segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Dos fjords gélidos de Vila Velha, ES...


Verão, praia, carnaval... momento perfeito para revisitar dois petardos sobre o black metal norueguês.

Dirigido por Aaron Aites e Audrey Ewell, o documentário Até que a Luz nos Leve (Until the Light Takes Us, 2008) aborda a trajetória da banda Mayhem e da cena do metal extremo norueguês entre o fim dos anos 1980 e o início dos 1990. Já Mayhem: Senhores do Caos (Lords of Chaos, 2018), dirigido pelo sueco Jonas Åkerlund, é a cinebio dessa mesma história. Cabulosa história, convenhamos. Parabéns aos envolvidos.

Numa sinopse rasteira, tudo começa com um uns moleques de Oslo que, cheios daquela vidinha perfeita e idílica, resolvem montar uma banda "contra tudo isto que está aí". Liderado pelo figura Øystein "Euronymous" Aarseth, o Mayhem dá início a uma cena metálica underground regada a festinhas, bebidas, putaria e uma ideologia anticristã perneta. Logo encontram no sueco Per "Dead" Ohlin o frontman ideal para seu metal caótico, ultrarrápido e propositalmente mal-produzido com letras sobre nojeiras e perversidades de corar até o Pazuzu.

Mais do que um vocalista, Dead era um performer die hard (aceitamos Pix pelo trocadilho). O problema é que também sofria de uma depressão severa e após 3 anos na banda, Dead estoura os miolos. Tinha apenas 22. Quem encontra o corpo é Euronymous, com quem dividia uma casa alugada. E atenção para o detalhe pitoresco: antes de chamar a polícia, o jovem empreendedor se desloca até uma loja de conveniência, compra uma câmera descartável e registra a cena – que vai parar na capa do disco The Dawn of the Black Hearts. É business que chama.

Com a crescente moral underground, a banda expande as atividades e abre uma loja heavy metal (a icônica Helvete), além de um selo próprio. Como principal atividade, digamos, extracurricular, estão as reuniões no porão do estabelecimento sob o nome Inner Circle (qualquer semelhança é mera ironia do destino), um clubinho de jovens machos inseguros que ansiava pela volta dos valores nórdicos antigos e a adoração ao Todo-Poderoso Odin.

Na maior parte do tempo, o grosso do Inner Circle – também chamado Black Circle – era uma galera que só queria encher a lata ouvindo Accept e, quem sabe, traçar umas piriguetes Maria-Cabelo que apareciam. Mas a premissa blasfema acabou atraindo alguns malucos de verdade.

Eis que surge Kristian "Varg" Vikernes, da one-man-band Burzum, um promissor músico black metal e um completo fanático nazistoide paranoico. Varg era obcecado pelo Mayhem e pela imagem de líder demoníaco vendida por Euronymous. Logo a relação vira uma corrida pelo feito profano mais radical para conquistar o respeito dos demais. Daí em diante, foi só ladeira abaixo, incluindo a já frágil amizade entre os dois.

Saldo da brincadeira: quatro igrejas históricas incendiadas, pelo menos dois homicídios – sendo um deles, do próprio Euronymous, assassinado por Varg com 23 facadas – e uma Noruega em pânico. Varg foi preso, julgado e sentenciado a 21 anos de cana.

A suave pena máxima norueguesa foi reduzida para 15 anos numa daquelas celas cinco estrelas que eles têm lá. Desde 2009 o maluco está solto por aí, fazendo filho igual uma preá e falando merda pela Internet. Mas isso é outra história.*

Já na introdução, o longa Lords of Chaos, baseado no livro homônimo de Michael J. Moynihan e Didrik Søderlind, adianta que foi "baseado em verdades, mentiras e no que realmente aconteceu". De forma sagaz, o diretor Åkerlund tira do meio da sala o elefante branco que são os boyzinhos noruegueses sofrendo um tipo de Síndrome da Matrix Utópica. Isso logo de cara, com uma geral franca e sem culpas do modo de vida leite-com-pêra daquele país narrada em off pelo próprio Euronymous (um excelente Rory Culkin). Outra boa sacada da direção é a tênue linha amizade/ódio desenvolvida entre Euronymous e o Varg do ótimo Emory Cohen. E Jack Kilmer, filho do saudoso Val, está perturbador como o errático Dead.

Curiosamente, o filme é quase sempre associado ao gênero terror, mas tem muito mais ressonância com o drama, mesmo nas cenas mais sangrentas. Talvez seja pela preocupação honesta com a tridimensionalidade dos personagens e pelas doses sutis de humor negro. A sequência da câmera descartável, por exemplo, é tão surreal quanto grotesca.

Muito se comenta sobre as liberdades criativas do filme em relação à história factual. Mas assistindo o doc Until the Light Takes Us, com depoimentos de quase todos os sobreviventes, é notável como as versões se alinham muito bem. Vide a indisfarçável natureza estúpida e atrapalhada do Varg fictício e do Varg real. Comédia pronta. Claro, cenas como a "verdadeira" reação de Euronymous após ver o corpo de Dead e a cena do corte de cabelo são meros devaneios ilustrativos, mas que complementam o perfil mostrado até ali sem comprometer os fatos.

Foi um belo recap carnavalesco (quer mais Carnaval que corpse paint?). Dobradinha altamente recomendável e, hum, matadora, por assim dizer. Filmaços.

* A "outra história" é que Varg, como um bom nazi filho da puta, já declarou seu ódio pelo Brasil e sua diversidade. E por conta disso, tomou um Vampetaço no meio da tarraqueta. Tanto o doc quanto o filme perderam essa deixa para um belo epílogo...

6 comentários:

Millão disse...

Opa, terá textinho sobre a partida do gigante Robert Duvall?

doggma disse...

Gene Hackman, James Caan, Robert Duvall... agora há pouco, soube do Tom Noonan também. Cara, tá tão foda que estou jogando um pouco pro Cidade Fantasma >>

https://cidadefantasma.blogspot.com/2026/02/Thank-you-Robert-Duvall.html

Mas de lá pra cá, já fiz uma sessão de Um Dia de Fúria, em homenagem. E mais tarde, vou rever Colors - As Cores da Violência.

Tá foda.²³²¹²²³

Jimmy disse...

Deixo aqui uma recomendação pertinente ao tema, METALHEAD (Malmhaus) de Ragnar Bragason, sobre uma garota deslocada numa Islândia rural, que encontra no Black Metal o consolo para lidar com os próprios demônios.
Drama muito interessante!

doggma disse...

Fala Jimmy! Esse parece promissor, vou correr atrás. Valeu pela recomendação.

Marlo de Sousa disse...

Fala, Dogg! Por um momento, cheguei a pensar que esse filme com o Culkin era o simpático Metal Lords (2022), mas vejo que preciso acionar as locadoras romenas em busca dele, já que no Prime tem, mas não tem. Acho curioso como o Culkin de mais sucesso acabou sendo o menos prolífico - embora Kieran esteja construindo um belíssimo nome, deixando de ser apenas "o irmão do Macaulay". Abraço!

doggma disse...

E aí, Marlo! Cara, sempre gostei do trabalho do Kieran. Desde aquele longínquo Sempre Amigos, da época das locadoras. A Estranha Vida de Igby, A Verdadeira Dor... gosto de todos que ele protagonizou.

Em tempo... se curtiu Metal Lords, recomendo a dobradinha finlandesa Heavy Trip (2018) e Heavier Trip (2024). Divertidíssimos!

Abração.