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domingo, 14 de agosto de 2005

O COIOTE E O PAPA-LÉGUAS

Rodriguez: - Chega de tiro? Miller: Quase... dá mais uns dez no saco que já tá de bom tamanho.

Estamos presenciando o surgimento de uma subtendência nessa última leva de adaptações de quadrinhos para o cinema (já totalmente inseridas na ordem do dia). Algo que só ocorria com mais freqüência em adaptações de livros. O target agora é a fidelidade ao material original. Claro que muito disso se deve à farofadas com gosto de pólvora, do calibre de Elektra e Mulher-Gato. Finalmente aprenderam que nem todo mundo tem a classe e o talento de Bryan Singer para reinventar estruturas estabelecidas e quase sagradas para os fãs. E que nem todo material pede por revisões pseudo-melhoradas - coisa que, por sinal, raramente acontece.

Em um comparativo mais do que providencial, está vindo aí a adaptação de V de Vingança, que anda se revelando uma crônica da alteração anunciada. Seria muito bom se viessem com idéias melhores (mesmo!), mas como, neste caso, o padrão original é Alan Moore, acho meio difícil, pra não dizer impossível...

Sin City - A Cidade do Pecado (Frank Miller's Sin City, 2005) acaba sendo o extremo dessa pendenga. É o fim do ágio entre o fã, o estúdio e o texto original. Nunca fizeram e provavelmente nunca farão algo tão fiel, mesmo porquê, o material já saiu da mente do ronin Frank Miller com claras aspirações (e inspirações) cinematográficas, e perfeitamente entendidas pelo diretor Robert Rodriguez. Eu diria até mais: só agora essa urbanidade caótica criada por Miller encontrou seu verdadeiro lar. Tudo soa natural por aqui, sem aquela sensação de "aventura humana em um universo animado", comum em transposições literais como essa (com alguns passos à frente do Dick Tracy de 1990). Ok, a dinâmica física é um exercício descarado de estilização, sem dúvida, mas distante de qualquer preciosismo. Através desse recurso, o filme priviliegia uma ação mais solta, cartunesca, abrangente, depretensiosa, violenta... e divertida - palavrinha execrada solenemente pela sensível inteligentsia patrulhinha.

Ah, a violência...


Todas as ações violentas em Sin City encontram uma motivação direta? Não mesmo, e nem deveriam. Cada uma delas tem um background que a justifica. É diferente. Isolar o fator "violência" como um elemento depreciativo do todo é de uma má-vontade mastodôntica. É preguiça mental e ideológica. Já li alguns absurdos por aí baseados nesse equívoco cegueta e emburrecedor. Pessoas que deveriam fazer um melhor uso da plataforma que têm na mídia andam culpando uma geração inteira por uma suposta degradação moral e cultural - que sempre existiu, devidas as proporções de época. Então, fica difícil ter de ouvir que O Clube da Luta é contextualmente vazio (e é exatamente o contrário!) ou variações ad nauseum do discurso de Tiros em Columbine, como se isso resumisse tudo num passe de mágica.

Não é de hoje que a violência é destrinchada com intensidade over no cinema. Tenho como comparativo extremo o despirocante Henry - Retrato de um Assassino (Henry: Portrait of a Serial Killer, 1986). Só a cena do videotape é mais arrepiante e violenta que Sin City inteiro - e ainda plenamente justificada dentro de seu conceito. Na época, o filme foi repudiado pela crítica, mas hoje tascam-lhe uma tarja cult reparatória. Que hipocrisia.

Ironicamente, perto dessas considerações, Sin City não passa nem raspando. É o mesmo que acusar Chuck Jones de fazer apologia à violência através dos cartoons do Coiote e do Papa-Léguas.

Marv, o marvado

Fragmentado em três linhas narrativas (extraídas das HQs The Hard Goodbye, The Big Fat Kill e That Yellow Bastard), o filme abre com uma cena tão cool (saída de The Customer is Always Right), que chegou a me dar arrependimento de tê-la assistido antes. Em seguida, emenda na via crucis de John Hartigan (Bruce Willis), o último policial honesto da cidade. Muito doente e a uma hora de sua aposentadoria, Hartigan ainda consegue salvar a vida de uma garotinha das garras do psicótico Roark Jr (Nick Stahl... esse cara promete...). O problema é que o Jr é filho do corrupto e malévolo Senador Roark (o malévolo Powers Boothe), irmão do influente Cardeal Roark (Rutger Hauer, reaparecido do limbo).

