quinta-feira, 26 de abril de 2018

A dança cósmica do desempregado


A campanha massiva de Vingadores - Guerra Infinita dá como certa a chegada de Thanos a qualquer momento. Mas ao meu ver, o Titã Louco já está operando nesta esfera terrígena há pelo menos 4 anos. Precisamente num território continental com belas praias, florestas tropicais e mais de 207 milhões de nativos, onde testa, com sucesso, suas estratégias de polarização e dissuasão social em larga escala. Seus típicos joguinhos psicológicos servindo como aperitivo antes da aniquilação total.

As evidências são inconfundíveis: autoridades inacessíveis/intocáveis, desigualdade abissal na distribuição de renda, 13 milhões de desempregados e mutações genéticas bizarras, como os funcionários-polvo que se adaptaram pra não fazer parte dessa massa.

Isso só pode ser obra do vilão mais ambicioso da Marvel. Nenhum Illuminati seria tão implacável.

E tal qual a CIA, Thanos é especialista em desestabilizar governos e manipular sistemas ao seu favor. Após dar ao Surfista Prateado a aula de previsão histórica mais amarga que o ex-arauto de Galactus já teve (Superaventuras Marvel #132) e antes mesmo da escalada cósmica que resultou na trilogia de trilogias do Infinito (Desafio - Guerra - Cruzada), o Titã apresentou ao herói e aos leitores a megalópole artificial Dynamo City.

Uma visita que o Surfista jamais iria esquecer.


Alguns dias antes, Thanos #partiu-estirpar-50%-da-vida-do-Universo. Sabe como é, pra balancear a ordem cósmica aí e fazer um agradinho para a patroa Morte. Perspicaz, logo percebe que o Surfista Prateado será mais do que um mero estorvo para o seu novo projeto. Ao invés de um chamativo embate direto, Thanos opta por uma estratégia alternativa e simula sua própria morte durante um confronto com o herói.

Mesmo com a evidência convincente estirada num caixão diante de todos em Titã, o Surfista desconfia do mamão-com-açúcar que foi a contenda. Porém, o engodo funciona - pelo menos o suficiente.

Durante uma ronda preventiva pelo espaço, o herói é abordado pelo oficial de justiça C2DT42 e informado que tem assuntos pendentes em Dynamo City. Relutante, o Surfista é vencido pela curiosidade ao saber que Thanos deixou registrado lá seus infames testamento e último desejo.

O acesso à cidade só é possível via atalho interdimensional, visto que a comarca espacial é localizada no quadrante privado 18D-X-M. Chegando ao hangar de desembarque, a primeira surpresa: Dynamo City é um complexo absorvente omni-energético.

Nas palavras do C2DT42:

"Toda forma de energia, seja solar, química, elétrica, iônica, cósmica, ou seja qual for, é coletada e armazenada na bateria central. Pela lei, todo poder pertence ao governo municipal e a posse privada de energia é um crime."

Sem poderes e sem escolha, o Surfista é conduzido coercitivamente® até a Corte Nº 6 de Dynamo City.

Após um breve "depoimento" na forma de uma sondagem neural, o herói finalmente tem acesso aos derradeiros autos do Titã Louco - devidamente protocolados em video-"teipe".


Concluídas as formalidades e dispensado pela Corte, o Surfista presume que as maquinações de Thanos não deram certo. Não havia mais nada a fazer em Dynamo City. Era só seguir o seu caminho, assim que pagar a módica taxa de saída de 50 créditos...

Módica, mas virtualmente inalcançável pra quem não tem nada.


Vai trabalhar, vagabundo!

O Surfista Prateado começava a compreender o estratagema de Thanos. Dynamo City era a armadilha perfeita que nem os devaneios mais loucos do Coringa e do Arcade poderiam conceber. Tudo por conta do seu sistema político e financeiro.

O lugar era um pesadelo Orwelliano: a aparente utopia futurista disfarçava uma pseudo-tecnocracia sustentada por autoritarismo, concentração extrema de poder e riqueza, cultura de alienação e uma esmagadora maioria operária e informal amargando irreversivelmente abaixo da linha de pobreza.

