quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Abismo infinito


Gravidade é daqueles filmes de uma vida. Alfonso Cuarón pode pendurar a claquete a hora que quiser, sua missão na Terra (e no espaço) está cumprida. O que vier daqui em diante é lucro. James Cameron foi um dos primeiros a dar a letra: "Gravidade é o melhor filme de espaço já feito". Vou mais longe ao-infinito-e-além: é um dos melhores filmes já feitos. Daqueles que seguram sua mão e te levam pra passear pelo momentum cognitivo da 1ª vez que você entrou num cinema e saiu embasbacado com a experiência. O filme é bom assim. Ao final da sessão, meu primeiro impulso foi correr e avisar ao mundo as boas novas. Que o mainstream hollywoodiano ainda pode surpreender com conteúdo e inteligência. Que ainda tem capacidade para utilizar todos os seus incomparáveis recursos para um resultado diametralmente brilhante. Me contive, pra não incorrer naquilo que me faz azucrinar tanto amigos que disparam impressões a esmo pela rede no calor do momento e mandando às favas qualquer resquício de análise sóbria. Resolvi esperar a poeira baixar. Mas não baixou, longe disso.

Passados alguns dias, o filme ainda me acompanha com fidelidade canina, sempre me mostrando novos truques que eu ainda não havia percebido. Ainda estou lá, a 600 km acima da superfície terrestre, absorto em terror, incredulidade e ainda assim completamente maravilhado.

Gravidade me facilitou a vida: foi incrivelmente mais fácil e rápido registrar seu rating nos indexadores de filmes que utilizo (além de me lembrar como as raríssimas 5 estrelinhas embelezam o layout). Em contrapartida, me mostrou como ando condescendente com o cinema dito comercial produzido nos últimos 15 anos ou mais. Tive que rever a cotação de vários blockbusters que não têm nem a metade do valor artístico dessa obra-prima. Foi uma revisão leve mesmo, pois se fosse levar na ponta da faca, uns 60% deles seriam classificados automaticamente como lixos derivativos e sem alma. Obviamente não me refiro aos aspectos técnicos, nem tanto ao nível das interpretações. É o storytelling mesmo. Estão colocando nego mudo pra contar história. Gente que desconhece (ou esqueceu) noções básicas de construção, atmosfera, timing e tridimensionalidade. E malocando isso mal e porcamente atrás de montagens moderninhas e CGI vazando pelo escapamento.

Apesar do meu entusiasmo quase infantil, acho correta a afirmação de que dificilmente alguém terá adjetivos que façam jus à humilde grandiosidade do filme em sua complexa simplicidade (viu, ó o desastre). Talvez Jesus fase Sermão da Montanha e olhe lá. O que ficará para a posteridade é que Gravidade é uma celebração à tenacidade do ser humano frente às mais adversas situações, mas o filme é multifacetado demais pra ficar aí. Sua trama é um estudo sobre o existencialismo, a solidão, o desapego, a (in)finitude das coisas. É ambíguo sem ficar em cima do muro, humano sem tomar partido, ousado sem perder a mão, profundo sem descambar pro cinema francês.

O roteiro, do próprio Cuarón e su hijo, Jonás (niño de sorte), com contribuições de George Clooney, é extremamente bem concebido e preciso - não existem diálogos sobrando ou faltando, nada acontece gratuitamente e todas as ações terão suas reações até o fim da história.


História que, aliás, é tão minimalista quanto poderia: durante um reparo de rotina no telescópio Hubble, um time de astronautas da NASA é surpreendido por um acidente envolvendo um satélite russo. A partir daí, o filme usa e abusa da estrutura survival horror sem se render aos clichês do gênero e tão somente para atingir seus próprios objetivos. É difícil imaginar um ambiente mais inóspito e aterrador do que o espaço. Essa constatação vem em um tapete vermelho logo na primeira cena do filme, com uma espécie de manual de regras do jogo que virá a seguir. É vasto o espectro de possibilidades extraídas da situação, desde as menores e mais simples até as mais intrincadas e em larga escala. E tudo sem sair do campo do verossímil ou, no mínimo, da especulação bem sacada.

Em um aspecto, Cameron realmente foi no alvo. Gravidade tem a melhor caracterização de espaço já registrada. Até o formato 3D - que, não adianta, considero ofensivo e a maior falácia da indústria do cinema atual - serve com uma rara eficiência ao filme. O que faz a experiência de assistir no cinema algo necessário, obrigatório até. Aquele assalto sensorial jamais será reproduzido com tanta intensidade, fúria e beleza quanto na telona - a menos que você tenha um IMAX de três andares instalado no conforto de seu lar. Puramente pelo lado visual, já é o ingresso com o melhor custo-benefício desde Contato, de 1997. Como se não bastasse, o filme também consegue ser transgressor no modo de fazer "filmes de espaço".

