terça-feira, 16 de março de 2021

A Espada Selvagem de KKKonan

E falando da era hiboriana, foi justo de lá - mais precisamente, da era hiboriana brasileira - que veio um dos maiores bafafás da semana passada...


Versão original, de set/1978, versão da Abril, de 1539, e a versão da Panini, de 1540

Caso (ainda) não saiba, aí vai o delivery até o conforto da sua caverna: um administrador do grupo do Comix Zone no Facebook pescou um erro cthulhúlico no volume 11 de A Espada Selvagem de Conan - A Coleção, da editora Panini, levantando uma bolinha redonda para o dono do grupo/canal/editora cortar. Mais que um erro pedestre de tradução, a frase proferida pelo cimério na versão brasileira apela para um grito de ordem racista que destoa completamente da build up-punchline escrita por Roy Thomas no original.

O pior, se é que é possível, é que isso ocorre pela 2ª vez no curso editorial dessa história. Conforme apurado pelo administrador, a "tradução" de Jefferson Pereira foi copiada da versão publicada anteriormente, em A Espada Selvagem de Conan #19, da Abril, em maio de 1986. Tradução feita originalmente pelo sr. João Paulo Lian Branco Martins — mais conhecido como Jotapê pelos sofredores leitores da velha escola.

Resultado: a notícia se espalhou como fogovivo pelas planícies hyrkanianas e a Panini invocou os deuses atlanteanos para o controle de danos ASAP.


Fez o certo. A última vez que vi a editora com tanta pressa foi por intermédio do deus americano Gaiman. Isso deveria se tornar um hábito.

Me senti na obrigação de repercutir isso para registro. É um parágrafo fácil (pero constrangedor) no grande livro da louca trajetória das HQs no Brasil.

Alguns pensamentos:

⚔ Mal sabia o menino Jotapê, então com jovens 26 anos, que um dia tudo o que ele fez na Abril seria fuçado e perscrutado implacavelmente num holofote global;

⚔ Diferente de outros termos mais pueris usados até em músicas famosas e programas de televisão (como meu amado Os Trapalhões), o termo utilizado sempre foi muito ofensivo, mesmo na baixa percepção de racismo em geral da época;

⚔ Apesar da garoteada, não acho que Jotapê tenha sido racista — relapso e inconsequente definem;

Adendo Ctrl+Alt+JP (valeu, Luwig!):


De novo, relapso e inconsequente definem.

⚔ O caso serve para desmistificar a ideia de que A Espada Selvagem da Abril é a melhor versão do título em português. Se é pra ler o Conan do Roy Thomas com um texto inventado aqui, prefiro reler meus gibis do Brakan!;

⚔ E sem contar a falácia de que os diálogos tinham que ser adaptados para caber no balão... o formato era o magazine, pelamordeCrom. De quanto espaço era preciso para caber as letras? De um Wednesday Comics? Das pranchas originais do Príncipe Valente?

⚔ A quantidade de absurdos ainda não descobertos nas ESC da Abril não tá no gibi. Ou melhor...

⚔ Depois dessa, não contrataria o Jefferson nem pra traduzir "the book is on the table."

⚔ O quê, achou que ia esquecer do Jefferson?

quarta-feira, 10 de março de 2021

Longa vida ao Mago


Quando soube da partida do veteraníssimo quadrinhista Frank Thorne, domingo último, me senti como o cara de Cinema Paradiso. Foi a primeira notícia que tive dele desde moleque. E justamente a derradeira.

Igual à maioria, cresci encantado pela arte singular do mago barbudo em seu trabalho mais icônico: Red Sonja. ❤️ ❤️ ❤️

Impossível falar da personagem sem lembrar da passagem dele pela revista solo da heroína no período 1977-1979 (mais a Marvel Feature #2, de 1976). Muito além de desenhar a intempestiva e voluptuosa guerreira ruiva, Thorne redefiniu a titular da "armadura-biquíni metálica" (cortesia marota de Esteban Maroto), influenciando tudo o que veio depois na categoria mulherada-chutando-bundas-na-quebrada-sword-&-sorcery.

