quarta-feira, 28 de agosto de 2013

The Dark Affleck Returns

O anúncio foi feito, não adianta espernear. E vai se acostumando, pois a coisa deve ir longe.


"Sim, Comissário. É o Batman."

Grandes estúdios não têm o hábito de plantar trollagens em escala global sobre seus projetos mais aguardados. Sendo assim, vamos destrinchar um pouco melhor essa porrada que você tomou quando abriu seu browser naquela manhã de sexta-feira (que não era 13, mas era 23).

O projeto do crossover cinematográfico do Batman com o Superman não é novo. Há pelo menos 10 anos vem sendo ruminado pela Warner, mesmo antes do boom super-heróico via Marvel Studios. Mas sempre retornava à gaveta, talvez pela falta de precedentes de um universo integrado dos quadrinhos no cinema. O mais perto que chegaram foi em 2002, num projeto que seria dirigido por Wolfgang Petersen (Mar em Fúria) e que acabou não saindo do papel - felizmente, visto que o script era uma trasheira de grosso calibre.

Mesmo o enorme sucesso da trilogia do Batman de Christopher Nolan não parecia animar os executivos a apostarem numa série de franquias interligadas. Mas os filmes da Marvel chegaram e mudaram as regras. Foi um sinal verde para a Warner e até para a Fox, que já quer os X-Men coexistindo com o Quarteto Fantástico no cinema.

Parafraseando Marcelo Rezende, corta pra 2013: Ben Affleck como o novo Batman já é o maior meme ligado à adaptações de HQs dos últimos anos. Fazia tempo que um filme em pré-produção não gerava tanto feedback - a esmagadora maioria negativa (71% dos tweets, desde a última medição), num consenso que reconhece a trajetória ascendente de Affleck como cineasta, mas que ainda não o livra da condicional por ter protagonizado Demolidor - O Homem Sem Medo em 2003.

É injusto dizer que foi culpa exclusiva dele o fato dessa adaptação ter sido decepcionante. Mas teve a sua parcela...


Em geral, as vozes a favor defendem sua evolução como ator e/ou condenam veementemente a expressão de opiniões sobre algo que ainda nem saiu do papel. Mas dedução e especulação são habilidades desenvolvidas pelo ser humano ao longo de milhares de anos de evolução. Não vamos reprimi-las agora, não é?

Primeiro os contras.

A contratação de Affleck representa não apenas um enorme retrocesso no programa de adaptações cinematográficas da DC, mas principalmente, revela que os executivos da Warner ainda não compreenderam o fenômeno. Herói com um rosto conhecido do grande público? Não há necessidade disso e talvez nunca houve. O público que irá lotar as primeiras sessões será o mesmo que compra os quadrinhos religiosamente há anos e o mesmo que espalhará a palavra aos 4 cantos da internet. Simples assim. Essa estratégia de "rostos familiares" como chamariz de público leigo deve ser relegada ao núcleo coadjuvante, como foi feito em O Homem de Aço - e penso agora que a escolha de Henry Cavill deveu-se mais à influência de Christopher Nolan que qualquer outra coisa.

Talvez a ideia seja fabricar um novo Robert Downey Jr. que conduzirá a DC à terra prometida de Hollywood. Mas parece que esqueceram que Downey Jr. foi cozinhado em fogo brando nos dois longas que precederam Os Vingadores e, principalmente, esqueceram quem ele era antes de vestir a armadura do Homem de Ferro. Uma dica: não era um mega-star.

O fim da trilogia "realista" do Batman também marca o início do grandioso UDC nas telonas. Isso não é pouco. Estamos num daqueles momentos-chave, onde novos conceitos e abordagens têm que ser explorados. E o morcego, com perdão do trocadilho, precisa de sangue novo. Não de um déjà vu.

Há uma sensação muito forte de que Ben Affleck não é Bruce Wayne. Nunca imaginei o sr. Wayne com a cara do Christian Bale também, mas, além de ser um ator diferenciado, Bale emergia de um background sombrio, perturbador e visceral, construído com performances memoráveis em filmes como Psicopata Americano e O Operário. Em outras palavras, não deu certo por acidente. Bale já estava com um pé no velho poço abandonado.

Também foi escrito por aí, ad nauseum:

"A escolha de Heath Ledger para o papel do Coringa também foi duramente criticada na época e antes ele era o cara de '10 Coisas que eu Odeio em Você'". 