Corta para a avassaladora jornada do bad boy Marv (o bad boy Mickey Roark... digo, Rourke). Após uma noite inesquecível com a bela Goldie (Jamie King), Marv encontra a motivação da sua vida ao acordar com ela morta ao seu lado. Literalmente coloca a cidade de pernas pro ar para resolver o crime. Na seqüência, Sin City tem o seu momento mais thriller noir, com a história de Dwight (Clive Owen, style até a medula óssea), praticamente um... hã, pulp fiction em movimento. O climão sugestivo e espirituoso do início vai descarrilhando até se largar de vez numa metelança de vísceras, desmembramentos e fuzilamentos em larga escala.

Quentin Tarantino aparece nos créditos de Sin City como diretor convidado (cobrando a mesma quantia que Rodriguez cobrou pra fazer a trilha de Kill Bill vol.2: US$ 1), e nem precisa dizer que é dele a cena entre Dwight e o presunto Jackie Boy (Benicio Del Toro, mais seboso que um percevejo). Os diálogos e a situação improvável, apesar de serem de Miller, parecem saídos de algum extra obscuro de Cães de Aluguel.

Mickey Rourke, que já foi um big big star, tem a chance de tirar o pé da lama com esse filme, da mesma forma que John Travolta em Pulp Fiction. Só não digo que ele vai aproveitar, pois sempre foi um sujeito difícil e orgulhoso (Alan Parker que o diga). Por hora, é curtir o durão Marv, que consegue ser ainda mais psicótico e ameaçador que nos quadrinhos - e ainda com uma ligeira verve "pop monster" à Mickey Knox (de Assassinos por Natureza). E palmas Elijah Wood, aqui um verdadeiro Frodo From Hell. Sempre achei que ele tinha cara de doente disfarçado. As tretas dele com Marv, apesar de curtinhas, são de arrepiar. Detalhe: Rourke e Wood nem chegaram a se encontrar nos sets.


Outra bela surpresa foi Devon Aoki no papel da letal assassina Miho. Que olhar assustador o dessa menina. Perderia por pouco da Beatrix Kiddo, mas chutaria fácil o traseiro da Elektra Garner.

Ôôôôaaaa...seguuuuuuura peãooo...

As mulheres, aliás, são a força motriz de Sin City - e que Deus abençoe Rodriguez/Miller por trazerem a maravilhosa Carla Gugino quase como veio ao mundo. E sem palavras para descrever a family-destroyer Jessica Alba. A Jessica acalba comigo (a ponto de eu fazer trocadilhos geniais como esse).

Sua cowgirl Nancy Callahan já é a pinup da minha vida e merece urgente um spinoff (x-rated, de preferência).

E agora eu quero aquele pôster de qualquer jeito.

Minha namorada stripper

Alguns pequenos desníveis climáticos pipocam em Sin City, e a maioria deles é devido ao recurso da quebra temporal, que, embora não seja prejudicial, é um tanto desnecessário. Isso fica claro quando a carnificina quase épica da saga de Marv dá lugar ao cuidadoso conto de Dwight. Meio abrupto. Como se, após devorar aquela churrascada sanguinolenta, ter que limpar o canto da boca pra degustar um requintado soufflé au fromage. Ficaria mais funcional e impactante se ignorassem o formato em loop do roteiro e ficassem no Hartigan-Dwight-Marv. Do jeito que está, fica parecendo um primo pobre de pauleiras narrativas como Amnésia, 21 Gramas ou mesmo Pulp Fiction. Nada demais, entretanto.

Segundo Robert Rodriguez, o filme Sin City não é uma adaptação, e sim uma tradução. Perfeito. Afinal, tenho de admitir... esse filme é mesmo a melhor transposição já feita de uma HQ.

Mas não da melhor HQ.