Uma verdadeira prisão sem muros. Igualzinho a um planeta que conheço.

O que vem a seguir é de um déjà vu atordoante. E rende as antológicas - e tragicômicas - cenas do Surfista Prateado encarando uma entrevista de emprego e um bico como peão de construção civil.


No fundo do poço, o Surfista agora enfrentava seus dois piores medos, a privação de liberdade e a perda de seus poderes (isso toca alguns sinos, hm?) - agora acrescidos de mais um, novinho, para toda a vida.

Mas claro que não seria uma imersão genuína na dura e cinzenta realidade - especialmente a brasileira - se ficasse de fora a próxima parada do Surfista: Cabana City. Que poderia ser Trenchtown City ou mesmo Favela City, mas a sutileza também é uma arte apreciada.

Lá, o Surfista faz amizade com o simpático malandro Zeaklar e começa a traçar seus planos para alcançar o inalcançável: o indivíduo que ocupa o topo da pirâmide, o ser sugestivamente chamado Aquele-Que-Vê!

Revelar mais - inclusive a natureza do Aquele-Que-Vê - seria uma deselegância. Mas o desenrolar final foi lindamente construído pelo grande Jim Starlin e ilustrado por Ron Lim.

Esse arco foi publicado aqui em SAM #138-141 (aconselho conferir a #134 também). Vou ser sincero... é uma aventura leve e bem-humorada, mas também crítica e dramática na medida, com absolutamente zero de pretensão. Um exercício de estilo de Starlin - hoje, apenas mais um civil diante da Marvel - antes da tempestade de Desafio Infinito.

E sendo mais sincero ainda: é uma minhas sagas favoritas dessa fase por simples identificação pessoal.


Sei que é difícil acreditar, mas nem sempre fui esse gênio bilionário playboy filantropo que você acompanha aqui fielmente desde 2004 (quá, quá, quá!). Já passei pelos mesmos perrengues do Surfista em mais de uma ocasião e posso dizer que as frias ruas de Dynamo City não me são nada estranhas.

Natural então que eu tenha um certo "carinho" pela história, que releio de tempos em tempos. Por motivos óbvios.

Thanos pode ter a cidadania de Dynamo City, mas consegue atingir o brasileiro que existe em cada um de nós.


Esse cara é o puro Mal encarnado.


Do velhusco-mas-ainda-bacanudo The Appendix to the Handbook of the Marvel Universe:

“I would really, really enjoy seeing Starlin and Lim write a story detailing Thanos' initial encounter with Dynamo City

- Me too!!

terça-feira, 10 de abril de 2018

Batmetal Eternamente

Quatro anos após o megacrássico "Batmetal" e da sangrenta sequência "Batmetal Returns", o estúdio de "animação e metal" ArhyBES volta à artilharia com fogo e fúria!


O caldeirão de referências está a mil. Piscou, perdeu Hendrix, Dio, Vicious & Lemmy.

sexta-feira, 23 de março de 2018

Windsor-Smith X Sienkiewicz

Além da saga deveras divertida, a recém-saída Excalibur (vol. 4): Uma Aventura no Tempo - Volume 2 traz um ótimo selecionado de artistas. A surpresa foi a combinação potencialmente explosiva da história "Pessoas (Ir)Reais": nada menos que Bill Sienkiewicz arte-finalizando Barry Windsor-Smith.


Arte-finalizando não, duelando mesmo. Foi o Confronto do Século! Mas já volto aí.

O timing da vez foi, logo após a leitura, ver o editor Alex R. Carr twittando sobre esse mesmo encontro, lançado originalmente em agosto de 1990.


Já o timing sobrenatural da vez, foi ver o post do 5 & 20 revelando que BWS, velho companheiro de copo nas cons da vida, sempre detestou suas tintas.


Ele não comenta se já recebeu alguma explicação mais técnica, mas tenho cá meus chutes. Voltemos ao embate.

