sexta-feira, 5 de agosto de 2005

"METLLICA"

O cinegrafista Bob Richman e James Hetfield na concentração

Eu era um garoto que amava Metallica e Faith No More. Obviamente, isso pouco interessa a você, fã de Franz Ferdinand, do novo hit do Gorillaz ou mesmo da sua velha radiola que só pega AM. Também não adianta vir com muita grosseria na matéria (tem gente que acha que qualquer coisa mais leve que o Krisiun já é pop). Até piora. É essa nesga de público restante que pode ter uma bela surpresa com Metallica: Some Kind of Monster (2004), documentário que cobre o período 2001-2003 da carreira do grupo.

Dirigido heroicamente por Joe Berlinger (de A Bruxa de Blair 2) e Bruce Sinofsky, essa foi justamente a fase mais turbulenta da história do Metallica. É catarse filmada com todas as situações-limite e/ou constrangedoras que possam sair de uma relação desgastada. Três caras criativamente exaustos, sentindo o peso do tempo chegando junto (mais de 20 anos de estrada), a desmistificação de seus antigos ideais no future (hoje eles são milionários e a banda, um ícone do estabilishment), a saída traumática do baixista Jason Newsted, o caco de relação que sobrou entre o vocalista e guitarrista James Hetfield e o baterista Lars Ulrich, e os bastidores da gravação de St. Anger, disparado o seu pior álbum. E é aí que está a questão.

'tallica jammeando e lá no canto, Robert Trujillo, o novo candidato a bass hero

Até então, eu só sabia que St. Anger era uma decepção multi-facetada. Em primeiro lugar, veio a produção propositalmente ruim - contraste flagrante com a mesma banda que gravou o Black Album (1991), um marco da engenharia de som, com o mesmo produtor Bob Rock. Em segundo, já se podia esperar por um material no mínimo conturbado, dados o break interminável no processo de composição e a saída ríspida de Newsted, que, sem dúvida, abalou a banda - e principalmente Hetfield, de quem se tornou um grande amigo. Embora isso não tenha livrado Newsted de um belo flagra, quando um dos roadies mostra um recadinho mal-criado que ele deixou gravado em uma secretária eletrônica (nos extras do disco 2).

De resto, sabíamos por alto que as coisas já não andavam lá muito bem dentro do grupo. Vez ou outra chegava a notícia de um eventual arranca-rabo entre James Hetfield, o deus do metal (pense nesse adjetivo de forma bem pejorativa e psicologicamente prejudicial a longo prazo), e o explosivo Lars Ulrich, herói que virou vilão mega-capitalista e que acabou com a farra-do-boi do Napster, iniciando uma caça às bruxas que dura até hoje. As cenas em que os dois discutem chegam a ser engraçadas de tão nervosas.

No meio disso tudo, o guitarrista Kirk Hammett, sempre passivo e concluindo que os bons tempos foram mesmo pro saco, Bob Rock (que já trabalha com a banda a 15 anos), demonstrando um jogo de cintura invejável quando escapa de algum fogo cruzado, e um conceituado psiquiatra... isso mesmo, um psiquiatra... que tenta somatizar toda a zona que anda acontecendo com a banda. O mesmo profissional acaba sendo vítima de um "motim" por parte dos rockeiros.

Mustaine, o recalcadoAlguns velhos elementos recorrentes na "metallogia" do grupo acabam dando as caras e quando menos se espera... voilá: Dave Mustaine entra em cena e de repente faz dessa locação um daqueles investimentos superfaturados. Ah, sim. Pra você, que gosta de The Killers, Keane, Altemar Dutra, etc, eu explico.

Mustaine estava lá, nos primórdios do Metallica, junto com Hetfield, Ulrich e Ron McGovney. Foi chutado da banda em 1983, porque conseguia chapar mais álcool e drogas que todos os outros juntos. Reza a lenda que eles colocaram o cara doidaraço dentro de um ônibus que ia de LA para San Francisco. Mustaine, puto, montou o Megadeth e também vendeu seus milhões de álbuns, mas sem nunca sair da sombra perseguidora do Metallica.

