sua origem, que ficou idêntica - e convergindo com a memorável fase de Bruce Jones nos quadrinhos, por sua vez influenciada pelo seriado. Em que pese também a dispensada geral do (excelente) elenco anterior. Além de Norton e Burrell, a nova escalação muda o discurso e o tom de voz e, mesmo não parecendo tão impressionante, mantém o alto nível.


Liv Tyler confere um espírito docemente emocional a Betty Ross, evitando as arapucas de pieguice espalhadas sorrateiramente pelo roteiro. Qualquer atriz menos atenta cairia fácil ali. E ainda se utilizando do inusitado bom humor de determinadas cenas, Liv constrói uma persona simpática e humana, diferente da introspecção deprê da deusa Jennifer Connelly (que tal um filme alegre, Jen?). Já William Hurt, na minha opinião, ficou com a tarefa mais árdua, que é abordar um personagem há pouco imortalizado por Sam Elliott. Mas no fim das contas, o General Thaddeus E. "Thunderbolt" Ross acabou ficando menos paternalista e muito mais análogo ao perfil do personagem nos quadrinhos. Raposa velha do Exército, o General aqui é um milico escaldado, cínico, com objetivos simples a cumprir e quase nenhum escrúpulo para atingí-los.

Senão vejamos: consegue em pouquíssimo tempo autorização diplomática ou simplesmente invade uma nação soberana - arram - para capturar um fugitivo, monta uma operação militar em larga escala numa área civil e ainda transforma o Harlem num imenso queijo suíço. Provavelmente ele se justificaria na corte marcial dizendo "A verdade...? Você não suportaria a verdade, filho..."

Em uma palavra: espetacular.

Um dos méritos de Louis Leterrier foi defender, com bravura de um terrier, a contratação de Tim Roth, que não constava nos planos originais nem da Marvel, nem de Norton (!). O sujeito é de escola clássica britânica. Trabalha fora da alçada minimalista na qual funciona o cinemão mainstream. É o que salva Emil Blonsky de afundar em sua própria unidimensionalidade. Ele é o retrato de um psicopata em formação, obcecado por auto-superação no campo de batalha. E vê no Hulk mais um reflexo do que ele quer ser do que qualquer outra coisa.

Aliás, o Abominável - que não é "O Abominável", mas apenas Emil Blonsky - rouba a cena. E não me refiro só aos efeitos.


No filme, o vilão não é calcado no design reptiliano dos quadrinhos e suas motivações originais foram pra vala junto com a Guerra Fria. Também se mostra mais forte que o Hulk e, após a transformação, mantém sua personalidade humana quase intacta - ainda que embriagada pelo poder recém-adquirido. O visual é uma aberração genética estranha e interessante (uma batida de frente entre o Louco e o digníssimo D'Compose, dos Inumanóides).

Mas a coisa engrena mesmo quando o monstro chama todo mundo pra porrada com seu vozeirão gutural. Contextualmente é quadrinhos puro. Não é que funciona legal na telona?

E o Hulk. Por mais uma vez, Edward Norton...




...vomita seu monstro interior e busca redenção em experiências de catarse fim-da-linha com sérias implicações físicas. Pela ficha filmográfica do ator, que se especializou em personagens com dupla personalidade (conscientemente ou não), o Hulk seria quase uma instituição suprema. O papel de sua carreira, artisticamente falando. Bom, seja lá como teria sido a química ator/personagem, ficou barrada na edição, já que o filme segue impávido em seu direcionamento simplista. Portanto, sem maiores conflitos psicológicos/evolutivos/existenciais aqui. No máximo, uma amargurazinha pela saudade da vida de cientista bem remunerado e de pegar a filha do cantor do Aerosmith. Banner consegue administrar a existência do Hulk quase numa boa, com ações práticas e um justificado auto-policiamento paranóico.

O primeiro ato do filme é particularmente divertido para nós, gigantes adormecidos. Com pouca estilização, considerando a dinâmica gringa in Brazil, atores locais feiosos e ruins - excetuando a fabulosa Débora Nascimento - e uma dublagem tosquíssima, a comunidade da Tavares Bastos se saiu bem interpretando a Favela da Rocinha. Deu a impressão de que a qualquer momento Bruce Banner toparia com o Capitão Nascimento ali (não topou, mas em compensação levou tapa na cara de Rickson Gracie!). E os rasantes nos morros ficaram sensacionais, principalmente nas cenas de ação. Impressionante até pra nós que estamos acostumados. Imagina então para platéias da Holanda, da Suécia...