Quando arte-finaliza alguém, Windsor-Smith atropela a identidade do desenhista sem pedir licença. É um rolo compressor autoral. O saudoso Herb Trimpe de Homem-Máquina que o diga. Mas temo dizer que desta vez seu lápis imparável encontrou um nanquim irremovível.

Tirando um olhar aqui e uma expressão facial ali, quase não se reconhece a presença do The Smith na história. A pegada suja e caótica com linhas livres e senso de transgressão artística não deixa dúvidas. Fair play à parte, na guerra de estilos, Sienkiewicz levou a melhor.

Existe algum ditado pra ladrão de cena que rouba a cena de outro ladrão de cena?

sexta-feira, 16 de março de 2018

Os editores da Salvat adiam o lançamento da Coleção “A Espada Selvagem”...


Pois é.  Aquele silêncio estava mesmo esquisito.

A despeito do baque, a reação geral tem sido uma só: um $u$piro de alívio. Segundo o comunicado, a épica coleção ficou para o 2º semestre de 2018.

"Sabemos o quanto vocês estão ansiosos para a chegada de Conan, e estamos tão ansiosos quanto, mas essa adaptação na data foi necessária para garantir a produção e distribuição adequada da integralidade da obra."

Além da justa justificativa - particularmente a tal "produção adequada da integralidade da obra", copiaram tradutores e revisores salvatianos? - é engraçado acompanhar nos comentários a condescendência cumplicidade do(a) analista de mídias sociais.

Nunca vi uma empresa tão preocupada com o bem-estar financeiro do consumidor. Nem parece aquelas editoras que lançam coleções e extensões ao mesmo tempo e algumas até de surpresa.

Longe de mim reclamar. São alguns shillings a mais para gastar nas tavernas mais vagabundas da Neo-Hibórea. Aye!


Quadra inicial de volumes  1as. impressões:
A Espada Selvagem de Conan - A Coleção vol. 1
A Espada Selvagem de Conan - A Coleção vol. 2
A Espada Selvagem de Conan - A Coleção vol. 3
A Espada Selvagem de Conan - A Coleção vol. 4

sexta-feira, 2 de março de 2018

La Belle de Nuit


Projeto Vampirella, que desenvolvi em parceria com o VAM! (que só fez todo o trabalho), continua me trazendo alegrias. E desta vez alcançando até o reino do onírico.

Já que meu sonho de ver a Jennifer Connelly recheando a meia-arrastão-com-cartola da Zatanna e a Denise Richards estufando o topzinho da Lara Croft foram pro arquivo indefinidamente, ao menos a deusa temporã Caroline Munro como a Vampirella da Hammer Films chegou mais perto da realidade.

A Munro vampir(ell)izada ficou ainda mais estonteante!


Além de dar um rosto ao mítico projeto engavetado da Hammer, o exercício de estilo (e imaginação) do VAM! não fez prisioneiros e concebeu uma franquia completa!

Igualmente bacanuda foi a triangulada na filmografia das estrelas do estúdio - com o perdão dos veneráveis Christopher Lee e Peter Cushing, o destaque absoluto vai para as pinups clássicas Valerie Leon, Barbara Leigh e a Munro, lógico.

Matéria para ler, curtir, usar e abusar de várias maneiras. Mas vá rever os filmes, vai. Diversão garantida também.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Vem aí o Capitão Fraldinha!


Sempre curti o Universo Fawcett e a pegada nonsense e anacrônica de suas aventuras. Já até contei que um dos meus primeiros gibis foi justamente um do Capitão Marvel (que Shazam o quê, pô). Inclusive perdi as contas dos daydreamings à base de Batson versus Clark live-action em filas e engarrafamentos que já não mereciam minha presença física, quanto mais sensorial.

Mas para mim, a imagem vazada ontem, mesmo em ângulo ruim, fala por si só. Existem coisas que realmente não deveriam sair do papel.

O ponto a favor é o diretor David F. Sandberg. O mesmo do Lights Out curta e do Lights Out longa, que me divertiram horrores, até porquê eram histórias de horror. E mesmo assim o pessoal já andou puxando a orelha do sueco.

