domingo, 20 de março de 2011

Era uma vez no esgoto

Superaventuras Marvel #29, novembro de 1984. Dessa eu não só lembro muito bem, como tenho até hoje (não a mesma revista, claro). Tinha conteúdo pra todos os gostos: Ralph Macchio-san e o George Pérez da fase áurea botando a Viúva Negra pra espancar os inimigos sem dó (com direito a furibunda badass splash-page), o show de curvas da Red Sonja sob o traço do mago das pinups Frank Thorne e mais um dos incontáveis exploitation de ação marcial do Mestre do Kung Fu. Mas o ouro da edição estava bem guardado e a única pista que a capa dava era um carcaju genérico com fundo rosa à esquerda.

Com um espirituoso título, "O Inferno não pode esperar" é a clássica história onde os X-Men são divididos e conquistados pelo altivo Clube do Inferno. A trama era um trem descendo a ladeira sob o comando de dois maquinistas insanos no auge do descontrole: Chris Claremont e John Byrne. Não é exagero afirmar que esse foi o O Império Contra-Ataca da equipe mutante (lançado no mesmo 1980, o ano das convergências vilânicas instauradas no poder). Para os heróis, aquele momento foi amargo, humilhante e tudo indicava que o futuro era negro, baby.

Porém, na cena derradeira, a hora da retribuição se avizinhava no horizonte - e na história dos quadrinhos.

(trilha redentora do Morricone aqui)


Wolverine se reerguendo no fundo do poço (do esgoto, aliás) foi, valorizando o trocadilho, o divisor de águas. Já tínhamos visto o baixinho enfrentando problemões e caçando confusão antes, mas nunca daquele jeito. Eu não iria querer ser sócio do Clube "nem por todo o whisky da Irlanda".

Referenciada e reconstituída ao longo dos anos, a imagem teve seu inegável apelo subestimado tanto pelos editores aqui do Brasil quanto pelos editores americanos. Mas, prevalecendo, adquiriu status icônico e contribuiu e muito para criar o personagem-produto que ele é hoje. Isso foi há 25 anos (30, considerando The Uncanny X-Men #132 original).

Em 1993, Byrne incluiu uma reinterpretação da imagem em seu portfolio, no que parece ser o instante seguinte da cena original.


Fazer esse tipo de coisa sem soar auto-indulgente não é pra qualquer um.

1993 também foi o ano do "Wolverine Blues", pedrada death'n'roll clássica do Entombed.


Era uma época onde a música e a literatura falavam mais ao coração.

Post descarada e miseravelmente inspirado por Elijah Price. Dê um desconto... tudo isso faz parte de um grande plano de reabilitação blogueira.

7 comentários:

JoaoFPR disse...

Eu tinha essa edição.
Clássico supremo, era um piá e fiquei empolgadissimo quando li!

Bruno disse...

Agora fiquei curioso para saber se o payoff fez jus a esse buildup...

Travis B. disse...

Eu tenho a edição,(depois comprei o encadernado),e realmente essa imagem define bem o Wolverine que conhecemos hoje em dia!!!

Sandro Cavallote disse...

Essa imagem é icônica. Pra mim, junto com o Batman porrando o Super no final de Cavaleiro das Trevas, é parte fundamental da minha adolescência.

Bela memória, cachorro! :)

Rodolfo Castrezana disse...

"O Império Contra-Ataca dos Mutantes". Exato.

Luwig disse...

Superaventuras Marvel é sem sombra de dúvida um marco no que diz respeito a revistas mix de super-heróis no Brasi. Eu diria até de regularidade acidental, dada a expressiva quantidade de bons títulos que passaram por aqui, principalmente na segunda metade da décade 1980 e início da de 1990. Como bem disse, os irretocáveis X-Men de Claremont & Byrne viveram aqui seu período mais consagrado, chegando ao ápice daquele duo na inebriante #45 com 'Dias de um Futuro Esquecido'. Mas fica também pra História aquela #71, dedicada exclusivamente aos mutantes, naquele que eu acredito que seja até hoje o mais brutal confronto que os pupilos do Sr. Xavier já tiveram com a Ninhada.

Aliás, vale dizer, ninguém daquela formação sobreviveu a infestação dos aliens, se "sobreviveram" foi graças a tecnologia de clonagem dos Shiar, realocando suas memórias para os novos corpos. Inclusive, ouso dizer (falando bem baixinho) que Paul Smith em vários momentos chegou a eclipsar a mémoria afetiva residual que nutria pelo Claremont. Outra edição (aos meus olhos) fetiche é a #49, que continha aquele conto redondinho do Demolidor, ilustrado por David Mazzucchelli, em que Matt come o pão que o Mefisto amassou numa mansão repleta de armadilhas mortais.

Cara, por 5 minutos inteiros pensei que Marvel Max da Panini seria a "Superaventuras Marvel" dessa geração, mas daí pensei melhor: aquela porra mal editada e repleta de cortes é hors concours.

doggma disse...

Essa scary tale do Demolidor em SAM #49 foi antológica mesmo. Um mix de "Vidas em Jogo" com "Westworld". E é pouquíssimo lembrada por aí. Bem que merecia uma revisitada na Marvel + Aventura.