segunda-feira, 30 de agosto de 2004

Operação Resgate:Com todo respeito ao Peter Jackson, mas se fosse o John Milius naquela trilogia...






A sentença mais conhecida do maluquete alemão resume muito bem o que se passa durante as mais de duas horas de Conan, O Bárbaro (Conan The Barbarian, 1982). Não é à toa que é primeira coisa que se vê na tela. Ainda hoje, Conan emana uma energia minimalista intensa e única, a qual nem as produções recentes - cada vez mais frouxas - conseguem se equiparar. Sem nunca soar forçado, o filme não se nega a explicitar cenas de nudez, orgias, decapitações, empalações, e ainda lança uma visão crua e pragmática sobre fundamentalismo religioso e suas conseqüências. E tudo isso, sem soar pretensamente "sério" ou se desvirtuar da premissa básica. Algo impensável nos blockbusters dos dias atuais.

Conan registra um raro momento no cinema pop em que o público foi agraciado com uma produção que não se preocupou em conter tudo o que tinha de mais orgânico, visceral e verdadeiramente humano. Mesmo assistindo hoje, o filme continua impactante. Conan é director's cut por natureza. Basicamente, dois pontos saltam aos olhos:

1 - A história segue sozinha, independente de qualquer amarra politicamente correta, e jamais lança mão de um "personagem confuso que representa o emburrecido espectador" (invenção de Hollywood para facilitar a vida da emburrecida geração teen). Aqui, certas cenas não se explicam com palavras, apenas com o olhar. O filme tem pouquíssimos diálogos, e o recurso do "silêncio" foi utilizado com absoluta maestria. Também não existem estereótipos benevolentes a serem seguidos, a não ser que você esteja a fim de partir alguém ao meio com um machado. O que nos leva ao outro item...

2 - A forma como foi encarado o desafio de produzir esse filme. Conan era um guerreiro bárbaro que vivia na Idade das Trevas, época imemorial, quase primitiva, e que estava em busca de vingança. Então, se alguém tem de ser decapitado impiedosamente pelo nosso herói, que seja. Que se dane a censura. Na época, o filme pegou categoria "R" (segundo a MPAA, "for strong violence, sex, nudity, and gore"), ou seja, para maiores de 18 anos. Depois que The Godfather Dino De Laurentiis (já viram o sotaque cosa nostra do cara?) mexeu em alguns pauzinhos, o filme abaixou para "16 anos acompanhado pelos pais".

Conan tinha espadas, machados, e era particularmente talentoso em esquematizar a destruição de seus inimigos. Qualquer referência à conceitos mais contemporâneos (piadinhas infames, CGIs com pixels do tamanho de lajotas, trilha sonora modernosa) anularia por completo o clima de barbarismo.


Há pouco a se falar do roteiro em si. É uma história de origem, renascimento, vingança e redenção. Conceitos primordiais que remontam à época do despertar da consciência humana. A seqüência inicial do filme é tão maravilhosa, que o máximo a se fazer é ficar estático, e tentar não perder nem um frame sequer. Praticamente sem diálogos, e apoiada pela trilha - sempre quis usar esse adjetivo - magnânima de Basil Poledouris, a cena começa com o pai de Conan lhe falando à respeito de um certo "enigma do aço" - na verdade, uma alusão aos desafios que enfrentamos ao longo da vida. Ao som da poderosa Anvil of Crom, o filme segue com a chegada de um grupo de guerreiros fortemente armados dizimando o vilarejo de Conan, matando os seus pais e todos a quem conhecia. A cena da morte da mãe de Conan é simplesmente soberba. Linda. Maravilhosa. Tocante.

Arnold Schwarzenegger, então um astro em ascensão, foi a escolha mais do que certa para o papel. Ele é o Conan, e como disse sabiamente o diretor Milius, "se Arnold não existisse, nós teríamos de construí-lo". Até o seu inglês carregado de sotaque (ainda hoje) e a sua ruindade dramática (ainda hoje também, e acho que para sempre) conspiram a favor da construção do caráter do personagem. Conan não é de falar, mas dá para ver claramente uma certa frieza assassina através do seu olhar. Arnold passa isso de forma pra lá de convincente, e me faz imaginar como anda a ficha criminal dele lá na Áustria.

Sobrevivente de uma seleção natural forçada, Conan não é hesitante como Aragorn, não é sensível como Frodo, nem é amigo como Sam. De fato, ele está mais pra Sauron mesmo.


A equipe reunida em Conan é tão iluminada, que só pode ser obra de deuses hiborianos. Além de Arnold e do general Milius, o roteiro era fruto da mente insana de Oliver Stone, que imaginava um arco inicial composto por 12 episódios (!!). E Stone não deixa a desejar, nem para fãs xiitas da obra de Robert E. Howard (1906-1936, criador do personagem e um maluco de carteirinha - esse senhor aí ao lado), nem para quem está atrás apenas de um filme de ação/aventura sem frescuras.

