quarta-feira, 19 de maio de 2010

Jackstroke


Season finale é uma caixinha de surpresas. Enquanto algumas séries começam a missão embebidas em hype, apenas para corresponderem com mais lugares-comuns e questões não resolvidas, outras seguem pelo caminho oposto, se superando a cada episódio, como se toda cena seguinte fosse a derradeira. Esse 8º dia na vida de Jack Bauer deveria ser obrigatório em oficinas e cursos de roteiristas. Não pela alta média de saídas criativas ou pela fina arte de repaginar as fórmulas da série, mas pela capacidade de prender a atenção (e os batimentos cardíacos). Nesse ponto, 24 Horas é imbatível. Tem sido, aliás, desde a fatídica 14ª hora. A partir dali a coisa realmente extrapolou.

Nessa 22ª hora, o mashup dos melhores elementos de ação e espionagem chega ao seu clímax. Após um episódio arrasador (aquela sequência do cerco no shopping deu vontade até de pagar ingresso e a cena da tortura do sniper russo é a mais arrepiante já executada por Bauer), agora acompanhamos nosso anti-herói favorito galgando a pirâmide conspiratória como se fosse um Wally West possuído pelo Necronomicon. Muitas coisas ali só veríamos num filme do Bourne. Outras, nem num filme do Bourne.

As interpretações estão uma uva: Cherry Jones, no papel da Presidente Allison Taylor, continua ótima em sua personificação do sonho americano corrompido; Mary Lynn Rajskub eficiente como sempre com a Chloe entre e a cruz e o Bauer; Freddie Prinze Jr. convincente como nunca foi na vida; Bob Gunton, que eternizou seu Secretário Ethan Kanin na mitologia da série, já está fazendo falta; e Michael Madsen, meu Deus, foi um legítimo às escondido na manga... jogadas de mestre como essa já motivaram muitas mortes em cassinos do velho oeste.

Mas o destaque gritante nessa reta final não poderia ser outro senão Gregory Itzin, o redivivo Presidente Logan. Talvez o antagonista definitivo da série, numa postura inicialmente metódica e cerebral emendando numa tresloucada corrida de volta ao poder (a cena das gravatas foi hilária), o ator superinterpreta - recurso perigoso - com todos os exageros gestuais e tiques a que isso dá direito.

Desde os momentos em que envenena as decisões da presidente até a torrente de informações que minam de sua boca à menor pressão de Bauer, sua performance esteve irresistível. Nem Roberto Jefferson faria melhor.

Bem...


O banho de sangue promovido por Bauer nessas duas últimas horas pode até soar refugo de ação standard, o que é mesmo, mas com a classe que faz a diferença. Não por acaso, a trilha sonora que embala o exército-de-um-homem-só lembra bastante as orquestrações de Jerry Goldsmith em Rambo 2. Mais sintomático ainda é quando Bauer se arma até os dentes para o sequestro de Logan. Receita de intimidação urbana é aquilo ali. Arsenal hardcore, o traje protetor pesadão e a máscara mezzo Jason mezzo Batman.

Isso, mais o redentor massacre no gabinete do Ministro Novakovich, dá a dica da forma mais clara possível: Bauer, eletrocutado, com duas facadas no bucho, contusões variadas e estresse físico over, só pode ser sobrehumano. Não como um super-herói, mas talvez como algo mais... compatível.

Próxima fase: Presidente Yuri Suvarov. Na minha opinião, antes disso a escalada revanchista acaba. Proporções globais e termonucleares demais na parada.

12 comentários:

JoaoFPR disse...

Doggma, sempre escrevendo de forma prodigiosa.
Tchê, juro, pela primeira vez eu revi um episódio de 24Horas.

Eu não acreditava, está maravilhoso, o roteira, interpretações e a ação.

Tua definição de quem ele seria no universo DC, é épica.

Uma série que quando acabar sairá no auge e será sempre lembrada.

Luwig disse...

Acho que o Suvarov definiu bem essa temporada: "não existe animal mais perigoso que um ferido".

A Fox anda metenddo bronca! House teve um season finale espetacular, Fringe* promete fechar a semana com um clímax apoteótico e 24 está à 2hs de entrar pra História.


(*) Sou só eu ou aquilo é o mais próximo que a TV pode chegar de algo como Planetary? Acho que ainda vou soltar uma dessas pro Velho Bastardo no Twitter...