Meu 1º contato com o trabalho do mestre foi há exatos 36 anos (putzgrila), mas ele já peregrinava por terras brazilis desde meados dos anos 1950. Sua carreira começou aos 18 anos, em gibis de romance. Logo após a formatura, aos 20, tirou a sorte grande. Bateu à porta da King Features com seus esboços debaixo do braço e saiu de lá contratado para desenhar as populares tirinhas do Perry Mason, abocanhando uma pequena fortuna.

O que seguiu foi um mergulho de cabeça nos universos pulp de editoras como Dell, Warren, Gold Key, Seaboard e Archie. Desenhou histórias do Besouro Verde, Jim das Selvas, Flash Gordon, Às Inimigo, Drácula, Tarzan, Fantasma, Tomahawk e incontáveis outros. Retornava às tiras sazonalmente, como Dr. Guy Bennett/Dr. Duncan, desenhando barbaridade até evoluir para o famoso traço que o eternizou à frente da guerreira hyrkaniana.

Após o furacão Sonja, Thorne trilhou o caminho de todo grande quadrinhista, preterindo as grandes editoras em favor de uma carreira 100% autoral e 200% engajado na fantasia erótica. Nessa fase, estão quadrinhos sensacionais como Ghita of Alizarr, The Iron Devil, Moonshine McJugs para a Playboy, Lann para a Heavy Metal e Danger Rangerette para a National Lampoon, entre outros — todos esses criminosamente inéditos por aqui.

Fez de tudo um pouco. Mas, com exceção de um Espectro furtivo nos anos 70, nunca desenhou super-heróis, que detestava.

Se Robert E. Howard alucinava que escrevia vigiado por um gigante de bronze com um machado, Thorne sofria uma marcação cerrada de algo bem mais aprazível (e real!).


Às vezes penso que os quadrinhos eram só um pretexto: o negócio de Thorne era mesmo personificar Thenef, o Mágico (ou Shard, o aventureiro espacial!) (ou Grampy, o veinho caipira safadão!) e badalar por aí com suas Thornezettes.






Além disso, nunca existiu animador de Comic Con melhor do que ele...

terça-feira, 2 de março de 2021

A Liberdade é Azul e a Feiticeira é Escarlate


Penúltimo episódio de WandaVision, "Previously On" reitera – senão supera – as previsões mais otimistas da Marvel Studios. Uma série adaptando um calhamaço crono(i)lógico complexinho e o romance sintozófilo da Wanda Maximoff com o Visão não era dos materiais mais palatáveis. Mas foi mastigado e cuspido com sucesso na testa dos públicos nerd, pseudonerd e nem um pouco nerd. Mesmo turbinado pelo fator Ultimato, o hype semanal assombroso de WandaVision é uma vitória contra as, arram, probabilidades.

E como recap, foi um bom episódio – mas nada que supere a geral da própria Elizabeth, em carne e Olsen. Adorável.

Claro que rolaram uns vácuos: sem gene X ou efetivação do Pietro que vale e tampouco do fantástico Quarteto. Mas acima dos desperdícios de timing, toda semana tivemos passe livre pra ver Elizabeth Olsen e Paul Bettany trabalhando. E que pintura de trabalho. Um privilégio ver esses dois em cena.

Dissecar a competência da dupla é chover no molhado: são mais atores do que a Marvel precisava ou mesmo merecia. A química do casal neste episódio em particular foi tão intensa que metade do set deve ter morrido intoxicada. Foram muito além das bem-traçadas linhas do roteiro da Laura Donney.

E, pelo amor de Sidney Sheldon, o que foi aquela punchline?

"Eu nunca vivenciei a perda porque nunca tive uma pessoa amada para perder. Mas o que é o luto senão o amor que perdura?"

Dito da forma errada, poderia facilmente ter saído de uma letra do Ritchie. Mas Olsen & Bettany conferem dor, profundidade, amargura e trágica cumplicidade à cena. Por sinal, uma das mais bonitas e bem compostas dos últimos tempos.