Seja como for, e mesmo com cor de tomate e framboesa no uniforme, o resultado disso só sai em abril de 2019.

Que o Mago Shazam nos proteja.


Atualização 9/3:


Parece que minha opinião disse "Shazam!" e ficou tão bombada quanto o Chuck.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Zombie de Ouro 2017


"And then one day you find ten years have got behind you / No one told you when to run, you missed the starting gun..."

E realmente já se passaram dez anos desde aquele insano ZdO 2007. Como foi que isto aconteceu? Lembro até das incessantes rodadas de combustível - marca Cafuso, forte e com muito açúcar. É realmente triste ver dez anos se desfazendo diante dos olhos como se fossem dez minutos, mas pior ainda é ver nossos heróis caindo como moscas a cada ano. E só vai piorar. Os próximos 10 anos serão terríveis neste sentido.

Mas isso me faz pensar... em 2018 o BZ não só completa improváveis 15 outonos, como já ultrapassou essa marca desde o ano passado, se contar a época em que remava na canoa furada do Blogger Brasil. Se é legal, não sei. Da geração que começou comigo, ficou quase ninguém. Todos migraram de mala e cuia para alguma terra prometida. Da minha parte, hobby e velhos hábitos me manterão aqui por mais algum tempo.

O Zombie de Ouro 2017 é provavelmente a edição mais sucinta de todas, por um motivo muito simples e correlacionado com essas divagações: em termos de cultura pop, passei mais tempo nas décadas de 1960, 1970 e 1980 do que neste século, fácil. Realmente me interessei por pouco ou nada do que foi oferecido no ano que passou, seja aqui dentro ou lá fora. O pouco do hype que experimentei me fez dar meia volta com um gosto amargo na boca. Não é mais pra mim. I'm too old for this (new) shit.

Saudades de quando "Time" era só uma das músicas da Hollywood.

Mas vamo-que-vamo!


  





Pensei que já havia zerado os indie-alternativos nesta vida, mas foi uma grata surpresa este Visions of a Life, 2º disco do Wolf Alice. Com desenvoltura notável, o quarteto londrino passeia pelo shoegazer e pelo noise barulhentos e sujões até mergulhar em etéreas viagens synth e dream pop. Tudo pontuado pela voz docinha - e por vezes brabona - da alice-girl Ellie Rowsell. Um perfeito Sonic & Mazzy Chain. E dizem que o debut é melhor ainda.



Só a Relapse mesmo. É raro uma banda com fixação em Lemmy & seus Motörheads não afundar no chupim dos mais redundantes. A grande sacada do Tau Cross foi fundir essa referência com outra tão abrasiva quanto: o pós-punk casca-grossa do Killing Joke. Pode até soar pretensioso, mas basta alguns segundos de qualquer som deste Pillar of Fire pra ver o esporro comandado pelo baixista e roucalista Rob "The Baron" Miller, do Amebix, ao lado do batera Michel Langevin - o Away do Voivod e também ilustrador daquelas capas insanas que eles têm. A cereja, claro é a voz de Miller, que lembra uma cria bastarda e horrenda de Mr. Kilmister com o loucão Jaz Coleman, do KJ. De fato, parece algo que fugiu do tanque de isolamento do filme Altered States, do Ken Russell. Legal demais.



O título About Time é de uma ironia perfeita, visto que os suecos do Horisont seguem lançando alguns dos melhores discos setentistas do século 21. Trafegando entre o hard blues do Purple, guitarras à Thin Lizzy e até o Rush fase John Rutsey, chega a ser um pecado não ouvir essa maravilha num bolachão. Quase dá pra escutar o chiado da agulha deslizando nos sulcos de vinil antes de cada música. E que música. De uma época que definitivamente não foi o ano passado.



Depois de um sumiço de 17 anos, a volta mais improvável entre as bandas mais subestimadas do planeta: o Galactic Cowboys! Yippee ki-yay, motherfucker! Long Way Back to the Moon reapresenta o grupo texano em inacreditável grande forma, lembrando bem da época em que fundiam os neurônios dos críticos e da legião de fãs (eu e mais uns dois). É pop? É rock? É progressivo? É hard? É thrash? Não é nada disso. E é tudo isso. Ao mesmo tempo. Ainda. Sensacional.