Primeiro, as reações nem chegaram ao calcanhar do Bat-Affleck. Segundo, o Coringa é um passe livre para a anarquia, do tipo do-or-die/tá-com-medo-pra-quê-veio, sem meio-termo, um presente pra qualquer ator com sede de improvisação. Já o Batman é outra viagem, completamente oposta em tom, atitude e racionalização.

Quanto à 10 Coisas, uma comédia inofensiva, foi o pior argumento usado até agora. Afinal, até James Cameron carregou piano.

Também tem a variação piorada: "...antes ele era o cowboy boiola de 'Brokeback Mountain'".

O que, ao meu ver, é um grande elogio. Ledger, que já tinha impressionado em Os Reis de Dogtown, demonstrou ali o reflexo de um ator comprometido com a arte, ciente do papel e da dimensão de sua profissão e sem medo de desafios. Ou seja, a escolha só revoltou neófitos mesmo. Definitivamente, o Ledger-Coringa não é o parâmetro para essa comparação. Pelo menos não numa conversa séria.

Mas o maior problema é que Ben Affleck (ainda) parece um garotão boa-praça. Não vejo amargura, obsessão, rancor ou austeridade no seu olhar. Não consigo vê-lo dando esporro no "Clark" e enfiando lições de vigilantismo cinza-fascistóide naquela mentalidade pacata do Kansas.

Os prós?

Affleck de fato evoluiu como ator na última década. Nada estratosférico, apenas o suficiente para transitar pela tela discretamente e não cimentar os personagens em seus próprios maneirismos. Inclusive aprendeu até a dissimular tensão e seriedade de forma natural e convincente.


"Sr. Wayne, seu projeto de pesquisas está pronto." - "Obrigado, Lucius."

A maioria das críticas lembra de sua atuação como o Demolidor, pela semelhança óbvia de ser outro vigilante noturno dos gibis. Mas esquecem seu eficiente desempenho na pele do agente Jack Ryan, no thriller A Soma de Todos os Medos (2002), sucedendo ninguém menos que Alec Baldwin e Harrison Ford. Foi um dos melhores laboratórios que um ator poderia ter feito para o papel de Bruce Wayne/Batman. Espionagem, conspirações nos altos escalões do governo e deadlines dramáticas dividindo espaço com intensas sequências de ação - parece mesmo um dia no escritório do cruzado encapuzado.

Mas o mais importante é que Affleck transmitia credibilidade no papel. Sim, ainda soava como um novato, porém, um talentoso, confiável e obstinado. E com segurança o suficiente para duelar com gigantes do porte de Morgan Freeman, James Cromwell e Ciarán Hinds. A longeva aura de californian boy foi quase totalmente apagada.

Isso foi há onze anos - curiosamente, um ano antes de Demolidor. Se o Batman de Affleck for mais Jack Ryan e menos Matt Murdock, já é um começo.

Talvez o melhor aspecto dessa improvável parceria seja as ramificações do misterioso contrato. Os burburinhos dos sites de cinema dizem que o acordo é multifranqueado. Affleck se tornaria assim o responsável pelos próximos longas do Batman no cinema. Um acordão.


É inegável que Affleck se tornou um cineasta muito interessante. E não é de hoje: já em sua estréia na direção, no bom Medo da Verdade (2007), ele impressionou com uma construção sólida e um storytelling seco, sem perfumarias. Aliás, o crescendo atmosférico é das suas melhores características. Ele não tem pressa e valoriza o build up, ao contrário do estilo recortadinho de Nolan. Outro destaque é a sua estratégia de deixar os atores bem à vontade e com bastante espaço para trabalhar, mostrando que ele viu com atenção os filmes dirigidos pelo Clint Eastwood.

Sem dúvida, é um diretor cuja visão do Batman eu gostaria muito de conferir. Mas, pesando os prós e os contras do que sei sobre o dossiê Affleck, não diria que foi uma boa escolha como o ator que envergará o manto. Ainda mais com tantos candidatos em que a carapuça (ou a capa) cairia mais naturalmente. Aquele lance da afinidade com o lado negro, saca.

Enfim, coisas da Warner, como sempre. E tome o vídeo do Kevin Smith de novo.

Aliás...


...fico só imaginando o que Holden acharia disso.

Ps: Ok, ok, Bryan Cranston como Lex Luthor foi bola dentro...

5 comentários:

Fernando Terroso disse...

