sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Zombie de Ouro 2014


Uma coisa que achei notável em 2014 foi a quantidade de lançamentos de qualidade sendo colocados na praça. Mas na praça da web, via Bandcamp, SoundCloud e iniciativas como o excelente Reverberre!, do bróder Sandro. Bandas e artistas correndo por fora definitivamente e de forma natural.

Aliás, quem está correndo "por fora" mesmo são as outrora majors da indústria, vivendo seus últimos espasmos: poucas novidades e campanhas massivas apenas para nomes com retorno garantido, como AC/DC e U2, só pra ficarmos na seara rock. Bem... previsível.

Durante o ano também resolvi parar com os obituários por aqui, senão não postaria outra coisa - como se eu já postasse muito ultimamente... De fato, foi só em 2013, na ocasião da rateada braba de Lemmy Kilmister, nosso senhor e salvador, que percebi que essas lendas vivas já estavam na casa dos 70, algumas até dos 80. Enquanto escrevia este ZdO mesmo, outro ídolo meu, feito de tangerina, também resolveu que estava na hora de sair pela esquerda. Absurdo.

Mas vamos aos 30 discos que este que vos escreve mais ouviu ano passado e ainda continua ouvindo. É o Zombie de Ouro 2014, cheio de atraso elegante e espocando a cibilina!

So, let's Rooock!






"Look Ahead", faixa de abertura de Honest, último álbum do rapper Future, impressiona. Com um sample esperto de "Dougou Badia", do duo malinês Amadou & Mariam, a música traz um mix de autoconsciência pop com um senso real de grandiosidade, quase arena. Algo incomum em se tratando de hip-hop. Meio que antecipa a tônica do álbum, ainda que nada se compare. Mas Future realmente busca novos caminhos para o gênero, inclusive reciclando fórmulas já saturadas, como os vocais respingando Auto-Tunes pra tudo que é lado, criando um efeito "espacial"/psicodélico/chapado, e o uso abusivo do low bass alterando até o ritmo cardíaco dos mais desavisados. Quem tiver um bom kit 5.1 vai marcar alguns pontos na Escala Richter. Subwoofers, tremei!



It's Album Time foi a estreia do DJ e produtor norueguês Todd Terje. Diferente dos álbuns de eletrônica retrô lançados em 2014, como os bons Journeys, do Timecop1983, Golden Age Against the Machine, de Shawn Lee, e até o asséptico Interceptor, de Mitch Murder, a força de Terje está na sensibilidade. Em seu processador vintage entra desde electrofunk e space-disco até pop, synth e latinidades à vera, mas com um romantismo idealizado que não passa despercebido. Tem até Bryan Ferry cantando em "Johnny and Mary", de Robert Palmer. Além do álbum inteiro soar orgânico e contagiante como poucos, só me restam mais duas certezas: o Daft Punk vai ter que suar os circuitos no próximo disco; e esse cara não é da Noruega mesmo.



Vem de Gothenburg o melhor álbum de speed metal de 1983... lançado em 2014. Em seu debut homônimo, o Vampire desenterra aquela revolta adolescente movida a jeans rasgados, patches e tachinhas, além do velho feeling do thrash em seus primeiros dias. Divertidíssimo. O grupo poderia muito bem ter excursionado com o Venom, o Exciter ou o Sodom em algum ponto dos anos 80. Auxiliados por uma produção que privilegia a sujeira, mas garante a coesão sonora, o disco é um quebra-pau federal do início ao fim, sem descanso. Fora que os caras certamente guardam um lugarzinho de honra para o nosso Zé do Caixão em seus corações negros e putrefactos.



Dos medalhões do rock-BR oitentista, o Titãs foi um dos que mais sofreu com a ação do tempo. Não o repertório clássico, mas a sua capacidade de se manter relevante para as gerações seguintes - situação vivenciada também pelo Ira!. Após alguns desfalques graves na formação e a sensação de que o pangaré estava indo pro brejo, eis que o grupo ressurge com vigor de alazão: Nheengatu é uma amostra, corajosa até, do que foi o grupo no auge da perspicácia, ironia e musicalidade, mas só isso já foi o suficiente para ser um dos destaques de 2014. Precisamos de mais discos assim. E bandas assim.