Confesso que nunca fui muito com os córneos do metalcore - estilo fake news total, em que é comum um grupo soar como um leão enfurecido à 1ª ouvida e virar rapidamente um gatinho siamês nas audições seguintes... mas não antes de você ter anunciado ao mundo que acabou de descobrir a banda mais pesada da história humana. Felizmente não foi o que aconteceu com o Code Orange, ainda. O combo da Pennsylvania tem lá um ou dois momentos pra descansar o sensorial, mas no geral é uma aberração de ódio e agressividade. Forever é um batidão violento de hardcore, thrash, noise e industrial produzido pelo Kurt Ballou, do Converge - outra instituição do metalcore puto da cara que também lançou disco em 2017, mas não tão resoluto, desgracento e carne de pescoço quanto este.



Post Self dá sequência à ressurreição do Godflesh após o lindo apocalipse de A World Lit Only by Fire, de 2014. A expectativa (minha) batia na exosfera. Desnecessário: Justin Broadrick e G.C. Green são a alma do monstro e mantiveram intacta sua natureza imparável e irremovível. A novidade é que a dupla trabalhou mais a relação de suas personalidades metal e eletrônica sem abrir mão de mexidão udigrúdi pra dar a liga. E dá-lhe trips shoegazer, drone, hip hop experimental e outras pirações em meio a um pesadelo industrial que só posso comparar a um compactador de solo em forma de música.



Rincon Sapiência já está na pista há pelo menos 17 anos, mas só agora chega ao seu excepcional álbum de estreia, Galanga Livre. Toda a bagagem acumulada em bandas, singles e mixtapes teve um reflexo bem perceptível no álbum - Sapiência é um dos melhores rimadores da atualidade e só a faixa de abertura, narrando a saga de um quilombola cheio de sangue nos zóio, já merecia uma adaptação pro cinema. Igualmente fascinante é a autoconsciência do rapper paulistano, que usa e abusa do rock, melô, pancadão e o que for preciso para conferir um aspecto mais orgânico ao seu ritmo. E à sua poesia. Discaço.




The Horrors é uma daquelas bandas que nunca entendi muito bem. Incensada por fãs e críticos hip e com uma aura de playboys cult que me lembrava o auê em torno do Arcade Fire anos atrás (e hoje, cadê?). O som, meh, legal, mas se é pra ser estranho e atmosférico, por que não partir logo pro nargilé completo? Goodspeed You! Black Emperor, Mogwai, Tortoise. Ou então uns krautrock da hora, mano. Mas com V foi diferente. Esse bateu. Talvez pela produção coesa como chumbo, talvez pelo show de cores dos arranjos, talvez pelas influências bem dosadas de industrial, sei lá. Só sei que no momento meu coração derrete pelo Fab Five. Tudo rodando direitinho e com troféu imaginário entregue, lá vou eu atrás dos álbuns anteriores pra (re)ver o que perdi. E no atual cenário de mil coisas pra ler, ver e ouvir... The Horrors... The Horrors...




Até que o Grammy Latino acerta de vez em quando: o rapper porto-riquenho Residente empilhou indicações com seu debut homônimo. Totalmente merecido. Residente - codinome de René Juan Pérez Joglar, segundo o Wikipedia - confere ao rap enquanto gênero uma visão macro de mundo. Uau. É o mínimo que se pode dizer de uma jornada que sai da latinidad, atravessa paisagens da mitologia chinesa e do mais puro chanson francês até chafurdar nos desertos do Níger - e olha o Bombino ali, esmerilhando sua guitarra rock-tuareg na faixa "La Sombra". Tudo isso em pouco menos de uma hora. Uma hora que me deixou maravilhado com o que ainda tinha/tenho que assimilar.