James Earl Jones prova aqui que é o vilão dos sonhos de qualquer diretor. Apesar de uma imagem pública que transmite dignidade de caráter e boa-índole, ele tem um olhar que petrifica qualquer cristão. Seu personagem, Thulsa Doom, tem uma presença absurdamente ameaçadora e cruel. É a perfeita encarnação do Mal, em seu extremo. Também é sugerido que ele é o último sobrevivente de uma extinta raça atlante. Isso nunca é confirmado, mas a sua fisionomia singular (como a longa cabeleira), e sua postura e racionalidade claramente superiores, evidenciam que ele pertencia a uma linhagem mais avançada.

Seus seguidores diretos, Thorgrim (Sven-Ole Thorsen) e Rexor (Ben Davidson), são guerreiros fanáticos tão animalescos quanto Conan, e durante o filme todo você aguarda ansiosamente por uma treta deles com o bárbaro - o que vem em forma de sangria generosa e desatada.

Ainda no quesito "vilões", eu não poderia deixar de citar uma seqüência, aah... interessante. Logo na primeira vez que Conan se depara com uma criatura das trevas, ele come a criatura das trevas (e não me refiro ao sentido gástrico da palavra). Trata-se de uma bruxa que, durante o "tratamento" dado pelo bárbaro, se transforma em uma espécie de demônio-vampiro. Conan toma um susto e arremessa o súcubo na fogueira, que foge em disparada. E o quê ele faz em seguida? Dorme no barraco da bruxa, acorda de manhã e vai embora, mas não sem levar toda a comida dela. Meu herói! :D


Esse filme é um achado do acaso. Tudo o que potencialmente daria errado, resultou em situações bem-sacadas e escolhas certeiras. Gerry Lopez era um surfista amigo do diretor Milius, e nunca atuou antes de Conan. Num filme em que a pessoa certa era mais importante que o seu nível de atuação, ele foi a escolha mais natural. Seu personagem, Subotai, ladrão e arqueiro hirquaniano, é o mais próximo de um amigo de Conan. A cena em que eles discutem qual de seus deuses é o mais poderoso - e a cara do Conan quando perde a "luta" - é ótima.

Outro(a) achado(a): Sandahl Bergman, no papel de Valéria. Milius procurava uma mulher (nem precisava ser atriz, segundo o seu método de escalação) que tivesse o espírito e a postura de uma valkíria, com todos os elementos que as representam - independência, força, habilidade, e, claro, paixão e sensualidade.

Até então, Sandahl só havia feito pequenos papéis em filmes para TV e musicais, mas sua performance de dançarina convenceu Milius de imediato. De fato, ela é boa atriz e convence mais empunhando uma espada do que Jennifer Garner girando as adagas da Elektra. Eu lembrava dela apenas de relance, e vendo o filme hoje, posso descrevê-la mais detalhadamente: além de muito gata, ela é gostosa pra cacete! Já era "sarada", muito antes de inventarem o termo. E ainda por cima, aparece pelada no filme, o que muito me agrada. :P

Como nem tudo é perfeito, Conan deixou passar duas boas oportunidades. Uma, foi o pouco espaço dado ao divertido personagem The Wizard (não lembro o nome em português, se era Mago, Bruxo, etc.), interpretado pelo china Mako - uma figuraça, por si só. A outra, foi a pequena participação reservada ao grande Max Von Sydow, que já era velhão na época (palmas pro geriatra do cara!). No papel do decadente Rei Osric, ele brilha como sempre e literalmente rouba a cena - mesmo porquê, só estavam lá ele, Arnold, Gerry e Sandahl...

Apesar de sua breve aparição, Osric é uma peça fundamental da trama: é ele quem "contrata" os 3 ladrões para resgatar a sua filha, uma fanática seguidora da seita de Thulsa Doom.


Fosse produzido hoje, do mesmo jeito, Conan seria acusado de intolerância religiosa. A seita comandada por Thulsa Doom tem como base uma imensa massa de fiéis que dariam as suas vidas pelo seu líder, sem pestanejar. Há referências às Cruzadas promovidas pelo Vaticano (na verdade, genocídios criminosos "em nome de Deus"), ao fundamentalismo religioso, à Via Crucis e às práticas primitivas de tortura (numa cena memorável, Conan abocanha um abutre faminto que estava dando umas bicadas nele) - traços flagrantes das polêmicas idéias de Oliver Stone.

Claro que nada disso recebe atenção maior do que o necessário, e só serve para ilustrar a natureza diabólica da seita. Logo nos vemos em meio aos maneirismos próprios do universo "Espada & Magia", estabelecidos por R.E.Howard. Thulsa Doom, além de possuir "A Voz do Darth Vader" (e isso é muito relevante!), também tem poderes sobrenaturais, de natureza mística. Quando ele os usa é até estranho, pois James Earl Jones tem uma presença tão intimidante que, na minha opinião, nem precisava de poderes. Era só ele gritar "largue essa espada", e pronto. De qualquer forma, ele se transforma na exapentatrisavó da Anaconda e tem outros poderes relacionados às pítons, como transformá-las em objetos inanimados.

