quarta-feira, 9 de maio de 2007

BRASIL, TEXAS






Ah, o finzinho dos anos 60... paz, amor e uma motosserra.

O Massacre da Serra Elétrica: O Início (The Texas Chainsaw Massacre: The Beginning, 2006) parece um velho álbum de fotos. Nele estão registrados os primeiros... massacres do assassino slasher estupidamente seminal Leatherface. Ao invés de seus primeiros dentinhos de leite, mostra, em alto e bom som, o ranger dos mais de trinta e dois dentes metálicos de sua motosserra decepando cabeças, troncos e membros - entre outras canduras dos demais membros da família Hewitt. Dirigido pelo novato Jonathan Liebesman, o filme tem uma urgência pela carnificina que chega atropelar os mais desatentos.

Claro que numa produção dessas não há muito o que ficar regulando. Este back-to-the-basic, que é a representação dramática do canibalismo (selvagem ou não), já foi retratado um porrilhão de vezes, com inúmeras possibilidades de crossover estilístico. Estão aí os antropófagos de Delicatessen, Mortos de Fome, e até o honorável Hannibal Lecter contribuindo para o perfil da classe, seja em incursões no drama, comédia ou suspense. Todos felizes, assobiando e chupando até o último caldinho do fêmur de algum incauto.

Façamos todos uma hola em homenagem ao grafismo aqui presente, à moda antiga, com todas as fraturas, desmembramentos, lacerações, marretadas, pauladas e motosserralhadas distribuídas torrencialmente em uma hora e meia de puro carnival bizarre (seis minutos a mais na versão americana). Porque o filme abraça a causa.

Coisa que Tobe Hooper deixou de fazer.

Oboy, me sinto terrível sempre que falo mal do Hooper (que aparece aqui como produtor). Foi ele quem começou toda esta brincadeira, mas, como diria o Bátima, "ele começou, agora se fudeu". Filho a gente cria pro mundo, e com Hooper não foi diferente. Incorporaram a cria do ômi e cuidaram do patrimônio muito melhor que ele. Foi assim com o remake de 2003 e também agora, com o prequel. Um remake e um prequel, dois dos artifícios mais esculhambados ultimamente.



E o filme começa pegando lá no toucinho mesmo, em agosto de 1939. Em um matadouro no cu do Texas, uma empregada do estabelecimento (aparentemente religiosa e ralando no esquema da rédea curta) passa mal e vai tonteando até desabar de vez. Quando o patrão e um outro funcionário chegam pra socorrer, "meio" que percebem que ela está parindo alguma coisa ali, entre jorros de urina, sangue e placenta. O pimpolho todo desfiguradinho é o futuro Leatherface, que já chega ao mundo provocando sua primeira morte. A cena inteira assusta até alien recém-nascido.

A vida não pegou leve com o pequeno Leatherboy. Tão logo deixou a sala de parto (um matadouro, veja só como o destino é pulha em suas ironias), o embrulharam num jornal e o descartaram num depósito de lixo, sendo resgatado dali pela má-triarca Luda Mae, então uma jovem asquerosinha. Levado para o velho casarão, ele é prontamente acolhido ("é a coisa mais feia que já vi!") e batizado Thomas Hewitt.

A história, de David J. Schow e Sheldon Turner (atual escritor de Magneto), é bastante sintética, mas sem perder de vista aquele crescendo gradual típico de um conto de origem - que, por sinal, não é novidade pra quem já viu os primeiros filmes da série Sexta-Feira 13. Uma breve seqüência de flashes nos dá conta que o meninote desenvolveu tendências à automutilação, sofreu preconceito até do homem-elefante, e, apesar das intempéries, começou a trabalhar desde cedo - lá no matadouro, claro.

E aí veio uma sacada maneiríssima do filme.


A exemplo do que acontece no perturbador Evilenko, é dado a Leatherface & Cia um status meio dechavado de "produto do sistema". Só que a brusca mudança de cenário social ocorre à velha e boa moda capitalista: um êxodo rural de proporções bíblicas toma conta do local. Quando aquele decadente fim-de-mundo interiorano já deu o que tinha de dar, passa direto pelo estágio de falência e chega sem escalas à condição de cidade-fantasma; só ficam pra trás os que não cogitam (ou não conseguem mais) se desligar de suas raízes, de sua terra. Cria-se aí uma geração inteirinha de outsiders sobrevivendo à margem do sistema que lhes enfiou um pé na bunda, formulando uma nova ordem conforme sua própria visãozinha de sociedade que funciona.

O momento-chave é quando, no último dia de funcionamento do matadouro, o dedicado Leatherface é o único funcionário que ainda permanece no local, retalhando vísceras, coxas, costelas e qualquer coisa que sangre em bicas (o que rende a "cena de demissão" mais hilariante e nervosa dos últimos tempos). Era óbvio que, dali pra frente, as coisas teriam que mudar.

Assim sendo, os Hewitt têm de fazer o que uma família faz pra sobreviver, oras. E em terra de ninguém, quem tem uma motosserra é rei! E ai de quem se enroscar naquela teia.