(embora a versão de "Canalha" seja bem inferior à versão do Camisa... e ambas levem um couro épico da versão original)



E viva Satã! The Satanist uniu os povos, o Behemoth são os novos Beatles (Beheatles) e Adam Michał "Nergal" Darski é o modelo do jovem empreendedor para os anos 2010. O cara é uma mistura de Dave Grohl, Lance Armstrong antes da desgraça e Damien. Senão vejamos: é formado em curadoria de museus, é técnico do The Voice polonês e garoto-propaganda de energético - chamado, claro, Demon Energy. Tudo isso enquanto encara(va) uma leucemia. É o Glen Benton que deu certo. Visto tudo isso, o melhor e mais popular álbum de metal extremo de 2014 - precisamente o que The Satanist é - parece até mais um dia no escritório do Behemoth.



Inativo desde 2002, o vulcão Godflesh entrou em erupção com força total em 2014. Primeiro lançou sem alarde o monolítico EPzinho Decline & Fall, como se fosse uma prévia da brutalidade magmática que viria a seguir. A World Lit Only by Fire não é um álbum, é um epicentro. É o CarnedeDeus em seu estado mais abrasivo, obsessivo e opressor. Um dos highlights da discografia do Justin Broadrick - olha a responsabilidade - e fácil um dos discos mais pesados deste início de século.



A esta altura do campeonato de rap-metal, o retorno triunfal do Body Count não teve o impacto que teria em priscas eras. Mas pra mim, que ainda cantarolo "KKK Bitch" debaixo do chuveiro, foi como ser atropelado pelo furgão do B.A.. Manslaughter foi uma das coisas que mais ouvi em 2014. E sempre rolando no chão de tanto rir. Sobra pancada pra todo lado: de falastrões de redes sociais (em "Talk Shit, Get Shot") a Jay Z ("99 Problems", o contexto você confere nessa sensacional entrevista), passando pelos nóias de plantão ("Back to Rehab") e por aí vai. Destaques, todos. Como bem definiu o próprio Ice-T, "the whole album is about the pussification of man". Ditto. Mas tenho que dizer: "Black Voodoo Sex", continuação da antológica "Voodoo" do álbum de estreia, e principalmente ,"Institutionalized 2014", versão do clássico do Suicidal Tendencies com letra bodycounteada hilária, são de jogar tudo pro alto e mandar o chefe se foder. Provavelmente o melhor disco do Body Count.



Em 2014 o Accept esteve no auge de uma fase com intensa receptividade de público e crítica. Isso graças à figura do frontman Mark Tornillo, que cumpriu com honras a difícil missão de assumir o lugar do carismático höbbit Udo Dirkschneider três discos atrás. Blind Rage é heavão encorpado e orgânico, com a guitarra de Wolf Hoffmann fazendo a ponte entre metal e música clássica como se fosse a coisa mais fácil do mundo. O disco certo para o momento certo. Em contrapartida, o ano parece ter fechado meio esquisito para os germânicos e o yankee. Vamos ver se é um autêntico caso heaven & hell ou apenas um breve desvio de curso. E isso serve pra vocês também, Slayer e Megadeth. Estamos de olho...



Já completando 25 anos de estrada, o grupo norte-americano Slough Feg ainda é pouco conhecido, mas lançou um dos discos de heavy metal mais bacanas de 2014. Por "heavy metal", entenda como a essência arquetípica do gênero, sem velocismos, pirotecnias e barulhos desembestados. Apenas melodias e música. Tradicionalista e classudo como poucos, o álbum Digital Resistance chega a lembrar os grupos mais obscuros da NWOBHM (Bleak House, Demon) e ícones como Iron, Thin Lizzy e Jethro Tull. Há uma inegável influência de folk metal à Skyclad, mas assimilada na medida. O disco é conceitual e é um libelo do cantor e professor de filosofia, Mike Scalzi, contra, veja só, a tecnologia. Vale a pena reproduzir seus comentários da entrevista para o About.com sobre o tema do álbum:

"I see 18 to 20 year old kids and their habits and patterns and how they learn, or don't learn. It's weird what's happening. This new generation of 20 year olds don't feel the need to rebel the way we did. They are more complacent, which scares me. They seem content to just stare at screens all day. I find this somewhat disturbing: growing up for my generation compared to being an adult, and seeing kids grow up in this news technological generation. We are getting lazy and slothful and quite flabby as a species, physically and mentally. Perhaps this is inevitable for some, but I certainly don’t want to go that way myself. I don’t have all the answers, but I would hope that my music would make people get off their asses and simply assert themselves. Do something with yourself!"



Pra quem estava na seca por um disco de inéditas do Ratos de Porão, a pancadaria de Século Sinistro veio com juros e correção monetária. A sensação é de ser escorraçado por uma gigantesca roda de pogo. Jão, Juninho e Boka estraçalham tímpanos e pescoços sem dó e João Gordo, mais uma vez, confirma a verdade: ele é mesmo o Bezerra da Silva do hardcore. O alvo principal é o cidadão comum, como eu, como você (como todo mundo!), o responsável principal pela bandalheira que assola por aí, etc e tal. É, você mesmo. Ou vai ficar aí, esperando peninha de político 171? Qualééé, cumpááádi...



Um dos poucos músicos que justificam musicalmente uma arte de H.R. Giger nas capas de seus discos, Tom Gabriel Fischer - ou Tom G. Warrior, dependendo do seu grau true - cometeu uma pequena obra-prima nesse 2º registro de seu Triptykon. "Pequena" por enquanto, ainda é cedo pra mensurar o bicho que vai dar. Melana Chasmata segue ainda mais fundo na transgressão do metal que ele tanto busca desde os tempos do Celtic Frost. Um álbum onde cada audição se mostra uma experiência absolutamente nova, individual. Música de vanguarda, com certeza. É gótico, doom, black, ambient, até mesmo art rock. Mas de vanguarda. E pesado como o inferno. Essencial.



O quarteto nipo-americano GridLink conseguiu um feito em Longhena: fazer o grindcore soar tão melódico quanto um Linkin Park da vida. E sem sacrificar um pentelhésimo que seja do extremismo sônico e dos TOCs característicos do estilo. À taxa média de 90 segundos por (anti) música distribuídos cacofonicamente em 21 minutos de duração, o disco também passa longe de soar cansativo. Ainda mais quando uma das faixas parece ter sido composta para funcionar como uma massagem shiatsu nos surrados labirintos auditivos antes da próxima triturada. Uma pena mesmo o grupo ter fechado o boteco após o lançamento do álbum - pelo que li no feissçe, por problemas de saúde do guitarrista e letrista Takafumi.



A capa sugere algo ultrablackdeathsatanichighlander. Mas saiu pela Relapse Records, reduto pós-hardcore/noise/alternativo-barulhento-aí. Acaba que o som do Ringworm é, em valores aproximados, um Slayer hardcore. Mas bem melhor que esse Slayer hardcore dos últimos 10 anos. No disco Hammer of the Witch eles despejam uma trauletada thrash/HC com riffs ganchudos e alguns solos Hannemaneanos (R.I.P.) que dão um toque mais sombrio à dinâmica street punk do grupo. E também não têm o menor pudor em metralhar blast beats desaforados aqui e acolá. Um álbum arrasador, ensurdecedor e entortador (de pescoços).