Quanto à alardeada pancadaria final de 30 minutos, apesar de fantástica mesmo, não foi tão longa assim. Achei até rápida demais. Hulk partindo um carro ao meio e usando como soco inglês foi ácido puro, cara. Blonsky sentando a bicuda no Verdão e o fazendo varar um edifício também bateu forte na cachola. A treta toda quase sai dos trilhos de tão legal. Quase. Sem pensar muito, dá pra considerar como a melhor luta de uma adaptação cinematográfica de quadrinhos - justamente porque os concorrentes foram, quando muito, apenas corretos neste sentido. Aliás, cabe dizer que muita gente inocente morre ali, fora as não contabilizadas em cena e os pobres soldados que estão aí pra isso mesmo.

Um detalhe interessante é que a certa altura, o iracundo Hulk entra de sola num Emil Blonsky ainda não totalmente modificado (letalmente, portanto), ao melhor estilo "This - is - Espartaaaa!!!!". Coincidência ou não, Peter Mensah, o homem que entrou pra História como o mensageiro persa vitimado pela fúria de Leônidas, está no filme. Essa passou perto, hein Mensah.

O roteiro ainda deixa um cliffhanger esperto para uma continuação com, talvez, o maior inimigo do herói. A citação à mitologia do Capitão América, apesar de exageradamente superficial, foi bem inserida - assim como as pontas bem sacadas do velhinho Stan e do ex-Hulk Lou Ferrigno. E uma cena especialíssima - que eu temia que fosse pós-créditos, mas ainda bem que não - marca a virada definitiva nas incursões dos quadrinhos pelo cinema. Sim, está acontecendo mesmo. Finalmente. "Eles" vêm aí.

O Incrível Hulk é ótimo. É exatamente aquilo se pretendia ser. Anos-luz melhor que Homem-Aranha 3 e os dois Quarteto Fantástico, menos divertido que Homem de Ferro e, em regra, nem de longe tão perfeito quanto será The Dark Knight.

E tenho dito!

Na trilha: compilaçãozinha matadora do Social Distortion. E a certeza de que Liv Tyler é linda, mas Débora Nascimento...



...é incrível.

17 comentários:

JP disse...

Particularmente, gostei mais do "round 2" que do "round 3".

E a diferença das duas encarnações do General Ross merecia um post à parte, pois o personagem apresenta o tom ideal para a proposta de cada filme.

Alcofa disse...

Débora Nascimento é gostosa bagarai!!!!!!!!!!!!

Morria em cima dela!

Enfim (e me recompondo).. aham...

Também gostei do filme e achei ele até agora um dos melhores filmes da Marvel (ma hombre de fierro encabeça a lista), mas indiscutivelmente (olha que até me dói assumir isso), Batman TDK será BEM melhor. Nolan é foda. Simples assim. Bale manda bem bagarai. O cara é o Wayne em pessoa. Até o olhar arrogante de Batman ele tem...

Mas esperemos agora o filme do Thor e do Cap ... se bem que o Luwig apontou bem lá no AM: o filme dos Vingadores poderia ter aquele ar de Supremos, com o capitão tendo sua história contada ali, como um personagem principal ...

Mas eu quero mesmo é um filme dele ! heheheh

abração!

PS: já escutou o novo do Death Angel?

Foda!

Paulo Bala disse...

Crítica de quem gosta de quadrinho é outra coisa. Muito boa resenha.

Marcus,o Olimpio disse...

sei que foge da temática mas eu tenho que dizer: EU FARIA QUALQUER COISA POR ESSA MULHER.QUALQUER...COISA.
E é injusto comparar os dois filmes.
Só imagino porque a Warner,que tem direitos sobre todos os personagens da DC,não criou um universo cinematográfico como esse que se forma com a Marvel...

Fabio Martins - Kalunga disse...

Débora Nascimento rules!!!

Doggmaaaaaa!!

caralho, estou louco pra ver o filme, todos os meus amigos foram ver e piraram. Tua resenha tá muito instigante, e achei muito pertinente a analogia da mudança entre os dois filmes: a tragédia grega e entra luta greco-romana

Eu gostei do filme do Ang Lee justamente por conta do existencialismo de sua versão. Porém, aquele monstrengo verde daquela produção realmente beirou o ridículo nas telas, em termos de (d)efeitos especiais.

A propósito, muito foda também tua resenha do Indiana Jones, que eu demorei p/ comentar pq queria ver o filme antes. O Velho Indy é sim aquele brother meio sacana que trouxe de volta uma atualização do que os anos 80 produziram de melhor no cinema: os filmes de ação. E com a nobre adição do "teor Arquivo X", para não soar datado às novas gerações

Sobre o Edward Norton, realmente parece que acertaram em cheio na sua escolha. Ainda mais tendo no curriculo o Clube da Luta, um dos filmes mais fodas que já vi na vida...

um grande abraço e vou instigadaço ver o Hulk.

Luwig disse...