Eu acho o Affleck um bom ator, mas me acostumei com o Bale como o Homem Morcego que para mim fez um bom trabalho, mas quem manda é Hollywood...

Filmelixo

joão thiago disse...

Eu sempre lembro de "A soma de todos os medos" e do fato de Ben Afleck andar com kevin Smith, um batmaníaco de carteirinha. Eu acredito em Ben Afleck!

Raid disse...

Essa comparação com o Ledger é muito ruim mesmo. Ele já era considerado um bom ator, indicado ao Oscar e tal, fez Ned Kelly e A Última Ceia. Poderiam ter preconceito com a aparência dele, mas pô, era o Coringa, iria pintar a cara mesmo.

Já o Affleck, tem uma carreira bem mais extensa, já passeou por todos os gêneros e não convenceu em nenhum. Atuações realmente dignas de nota, só em Procura-se Amy e Holywoodland.

Bale é method actor, já o Affleck sempre repete o mesmo personagem engravatado.

Luiz André disse...

Uma olhada rápida pelas notícias e repercussões desta contratação de Ben Affleck para ser o novo Batman - não apenas na sequência de Homem de Aço, mas também para mais filmes, inclusive uma provável adaptação de Liga da Justiça pra os cinemas - prova que a Warner está tratando seus personagens no cinema assim como os trata nas HQs: o fator dinheiro fala mais alto que as histórias e de como o ponto A chega ao ponto B, causando incoerências narrativas e caos editorial. Quanto ao filme, pelas projeções, esta nova empreitada do Superman não obteve a quebra de mais um bilhão de dólares de arrecadação que se tornou uma prerrogativa para os filmes de super-heróis, o que fez com que uma notícia impactante - e um personagem obviamente rentável - venha "socorrer" a recém-iniciada franquia. Nestas horas, é melhor deixar que o rio corra sozinho ao invés de tentar acertar alguma previsão ou ficar amaldiçoando os executivos da Warner por tomarem decisões voltadas tão somente pela polêmica e pelo lucro fácil (!?!).

QUEIROZ disse...

Quando anunciaram a possibilidade de Ben Affleck dirigir o filme da Liga da Justiça, achei interessante por ele ser um bom diretor, imaginei uma pegada ala a série animada da Justice Leage, que varia entre os momentos dark e divertidos.

Quando soube de primeira que o Ben Affleck seria o Novo Batman, me desanimou em função do fato que a ideia para o Batman desse Homem de Aço.2 seria de um Batman veterano para um Super novato, eis que dava como certa que Josh Brolin sobraria na peneira de vários nomes que incluia até um ator de true Blood(NOT).

O que sinto é que estão botando dois aprendizes um ao lado do outro, e apesar de Affleck já ser 40tão ainda não chegou lá no que tange ser um grande ator.

Meus brothers do Quadrimcast já disseram que ser grande ator não seria O critério para o SuperHeroismo, esquecendo claro os grandes Hugh Jackman, DowneyJr, Cristopher Reeve, Cristian Bale, Edward Norton(alterego e bem verdade), mas se pensarmos em Tobey Maguire, Andrew Garfield, Ryan Reynolds, Cris Evans, são exemplos que o critério de bom ator não conta.

Eu enquadraria Affleck visto por exemplo Town(dirigido pelo próprio) que Affleck estaria na categoria Hale Berry que fora da esfera SuperHeroica manda bem, mas quando é convidada para esse universo manda mal.

Comparar com Ledger é equivoco realamente pois temos um grande personagem e um roteiro espetacular e uma entrega deveras um milagre chamado Coringa do Heath Ledger, que foi infelizmente a piada mortal para o ator que manda bem em I'm not there, e em REis de Dogtown cujo o personagem me fez imaginar como seria seu Coringa, pouco me importei com Brockback que após TDK vi umas cenas e achei o tom grave na voz se assemelhava em certos momentos do Coringa quando não adotava a voz anasalada.

O Affleck não me passa o lado dark do Batman, algo que até Michael Keaton olhando para o tempo me passava.

Em tons práticos se a ação do Batman nesse filme tiver a dinâmica do videogame ArkanCIty, e se o lado detetive tão esquecido durante 7 filmes(!!!) finalmente vier a tona, a máscara me fará esquecer a identidade "secreta" do ator.

Enfim, já teve um Fan Trailer para animar um pouquinho, visto que Bryan Cranston É LEX LUTHOR, isso sim me animou. =)

http://bit.ly/1cdBnVz

Eu sou otimista.