Vai por mim: não faltam motivos pra ficar puto em Vitória/ES. Mas não tão puto! Nesse Chiqueiro Ninguém Vai pro Céu, 3º álbum do kombão capixaba Puritan, é um tsunami de ódio e niilismo concentrado. O som é uma porradaria crossover animalesca, mas o filé mesmo são as letras. Você pode até não concordar com tudo, mas a diversão é garantida com "Bandido Bom É Bandido Morto", "Aqui Se Faz, Aqui Se Paga" e outras pérolas do cancioneiro reaça. Já "Periferia É Periferia" faz a homônima dos Racionais MC's parecer um dia ensolarado no parque, enquanto "Manipulado" é a crônica definitiva para qualquer cenário do país da Lei de Gérson. Pode aumentar o volume à vontade que o vizinho não vai reclamar. Ele também não vai pro céu.



Inacreditáveis 30 anos de carreira tocando thrash metal no Brasil. Não é pra qualquer um. E no caso específico do Korzus, ainda comprometido com uma evolução técnica constante e um nível de profissionalismo musical e extramusical de deixar muita banda gringa comendo mosca - medalhões, inclusive. Legion, o novo álbum, não é nada menos que o reflexo disso tudo: uma banda no topo do seu jogo, sem ceder 1 milímetro a tendências efêmeras. A ótima produção confere uma nitidez incrível para um thrash tão extremo. Legion é um discaço do primeiro ao último acorde. Ouça no volume 111.



Complicado contextualizar o Laibach pra gerações pós-Perestroika. Associado ao coletivo político-artístico NSK, sua natureza é francamente performática. Pra eles, Música é apenas um... instrumento. Música excepcional, diga-se, se o seu negócio for EBM e IDM, os corpos que eles habitam em Spectre. Apesar disso, vários aspectos daquele "industrial marcial" temporão foram preservados em carbonita siberiana: estão lá os gritos de ordem proletários, o fetiche pelo totalitarismo em seu state d'art e, claro, a boa e velha provocação nazifascista. O tradicional rosnado em basso profondo do ogro Milan Fras divide espaço com a voz aveludada da lindíssima fraülein Mina Špiler, reforçando o quê de darkwave constante nos sons. As letras, agora em full english, são um parque de diversões em plena Praça Vermelha e a ironia laibachiana vai muito bem, obrigado - vide o assobio à "Colonel Bogey March" logo na abertura, com o hit subterrâneo "The Whistleblowers". Segundo a (excelente) crítica negativa do Pitchfork, o melhor da festa acabou junto com a Guerra Fria. Não se depender desses soldados. Heil!



O som desafiador do Eyehategod atingiu neste álbum homônimo seu estágio terminal de depuração. Tecnicamente, trata-se de um sludge metal doidão, fundindo o hardcore mais crusty com o protometal setentista mais alucinado. Tudo curtido em crueza de garagem e com o sensorial entupido de metanfetamina. É um caos ordenado, paranóico, deliberadamente exaustivo. Uma experiência per se. A sensação é de mergulhar de barriga no poço de seringas de Jogos Mortais 2. E isso, acredite, é no bom sentido.



III é o, hum... 3º álbum do BadBadNotGood e segue mantendo o alto nível dos registros anteriores. Pra quem não conhece, esse sensacional trio canadense faz um mix instrumental de jazz, samplers e hip-hop produzindo uma sonzeira de aquecer o coração. São músicos excepcionais - essencialmente jazzeiros pirando em batidas e grooves lisérgicos no fundo de um pub enfumaçado - e o resultado só podia ser mais um discaço. Eles também já têm na agulha um provável melhor de 2015, em parceria com o Ghostface Killah, do Wu-Tang Clan. Mas esse só lá pra fevereiro...



Tá lá no Bandcamp da banda: "o mundo está fodido e esta é a trilha sonora para o seu fim". Praticamente um subtítulo para La Fin Absolue du Monde, último disco do Enabler. A descrição é fidedigna ao furioso crossover do grupo de Milwaukee, não só pelas letras vomitando uma desgraceira atrás da outra, mas também pelo punch brutal e o trampo bem sacado das guitarras. O álbum inteiro é uma lajotada na fuça, só que lá pelo meião surgem umas nuances mais groove e melodiosas, que somem tão rápido quanto aparecem. Ainda bem. Fiquem atentos, caras do Enabler. Vocês quase puseram em risco sua presença no foderoso Zombie de Ouro!