JoaoFPR disse...

Duas coisas me ocorreram:

Uma, agora que sabem que a série foi cancelada, não estão economizando testosterona, munição e diálogos de impacto, hein?


Dois, falha GRAVE de lógica.
>> SPOILER <<
Quando o Sniper pegou o cartão do celular, porque o filhodaputa não me mordeu ele: Problema resolvido.

doggma disse...

24 vai deixar um vácuo sinistro. E essa mega-entressafra da FOX só vai potencializar a coisa. Crise de abstinência à vista...

A saideira de House foi sensacional. Só perde pro ep duplo da abertura, que foi qualquer coisa de antológico.

E Fringe (o que tu entendeu do "First People" na intro do universo paralelo?)... Em se tratando de end season, essa tem know-how de sobra. Aquele construto à Jack Kirby do Walter Bizarro promete. Quinta-feira o continuum vai estremecer.

* E sim, é o parsec televisivo mais próximo dos Arqueólogos do Impossível! Pode meter bronca lá (e divulgar os resultados, rs).

Luwig disse...

Cara, vi por aí umas discussões bem acaloradas sobre o que significaria esse termo, "First People". Muitos andam conjecturando que isso estaria relacionado com um comentário fora de contexto que Walter soltou, que seria que a humanidade nos tempos antigos já possuiu "superpoderes", contudo em algum ponto esses dons foram bloqueados (por alienígenas? observadores? quem dá mais?).

Uma coisa eu sei, isso não deve ficar só no rol de easter eggs da série e deve ser um dos temas do terceiro ano.

Mas e aí, qual foi o melhor dessa temporada? White Tulip? Indubitavelmente merece um lugar ao sol na miríade de tramas ficcionais sobre o espaço-tempo.

doggma disse...

Sobre o "First People" - o que eu e meus comrades andamos discutindo é que seria uma pista de que o universo que pensamos ser o alternativo na verdade seria o real, o autêntico (o fato de ser mais avançado pode corroborar isso). O que seria uma baita inversão de valores!

Seja como for, no ep final foi mostrado que as experiências extradimensionais do "nosso" Walter foram catastróficas pra eles. Como se fosse o 1º tiro de uma guerra. Ref. nas HQs: as sondas do Reed ultimate em Supremos vs Esquadrão Supremo.

Cara, esse ep com o Peter "Robocop" Weller foi sensacional, mexe com gaps temporais (coisa que curto), mas acho que fico com o ep do background do Peter. Desde a abertura toda analógica até o sci-fi e a carga dramática envolvida... foi perfeito.

Fabio Martins - Kalunga disse...

Salve Doggma!!!

após um longo e tenenbroso verão, estou dando as caras por aqui novamente, rsrsrsrsrs...

Cara, estou vivo!

Meu blog é que está mortão. Compromissos profissionais e familiares a mil, sem previsão de voltar a agitar aquela bagaça. Com meutempo escasso, só daria pra postar textos de twotter e olhe lá, hahahaha!!!

Mas valeu pela lembrança lá no comment!!!

Nitzer Ebb ("Industrial Complex") e RevCo ("Got Cock?") novos seriam motivo de posts lá, mas por enquanto vai só a dica (se já não ouviu): tão fodaços.

Desculpe o comentário nada av er com o post em questão, mas a partir de agora volto ao mundo dos (mortos)vivos do Black Zombie!

abração e tudo de bom!

Luwig disse...

Ufa! Que coronhada no juízo! Claro que cê já viu...

True Blood tem que estrear logo pra amenizar a parada. O tranco foi grande de uma semana pra cá... e o clímax da terceirona de Breaking Bad promete esfacelar o que restou das minhas sinapses.

doggma disse...

Kalungaaaa! É cara, tem fases em que fica impraticável mesmo. Mas legal saber que tá tudo beleza. Putz, nem sabia dos novos Ebb e RevCo. Vou conferir o quanto antes.
Em tempo: GVT é tudo aquilo que tu falou mesmo. Até agora, pelo menos, estou no céu... ou melhor, num apocalipse zumbi...

Luwig, essa vai fazer falta. E, realmente, esse desfalque geral tá estranhaço...

Fivo disse...

Aí... e o series finale de 24? merece outro post, carajo!

doggma disse...

A caminho, senhor!

samurai disse...

Tb no aguardo deste post sobre o final de 24