MILLER: MONOCROMÁTICO


Marv, sem saber que é filho do padre

"NYC, 2:45 da manhã. Os becos de Manhattan já não parecem tão familares para mim. Mendigos, loucos delirantes, bêbados, prostitutas baratas, traficantes, garotinhas estranhas, sujeitos mal-encarados, ilustradores de quadrinhos e roteiristas desempregados. A escória da sociedade. Meu antigo lar. Muito diferente da minha belíssima cobertura na esquina da quinta com a sexta. Lá eu tenho uma vista privilegiada para a baía. Quartos enormes, sala de cinema, bar, academia, hidro. Uma piscina imensa onde dificilmente eu entro, pois não sei nadar. Cristo, até a Oprah esteve lá certa vez. Mas nem sempre foi assim. Tive me especializar em minha área e sair do gueto em que me encontrava no começo de carreira. Aprendi a enxergar além. E para trás também, ao mesmo tempo. Aproveitei a onda cyberpunk/no future do filme Blade Runner e misturei ao contexto de velhos e cansados heróis. Hype virou o meu segundo nome.

O primeiro deles foi um herói cego da Cozinha do Inferno. Coloquei a vidinha do cara de pernas pro ar e inseri uma sexy-symbol que misturava tragédia grega, artes marciais e fetiche sadomasô. Ótimos resultados. Virei o hit do momento. Eu era o garoto que estava ensinando aos veteranos. O próximo herói a tomar uma geral foi o Homem-Morcego. Transformei em realidade os piores temores daquele sujeito paranóico, coisa que sempre foi sugerida, mas evitada. Senti como se estivesse dando vida aos delíros mais insanos de Dom Quixote. Todo mundo gostou e eu garanti meu lugar na História. Foi show.

Com o tempo, fui percebendo que as pessoas gostam mesmo é de uma boa desgraceira. Paranóia, decadência, obsessão, sexo e violência. É isso o que vende. Os super-heróis...? Esses podiam ficar até em segundo, terceiro plano. E enxergando além, vi que nem precisava mais deles, só da desgraceira. Foi aí que tive a idéia de criar um universo urbanóide, caótico, independente de centralizações e com vida própria. Aproveitei e meti junto um clima noir rebuscado e enquadramentos angulosos, reforçando a impressão cinematográfica. Eu sou o cara. Foi mais um sucesso, mas desta vez estranhamente com uma pecha underground. Não gosto disso. Eu preciso é de dinheiro, oras!

Enquanto recorro a um certo orelhudo pra levantar uma graninha aí, começo a agitar um filme sobre aquele universo urbanóide comercialmente promissor. E também quero participar da brincadeira. Não quero dar uma de Mike Mignola e ficar só dando tchauzinhos pelo set. Mas não posso cometer erros. Tenho de contar com os melhores do ramo. De porcaria já me bastou Robocop 2. Descolei um mariachi à um preço módico, com cojones o suficiente para encarar a empreitada (embora ele tenha essa estranha mania de fazer filme infantil entre uma carnificina e outra), e um sociopata tarado por cinema oriental. Desta vez eu era o veterano que estava aprendendo com os garotos.

Deu certo. Tirando uma ou outra florzinha que escreve no Rotten Tomatoes, todos aplaudiram em pé. Preto & branco é o que há! Comecei na sétima arte com o pé esquerdo, mas desta vez eu bombei. Me sinto como se fosse a própria Sofia Coppola. Franquia? Com certeza.

Aguarde por toneladas de novas edições. Afinal, preciso de sketches e story-boards prontos. É o esquema perfeito! Nada melhor que unir o útil ao agradável.

Nos vemos em Sin City 2!

(...)

E Moore... ao invés de ficar aí sentado e resmungando porque estão estragando suas obras-primas, faça como eu... move your ass!"




...E OUÇA O DISCO

A trilha do caos

Uma coisa que logo me saltou aos ouvidos em Sin City: el mariachi Rodriguez está se tornando um grande compositor de trilhas! Ele e os feras Graeme Revell e John Debney fizeram um excelente trampo. É um primor de atmosfera incidental. Algo jazzy, soturno, dark, sujo e sarcástico, por vezes deliciosamente exagerado, como o próprio filme.

A faixa-título começa estilosa e resvala quase num cabaret pós-punk. A guitarra em reverber cheio de efeito no finalzinho ficou demais. Haja Pro Tools. Pena que só tem dois minutinhos. A faixa Marv é o momento mais pesado, como não poderia deixar de ser. Começa cadenciada e vai dando a lugar a um teclado fantasmagórico e um batida sujona. Parece trilha de filme do David Lynch. Old Town Girls traz o sax mais vagabundo e ordinário já gravado desde o fim do Morphine. Já a percussão epiléptica e o sax cheiradaço de Jackie Boy's Head lembra muito as pirações do veterano Link Wray. Sin City End Titles começa como se fosse o replay da faixa-título, e emenda numa sonzeira blues rock-mariachi de boteco vagabundo. Parece que a qualquer momento alguém vai aparecer gritando "pussy, pussy... pussy lovers!!" :P

E como este blog não presta...