As mosquinhas da vez são os irmãos Eric (Matt Bomer) e Dean (Taylor Handley) - o 1º voltando ao Vietnã pra proteger o traseiro do 2º, que pretende desertar e picar a mula pro México - acompanhados das namoradas Chrissie (Jordana Brewster) e Bailey (Diora Baird), respectivamente. Como já é de praxe, eles vão curtir um pouco antes de... e tinha um postinho na beira da estrada... uns hell's angels... uma vaca...

Na verdade, pouco importa. Você já viu tudo isso antes (menos a vaca!). Só que aqui foi a primeira vez. A primeira, sabe. E não tenho o menor problema em acatar este filme como se fosse "A origem do" oficial®, incluindo neste espectro a importância cult do clássico de 74.


Neste universo reconhecível, o interessante é observar os atores dentro daquelas personas jurássicas (algumas, quase como um paletó de concreto cênico). Desta vez, as coroas têm uma participação mais discreta. O gurizinho Jedidiah e a assustadora Henrietta (personagem de Heather Kafka no remake) não aparecem aqui, mas, em compensação, a titia doidona Luda Mae (uma Marietta Marich terrivelmente indiferente) e a enorme Tea Lady (Kathy Lamkin) estão arrepiantes, num sentido meio bizarro. As duas juntas são o terror dos sobrinhos e eu já tive alguns pesadelos recorrentes desde então. O filme também reservou um decepante background para o velho Monty (Terrence Evans).

Já os moleques Eric e Dean são devidamente triturados no processador de lingüiça leatherfaceano, como não poderia deixar de ser (a mulher herdará a terra!). Espero que isto não seja considerado um spoiler, pois eu tinha de mencionar a honra de Eric em ser o dono da primeira face escalpelada pelo Leather!

Quando comentei sobre a "subsistência dos rejeitados", eu não estava brincando... em parte, pelo menos. Quem viu a seqüência do rodeio em Borat, sabe o quanto este povo do sul (dos EUA) pode ser assustador. Mexer com white-trash racista, reacionário, homofóbico, morador de trailer e comedor de prima é tão perigoso quanto um nigga doidaço de crack apontando um revólver pra sua cara. Fui saber disto através de Easy Rider, com aqueles tirambaços que chocaram umas três gerações antes da minha. Pois esta é a síntese de Charlie Hewitt Jr., personagem que o singular e sempre motivacional R. Lee Ermey reprisa no filme. Rebatizado Xerife Hoyt (nome do último tira do lugar, morto por ele), o sujeito vive imerso em seu sonho sem limites. Hoyt é juiz, júri, torturador e açougueiro da auto-estrada, e não perde a chance de esculachar meio mundo em suas observações (republicanas) sobre os rumos do país. Ecos do Sargento Hartman? I can't hear you!

Claro que esse não seria um legítimo Massacre sem as bem-alimentadas 'massacretes' correndo por aí. Diora Baird é uma babe-action de respeito e, por isto mesmo, seu potencial poderia ter sido melhor aproveitado. Já a "brasileira" Jordana Brewster - charmosíssima a menina - acabou por fazer um ótimo negócio (pra ela), evitando a tradicional camiseta molhada e os faroletes que Jessica Biel ostentou com orgulho no remake - por outro lado, pra quem é chegado num cofrinho semi-bundalêlê, aviso logo que o diretor Liebesman foi bem cara-de-pau.

E a brincadeirinha com o clássico de Win Wenders ("e aprendenders") não foi de toda irresponsável, afinal... Jordana acabou por fazer aí o link Brasil-Texas definitivo. Tudo bem que, na prática, ela é tão brasileira quanto um ornitorrinco, mas serviu como um tempero mais exótico na receita de dobradinha dos Hewitt.


O Leatherface do gigantesco Andrew Bryniarski leva o personagem de volta ao panteão slasher, de onde nunca deveria ter saído. Nada mais justo, já que ele foi o primeiro exemplar do gênero. Bryniarski mantém o mesmo vigor e rudeza do remake, só que agora está muito mais aterrador. Seu olhar é petrificante, cheio de ódio e ressentimento. Dá pra ver claramente que Leatherface não tem alma, medo, remorso ou dúvidas. É instinto puro. Não tem nada de monstro-bonzinho aqui, como Hooper mesmo tentou engambelar nas seqüências originais.

Quando Hoyt grita "Leatherface" como quem chama um cão raivoso, só o que resta é correr e correr muito, pois o mesmo baixa no local como se fosse um redemoinho de motosserras ligadas e só pára quando não sobra mais ninguém em pé. Mesmo com essa negação emotiva, o roteiro teve a manha de enfiar uma analogia à "perda da inocência", Texas Chainsaw Massacre style.

Chega a reta final e Leatherface faz sua última vítima no filme. Uma certa paz paira no ar, com gostinho de serviço bem-feito. Só faltou ele dizer "foi bom pra você também?"

O primeiro massacre a gente nunca esquece.

11 comentários:

Ricardo Malta disse...

Análise matadora, Doggma.

