quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

DIE, AXL, DIE!


Melhores de 2008 outrora em produção e eu ouvindo o Chinese Democracy pela terceira vez nesta vida. Não é um disco ruim, tampouco justifica a demora e é, de longe, o registro mais bizarro do grande cetáceo do rock. Minha política em relação aos gunners é de "não-intervenção": tanto acho hilário o tom inflamável das críticas (algumas, antológicas!) quanto dignos de surra os que consideram o grupo a redenção definitiva do rock & roll. Ah, porra... vão ouvir Thin Lizzy, caralho. The Who. Bad Company. Led, Rainbow! Até o Foghat foi melhor.

Mas dessa os roses saem ilesos, já que sempre foram os primeiros a admitir que estavam à sombra de gigantes. Caso contrário, mereceriam mesmo todas as tomatadas. Além do mais, qualquer banda que escreva uma sonzeira como "The Garden" e ainda tenha moral o suficiente para invocar o vozeirão cavernoso do fuckin' Alice Cooper, tem direito a crédito extra. Isso me chama a atenção para o que realmente há de errado com a banda - os fãs. Ah, esses malditos.

Mas então. Enquanto tentava entender um pouco do disco novo (impossível), curtia uma versão bem melhor do Axl Rose: a da história "Stage Coach", da série White Trash de Gordon Rennie e do saudoso Martin Emond (R.I.P.!). Publicada na Heavy Metal #142 (janeiro/1993), é algo raro de encontrar, é bem possível que seja inédita por aqui. Se saiu, é quase certo que foi pela Heavy Metal Brasil ou pela Animal.


Na história, Axl, então um jovem white trash, sai de algum trailer nos cafundós de Indiana com destino a Los Angeles, a terra prometida do hard rock oitentista. Durante o trajeto, uma gangue de motoqueiros headbangers, talvez prevendo a praga mundial que seriam os GN'R, ataca o ônibus do rapaz e tenta matá-lo a todo custo.

Tão divertido quanto parece!


No link (em inglês) >>

White Trash: Stage Coach


E Chinese Democracy não constaria no Melhores '08. Processo arquivado.

Ok, me entrego. Rolei de rir nessa última enquete. Fiz de sacanagem, porque no fundo sabia que a parada ia terminar entre o Stan e o Hugh. Ora, o velho Stan é o maioral, tem conexões inimagináveis dentro na arte que tanto amamos (a ) e um vasto arquivo de histórias off-record pra contar...

Mas como competir com isso?

Com certeza, o marvete que votou no Hugh, votou com o coração partido (mas com o imaginário pra +18). Mas estamos todos perdoados. Num mundo perfeito, o "avô dos sonhos" seria uma mistura dos dois.


E, quem sabe, esse decano idealizado até mandasse um "go ahead, punk" de vez em quando.

Tipo, "vô, posso ficar com a ruiva?" - "go ahead, punk".


Rascunhei isso ouvindo uma puta relíquia do Van Halen e me espantando com o fato de não ter mais ressaca. Não que eu esteja reclamando.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

JASON VOORHEES' DAY OFF


Facão enferrujado? Confere. Sorriso cativante? Confere. Pescoção? Confere. Fetiche por acessórios de hóquei? O-fucking-yeah. Tremei, amantes da nouvelle vague! O rei dos slashers está de volta! E quando eu afirmo "está de volta" eu quero dizer per se literalmente por extenso. Porque cada frame respingante de Sexta-Feira 13 (Friday the 13th, EUA, 2009) remete rigorosamente à franquia original, funcionando mais como um resumão dos três primeiros capítulos. Nada do que era circunstancial ou situacional foi modificado, o que faz deste filme uma autêntica 80's X-Party, com todos os machados, cutelos e loiras subindo as escadas em vez de fugirem pela porta. Mas antes que você me pergunte, sim, houve alguma reinvenção. Do próprio Jason.