"Sin City - Original Motion Picture Soundtrack"


Pra arrematar, a banda alternativóide Fluke comparece com uma faixa autoral, chamada Absurd (um industrialzão standart). Curiosamente, a trilha cool do último trailer ficou de fora. A música é do grupo The Servant, e se chama Cells - pra baixá-la, clique aqui. Ela é muito, muito legal, o riffzinho é matador. Deveria ter ficado no lugar do Fluke.



MEGA-TURNÊ DE REUNIÃO



Tudo bem... na verdade só o Alcofa e o Luwig voltaram. Os miseráveis deletaram seus respectivos sítios cheios de imagens e textos bacanas, mas é perdoável. Afinal, os caras estão de volta...! E merecem uma skol gelada!

Eu e o Victor estamos aí de lambuja, com novíssimos e foderosos banners. Cortesia do Lobo Schmidt, o melhor banneiro de Czarnia. Valeu!


Na trilha: Cells, do The Servant... pela centésima vez só hoje.

sexta-feira, 1 de julho de 2005

INTROSPECÇÃO


O sentimento que predominou de um ano pra cá foi de urgência para fazer a coisa certa. Pôsteres, trailers, spots e até dez minutos de gorjeta foram generosos aperitivos e pareciam dizer "ei pessoal, dessa vez estamos fazendo o que vocês estão pedindo". Mas não é pra menos. Batman Begins (2005) representa uma volta por cima que durou longos (e compreensíveis) oito anos - resumida no filme com a retórica "por que nós caímos?", no tom mais auto-referencial de redenção que se possa imaginar. Conferindo a trajetória do filme, nota-se um paralelo interessante aí, no qual o próprio personagem se torna uma espécie de pivô por acidente.

No passado, seu universo havia recebido uma nova linha de possibilidades via Frank Miller e seu Cavaleiro das Trevas, que foi solenemente ignorada em nome de uma pretensa "reinterpretação autoral", jogando no fundo da latrina uma boa oportunidade de fazer História. Contudo, o pior ainda estava por vir e o resgate camp daquele clima do bat-seriado dos anos 60 foi a pá de cal definitiva. Paralelamente, Miller se aventurava em uma decepcionante experiência inicial na sétima arte, como roteirista. Resultado: todos na geladeira por tempo indeterminado. Anos depois, estamos todos aqui (a A.C.M.E. network, Frank Miller e nós, os clientes). Mais velhos, calejados, fazendo uso da nossa visão periférica e tentando não repetir os mesmos erros. Ao mesmo tempo que Miller comete a mais fiel adaptação de uma história em quadrinhos para o cinema, Batman Begins reduz consideravelmente a distância entre o texto original e a telona. Já é um bom "começo".

Apesar da ficha impecável, a presença do diretor inglês Christopher Nolan pouco minimizou a aura de incógnita que permeava a nova incursão do morcego nas telonas. Estiloso e contraventor, Nolan saiu do circuito independente com um nervoso suspense revirado ao avesso (Amnésia... lembra? ...foi mal, não resisti) e seguindo adiante em um thriller policial cuja atmosfera estática era a matéria-prima (Insônia... teve quem não gostou). Nos dois casos o clima predominantemente soturno e introspectivo foi elevado a um acachapante realismo cotidiano. Mas nenhum deles teve a responsa de acomodar uma figura tão fantástica quanto um vigilante psicótico vestido de morcego e cheio de armas high-tech. Então o trabalho era dobrado.

Como um perfeito artesão de atmosferas, Nolan tratou de dar a devida atenção ao palco de toda aquela loucura. O resultado é a melhor Gotham City já vista no cinema. Cinzenta, caótica, corrupta e, ao mesmo tempo, glamourosa, viva e grandiosa, a cidade se transformou num elemento à parte dentro do filme. E crível. Gotham foi personalizada, mas sem sair do chão. A sua caracterização não passa ao largo das peculiaridades urbanóides de uma Pequim, uma New York, um Rio de Janeiro ou uma Amsterdã. Mais do que ver Gotham, nos sentimos em Gotham, com tudo o que isso tem de bom e de ruim. Atmosfera pronta e - agora sim - só faltava algo acontecer.

