quarta-feira, 9 de setembro de 2009

ULTIMATES ASSEMBLE!


Logo no início de Ultimate Comics Avengers #1, um estarrecido Nick Fury resume o sentimento dos leitores (em geral) após Ultimates 3 e Ultimatum - ambas escritas, ou melhor... excretadas por Jeph Loeb e seus desenhistas sem-mente de estimação. Mais que isso, a cena ilustra o espanto do próprio roteirista Mark Millar frente ao caos instaurado em sua cria mais notória. É a velha e boa ironia escocesa de volta ao batente ultimate - e pra quem sabe ler, um %@#& é letra. Ainda olhando para um Triskelion em reconstrução, Millar-Fury emenda: "eu sumo por dez minutos e o lugar inteiro vai pro inferno". Pode crer que ele não estava se referindo só ao QG dos Supremos.

Após aquela fatídica primeira edição de Supremos 3 eu achei sinceramente que Joe Quesada estava de sacanagem. Que aquela escalaçãozinha Loeb/Madureira rebuscando toda a tralha noventista da era Image foi mais um plano sórdido do rotundo editor. Autosabotagem declarada para, talvez, enxugar a linha ultimate, mantendo só o baratinho e rentável Homem-Aranha teen - com entregas sempre no prazo e um comercialmente saudável público unissex. Conspiração demais? Pode até ser, mas nada explica essa line-up sucedendo uma das duplas mais sensacionais dos quadrinhos da última década. E mais uma vez, Quesada e sua gangue fizeram muito bem aos cofres da Marvel e muito mal pro bolso do leitor.

É um baita administrador, vamos combinar. Pode não ser o cara que controla o abre e fecha da carteira, mas é quem a enche. Não fosse ele, a Marvel, se ainda existisse, seria propriedade da Wal-Mart ao invés da Disney. Vi-va.

Mas antes de tecer previsões apocalípticas sobre como a casa do Mickey irá descaracterizar o Universo Marvel ao longo dos anos que virão, vou tentando entender como Millar vai restaurar sua fabulosa sátira ao american way. Porque tá difícil. Mas essa primeira (e curtíssima) edição já traz algumas pistas.


O plot básico é aquele novelão cheio de cliffhangers pontiagudos que Millar fez tão bem nos dois primeiros volumes dos Supremos. Começa com Fury sendo cicceroneado pelo Gavião Arqueiro de volta ao Triskelion ("quase 75% operacional"), não para reassumir seu velho posto, mas para resolver uma antiga merda envolvendo o Capitão América, agora um renegado. Corta para um dia antes. Cap e Gavião estão em perseguição aérea a uma unidade de assalto da I.M.A. (Ideias Mecânicas Avançadas - até onde sei, em seu debut no universo ultimate). O ato termina com Cap confrontando seu mais clássico inimigo, o Caveira Vermelha, e também com uma revelação-bomba daquelas de fazer o chão desaparecer. Existem novelas na Escócia?

Coube ao artista Carlos Pacheco a difícil missão de substituir Bryan Hitch e dar vazão às epifanias cinematográficas de Millar. Pacheco sempre foi competente, mas vive hoje seu melhor momento, de longe. Da grandiosa capa e do Triskelion de tirar o fôlego na primeira página à sequência de ação desenfreada da metade pro final, o cara foi arrasador. Existe alguma emulação da linguagem visual de Hitch aqui, mas usada como uma ferramenta para deslanchar sua própria dinâmica. Os melhores momentos, claro, são os que trazem recursos mais hollywoodianos (pular com uma moto de um edifício em direção a um helicóptero e uma queda livre sem paraquedas nunca soam cansativos), neste ponto lembrando um pouco a antológica "edição Matrix" do volume um (Ultimates #8).

O texto nem um pouco sutil de Millar traz de volta aquele coice anárquico dos personagens e seu eterno sarcasmo em relação à malaquice republicana dos EUA. Como não podia deixar de ser, o astro principal é o Cap, com as conhecidas frases de efeito reafirmando suas convicções de macho-man militarista ("que tipo de garota é detida por uma bomba?" - adivinhe a autoria e ganhe uma bandeirinha do exército confederado) e seu modus operandi discutível no combate ao terror - vide a cena em que ele joga soldados inimigos desacordados de um helicóptero a trocentos pés de altura com a serenidade de quem põe o lixo pra fora.

A interação com Pacheco destila fluidez e ainda resgata aquelas boas sequências de briga quadrinhística, como no momento em que o Cap leva uma surra homérica do Caveira. Destaque também para o diálogo de Carol Danvers, atual comandante da SHIELD, tentando em vão reconvocar Stark, que está chapado num puteiro bondage.