O filme é a segunda colaboração do diretor Marcus Nispel com a produção do decepticon Michael Bay - dobradinha que funcionou às maravilhas no ótimo remake de Massacre da Serra Elétrica. Só que desta vez, o roteiro é de Damian Shannon e Mark Swift (do slasher-arena Freddy vs. Jason), o que talvez explique o default sanguinário aqui presente. Ao contrário da refilmagem de Massacre, aquele trocinho descaralhante no grafismo, o novo Sexta (apelido carinhoso) pouco revitaliza seu lado mais explícito e visceral. Esteticamente, não traz novas informações àquilo já vimos antes, o que hoje, não é o bastante. Não depois de Alta Tensão, Rejeitados pelo Diabo ou mesmo O Albergue. Isso, pelo menos, na versão que foi para as telonas.

Segundo Nispel, eles deceparam cerca de dez minutos em gore e putaria só pra acalmar a MPAA e emburacar censura R. Mesmo assim, a quantidade de mamões em exposição é redentora! Contei três pares generosos de magumbos, todos em farol alto e com moranguinhos perfeitamente simétricos. E como nada se perde, o diretor já avisou que o DVD e o Blu-ray é que vão ser o canal e terão todas as cenas proibidonas, mais os gêiseres de hemácias, leucócitos e plaquetas que ficaram de fora. Oremos!


A premissa é trivial e conta com, provavelmente, a maior introdução da história do cinema (pra lá de vinte minutos). Começa com um flashback p&b do primeiro filme, com a serial-mom de Jason jurando vingança e perdendo a cabeça pra deixar de ser besta. Corta para um grupinho de amigos (dois casais e um geek) indo acampar nos arredores de Crystal Lake - novamente em busca de erva, tal qual em Massacre. Papo vai, papo vem, a noite cai, uma menina mais assanhada paga peitinho (sic!!) e não demora até todos serem atropelados por um bulldozer da marca VOORHEES. No meio do açougue, aparecem algumas novidades em relação ao "man behind the mask" (já volto aí).

A cena que conclui a chacina chama a atenção por dois motivos: visivelmente, Derek Mears, o novo Jason, estava em plena realização de um sonho de infância; Dada a disposição com que ele vai pra cima da última vítima, Whitney (a fabulosa Amanda Righetti), você imagina que ele não só partiu a garota ao meio como abriu um novo afluente para o lago Cristal. Mas não é bem por aí - e essa é a primeira pista do estilo que Nispel imprime durante o resto do filme.

Finalmente, o título aparece e a história central começa. Seis semanas depois, o irmão de Whitney, Clay (Jared Padalecki, o Sam, de Sobrenatural) varre a região à procura da garota, enquanto uma nova leva de presuntos com úteros e hormônios em fúria armam um rendez-vous pelas redondezas. Os conhecidos estereótipos estão lá, desde o playboy cuzão e duas loirinhas bimbantes até um japa e um negão obedecendo o sistema de cotas - todos com etiqueta de identificação do necrotério amarrada no dedão do pé.

Também temos uma inevitável e virginal Pollyana no meio do grupo, a gracinha Jenna (Danielle Panabaker), interesse romântico de Clay. Aliás, sempre me pergunto porque uma pattyzinha casta e inocente resolve ir até um fim de mundo com uma galera sedenta por drogas e orgias.


Os garotos intrometidos xeretando o velho acampamento abandonado, jovens transando num filme de terror (isso é assinar a própria sentença de morte, mermão!), policiais incompetentes que nunca observaram os índices de homicídios e desaparecimentos da região... tudo pronto para o psicopático Jason inundar a floresta com um maremoto vermelho-bordô, mas logo percebemos algo diferente no capiau de Crystal Lake. Bem diferente.

Na nova abordagem, Jason está mais safo, mais versátil. Ainda é aquela mesma máquina de moer adolescentes, mas longe daquela rigidez robótica de outrora. Sim, a unidimensionalidade, maior característica do immortal-killer, foi pro saco. O Jason 2009 está mais para os cajuns sacanas de Amargo Pesadelo e O Confronto Final do que pra Michael Myers, o que faz até mais sentido. O caipirão from hell agora se utiliza de vários apetrechos (armadilhas, gambiarras de alarme e... ainda estou pasmo... arco e flecha!) e até de joguinhos psicológicos - coisa que ele fazia muito nos primeiros filmes e foi que sendo esquecida conforme a criatividade foi descendo pelo ralo. Do jeito que está, Jason poderia alugar uma caminhonete, cair na estrada e protagonizar a continuação de Wolf Creek.