Curto a música de Beck desde que despontou no mainstream. Ainda ouço "Loser" com o mesmo entusiasmo do dia 1. Admiro demais seu arrojo na categoria one-multi-instrumentista-produtor-band - a mesma que botou Trent Reznor contra Puff Daddy no saudoso Celebrity Deathmatch. Mas algo aconteceu com esse menino de 50 anos lá pelos idos de 2014, quando pariu Morning Phase, um dos discos mais deprê, dor-de-cotovelo e apagados que já ouvi nesta vida. Perto daquelas músicas de corno terminal, "Something in the Way", do Nirvana, parece marcinha de carnaval. Pois bem, nosso garoto parece ter encontrado uma nova rapariga para lhe fazer aquele gostoso cafuné no cangote: o novo Colors é alegre, alto-astral, cativante e cheio daqueles detalhezinhos arranjísticos que fizeram a fama desse talentoso ratinho de estúdio. Finalmente acenderam o Beck!




Adorei o artigo do Decibel Magazine relacionando o insucesso comercial do Warrior Soul com o fim da era hard rock dos anos 80 - com a banda sendo colocada erroneamente no mesmo saco pela percepção midiática baseado nas longas madeixas do vocal Kory Clarke! - e o então emergente (e já poderoso) Rage Against the Machine assumindo a boina do "rock de protesto" que deveria ser deles. É um barato. Principalmente porque faz sentido numa semiótica caolha e perneta, do jeitinho que o nosso mundo funciona. Não teve Lars Ulrich elogiando que fizesse a banda decolar, mas ao menos é legal ver que Clarke & cia desencanaram disso há tempos. Back on the Lash parece abraçar o gueto hard em que os colocaram: é raçudo, divertido, ensolarado e deliciosamente datado. E no momento é disso mesmo que precisamos. Pra ouvir guiando. E no talo.




Machine Messiah foi o 1º grande álbum que ouvi em 2017. E meio que mais um divisor de águas entre o Sepultura atual e os fãs saudosos do antigo. Se a banda sempre evitou repetir o mesmo álbum, aqui se superou. Tudo soa tão diferente do que já fizeram antes que provavelmente foi a pá de cal pra muita gente em relação ao grupo. É certo que a liderança de Andreas Kisser nunca esteve tão evidente antes - faixas como a supreendente instrumental "Iceberg Dances" só pode ter saído daquelas trocentas horas de prática diárias. E assim caminha o nosso maior grupo de rock em todos os tempos: ora lentamente, ora a passos largos; ora Sepultura, ora Andreas Kisser.




Charles Edward Anderson Berry, o Chuck Berry, dispensa apresentações (espero). Antes de deixar o plano terrestre no início de 2017, ele já havia deixado no forno este bom Chuck, seu primeiro disco em quarenta (!) anos. Não é a reinvenção da roda que ele mesmo inventou, apenas uns blues e boogies saborosos que se habituou em enfiar entre um rock and roll faiscante e outro. O clima é de celebração. A filharada está lá também, se divertindo ao lado da The Blueberry Hill Band. Tom Morello toca guitarra na música "Big Boys". E tem a sequência do hino "Johnny B. Goode" - claro, "Lady B. Goode". Duck walk, riffs e sabedoria - essa poderia ser a fórmula química da diversão. E Mr. Berry o seu louco cientista-chefe. Vida longa ao Rei.



Menções honrosas!
War Moans, Mutoid Man
Hiss Spun, Chelsea Wolfe
Luciferian Towers, Godspeed You! Black Emperor
Terra Selvagem (Wind River, dir. Taylor Sheridan)
Kid Kruschev (EP), Sleigh Bells
Emperor of Sand, Mastodon
The Orville S1 (Fox)
Native Invader, Tori Amos
The Exorcist S2 (Fox)
A Place Where There's No More Pain, Life of Agony

E aquele expediente que você já conhece: dicas, concordâncias e discordâncias na ouvidoria aí embaixo. Ou depois.

sábado, 13 de janeiro de 2018

Sede de Vampirella

E no Plantão Especial de Sábado 13: a Vampirella do mestre Rodolfo "Rudy" D. Nebres!