Aliás, se um dia fizerem uma adaptação cinematográfica do Surfista Prateado, meu voto para a voz do Galactus vocês já sabem...


Conan, O Bárbaro teve um sucesso retumbante nas bilheterias da época e colocou Schwarza no trampolim para a franquia do Terminator (iniciada dois anos mais tarde), e, por conseqüência, para o estrelato. Segundo a produtora Raffaella De Laurentiis (filha do Dino), a pré-estréia de Conan reuniu o maior número possível de outsiders em um único lugar: eram filas e mais filas de Hell's Angels, headbangers e estudiosos da obra de R.E.Howard. Ela conta que na cena em que Conan está na Roda do Sofrimento - ao som de Wheel of Pain (dããã) - e ergueu o rosto pela primeira vez, a audiência foi abaixo...

Antes de ser realizado, esse projeto esteve em vias de ser engavetado e esquecido. Desde sua concepção original até sua produção de fato, Conan provou ser um guerreiro persistente. Poucas vezes um roteiro recebeu tantos "nãos" na História (pelo menos, alguns "nãos" foram de grife: Alan Parker e Ridley Scott).

Essa química única e inesperada de talentos díspares, nunca mais voltou a se reunir. Gerry retornou às marolas da Califórnia, e participou de mais uns dois ou três filmes. A deliciosa Sandahl mergulhou em produções "Z" e deixou saudades. Oliver Stone foi filmar a sua trilogia sobre a Guerra do Vietnã, para depois se reinventar em Assassinos Por Natureza.

Arnold, Mako e Sven-Ole (em outro papel) foram os únicos que ainda voltariam à Era Hiboreana, no fraquíssimo Conan, O Destruidor (Conan The Destroyer, 1984). Dirigido pelo veterano Richard Fleischer, a produção foi um fracasso comercial e de crítica, e colocou o bárbaro num iceberg cinematográfico que dura até hoje.

Mais recentemente, houveram algumas "tentativas" (leia-se: "pesquisas de mercado") de acordar o cimério de seu sono milenar. Uma animação meia-boca que não durou nem uma temporada e um seriado risível com um bárbaro bonzinho, não fizeram juz ao Filho de Crom. Em 2000, começaram a surgir os primeiros boatos a respeito de uma retomada da franquia.

Tão enrolado quanto o filme do Clark, Conan King: The Crown of Iron (título provisório), abordaria um Conan bem mais velho, já rei da Aquilônia. O argumento divulgado é bastante interessante. Começa com uma versão da clássica A Filha do Gigante do Gelo (reeditada recentemente por Kurt Busiek e Cary Nord, na bela HQ Conan, O Cimério), e emenda na fase intermediária do bárbaro, inspirada nos eventos da excelente série Conan Rei. Cliquem aqui para conferir um resumo.

Esse projeto, desde o seu início, foi abraçado por John Milius e pelo próprio Schwarza, que sempre demonstrou interesse em voltar à pele do bárbaro. Mas pelo visto, isso ainda não foi suficiente para fazer a produção deslanchar. Vin Diesel, The Rock e agora Paul Levesque, o Triple H, já foram cotados para o papel de Kon, filho de Conan, mas nada está confirmado. Até os onipresentes irmãos Wachowski passaram pelo projeto. Durante um tempo, eles foram os roteiristas e produtores oficiais do filme, mas já abandonaram o cargo. Pra finalizar, o prazo dos direitos de filmagem da Time Warner já está chegando ao fim.

Agora entendo por que a narração em off ao final de Conan, O Bárbaro, rezava que "a coroa pesava sobre a sua preocupada cabeça"...



Mas as coisas nunca foram fáceis para Conan. Nem em suas sangrentas batalhas nos livros, nas HQs, no seu primeiro e excelente filme, e nem em suas complicadas pré-produções.

Isso não haveria de mudar agora. Afinal, segundo a tradição, quanto maior o desafio para o cimério, mais selvagem ele se tornará. E quando finalmente o reencontrarmos nas telonas, podem ter certeza de que cabeças rolarão - literalmente.

Notícias sobre Crown of Iron
Galeria com ilustrações de Frank Frazetta


Na faixa: Accident of Birth e The Chemical Wedding, os últimos dois solos de Bruce Dickinson. Mas o cimério demandava algo mais "primitivo", então coloquei pra rodar as músicas Aqualung, do Jethro Tull e In-A-Gadda-Da-Vida, do Iron Butterfly. Por incrível que pareça, essa seqüência de duas músicas ainda está na metade.

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