Mesmo descrevendo tudo isso positivamente, confesso que fiquei meio dividido sobre essas modificações. Mas isso porque eu sou um maldito nostálgico. Jason pra mim é aquele que vai andando e mesmo assim pega o infeliz que está se desgraçando de correr lá na frente.


A direção de Nispel surpreende pela pouca ousadia, sugerindo até um certo cuidado com a marca. Também é meio canalha com o espectador, usando várias vezes o recurso do volume alto para amplificar sustos falsos (chega ao absurdo de um simples arrastar de cadeira criar um susto de mil decibéis). Outra estratégia furada que é repetida à exaustão e que se esgota rapidamente: Jason e seu poder mutante de se materializar atrás das vítimas, o que fatalmente chega ao ponto de comédia involuntária (a velha maldição da série original). E algumas passagens intrigantes como a da velhinha mal-encarada e adepta da causa Jasoniana não são desenvolvidas, o que é uma pena.

De positivo, temos boas homenagens aos primeiros filmes, como a cadeira de rodas que aparece jogada no muquifo de Jason (referência ao paraplégico de Sexta-Feira 13: Parte 2), a cachola da mamãe Voorhees reverenciada num altar (também da parte dois) e o ônibus escolar tombado no meio da floresta (lembrando muito a van que ele detonou na parte VI).

Também não poderia deixar de destacar que, após tantos cancelamentos, finalmente alguém de Sobrenatural conseguiu enfrentar o Jason - ainda que extra-oficialmente. O que, convenhamos, foi até melhor, já que os Winchester bros. nem abalariam o mascarado com os tradicionais sal grosso e rituais de exorcismo. Jason esquartejaria os dois num piscar de olhos e a série é bacana demais pra terminar assim.


Sexta-Feira 13 em muito se assemelha àquelas bandas hard rock de antigamente. E não me refiro apenas aos canhões de luz e gelo seco que impregnam as florestas de Crystal Lake à noite. A série retorna com um lançamento divertido, mas flagrantemente datado para os padrões atuais, na ânsia de recuperar um pouco do seu passado de glórias. O que consegue, no entanto, é mostrar mais uma autocaricatura, regurgitando as convenções criadas por ela mesma e que influenciaram as gerações seguintes - o que, de um certo modo, não poderia ser mais bem-vindo e lisonjeiro.

Jason está de volta. Vida longa a Jason Voorhees, o maior rockstar dos anos oitenta.


Friday the 13th Films
Camp Blood
Desciclopédia do Jason!

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

FIGHT FIRE WITH BAUER


Olha só que coisa. Mesmo com tudo o que já aconteceu em 24, a série nunca foi tão didática quanto no último episódio (o oitavo, sétima temporada). O que rolou ali foi um intensivão da metodologia anti-terror - e anti-ética - de Jack Bauer. Um compacto de tudo o que polemiza o personagem de Kiefer Sutherland e, porque não, daquilo que é o coração da série. Uma sequência em particular (a da imagem acima) é emblemática neste sentido: trata-se de uma única situação de campo, onde o ex-CTU, auxiliado por uma agente do FBI, tenta extrair uma informação crucial de um agente duplo. Movido por uma deadline iminente e antecipando a recusa do sujeito em abrir o bico, Bauer o coloca sob a mira, enquanto a agente do FBI invade a casa do cara e coloca a família dele (mulher e um bebê de 11 meses) sob a mira. Para Bauer é só mais um dia no escritório. Mas para a agente Renee Walker...

A agente Walker tem personificado os brios do espectador liberal nesta temporada. Ao mesmo tempo em que admite alguma tortura e coação por um bem maior (que seja), se recusa a trilhar de vez o caminho negro de Bauer, que absorve isso como oxigênio. Ela tenta evitar baixas. Ele, controla os danos. Isso deu muito certo antes (lembra de como ele quebrou o vilanesco Stephen Saunders na terceira temporada?). A única exceção (Christopher Henderson, mentor de Jack, ou seja, Satã em pessoa) só confirma a regra.