Atualmente, David S. Goyer é o operário padrão dos roteiros de filmes baseados em HQs. O que não quer dizer "garantia de qualidade", entretanto. Ao lado de momentos inspirados (Blade 2 e, vá lá, Cidade das Sombras) ele coleciona belos frangos em final de campeonato (Nick Fury - Agent of SHIELD e o xaropão Blade Trinity). "Irregular" é o seu quarto nome. Seja como for, ele acabou por realocar as melhores motivações e subterfúgios narrativos possíveis dos quadrinhos para o filme. A opção de investir em uma primeira hora inicial bem diferente do que se viu até hoje a respeito do personagem (mesmo para os fãs das HQs) demonstrou uma inegável disposição de construir um background sólido - independente do apelo pop que teria um início clipeiro com ação à mil por hora e nenhum resquício de neurônio-at-work. Méritos também para as referências espertas que pipocam lá e cá. Umas mais óbvias, como Ano Um (Bruce Wayne se readaptando à decadente Gotham), outras mais figurativas, como Cavaleiro das Trevas (o pega-pra-capar final no subúrbio de Gotham e a Mansão Wayne indo pro saco). Praticamente não existem escorregões por aqui, apenas leves "água-planagens", como a máquina de microondas unodirecional - depois misteriosamente omnidirecional - com microondas que só atingem água em canos de esgoto - quase tão esquisito quanto radiação em slow-motion que transforma homo sapiens em homo superior ou "o poder de um Sol na palma da mão".

Pode-se dizer que Batman Begins soa como um extremo da passagem de um material livre para um contexto mais realístico. Isso é conseqüência direta da tentativa de nos aproximar da persona fascinante e não-usual de Bruce Wayne - um playboy triliardário e profundamente traumatizado que arrisca o pescoço à noite como vigilante - de fato, uma tarefa bem mais difícil do que nos identificarmos com um loser retraído e sem um tostão no bolso.

Um aprendizado tortuoso à base de contusões e hematomas, motivações bem direcionadas e um ator principal imerso, exalando credibilidade e jogando para o time. E que time. Christian Bale é o Batman. Tem toda aquela aura enegrecida e o olhar assassino necessários ao papel, fora o seu passado regado à personagens cruéis e dark - como visto nos filmes Psicopata Americano e Shaft. O resto é competência cênica e fotogenia. Sinceramente? Melhor que na HQ. Confesso que sempre gostei de Katie Holmes, mas não conseguia vê-la muito além da doce Joey, sua personagem na série Dawson's Creek. Apesar do charme suburbano (ela é linda e poderia ser a minha vizinha - quem dera), essa minha velha impressão se confirma aqui, reforçada pelo fator "mocinha em perigo" - um clichê que nasceu com o Cinema. Mas no final foi por uma boa causa. Algo maior que sua participação, influiria na história de tal modo que seria melhor terem contratado logo uma atriz com envergadura de top model (ao exemplo de Kim Basinger e Nicole Kidman). Nada recomendável... não agora.

Michael Caine é daqueles que envelhecem com dignidade. Deixando definitivamente pra trás toda a tralha que insistia em manchar sua filmografia, ele talvez seja o Alfred ideal nesse momento da vida de Bruce. A classe e a frieza que lembram o mordomo Stevens (personagem de Anthony Hopkins, em Vestígios do Dia) são amaciadas pelo mesmo calor humano que sir Caine exercitou no filme Regras da Vida, principalmente no que tange ao trato com crianças. E aí vai a bomba: chegou a entrar um cisco no meu olho quando ele abraçou Bruce-boy. Já Morgan Freeman, além de ser o Bastião da Confiabilidade, é o coadjuvante de luxo. No papel de Lucius Fox, ele é o braço direito de Bruce nas Indústrias Wayne e seu providencial tech-dealer. É através dele que Bruce descola seus brinquedinhos caríssimos, em um esquema de malocagem que faria inveja aos nossos políticos em Brasília. Excelente background que nunca recebeu uma explicação decente (e que seria completamente ignorado se o filme estivesse nas rédeas de um mané qualquer). Outra coisa... mr. Freeman está se divertindo como nunca. Seu sorriso chega a ser contagiante durante o teste no protótipo do Batmóvel. Eu não via um veterano tão à vontade desde que Al Pacino deixou escapar uma gargalhada no meio de um diálogo entre Jack Lemmon e Kevin Spacey, em Sucesso a Qualquer Preço (cena que foi devidamente mantida para a posteridade). Mas aí já foge ao escopo "filme de super-herói". Ou será que não?