Justiça seja feita, Guerra nas Estrelas não foi o 1º filme a propagar o som pelo vácuo, mas foi o que atualizou e institucionalizou de vez esse recurso clássico no ideário pop. Agradeço por isso, mas sempre me perguntei por que tinha que ser sempre assim. São poucos os filmes que retrataram o espaço com suas verdadeiras particularidades, mesmo sendo a ausência de som uma característica forte que merecia - implorava para - ser explorada. Cowboys do Espaço quase chegou lá, com grandes sequências filmadas pelo Clintão, mas ainda incorria no áudio. Foi Gravidade quem colocou a teoria em prática, com resultados de fazer cair o queixo e vê-lo se espatifando no chão como se fosse de porcelana. Nada grita mais alto que o som do silêncio, mesmo.

Cenas como as do acidente inicial têm impacto em dupla camada - a estética, vigorosa e gigantesca, com mais informações do que qualquer um poderia assimilar; e a psicológica, pois você vê o tamanho do monstro, mas seu ponto de vista mundano, pressurizado e atmosferizado, não consegue processá-lo como algo que se desdobra magnífica e violentamente diante de seus olhos sem gerar um único ruído. Só isso já é assustador o suficiente, mas o melhor de tudo é que você tem a plena consciência de sua insignificância enquanto é esmagado no processo e o único barulho ensurdecedor é o do desespero tomando conta dos seus pensamentos. É intimidante, sufocante, horrorizante, é puta que pariu, Alfonso Cuarón... Nem em meus pesadelos mais insanos eu senti algo assim.

Isso não significa que o cineasta abriu mão completamente do áudio não verbalizado. A trilha do britânico Steven Price é utilizada cirurgicamente, precedendo as tensas sequências "de ação" como se fosse os primeiros tiros de uma guerra. Sempre que aquelas notas distorcidas de sintetizador reapareciam no filme, uma linha de gelo subia pela minha coluna. Um grande trabalho, ainda que, por vezes, tenha ficado um pouco over nos momentos mais emocionais, reforçando um sentimento que já havia sido bem delineado pela atuação. E que atuação. Apesar de todo o esmero e arrojo técnicos, mais uma vez foi o elemento humano que fez a diferença.


Sandra Bullock é o alicerce de Gravidade. Muito provavelmente foi aqui que ela justificou a escolha de sua profissão. Fico feliz por ter sido ela a dar vida à astronauta-de-primeira-viagem Ryan Stone, embora, confesso, é sim um exercício interessante pensar no que fariam outras atrizes com um papel tão rico dramaticamente. Mas talvez seja isso mesmo que faça sua performance algo tão único. Não é superinterpretação - desse mal Sandra nunca poderá ser acusada - e muito menos um ensaio acadêmico sobre arte dramática. É mais a empatia ator-personagem, com todas as suas falhas e limitações. Sua performance é sublime e flui em uníssono com o roteiro. Desde o nervosismo de Ryan ao executar uma tarefa corriqueira, seu perfeccionismo desastrado, a postura reservada quanto à sua vida particular até lidar com mudanças radicais de worst case scenarios e ter que ser adaptar a elas rapidamente de qualquer maneira. E isso é apenas o aperitivo.

Ao ser submetida a uma série interminável de dilemas morais (e mortais), Ryan mergulha em uma experiência que pode ser tanto autodestrutiva quanto transformadora. O silêncio, mais uma vez, se revela um personagem ativo no filme. Na química quase intimista entre Sandra e Clooney, ele funciona como um terceiro elemento em cena, conduzindo alguns dos momentos mais arrasadores do cinema, justamente porque alguma palavra é - ou não - dita.

O paralelo entre Ryan e personagens como Ellie Arroway (Contato) e Elizabeth Shaw (Prometheus) é imediato, senão em suas longas danças com a morte iminente, na antítese: estas estavam dispostas a morrer por suas convicções, eram as Amelias Earhart das heroínas espaciais improváveis; Ryan ainda está pleno processo de transição, mas defendendo suas curtas janelas de tempo com a ferocidade e a desenvoltura de uma Ellen Ripley (Alien). Paradoxalmente, o subtexto de ser uma mulher tentando vencer num território predominantemente masculino faz a simbologia de seu nome soar além do subjetivo - e o filme traz uma explicação que estreita ainda mais essa metáfora.

Carregando uma tremenda bagagem de vida nas costas e sem muito mais a perder, seria muito fácil (e totalmente compreensível) pra Ryan se entregar à aparente inevitabilidade da situação. É disso que trata Gravidade: o misterioso elemento que nos move como seres humanos e a irresistível necessidade que temos de seguir em frente, muitas vezes sem nem sabermos porquê. E mesmo que encontremos uma resposta, esta raramente poderá ser mensurada com palavras. O que é ilustrado perfeitamente no clímax do filme.