Vindo de alguém que tem experimentado o luto em doses cada vez menos esparsas (já comentei que moro na casa dos 40?), pode considerar que, sim, é um puta elogio. Então, reverbero perfeitamente o momento em que Wanda recria tudo o que aliviará sua dor num momento de violenta catarse – não por acaso, dramatizada e enquadrada como se fosse uma cena visceral de um trabalho de parto. Conceitos Cronenberg-Lynchianos operando incógnitos abaixo de incontáveis camadas DisneyPlusísticas. Eu vi isso, Matt Shakman e Jacqueline Schaeffer.

Ali, para qualquer cascudo no assunto, foi impossível não lembrar de outro aspecto do luto, ainda mais sorrateiro e perigoso: a entrega. Isso foi explorado também no terreno do drama/fantasia em Amor Além da Vida, do sumido diretor Vincent Ward (de Navigator: Uma Odisséia no Tempo). Um filmaço, por sinal.


Sem entrar em spoilers, em dado momento do longa, o personagem do saudoso Robin Williams precisa salvar a esposa, irremediavelmente trancada e inacessível dentro da dor da perda. Provavelmente a alegoria fantástica mais depressiva e realista já filmada.


Uma jornada que já apresentava uma outra dimensão das palavras do nosso sintozóide favorito.

Por mim, a parada já está ganha bem antes do tempo regulamentar. Que venham o series finale, Multiversos e além...


Atualização 6/3/21:

Nossa, fera. Foi... decepcionante. Esperava Cumberbatch, saí cum belo banho de água fria.

domingo, 14 de fevereiro de 2021

Vocês sangram?

Vão sangrar.


Então está aí a realidade do Justice League's Snyder Cut. Ao menos o cabra não é de deixar assuntos pendentes. E só precisou levantar 70 milhões de doletas na moralzinha.

Kneel before Zack, Michael Bay.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Cara Carano Cara Caraô


Ela achou mesmo que a Disney ia ficar de boa com aquele tuíte e as toneladas de lixo não-compactado que ela despejou pela rede no último ano?

LOL²

sábado, 6 de fevereiro de 2021

Monstros do Toia

Sim, sim, o episódio 5 de WandaVision, já sei. Mas olha esse red band trailer de Monsters of Man.


PelamordoH.E.R.B.I.E., acho que nunca vi uma prévia red band tão sanguinolenta (e tão spoilerenta). Impressiona, a despeito do elenco de várzea, com exceção do Neal McDonough – que é sempre um indicativo de bomba às 12 horas.

Também é o debut do cineasta Mark Toia, egresso do mercado publicitário e, dá pra perceber, um aficcionado por fotografia e cinematografia. A trama, co-escrita por ele e Jeff Hand (de Angry Birds Blues e Irmão Urso!), parece ir direto ao que interessa:

"Uma companhia de robótica se une a um agente corrupto da CIA para ganhar um lucrativo contrato militar. Eles lançam ilegalmente 4 protótipos de robôs no meio do famoso Triângulo Dourado para realizar um teste de campo contra traficantes desavisados que o mundo nunca sentirá falta. Médicos voluntários testemunham o massacre de uma vila e se tornam os alvos."

Muito instigado para conferir esse batidão de OCP, slasher e Chappies on crack caçando pobres coitados numa selva tropical à Predador. Arre, égua.

Monsters of Man está disponível via Amazon ou superior. Hoje tem!

Ps: mas aquele WandaVision S01E05, hein. O coração abre mais janelas que o Uatu na série What If...?; já a razão me diz que é Navalha de Ockham purinha. No momento, minha única certeza é que amo tudo isso 3000.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Entes Feridos

A gente fica um dia afastado da internet e quando volta o mundo acabou. De novo.


Não estava adquirindo os bonitos e práticos encadernados de Sandman: Edição Especial de 30 Anos (sigo com minhas definitivas pra leitura marombeira mesmo), mas é impossível não se solidarizar com os bravos leitores que deram essa moral pra Panini – e acabaram de levar uma cimitarra na cacunda.

Sei lá o quê dizer depois dessa. Porra, Panini?

Porra, Panini!