Que disco de estreia esse do Cadáver em Transe... como diria o Síndico, que beleza. Fui ouvindo e ficando estarrecido. Ou em transe, sei lá. O quarteto paulista vai direto ao que interessa e detona um senhor pós-punk. E pós-punk porrada. Guitarra killingjokeana, baixão pulsante, bateria percussiva e tudo o mais. Talvez fosse o som que bandas como Muzak, Violeta de Outono e Arte no Escuro fariam se fossem mordidas por um Bob Cuspe raivoso. Até mesmo a qualidade lo-fi da gravação conspira a favor. O que estão esperando, groupies? Lotem o camarim desses meninos (e dessa menina). Isto é uma ordem!



Bela surpresa esse Savage Gold, 3º álbum do grupo nova-iorquino Tombs. O som é meio inclassificável, juntando estilhaços de subgêneros metálicos já carne-de-pescoço por si sós. Temos aqui excertos de sludge, progressivo, black metal e doses cavalares de experimentalismo. E é bem headbangeável, apesar de administrar toda essa carga basáltica ao mesmo tempo e a mil por hora. Um disco original, visceral e viciante.



Até ontem, quando se falava em hip-hop underground logo vinha à cabeça o Death Grips. Infelizmente, em 2014 o grupo lançou seu - mediano - canto do cisne, mas a vaga já foi ocupada com folgas pelo Run the Jewels. Em Run the Jewels 2, o duo formado por Killer Mike e por EI-P, também produtor com fuça de gerente de banco, se mostra à altura no DG em ousadia e punch. Mas ao invés de elevar a zoeira sonora a níveis extremos, sua abordagem é mais acessível e direta. Ainda assim, são de fazer mega-stars como Kanye West e P. Diddy se mijarem nas calças bag. Pra quem acha que o hip-hop já deu o que tinha que dar, é melhor ativar os radares novamente...



Se o metal gótico fosse realmente um crossover ao pé da letra, o resultado seria o som assustador do Emptiness. Nada de baladinhas, melodias épicas overproduzidas ou vocaizinhos líricos: o clima é de total desespero, horror e... vazio. Mas "vazio" no mau sentido, o que no caso é bom, se é que você me entende. Ouvir o excelente Nothing but the Whole é mais ou menos como explorar um sanatório abandonado no meio da noite. Em meio aos sons e delírios macabros, também há um delivery generoso de pós-punk, além de uma nuvem ameaçadora de black/death metal - embora o temporal nunca desabe efetivamente, conservando a "impureza" da atmosfera. Um álbum perturbador e imperdível.



Em terra de sludge metal rústico e imundo, o Crowbar é rei. Vindo dos pântanos da Louisiana, o grupo liderado pelo guitarrista e vocalista Kirk Windstein é um dos pilares do estilo e influência primordial pra uma carreirada de bandas, de Mastodon e Black Label Society a Red Fang. Symmetry in Black não é nem o melhor do grupo, mas soa extremamente necessário diante de tanta bunda-molice que assola a mídia todo santo dia. Peso-pesado, cavernoso e arrastadão, mas cheio de hardcore no contrapé. Se algum dia eu operar uma motosserra e esse álbum estiver rolando por perto, vou logo avisando: sebo nas canelas. I'm as mad as hell, and I'm not going to take this anymore!



Com trocentos projetos paralelos, de Unida e Slo Burn a Hermano e Vista Chino, John Garcia é lembrado mesmo por seus tempos à frente do seminal Kyuss. O cara hoje é uma alma perdida embriagada em pura convicção estradeira. Um alienígena freak e desajustado aos dias atuais, só encontrando paralelo em Mark Lanegan. Nada mais de festa stoner no deserto regada à fuzz, skunk, peyote e mocinhas de topless. Neste debut solo homônimo, Garcia se mostra mais intimista, tocando hard rock blueseirudo puro e simples. Metade do clima aqui é pra refletir lá no deserto mesmo, à noite, mirando as estrelas deitado no capô de um Mustang. A outra metade é pra quando tanta contemplação der no saco e querer se mandar lá praquela festa.



