sábado, 3 de outubro de 2009

UM ZUMBI NO CAMPO DE CENTEIO


Criador de uma verdadeira mitologia moderna, George A. Romero resgatou os zumbis do regionalismo arcaico que os envolviam. Desde 1968, ele vem universalizando as criaturas, num avanço através de fronteiras culturais e midiáticas que ganhou contornos de cruzada pessoal. Diferente de outras figuras míticas e folclóricas, os conceitos dos zumbis não ecoaram por séculos ou milênios de superstições populares. Ao retirar o morto-vivo das aldeias haitianas, Romero repaginou tudo, das regrinhas mais básicas ao contexto social, há somente quatro décadas atrás. Porém, ele também foi deixando uma trilha de questões não resolvidas pelo caminho. Fora o ciclo de contaminação e o ponto fraco dos zumbis, pouco foi descoberto daí em diante. Perguntas do tipo quem são/de onde vieram/pra onde vão, ainda persistem.

É certo que o elemento desconhecido conferiu um charme único às criaturas. Com o tempo, virou parte integrante do cenário, tão importante quanto a análise do comportamento humano em situações de crise e o sangue jorrando com nacos de carne mastigada (slurp). Romero brincou com a curiosidade do público e instigou mais ainda. Já em seu clássico inicial, A Noite dos Mortos-Vivos, ele colocava sobreviventes se afogando num oceano de informações desencontradas - desde radiação trazida por um satélite retornando de Vênus e um vírus transmitido pelo ar até a clássica punição divina: "quando o inferno estiver cheio..."

E assim caminham os mortos-vivos, felizes da vida (ou da morte) com sua origem à francesa. Isso, pelo menos até julho do ano que vem.


"The Living Dead" será o debut de Romero na literatura e vem sendo saudado como o Corão zumbi. Segundo a editora britânica Headline, o livro "contará a história completa dos mortos-vivos: como eles foram criados, o que podem e o que não podem fazer". Tudo começa em San Diego, quando um cadáver levanta durante uma autópsia e começa a andar, enquanto um repórter de Atlanta transmite flashes do caos tomando conta do globo. O editor Vicki Mellor prevê para o próximo ano uma onda de livros com zumbis (em contraponto aos incontáveis livros com vampiros publicados em 2009) e que certamente será encabeçada pelo mestre Romero. Faz sentido, afinal, seria algo como um CliffsNotes para o Necronomicon escrito pelo próprio capeta.

Romero finalmente - ou infelizmente - vai esclarecer a tão misteriosa origem de seus zumbis. Após tantos anos, o mestre vai vender o ouro pelo vil metal ($300.000 só de adiantamento pelo livro e mais uma sequência) e provavelmente não irá superar a expectativa, esse monstro obscuro que ele mesmo alimentou por décadas a fio.

Meu sentimento a respeito é meio dúbio. Lerei, obviamente. Até porquê, já faz algum tempo que minha imaginação implora por algo mais que o (ótimo) Guia de Sobrevivência a Zumbis. Contudo, não estou, nem nunca estarei preparado para tal desmistificação. Não se pode ter tudo, mesmo quando se tem.

Info: The Guardian

5 comentários:

Nuno disse...

Se você gostou do Guia de Sobrevivência, então não deixe de ler World War Z, do mesmo autor. É um livraço.

Marcelo disse...

Capitão Nascimento já dizia e faço minhas as palavras dele: Isso vai dar merda.

Sandro Cavallote disse...

Cara, depois de me ter feito ver Fido, minha cota de zumbis está lá embaixo... aguardando ansiosamente Zumbilândia ou Extermínio 3 (Se Boyle quiser..., mas foda-se tudo porque esse link de posters pop-art que colocou aí do lado merecia um post... queria uma camiseta com cada um deles...

Kd o texto do Christopher Prawn, porra?

joão thiago disse...

A origem dos Zumbis? Depois disso virá a resposta para a pergunta tostines e a origem da vida (ovo ou galinha?)

Romero não precisava contar o porque das coisas... Mas, já que alguém vai contar, que seja ele!

JT

Luwig disse...

Como diabos é possível? Nunca vi por aqui nenhuma linha sequer sobre o 'The Walking Dead' do Bob Kirkman? Na boa? Fácil, fácil, o melhor derivado da epopeia romeriana.