Então essa lavagem de cueca suja adiada por 20 anos finalmente acontece, e com juros - embora a banda tenha sacaneado Mustaine pra valer nessa mesma seqüência, com a opção "Comentários da banda" ativada. Mas que foi engraçado, foi.

Metallica ao vivo... até 1989 eles eram os melhores nesse negócio

Essas são as peças no tabuleiro. Claro que você quer saber é se Some Kind of Monster pode ser palatável ao gosto de quem não é fã do Metallica. Sim, com certeza. Mas como o próprio título já diz, esse monstro aqui não se encaixa em nenhuma categoria pré-definida. Não é bem um "rockumentário", não é nem um pouco redentor e pinta os integrantes do grupo com cores pra lá de cinzentas. Estar no Metallica Inc. é quase como estar no elenco de O Aprendiz (o original americano com o Donald Trump, muito mais hardcore). Reuniões, campanhas de promoção, contratos com gravadoras e distribuidoras, investimentos e conflito de interesses. Isso tudo e ainda um novo disco a ser gravado, enquanto os músicos penam com um teimoso bloqueio criativo. A coisa fica bem mais séria quando se tem dinheiro envolvido. Aliás, muito dinheiro - o Metallica já vendeu mais de noventa milhões de discos desde 83.

Não deixa de ser curioso o modo como cada integrante lida com isso. Hetfield acompanhando sua filhinha na aula de balé e passando uma temporada numa clínica de reabilitação, Lars levando seu pai (que figura) ao estúdio e investindo alto em leilões, e Hammett, cansado do "deixa-disso" habitual e se isolando em sua fazenda idílica. E para fãs (agora sim!), chega a ser tocante quando imagens de várias fases da banda são colocadas em seqüência, deixando claro o quanto isso tudo já foi especial um dia.

Talvez esteja aí a força de Some Kind of Monster e o que faz dele uma experiência tão peculiar. A pressão do profissionalismo, a deslocada condição humana e a fragilidade de relações desgastadas por longos anos de convivência. Onde você já viu isso antes mesmo?



COMEÇOU EM PIZZA


Literalmente. Durante uma esticada turística na Terra, o Senhor do Fogo, ex-arauto de Galactus e chato de plantão, é confundido com um portador de gene X no auge da febre anti-mutante. Confusão armada e logo o Amigão da Vizinhança tem de salvar alguns pescoços. O problema é que a treta é tão desigual que poderia ser tranqüilamente adicionada ao cartel de pepinos do Aranha (Rino, Hulk, Fanático, Mr. Hyde, etc). Como sempre, só resta ao nosso esforçado herói lançar mão de muito improviso, corre-corre e do providencial Sentido de Aranha. Não faltam situações inusitadas (como o Senhor do Fogo na pizzaria), prédios destruídos, explosões a rodo, aquelas infames piadas do Aracnídeo, J.J.Jameson numa seqüência hilária, e, claro, a indefectível cena em um metrô. :)

Por incrível que pareça, esse tipo de história minimalista sempre rendeu horrores com o personagem. Provavelmente seja porque o Aranha se garante em personalidade e é de fato o super-herói mais complexamente humano dos quadrinhos. A seqüência (genial) em que ele fica tentado a sumir na multidão é um ótimo exemplo. Méritos do roteiro esperto de Tom DeFalco e do traço limpo e eficiente de Ron Frenz (por que não existem mais desenhistas assim?).


Outro detalhe digno de nota é a edição nacional pra lá de capenga, como de praxe. Dia desses mesmo eu estava tirando sarro com as pernadas de editoração da Ebal, mas atrocidades como essa também eram habituais durante a era Abril Jovem. Fazer o quê, né. Eu cresci achando que o uniforme do Fantasma era vermelho...


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"You will do, what I say, when I say... BACK TO THE FRONT!"

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