Filme de super-herói pode alcançar o nível de excelência cinematográfica, transcendendo o rótulo de mera diversão pueril?

Inicialmente, eu achava que Gary Oldman e seu eterno ar dirty outsider soavam incompatíveis com o austero e incorruptível Jim Gordon. Mais chegado aos papéis soturnos e aos vilões forjados pelo mundo-cão, Oldman se saiu discretamente em uma atitude de desvínculo. O caldo ficaria no ponto se as influências de DK se fizessem presentes em um Gordon mais incrédulo, amargo e pragmático, mas acima de tudo um lutador que coloca seu dever e a Justiça acima de sua própria vida. Daria um belo spinoff protagonizado pelo futuro Comissário - com o Oldman tranqüilamente figurando no papel principal, pois aqui ele já fez por merecer.

Liam Neeson é hoje uma espécie de certificado ISO de atuação em blockbusters. Remanescente daquela mesma safra de bons profissionais que ia de Ralph Fiennes e Daniel Day Lewis a Billy Bob Thornton, Neeson sempre cultivou uma imagem meio relacionada a um certo messianismo paternalista, ao mesmo tempo em que mantinha um perfil envolvente e sedutor (ecos de Schindler?). Funcionou como uma beleza em Star Wars: A Ameaça Fantasma (na parte da responsa que lhe dizia respeito), e aqui ele emenda o mesmo approach com uma verve mais severa e sem rodeios. Este é o Ducard, personagem-carta na manga com nuances até meio inesperadas no contexto de Batman Begins.

Aliás... só um filme de qualidade insuspeita teria um (sub)vilão como Jonathan Crane, o Espantalho ("um mané com spray"), em sua melhor concepção e sem estranhamento. Não houve o menor sinal de carnaval fora de época aqui. Goyer não exagerou, Nolan não exagerou e nem o ótimo Cillian Murphy (de Extermínio) exagerou. Ficou tão bom quanto poderia ser - e confesso que tomei um susto com a primeira borrifada do gás do medo.


Eu poderia chegar aqui e enumerar as melhores cenas, mas... o início, mostrando Bruce em busca de si mesmo, seu treinamento ninja - e aquela prova final simples-mas-bem-sacada, momentos históricos como a criação do conceito de um vigilante que utiliza o medo como cartão de visitas (finalmente!) e a estratégia para despistar isso com uma vidinha party all night long, a carismática cidade de Gotham (mezzo burguesia clássica mezzo Cozinha do Inferno como deveria ter sido no filme do Demolidor), o devastador Batmóvel (cabrón... eu cansei de falar isso aqui), a verdadeira face de Batman sob o olhar de um Espantalho alucinado, o destino incerto e apropriadíssimo de Ra's Al Ghul (de acordo com proposta realística e com um Poço de Lázaro conceitualmente subjetivo) e o final arrasa-quarteirão - ou quarteirões! - que culmina num descarrilhamento monumental.

Mas talvez... talvez... o momento que ficou talhado na BIOS da minha cachola tenha sido esse - um Batman live-action que se reencontra com o seu espírito original, que passa a fazer todo o sentido do mundo e que justifica o primeiro subtítulo que a produção recebeu: "intimidação". Só esse momento já vale a veneração desse ídolo maldito por dez gerações.

Na categoria "poderiam ter feito isso, mas nem eu sei se ficaria bom" (modalidade altamente lisonjeira, diga-se de passagem), ficaram ausentes referências mais específicas a Tália, filha de Ra's, e uma justa homenagem a Mike W. Barr, autor de O Filho do Demônio, a melhor história já escrita sobre Batman, Ra's e Tália - mas preferiram homenagear o Jeph Loeb.

Ah, sim. Filme de super-herói pode alcançar o nível de excelência cinematográfica?

Pode... e precisei assistir Batman Begins para saber disso.

Na trilha: Nine Inch Nails - CRC Sessions (Acoustic in Chicago)