




Caralho.

Hannibal Lecter lamberia os beiços.
Alta Tensão é o terceiro filme do cineasta Alexandre Aja, e foi o seu divisor de águas. Graças à ótima recepção de estripados público de crítica, ele foi escolhido para realizar o polêmico Viagem Maldita, remake de Quadrilha de Sádicos, clássico B de Wes Craven.
Sempre fui muito curioso em relação aos trabalhos iniciais de artistas que começam a se destacar. Geralmente, é quando sua arte está menos infectada por questões tendenciosas e/ou comerciais. O que vemos ali é o resultado mais puro que sua genética criativa poderia produzir (inocência, raiva, simplicidade e despretensão são elementos primordiais inclusos). E neste filme você entra com tudo na cabecinha perturbada do menino Aja. É um abismo.

Marie e Alex são estudantes que caem na estrada pra passar um finde à base de livros e anotações. Grandes amigas, elas vão ficar na casa dos pais de Alex, localizada numa daquelas áreas rurais idílicas e bucólicas, intocadas pela urbanidade. À quilômetros de qualquer lugar, o ambiente parece mais que perfeito para mergulhar nos cadernos - imagem rapidamente destroçada por uma cena de trincar a espinha, na qual o vilão da trama é apresentado de uma maneira tão direta e brutal que chega a provocar mal-estar (é de arrepiar mesmo e saiba que aquela será a tônica do resto do filme). Se eu fosse um dos personagens e soubesse que meu possível algoz seria aquele, eu ia a nado pra ilha de Lost na mesma hora.

Em Alta Tensão o silêncio faz barulho. Enquanto a fotografia claustrofóbica e sussurante sugere um megadeath iminente, Aja larga a tensão no último volume e vai embora. A sensação absurda de que algo vai acontecer atinge seu primeiro orgasmo - numa pusta triangulação de metáforas - logo na primeira noite em que as duas passam na casa, sugerindo que já chegamos a um suposto clímax. "Suposto", porque o caos chega varrendo o lugar impiedosamente como se não existisse amanhã e só se passaram, o quê, vinte e poucos minutos...? E ainda tem mais umas três sessões de sexo selvagem pela frente (calma, é outra metáfora) e uma senhora cravada final que te larga lá, estabacado no chão, com cara de "anotaram a placa...?"


Tenho de agitar umas considerações aí. Nego de responsa nas parada' achou o final uma bela merda. Outros tantos acharam o Santo Graal Butcher das conclusões slasher. Eu achei do caralho. Até pelo fato de se estender de maneira over, desembocar numa cachoeira de hemácias deliciosamente gratuita e de preparar o terreno para uma última ceninha de quebrar o encosto do sofá.

O filme é gráfico ao extremo e cumpre até a beirola do que promete com precisão cirúrgica. Isto porque quem está lá no grotesque make-up é o velhinho Giannetto de Rossi, tradicional colaborador dos mestres do giallo, Mario Bava e Lucio Fulci. A produção também pode ser encarada como precursora desta leva de filmes anti-mochileiros que andam assolando o mercado (vide Abismo do Medo, Wolf "Eu Quero a Minha Mãe" Creek, O Albergue e o próprio Viagem Maldita) - pelo visto, o mais seguro hoje é fazer turismo na Antártida.


Aja é mutcho loco e se continuar deste jeito, teremos ainda diversão redentora e primitivista por muito tempo (sim, ele nos faz reencontrar nossos ID's pré-civilização há muito adormecidos). Todo este do-it-yourself virulento e o filho da mãe é mais novo que eu. Seu próximo projeto, no entanto, é mais um remake - desta vez, do suspense sul-coreano Into The Mirror - programado pra 2007. Embora seja uma missão meio inglória, se existe alguém que ainda pode apavorar com remake de filme asiático, este é o cara.
Pra mim, até segunda ordem (ou até o próximo terror do Zack Snyder), Alexandre Aja é o sujeito mais punk do cinema atual.
Feliz Dia das Crianças. Melhor ainda... feliz Sexta-Feira 13. E na trilha: "Don't Talk To Strangers". Virou meu hino agora.
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