Na ativa desde 2011, o grupo franco-sueco-americano Blues Pills tem ótimas credenciais: foi formado por dois ex-Radio Moscow, o baixista Zack Anderson e o baterista Cory Berry. Ou seja, garantia de cozinha fervilhante de blues e lisergia com um pé no rock de garagem. Mas o grande trunfo da dupla foi descobrir e recrutar o fantástico guitarrista-prodígio Dorian Sorriaux, na época com 16 anos, e a riponga vozeiruda Elin Larsson, fã de Etta James e Big Mama Thornton, mas que certamente já matou aula pra ouvir Janis. Este debut homônimo foi um dos álbuns mais festejados de 2014 e não é pra menos. Seu hard blues psicodélico é apaixonado, evolvente e transborda feeling. Believe the hype.



E o cenário sludge/stoner metal vai muito bem, obrigado. Pelo menos no que depender de bandas como o Blacksmoker, um trio violentíssimo proveniente da Bavaria. No opus Origins o que não falta são riffs podraços, batidas tiranossáuricas e vocais agonizantes na linha Matt Pike/Ben Ward. A sensação é de que mais um monstrinho da prole bastarda do Black Sabbath com o Motörhead escapou do porão. Fora que o termo "black smoker" é um puta nome pra banda de rock porrada!



Conjuring the Dead é o décimo álbum do Belphegor em 23 anos de atividade, fora EPs e o disco ao vivo. O grupo hoje é um duo em estúdio - o austríaco Helmuth Lehner e o tcheco, uia, Serpenth - e naturalmente evoluiu seu "blackened death metal" a um alto nível de musicalidade sem arrefecer o ataque demoníaco, luciférico e belphegórico. A prova é a bela instrumental "The Eyes" convivendo em harmonia celestial com a altruísta "Lucifer, Take Her!". É um disco relativamente curto - pouco mais de meia-horinha e sua alma já tem um lugar garantido no quintal do cramulhão - e sobretudo efetivo. Méritos à parte para a excelente produção de Erik Rutan, que também produziu o grande álbum do Tombs. Esse aí estava com o diabo no corpo em 2014.



Como toda formação stoner metal que se preze, a dorsal do veterano Orange Goblin sempre foi o Black Sabbath. Em Back from the Abyss a inspiração ganha um devido tributo logo na abertura, com "Sabbath Hex". Mas seu caldeirão de influências é abrangente, cobrindo também outros gigantes do hard/heavy setentista sem perder sua própria identidade, pelo contrário. Uma coisa, porém, é certa: Lemmy ficaria louco se ouvisse a motörheaderizada do grupo nas alucinantes "The Devil's Whip" e "Bloodzilla". "Thieving from the house of God" é isso aí...



A definição mais bacana de Echoes and Cinder, dos deathsters ingleses do Ancient Ascendant, veio do Metal Sucks: "é como se o Opeth saísse com o Enslaved e eles tivessem um bebê. Enquanto isso, Lamb of God e Skeletonwitch também saíram e tiveram um bebê. E por algum milagre, esses dois bebês saíram juntos e treparam - e essa seria a merda que eles dariam à luz." Sem mais a adicionar a essa imagem idílica e poética, a não ser que o disco também é bastante acessível, cortesia da produção cristalina do genial Dan Swanö. "To Break the Binds", por exemplo, tem umas passagens que parecem até trilha dos velhos comerciais dos cigarros Hollywood. Ou seja, tudo a ver com death.


Capa mais fodona de 2014

A do álbum The Old Believer, do grupo The Atlas Moth. Bom disco, mas a capa é um must see.


Ou not see...

A video posted by Chris Bruni (@chris_bruni) on


Revelação de 2013 em 2014


Nomad, do Hendrix tuareg Bombino. Descoberta do André Barcinski. O cara realmente quebra tudo e ganhou essa com uma palheta e um pedal wah-wah nas costas.