Mais um pra assistir o quanto antes, ainda mais com o R. Lee Ermey na parada.

Abraços.

Einhender disse...

------SPOILER------

O final do filme é sinistramente poético, ver leatherface RASGAR ao meio Chrissie (Jordana Brewster) em seguida a memsa bater o carro matando a sua única chance de sobrevivência.

Em seguida ver o mesmo leatherface descer do carro frente a um cenário calmo, desolador e incomodo andando calmamente para uma escuridão medonha (como se estivesse sendo engolido por ela, ou voltando ao seu habitat puro e natural) segurando a motossera como se fosse algum tipo de messias ao contrário foi de arrepiar e de tornar essa última sequência tão estarrecedora quanto o final da versão original!

Isso com certeza eu nunca mais vou esquecer, ninguém teria terminado tão bem um filme desses como foi feito nesse prequel.

Doggma, esse post foi um dos melhores!

Alcofa disse...

putz, este filme realmente ficou tão bom quanto o anterior. a película quase transpira sangue em certos momentos. o legal foi que eu assisti na minha casa numa das intermináveis sessões de "cinepizza" e, na hora em que tinha tripa voando pra tudo qto é lado, nenhuma das mulheres presentes queria comer ! hauahuheduhuahua. melhor: sobrou mais ... hehehehe

clássico imediato este aqui!

Steam disse...

Filmaço!
Comentário e análise matadora (como sempre)!
Imagino Rob Zombie dirigindo um filme dessa franquia, o que me deixa babando na espera de Hallowen, versão RZ!
Parabéns!

Alcofa disse...

ae Dogg ! cara, já tem alguns dias que vazou, se vc já viu, igonora, mas vamos lá!

Dream Theater - Systematic Chaos (2007)

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1. In The Presence of Enemies Pt.1 (9:00)
2. Forsaken (5:36)
3. Constant Motion (6:55)
4. The Dark Eternal Night (8:51)
5. Repentance (10:43)
6. Prophets Of War (6:01)
7. The Ministry of Lost Souls (14:57)
8. In The Presence of Enemies Pt.2 (16:38)

qualidade de 320kbps!

abração!

Alcofa disse...

ae Dogg, outro que esqueci ...

Iced Earth _ Overture of the Wicked (EP)

iced earth
Download:
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só quatro faixas, sendo uma nova e três as regravações do final do album "Something Wicked this Way Comes" ...

ficou bom!

abração!

Bernardo disse...

Quer gore non-stop? Até que enfim lançaram "Ichi - the Killer" por estas bandas. Mais casca grossa que o Takashi Miike é difícil, o cara deixa os slashers americanos e até os europeus parecendo sessão da tarde. Provavelmente vc já viu mas seria legal comentar esse aqui.

kalunga disse...

Doggmaaaaaa!!!

fodaço o texto, bem humorado e sanguinário, hehehehe...

Olha, confesso que sempre fico c/ o pé atrás quando aparecem umas paradas tipo remake ou de contar o ïnício da história tal"de um filme clássico do passado. Rapaz, se o teu termômetro de qualidade aprovou o filme do post, vou ver sem medo (ops!).

A propósito, muito bem lembrado o Delicatessen, um dos filmes mais legais que assisti e que vi novamente semanas atrás.

Um grande abraço!!!

*mais uma vez, valeu MESMO pelo presentinho do Kill Kult! em breve resenha no meui blogg - tá fodaço o som!

Alcofa disse...

eita porra, virou vicio este lance de passar links e dicas ... acho que são "resquícios" do E.P ... hehehe

ae Dogg, se vc não conhece este blog, deveria:

http://crom-diosesdelmetal.blogspot.com

muita coisa de metal lá, tudo qto é genero. na verdade, os caras só focam em coisas que tão saindo, mas tudo com qualidade boa!

abração!

nightrider disse...

cara esta nova franquia ficou muito boa,mas dizer que é melhor que o original de 74,aí vc pisou feio,hein?eu sempre digo que o texas chainsaw massacre 1974(odeio "serra elétrica", é motosserra) é como vinho:alguns bebem e outros degustam para apreciar o sabor!mesmo assim os novos filmes sãomuito bons e R. Lee Ermey é o melhor personagem do filme,sem dúvidas deixando Leatherface em segundo plano...

doggma disse...

Fala, nightrider! Bela analogia essa do vinho (melhor ainda se fosse um bom whisky). É exatamente o que penso. Mas não escrevi que era melhor o original não. Talvez tenha feito confusão com duas passagens (que ficaram meio truncadas mesmo):

- "Incorporaram a cria do ômi e cuidaram do patrimônio muito melhor que ele"

Ou seja... as continuações originais são incrivelmente ruins, mesmo num padrão trash de ser.

- "não tenho o menor problema em acatar este filme como se fosse 'A origem do' oficial®, incluindo neste espectro a importância cult do clássico de 74."

Considerando que o original, por mais irretocável que fosse, não era um conto de origem. "MdSE: O Início" poderia cumprir perfeitamente essa função.

Abraço!