Bem, todo mundo sabe que a Jen é uma fanfarrona, mas daí o James amarelar?

Lavô, emborcou, tá novo, cumpadi!

E logo ele, que deu umas chibatadas na Madame Hidra vem dar uma de cordeiro. Fala sério, pensei que ele era carcaTjuDO!

Quanto ao Hulk, o finalzinho mesmo... é um barato, quando fica no ar a dica que o Bruce aprendeu a controlar a fera (e gostou disso). Não sei se tem alguma coisa a ver, mas lembrei de cara do Norton em 'As Duas Faces de um Crime' se revelando aos 49 do 2º tempo!

Abração.

Sandro Cavallote disse...

Pra mim, seu melhor texto desse ano. A sequência de imagens Durden/Hulk ficou muito bem sacada. ´

Quando vc escreve de filmes de quadrinhos, imagino sua boca salivando, cara... hahahahahaha

Fabio Martins - Kalunga disse...

Social Distortion é uma das bandas mais fodas de todos os tempos de minha vida!!!

Cold Feelings!!!!

Mike Ness, pelo visto, vai demorar a baixar por aqui, que merda...

meu disco preferido do Social Distortion ainda continua sendo o "Somewhere Betwheen Heaven and Hell", sendo que o "Prison Bound" é um dos discos mais perfeitos de se ovir na beirado mar de um inverno qualquer... estou bêbado agora

doggma disse...

JP, o Ross dos 2 filmes são quase contrapartes de universos paralelos, o que só enaltece o trabalho incrível dos atores. Achei muito interessantes as (sutis) diferenças entre os dois. P.ex... no final um permaneceu incansável na trilha, sondando a filha meses depois, enquanto o outro foi pro bar curar a ressaca gama. O Ross-Elliott tinha uma questão mais pessoal a resolver com o Hulk, enquanto o Ross-Hurt é mais corporativo, calculista e joga sujo - talvez pelo fato de que, em seu universo, ele ainda tem de lidar com as "ameaças" Tony Stark e Shield querendo abocanhar a máquina militar. Enfim, dá um post, um quadrinho, um filme e ainda vai ficar sobrando coisa aí.

Alcofa, fico imaginando como deve ser difícil pra você admitir isso, cara... tsc. :) Ouvi o novo D.A. ainda não. Vou cuidar disso agora.

Bala: valeu!

O Olímpio - a Warner também tem aquele canal horrível, com tanto material bom (deles mesmos!) que não é exibido. Enfim, é um bando de loucos. Mas de vez em quando até que sai um JLU, como exceção à regra.

Luwig: bem lembrado. Acho que o Banner retornando com a fera controlada é uma boa. Além de ser Ultimates puro. E o Wolvie... entendi essa também não. Não deve ser chegado numa verdinha. Ou não tem gás pra dar as 347 trepadas/hora requeridas pela Jennifer.

Sandrobixby >> tu imagina o Mumm-Ra escrevendo aqui então, né.

Kalunga, Kalunga... para de beber, rapá. Isso faz mal, rs...

Fivo disse...

Rapaz... muito boa resenha... e essa mulé éum esculacho.

Só não entendi de onde veio a Jen e o James no assunto...

doggma disse...

Entendi sua pergunta não, mas ela me fez lembrar a Jenna Jameson... maravilhosa...

Fabio disse...

Ei Dogg tu saiu do orkut fio??

Hulk

Anônimo disse...

Dogg tenho um amigo nos eua q trampa na imprensa
Ele viu o filme novo do batman...
Tipo ele nunca, nunca falou empolgadamente de um filme nos dez anos q eu conheço ele...
O cara ligou dos estados unidos pra cá e ficou uma hora e meia comigo no telefone falando assim...
"PUTA QUE PARIU CARA VC NAO ACREDITA COMO ESSE FILME EH FODA, FODA, PUTA QUE PARIU QUE PUTA FILME, PUTA QUE PARIU EU AMO SER JORNALISTA NOSSA MAS ENTÃO O FILME CARA, PORRA PUTA FILMAÇO!!"

E por aí vai...

Hulk

doggma disse...

Pqp, Hulk maldito... tá querendo me matar de ansiedade?

Luwig disse...

Hey Dogg, tô passando só pra te mostrar essa:

http://www.comicartcommunity.com/gallery/details.php?image_id=29223&mode=search

Se fosse feita pelo Suydam...

Luwig disse...

ihhh... num foi, o link é grande.

Procura na Comic Art Community algo com "Green Lantern #85 - Zombified!"

Abração.

doggma disse...

hahah!! Espetacular a zumbificação do Drogadito! Até salvei. Valeu!

Rapaz, falar nisso, tava checando uns trampos mais antigos do Suydam... umas pinups, uns paintings que ele fez do Alien... Putz, o cara é foda!