Uma primeira edição que é um colírio para os olhos e uma injeção de adrenalina para a alma. É Millar no seu mais tradicional: iniciando um arco no auge e cheio daquela energia insana e irrefreável para terminar Deus sabe como. Só não entendi porque mantiveram a infame máscara do Gavião. Apesar dele ter participação ativa nas cenas mais eletrizantes, não dá pra olhar pro personagem sem antes confundí-lo com algum integrante do Youngblood. Provavelmente Millar esteja preparando alguma catarse antes de desmascará-lo definitivamente - bem como a bagunça que fizeram durante a sua "saída de dez minutos" - e talvez assim, deixar de vez os anos noventa lá nos anos noventa.

10 comentários:

JoaoFPR disse...

Finalmente.
Nos últimos anos a linha Ultimate. Me trouxe carinho pela Marvel, de novo.
E mais, pelos Vingadores.
A mais de dez anos, desprezava a linha normal desse grupo.
E o arco V.3, é de chorar, bem vindo, sr. Millar.

doggma disse...

Amém!

Avalanche(Lance) disse...

Pra mim o próprio Millar naufragou os Supremos nas ultimas edições do Volume dois.

Aliás t cansado de ler ótimas histórias dele com finais broxantes.

Luwig disse...

Ultimates à parte, a trindade tradicional (Steve, Tony & Don) está atravessando um momento ímpar na sua história conjunta, com roteiros pra lá de complexos e arte muito, muito acima da média. O Cap do Ed divide a culpa pelo dois Einers Awards consecutivos de melhor escriba que abocanhou; o Eisner de melhor série nova pelo Homem de Ferro de Matt Fraction só pegou de surpresa os que não vêm acompanhando hoje, na minha ótica, o mais visceral título marvete da atualidade; o Thor de J.M. Straczynski e Olivier Coipel já é um clássico instantâneo e num futuro próximo deve ser agraciado com uma coletânea à altura das lançadas para o Sr. Simonson.

Luwig disse...

P.S. Sem desmerecer o mérito de Bill Willigham (escritor), Guy Davis (desenhista) e All-Star Superman (série regular), mas esse Thor do Straczynski e Olivier merecia sim a tríplice coroa no Eisner 2009.

doggma disse...

Lance, "naufragou" é um tanto forte, não? A arte de Hitch, sozinha, assegurou a "obrigatoriedade" e o clímax pode não ter sido a apoteose que foi o volume 1, mas passou longe de ser ruim. E aquele epílogo, com o breve flashback do Cap, foi um daqueles lances de gênio.

Luwig, concordo com o Latinha do Fraction (ele escreveu também a ótima Ages of Thunder, do Odinson) e, mais ainda, com o Cap Reborn do Bruba (ainda que... agora levarei voadoras e roundhouse-kicks... Hitch não esteja no topo de seu padrão). Mas esse Thor do Stracza ficou parado na fila. Acabou de virar prioridade.

À altura da era Simonson? Vamos ver.

Alcofa disse...

É ...semrpe é bom ver Millar fazendo o que Millar faz melhor: foder com as estruturas de tudo logo na primeira edição. Não li Ultimates vol 3 (tentei, mas naum consegui terminar a segunda edição ...). Este novo Thor é MUITO foda, de verdade, mas ainda tem que comer muita aveia para o clássico "DIGO-TE NÃO, MALFEITOR" (marretada na cabeça) da era do Walter. E concordo com o Dogg sobre Cap Reborn: excelente história, porém Hytch parece meio preguiçoso ...embora sua versão do Cap da segunda guerra seja a melhor que ja vi até hoje ...

doggma disse...

É o que eu tô dizendo... Simonson é o cara... Mas que se dane, já tô pegando as edições pra tirar essa história a limpo.

Luwig disse...

Larga a clava, Alan! Você está muito tenso, my little fried. Já nos rebaixamos ao nível dos fanboys pra uma vida toda nas nossas discussões (Bat vs. Cap) e nem sequer comparei era nenhuma, só disse que essa seqüência do Straczynski merecia uma coletânea à altura das lançadas para o Sr. Simonson.

Só pra não restar dúvida, o Thor do Simonson é hors concours. Melhorou?

Caras, qualquer dia desses precisamos tomar uma(s) gelada(s), preferencialmente em terreno neutro. Eheheh...

Abração.

Avalanche(Lance) disse...

Bah Dogma, depois do Arqueiro matar atirando as unhas, um surto dos heróis vencendo de maneira burlercas, basicamentente vencendo porquê sim(já que ne tinha tática).

Mas não digo que naufragou pela Vespa matando dois gigantes com uma lança, nem pelo Capitão aleijando o Protocída ou sei la como ele se chamava nesse universo...mas sim por colocar o Bush com uma metralhadora na linha de frente¬¬

cara sério...ahh uma dúvida..como coloco os links dos blogs aqui no canto direito como você?