domingo, 9 de novembro de 2014

Papua New Galactus


Stormbreaker: The Saga of Beta Ray Bill é um arco em 6 partes com roteiro do ótimo desenhista de Powers, Mike Avon Oeming, e traços de Andrea Di Vito. A história trazia o conhecido enredo envolvendo um planeta numa desesperada corrida contra o tempo e, claro, Galactus, o rei dos kickboxers. No caso, trata-se do planeta natal do korbinita mais famoso da Marvel... e apenas lá... Bill Raio Beta. A saga foi publicada num já distante 2005 e, pelo que sei, não viu e nem verá a luz do dia em terra brazilis. É uma pena, mas neste caso até entendo ter ficado na malha fina da priorização.

Apesar da tensão e do empolgante delivery de UFC cósmico, padrão em qualquer narrativa envolvendo Galactus na hora do almoço, o nível da trama vai caindo vertiginosamente nas curvas finais. E, pior, culminando numa conclusão sem sal e nitidamente feita sob encomenda. Contudo, o saldo final ainda é positivo, no que considero como sendo o highlight um recurso há muito esquecido pelo Depósito das Ideias: a mítica e a representação visual de Galactus variando de acordo com cada povo desse universão afora.

Galactus é conhecido pela cultura korbinita como Ashta, o deus da destruição. Esteticamente, é a personificação dos medos primais e subconscientes daquela raça: um pesadelo lovecraftiano espacial resgatado de algum rascunho perdido de Moebius.



Nada como um pouco de abstração. Nunca enxerguei Galactus como um dos seres conceituais da Marvel. Apesar de ser membro honorário do clubinho da Conflagração Astral, o devorador de mundos tem uma agenda menos gerencial e mais empreendedora. Mas certamente é uma entidade que existe em incontáveis níveis de complexidade acima da leitura informacional que nossa percepção sensorial consegue dar conta. Demais para o ponto de vista humano, assim como é demais para qualquer outra raça de mortais inferiores. O que fica até barato, visto que esse mero vislumbre poderia desencadear uma total reversão protônica ® no meio dos bagos do observador. Até Ann Nocenti, na época viciada em chá de Santo Daime com guaraná Dolly, sugeriu essa sacada quando escreveu uma luta entre Mefisto e o Surfista Prateado numa aventura do Demolidor (!).

Seguindo mais adiante nessa linha, não só a visão, mas basicamente qualquer ato de um ser dessa magnitude deveria ficar muito além da compreensão humana. Da mesma maneira rotineira e impessoal com que lidamos com gravidade, atrito e aceleração, ele lida com antimatéria, buracos de minhoca, retrocausalidade, Entrelaçamento Quântico, Flecha do Tempo, Efeito Túnel, Teoria-M e dá-lhe quarks e bósons. Tudo isso e muito mais seria altamente aplicável no confronto entre Galactus e o Esfinge naquela história clássica de Marv Wolfman. Mas esse pênalti ele chutou lá pra arquibancada.

Seja como for, a ideia em si é acima de tudo providencial. Só assim pra explicar como uma entidade cósmica anterior ao Big Bang não só é antropomórfica, como também tem a aparência de um opressor caucasiano de meia-idade.

Créditos históricos para John Byrne, que propôs esse artifício em 1984, durante sua antológica passagem pelo título do Quarteto Fantástico.


Pena que não combinaram com o pessoal da editora Abril, que apagou justamente os dois recordatórios que explicavam a porra toda.


Complicar pra quê, não é mesmo?

4 comentários:

Pedro Zé disse...

Esse tipo de tradução onde há até mudanças n sentido da história é comum na Abril?

Raid disse...

Peraí, no original, aquelas figuras todas seriam o próprio Galactus em diferentes formas, mas na versão nacional seriam vários alienígenas olhando para o Galactus?

Hahahahaha, porra Abril!

doggma disse...

Pedro, cortavam páginas inteiras pra caber no mix. Mas era só o aperitivo. O crèam de la crèam era quando apagavam/incluíam/substituíam personagens pra maquiar a diferença de cronologia entre os títulos. Tudo isso com retoques típicos de alguém com 3 anos de idade.

Dá uma olhada nesse artigo do MdM:

http://forum.outerspace.terra.com.br/index.php?threads/das-antigas-quando-a-abril-redesenhava-as-revistas-e-mudava-a-historia.203150/

* * *

Raid, desconfio que o "Efeito Galactus" era tão poderoso que mexia até com os redatores da Abril!

doggma disse...

Retro-atualização:

http://web.archive.org/web/20110320195659/http://www.interney.net/blogs/melhoresdomundo/2010/12/10/das_antigas_revistas_rabiscadas_de_fabri/