E eu achando que um sujeito com Filhos da Esperança no currículo já tinha dito tudo o que precisava ser dito...

Gravidade é um clássico.

Gravidade ("Gravity", Estados Unidos/Reino Unido, 2013), 91 min.
Direção: Alfonso Cuarón
Elenco: Sandra Bullock, George Clooney, Ed Harris, Orto Ignatiussen, Paul Sharma, Amy Warren

5 comentários:

Luwig disse...

Dogg, Jesus! Para quem ainda não viu Gravidade (como eu), a leitura desse magnífico texto é o exercício de sadomasoquismo que definitivamente define o ano. Vai ser uma longa noite até às 16hs de amanhã. Maldito!

queiroz disse...

spoilers a seguir:
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Eu vi tudo como uma metáfora feminista: A mulher segura o homem, mas ele a abandona dizendo que ela vai viver sozinha, aí o homem volta dizendo que ela tem que aprender a viver, mas na verdade, não é Ele, mas o subconsciente dela, aí ela cai na Terra e se levanta sozinha sem ajuda de ninguém, Leia-se Homem. Enfim, Feminismo Espacial. Ele nos efeitos e ação em si é maravilhoso, mas seria como se o Naufrago fosse apenas feito com a queda do avião e o final fosse Tom Hanks chegando na ilha. Falta algo a mais e o Clonney era isso, o otimista, o que contemplava a beleza do por do sol e terra sem o menor medo. Sandra Bullock tá deliciosa, mas falta ali, um apego que tenho por exemplo pela Ripley. A Ryan foi incapaz de me emocionar. E acho que se ela tivesse morrido, seria mais digno e realista, pois a roupa de astronauta pesa para caralho. Todo mundo vem da água, aí ela terminaria na água, seria legal, mas o finalzinho "feliz"... Eu quase fiquei na sala para saber se tinha uma cena pós creditos com o Clonney no espaço, mas não. 130kg é o peso do uniforme de astronauta, preferia que ela tivesse morrido no mar olhando para o nada sorrindo e dizendo o nome da filha sem a necessidade de ter a velhinha cena clichê da criança aparecendo, teve o Cameron até dizendo que era o melhor filme de ficção científica que ele tinha visto. Claro que não, que doente, Aliens, O Resgate e O Segredo do Abismo são muito melhores. Não incluo Avatar, pois aquilo é um filme da Disney com um milico brucuto num robô com facão. Mas, O GRANDE MÉRITO de Gravidade foi a primeira vez que senti medo, como sinto medo em filmes em alto mar, porque geralmente em filmes espaciais, não é O espaço o perigo, mas Alien, Darth Vader, sabe, tira a utopia de que o Espaço é calmo e seguro. Aquela coisa do Clonney ficar falando Sou bonitão, tenho olhos azuis, não foi meio ridículo? POrra se fosse o Keanu Reeves(De novo!!), eu acharia hilário. Kovalski bebendo a vodka achei foda, por isso fiquei puto por ser fruto da imaginação dela. O Clonney é tão cool que tudo parecia possível para o cara. E tinha que tocar David Bowie na hora que eles estão ouvindo a rádio, referencia óbvia, mas foda, e melhor referencia o o bonequinho do inimigo marciano do patolino, valeu o ingresso aquela. E falando dos exageros em 3D, As gotinhas e as lágrimas? PQP, e depois no mar o sapinho, ali, fudeu né. Tirou completamente meu feeling ali, e depois inseto voando, Show off. Enfim, apesar de todo esse mimimi, é nota 9.0 sem dúvida, queria sentir mais apego pelos personagens e que não tivessem certos exageros no 3D.


Valeu Doggma

Bruna Câmara disse...

Ainda não vi, mas tenho curiosidade. Achava que era um filme angustiante, mas nem perto do que você disse. Mais curiosa, só não sei se conseguirei ver no cinema...

Paulo Bala disse...

Perfeito Doggma,
Para mim também uma obra prima!!! Fazia décadas que não me sentia tão "vivo" em uma sessão de cinema. Sandra Bullock no seu papel mais humano, mais pé no chão (tinha que ser no espaço). Sensação de que vi algo histórico...

Bernardo disse...

Cinema em estado puro. Nunca imaginei que um filme com set feito majoritariamente em CGI pudesse resultar em alguma coisa tão visceral, primitiva mesmo (a despeito de toda ambientação espacial). O melhor de tudo é que a bilheteria arrecadada comprova que ainda há espaço para filmes inteligentes, honestos e com teor visionário como esse. Resumindo, arrebatador, como só os grandes da ficção científica conseguem ser. E a interpretação da Bullock tocou bem no âmago.