domingo, 25 de julho de 2004

OPERAÇÃO RESGATENova pala. Filmes, discos e pontos altos de um passado distante à curto prazo. E na edição de estréia...


RÉQUIEM PARA UM SONHO
(EUA, 2000)

"Uma viagem ao inferno", segundo uma amiga. E é mesmo. Eu ficaria só nessa definição - justa e muito elucidativa - mas acho uma sacanagem com o trabalho excepcional dos atores, da montagem esquizofrênica e da direção milimetricamente cruel.

Aliás, o capitão do barco foi o the next big thing Darren Aronofsky, justificando em cada frame o hype que se formou ao seu redor. Com uma mão pesada, ele criou uma atmosfera claustrofóbica, urbanóide e paranóica. Durante todo o filme, a câmera se encontra em uma provável "linha de fogo" (caíam esguichos de água, sangue e até vômito na lente).

Mas o ponto alto do pacote foi a edição de som. Ruídos, distorções e tenebrosos feedbacks aparecem abruptamente e em volume alto (experimenta assistir esse filme com as caixas de som devidamente espalhadas). Já a trilha incidental é formada por 3 peças (Summer, Fall e Winter) dividida em várias suítes. A de Winter, em especial, é tristemente emocionante.


Réquiem aponta seus holofotes para o cotidiano chapado de Harry Goldfarb (Jared Leto), sua namorada Marion Silver (Jennifer... ai, ai... Connelly) e seu melhor - e único - amigo, Tyrone (Marlon Wayans, surpreendendo), todos viciados 24-7. "Dependente químico" aqui, seria inadequado, pois há muito eles ultrapassaram a linha vermelha. O curso dos personagens segue uma trajetória de descida ininterrupta. Não parece haver fim na suposta "queda", pois, aparentemente, essa é a natureza da vida errática que escolheram (ou a qual não conseguem sair). Por isso acaba sendo impactante assistí-los rearranjando toda a sua vida apenas por causa de mais uma (uma!) injetadinha de heroína ou congêneres, como se qualquer sacrifício fosse auto-justificado pelo "prazer de sentir o barato".

É difícil analisar esse filme sem se render à uma observação social irresponsável e hipócrita (afinal, às vezes eu bebo bagarái, o que não deve me dar o aval pra julgar os hábitos de terceiros). Então, colocarei o meu coração em cima da mesa por um instante para poder destrinchar essa belezura de filme de forma mais técnica.


Imagino que todo mundo conhece ao menos uma pessoa que desceu ao inferno escorregando pela agulha de uma seringa. Então aqui está um legitímo déja-vu drogado e prostituído. Jared Leto, um ator apenas razoável, encontrou o personagem da sua vida nesse filme. Toda a sua razoabilidade (existe?) conferiu um bem-vindo tom passive junkie no papel de Harry, um cara fraco demais para remar contra a maré.

Já Jennifer Connelly é atriz. Atriz mesmo. E uma das raras que não se deixa subjulgar pela sua beleza. Aliás, Jenny é famosa por criar climas de absoluta cumplicidade com seus parceiros de cena (que o digam os sortudos Billy Cudrup, Russell Crowe e Eric Bana). Aqui, o nível de sua atuação já era o esperado, ou seja, muito acima da média. Sua personagem, Marion, é o suporte de Harry. Os dois atingem tanta química juntos, que eu nem sei por quê eles ainda precisam se drogar. A cena em que Harry pede perdão à Marion, num momento derradeiro do filme, é de trincar a íris.

Marlon Wayans, distante das gags e das comédias fáceis (ê redundância), exibe uma insuspeita desenvoltura no papel de Tyrone. É patético, melancólico e caótico, mas ao lado de Harry, faz todo o sentido do mundo.


Mas o destaque mesmo fica por conta da veterana atriz Ellen Burstyn (O Exorcista). Claro, claro, a mulher é fera, sabe tudo, tinha de ser ela mesmo. Sua personagem, Sara (mãe de Harry), é a mais vitimizada do filme, e o link para assuntos tão ou mais espinhudos quanto drogas pesadas (massificação via TV, paranóia estética, anorexia, medicação indiscriminada, desamparo e solidão). Uma atuação memorável.

Fica a sensação de que, sem o aparato cinematográfico, os personagens, de tão tridimensionais e humanamente críveis, poderiam ser alguém que conhecemos na nossa vida real. E o grande mérito do filme foi ter dado à eles a possibilidade de continuar seguindo, mesmo que em sentido descendente. Réquiem é documento verdade. Não começa, nem termina, apenas continua. Que nem a vida.

Nota: esse filme é para poucos. A seqüência de acontecimentos finais é mostrada de forma muito gráfica e rápida, gerando um efeito psicologicamente denso e quase insuportável. Uma viagem ao inferno.


''Fear Factory - Demanufacture (1995)

Choque industrial-thrash carregado de futurismo fatalista à 1984 (George Orwell). Logo no início, uma introdução cibernética retirada do tema de Exterminador do Futuro já dá uma boa idéia do que está por vir.

Demanufacture é a trilha sonora de um futuro em chamas, desvastado pela guerra contra o sistema e as máquinas, onde individualismo deu lugar à códigos de barras. Esse álbum é, ao mesmo tempo, frio, minimalista, messiânico e absurdamente épico. Uma verdadeira bad trip com toques de pesadelo bio-mecânico.

Temas como clonagem, tecnologia, conspiração, manipulação das massas, desordem, sociopatia e fé (?), estão aqui, antecipando um caos urbano aterrador e, ao mesmo tempo, fascinante.

A performance instrumental da banda segue o mesmo conceito de precisão matemática e sangue frio. O guitarrista Dino Cazares (o Asesino, do grupo Brujeria) constrói bases efetivas, diretas e com quantidade zero de virtuosismo (praticamente não há solos) - atitude seguida pela linha baixo de Christian Olde Wolbers. Já os vocais de Burton C. Bell estão entre os melhores do rock atual. Balanceando entre a rasgação agressiva e um inacreditável (repito: inacreditável) alcance melódico, quase gregoriano, é daquele tipo em que você não consegue imaginar algo sequer comparável no gênero. Foi abençoado, com certeza. Mas o destaque final acaba vindo das batidas de Raymond Herrera. Nunca ouvi dois bumbos serem usados de maneira tão abusiva antes (nem depois). Parece uma metralhadora! Como está escrito no encarte, ele é o "gerador efetivo de pulsos maximizados". Tenho de concordar, seja lá o que isso quer dizer.

A abertura explosiva com a faixa-título, Self Bias Resistor, Replica, New Breed (não sei por quê, mas essa me lembra a onda de choque de uma explosão nuclear...!), Body Hammer, Flashpoint, HK (Hunter-Killer), Pisschrist, A Therapy for Pain... todas as músicas se complementam em uma seqüência incendiária. Embora seja muito difícil destacar uma faixa em especial, tenho a obrigação de dizer que Zero Signal é um arraso. Provavelmente, é a música de metal extremo mais perfeita da História. Demanufacture ainda traz ótimas covers: Dog Day Sunrise (Head of David) e Your Mistake (Agnostic Front).

Apesar do óbvio mérito da banda, muito de seu êxito artístico (e comercial, pois esse disco vendeu muito) foi absurdamente realçado pela excelente produção do veterano Colin Richardson e pelo trabalho do engenheiro de som Steve Harris (não o do Iron!). Com certeza, eles foram o quinto e o sexto componentes do grupo.

Disparado o melhor do Fear Factory e um dos melhores álbuns da década passada.

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