Série-vício do ano


Orphan Black. Tudo começou com uma dica do Eudes no santuário da Rapadura. Hoje sou o presidente do fã-clube latino-americano da Tatiana Maslany.

Cadê abril que não chegou ainda?

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Vou pregando a caminho do Texas até o fim do mundo com orgulho americano e histórias antigas rumo ao sul para a guerra ao sol e para a salvação às portas do inferno no Álamo


Já parabenizei a editora Panini por publicar o final de Preacher pela 1ª vez no Brasil, mas parabenizo de novo por ser a 1ª editora a completar a série na íntegra por aqui. Chegou hoje o pacotão com os dois encadernados retroderradeiros - Rumo ao Sul e Guerra ao Sol - e umas coisinhas mais.

Esse foi osso pra acompanhar. Foram anos a fio, entre incertezas inquietantes e silêncios sepulcrais no hot site da Vertigo. Mas valeu a pena. Dilacerarei-o com a fome de cem mil zumbis.

Excelsior!

domingo, 14 de dezembro de 2014

MAX LOUCO!

No 1º trailer me bateu uma sensação meio "sim, tudo bem, legal, mas o Mad Max que conheço é..." e viúva e tal.

Mas esse trailer novo, meu São Patrick do Crepúsculo de Aço...


Vamos esquecer por um segundo que trailers de grandes produções geralmente são montados por terceiros.

Parece até que George Miller ficou inspirado pela sua participação no imperdível doc Além de Hollywood: O Melhor do Cinema Australiano, onde relembrava os tempos em que tinha um timing psicótico para cenas de ação e um time de dublês sem um pingo de amor à vida.

E porque esse trailer me parece uma epifania de auto(re)descoberta comparável ao de Sam Raimi quando fez o divertidíssimo Arraste-me para o Inferno.

Serei o 1º na fila do cinema. Tomara que outros cineastas da velha guarda também tenham suas "recaídas". Porque se depender dessa nova geração de franguinhos...

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Quarteto Bombástico

Então a Marvel explodiu o novo Quarteto Cinematográfico.


E eu morri de rir.

Antes de tudo, sou da geração que ficou estarrecida com a falta de escrúpulos da Microsoft ao sabotar sistematicamente a Netscape, criadora do melhor browser do final dos anos 90. Parece que foi ontem. Tudo bem, sou mais velho que isso: que tal quando a ex-gigante do tabaco Brown & Williamson ameaçou quebrar a CBS por causa de uma entrevista comprometedora? E quando - esse já não é da minha época - a Detective Comics engoliu a pequena Fawcett por causa do Shazam!?

Histórias de canibalismo corporativo sempre causaram indignação geral. É o clichê de sempre - um Davi contra um Golias e um resultado invariavelmente ruim para o público. Sou o primeiro a receber o espírito do Meiaoito nessas ocasiões.

Mas existem exceções. E no caso The Walt Disney Company vs. 21st Century Fox torço sinceramente para que Mickey Mouse esmague seus inimigos, os veja caídos diante de seus olhos e ouça os lamentos de suas mulheres.


Recapitulando: a Marvel começou a chamar atenção quando omitiu o Quarteto Fantástico e os X-Men em um pôster de seu aniversário de 75 anos. Em seguida, veio o vazamento de um suposto memo onde a editora exorciza os 4 Fantásticos do nanquim de seus artistas. Entre uma coisa e outra, foi anunciado que o título do Quarteto será cancelado. E assim chegamos à ironia da explosão fantástica.

Não sou analista econômico nem nada, mas parece bem óbvio o que acontece aqui. É campanha de guerra. Ainda não chegou ao próximo nível, mas aguardemos.

Nos últimos meses li relatos e reações de todos os tipos. Grande parte repudiando tais manobras e cobrando uma conduta de fair play por parte da Marvel/Disney. E que "não é assim que se faz", "concorrência só traz benefícios", "a briga deveria ser pelo melhor filme", piriri, pororô. Tudo muito sensato e civilizado.