Quando fiz um merecido tributo ao quadrinhista, já havia atentado para a vasta produção do pequeno gigante das Filipinas. Mas foi num dos divertidos (e viajantes) papos com o VAM! que percebi sua proficiência nas aventuras da vampira do espaço sideral mais adorada da cultura B. E com uma qualidade digna dos melhores trabalhos do artista - o que não é pouco.

Pra quem é fã de quadrinhos de terror dos anos 60 e 70, só uma palavra: essencial.

Tecnicamente, não é a primeira vez que menciono a longeva, libidinosa e lasciva Vampirella por aqui. Mas a bombshell sanguessuga certamente merecia uma ocasião especial só pra ela.

“Vampirella – She's so sexy!”
(Rudy D. Nebres)
Antes, uma dose de contexto pra viagem: no longo período entre 1980 e 1996, Nebres colaborou sazonalmente nos títulos da Vampirella. Com isso, acabou estabelecendo uma das únicas pontes de continuidade entre a Warren Publishing (editora das cultuadíssimas Eerie e Creepy, além da Vamp) e a Harris Publications - que adquiriu o catálogo órfão da Warren em 1983, criando assim a Harris Comics.

Vampirella foi a estrela dessa retomada e vislumbrou parte do antigo sucesso com o início dos anos 90, quando encontrou um público já, digamos, fidelizado por supergarotas curvilíneas em trajes mínimos.

O timing era perfeito. Faltou oportunismo.

Tivesse Vampirella caído nas garras fominhas da Marvel, Nebres hoje seria famoso, cheio de grana, mulheres e iates. Ou não - e ao menos seria convidado para as premieres dos filmes live-action da diva vampiresca pela Marvel Studios.


Conheci o trabalho do VAM! na Batdeira pelas suas interações e colaborações no Submundo HQ - o melhor periódico sobre o mercado nacional de quadrinhos que você vai encontrar por aí. É um mix muito bem dosado de expertise em design gráfico com exercício de estilo que faz qualquer leitor de gibis sair por aí sonhando acordado. Principalmente aqueles das "velhas escolas" - leia-se EBAL, RGE e Abril, entre outras.

Já havia visto algo nessa linha em blogs como o Super-Team Family, mas nunca com uma pegada tão abrangente e profissional. E adaptado à nossa realidade editorial, com direito a pesquisas históricas cuidadosas, do tipo que não se vê em qualquer lugar. E aí que papo vai, papo vem, surge a ideia de juntar o útil ao agradável: a Batdeira com o BZ; a Vampirella com o Nebres; e, enfim, a Vampirella do Nebres.

Os projetos da Batdeira, com as devidas exceções, são pautados em sua viabilidade real e impacto de mercado. Com as sucessivas compilações da Vampirella pela Mythos, por que não um material genuinamente clássico da sanguinária heroína? Francamente não consigo pensar em química mais natural, prontinha pra embalar e vender.

As capas e a diagramação produzidas pelo VAM!, sozinhas, já são vendedoras de alto nível.


Design, arte-finalização, títulos e diagramação por VAM! - Texto por dogg! - Arte por Nebres! - E clique para ampliar!

Fabulosas! Ou nas palavras da Vamp: Satyr and Circe!

A seleção do compilado seria moleza. Começaria com Vampirella #92-#95 (Warren, 1980-1981), da série clássica...


...e seguiria com a fase mais recente - Vengeance of Vampirella ½ (Harris, 1994) e Vampirella Strikes #4, #5 e #7 (Harris, 1996), já incluindo o crossover/quebra com Eudaemon, o Etrigan da Dark Horse.


Tentador como um pescocinho indefeso diante de uma vampira faminta.

Nos extras - é claro que tem que ter extras! - nada melhor que uma galeria de pinups e sketches da morceguinha (ou seria Coelhinha®?) escolhida a dedo - mas gentilmente - dos volumes Vampirella Pin-Up Special 1995 (Harris, 1995) e The Art of Vampirella (Dynamite, 2010).








Depois dessa dá até pra sonhar com aquele longa da Vamp pela Hammer Films (!) que nunca saiu do papel.

Tem jeito aí, VAM!?