Só que é difícil continuar sendo sensato e civilizado enquanto transformam Victor Von Doom em Doom69, o rei das salas de bate-papo do UOL.


Claro que aí existe uma linha tênue que eu gostaria muito, mas muito mesmo, de não ultrapassar: a que separa gente normal de fanboys. Não sou nenhum iconoclasta... ainda... mas quanto mais velho fico, mais acho poucas coisas tão chatas quanto fãs incondicionais. Então não é um simples caso de protecionismo em relação ao meu querido Quarteto Fantástico.

Trata-se daquele tipo de revolta de quando se está diante da vandalização de algum patrimônio histórico ou alguma obra de arte em via pública. O sentimento é o mesmo. É dessa forma que vejo o Johnny Storm no sistema de cotas, a Sue adotada, o Doom@IronCock98cm, o Reed McLovin e os indícios claros de que decidiram pretensamente "melhorar" o material.

Sobre isso, Guillermo Del Toro já disse tudo o que precisava ser dito lá nos idos de 2002.


(categórico, ainda que ele mesmo tenha abandonado essa cartilha 1 Hellboy mais tarde)

Outro fato, inegável, é que a Marvel acabou sentindo a falta do Edifício Baxter em seu universo compartilhado. Já vimos chitauri, xandarianos e krees, mas não skrulls. Vimos até um Celestial, mas não Galactus. A grosso modo, todos os personagens da Marvel Studios são solitários ou renegados, não há laços familiares mais profundos ou alguém da ciência-pela-ciência. Nenhum geek adulto, nenhum Egon Spengler.

Mas o pior é que perdem-se aí 50 anos de referências, conexões e ideias que a Fox nunca poderá utilizar, já que tem em mãos um Quarteto isolado. Enquanto isso, os fracassos se acumulam. E cada erro desse me custa uns cinco anos de espera até o próximo frango.

O problema é que a partir dos 35 a vida vira uma planilha de prioridades. O dia é mais curto. Só quero saber do que pode dar certo. Não tenho tempo a perder. Após dois filmes meia-boca com bilheterias aquém do esperado, acho mesmo que a Fox devia:

1) Desencanar desse negócio de gibi e apostar tudo em um novo Predador com os retornos triunfais de Schwarza, Elpidia Carillo e John McTiernan;

2) Devolver o Quarteto e todo o seu canon para a Marvel com um pedido de desculpas;

3) Aproveitar o embalo e devolver os X-Men também, que já passou da hora - e olha que gosto dos filmes.

Tudo isso é só uma saudável especulação entre um cafezinho e outro. Apenas levei em consideração as alterações pavorosas em personagens clássicos da cultura pop. Mas o outro lado da moeda também precisa ser lembrado: o diretor e roteirista Josh Trank tem uma ótima reputação, mesmo entre os fanboys, via Poder Sem Limites (Chronicle, 2012). Talvez seja a única coisa que impeça uma turba de nerds furiosos com tochas e forquilhas em riste se aglomerando em frente ao seu castelo - ou n'alguma localidade virtual correspondente.

Dessa forma, como diria o Vigia, que provavelmente está preso à Fox também, "O que aconteceria se... 


...O Filme For Bom?"

Nó, isso seria péssimo.


Porque seria um filme bom de um supergrupo que não é o Quarteto. Lógico!

E eu juro que não sou radical.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Mindinho e a Pedra de Roseta Filosofal

Ambition foi produzido em parceria com a Agência Espacial Europeia para celebrar o pioneirismo da Missão Rosetta. Dirigido pelo polonês Tomek Bagiński, o filme é cheio de futurismos e metáforas - meio jedi - conduzidas pelos atores Aidan "Petyr Baelish" Gillen e Aisling Franciosi.

E tem alguns dos mais bonitos efeitos especiais que já vi num curta.


Quase tão fantástico quanto foi a missão na vida real. O pessoal da ESA sem dúvida fez por merecer.