Uma das boas sacadas do roteiro foi mostrar a agente sendo seduzida pelo modus operandi de Bauer (reacionário e com tempo de resposta mach-5) em contraponto aos protocolos e burocracias sem fim do Bureau - este, sem dúvida, representado em terno e gravata pelo diretor assistente Larry Moss, de quem a Agente Walker é protégé. É dele uma missiva lapidar para Jack: "são as regras quem nos fazem melhores" - ao que ele prontamente responde: "não hoje".

Poucas vezes Jack esteve tão sóbrio e incisivo quanto nesta cena de confronto ideológico. Faltou pouco pra ele dizer algo como "sou o melhor no que faço" ou "peace sells, but who's buying?". Um badass, enfim.

A sétima temporada segue irrepreensível. Pra quem se surpreendeu com o tour-de-Rambo que foi 24: Redemption (achei um filmaço sim), posso adiantar que a trama está muito bem elaborada e cheia daqueles excessos narrativos quase-saindo-dos-trilhos que marcaram os melhores momentos da série. E pra quem estranhar a calmaria inicial, os dois últimos episódios (#7 e #8) são totalmente punk, hardcore e death metal. Na verdade, só há uma coisinha que ainda não comprei totalmente, mas sem ligações diretas com o andamento dos plots. Que, por sinal, nem vou resumir quais são para não atrapalhar a surpresa (não dessa vez!).

Ah, e evite o Wiki de 24. Estraguei um episódio só de correr o olho ali. Os caras contam tudo!

Na trilha: War Pigs!

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

MEU PRIMEIRO ZUMBI


"Emily Hagins está fazendo um filme de zumbis. É um longa-metragem, é sangrento e os zumbis não correm. Como deveria ser. Mas há uma diferença entre o seu filme e os outros filmes de zumbi que você já assistiu: Emily tem doze anos".

Zombie Girl: The Movie é um documentário/diário de bordo que acompanha a menina Emily durante as gravações de seu primeiro filme, Pathogen. Como se vê no trailer, o clima é de total descontração e sorvete na testa, mas também percebe-se que a guria não teve supervisão dos pais quando ia à locadora. Zumbis lentos, nacos de carne arrancada e cabeças decepadas? Uau, essa garota fez a lição de casa.

E o troféu Vânia Cavalera da vez vai para a mamãe Hagins, por todo seu apoio moral. Além de agente da aspirante a cineasta, ela é sua produtora, técnica de som, motorista (Emily não tem carteira), figurante e por aí vai. Mas, claro, sem interferir no processo criativo. Isso seria imperdoável!

Zombie Girl foi dirigido a seis mãos - Aaron Marshall, Justin Johnson e Erik Mauck - e neste momento perambula pelo circuito de festivais alternativos norte-americanos (como o bacana Slamdance Film Festival). Até agora a recepção tem sido ótima.

Nada melhor que uns zumbis para reforçar os laços familiares.

Em tempo: George A. Romero não daria um belo nome de escola secundária?

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

O PROTOCOLO DE KLAATU


Então fizeram mesmo. Cai mais um dos intocáveis, numa contagem de corpos... ou melhor, de clássicos que não parece ter fim em Hollywood. Não sei se é mera falta de idéias novas ou de uma geração substituta à altura (onde estão os novos Ridley Scott, John Landis, Joe Dante, James Cameron...?), mas a partir do momento em que temos um remake de nome O Dia em que a Terra Parou (The Day the Earth Stood Still, EUA, 2008), é porque o cenário já passou do estágio "preocupante". A idéia, claro, é completamente desnecessária. E não só porque o original de Robert Wise é sci-fi de apelo humanista que soa universal até hoje ou porque foi corajosamente engajado e apartidário no auge da histeria anticomunista, mas porque é atemporal em essência. Havia ali uma moral, um recado. Sendo assim, como um remake se justifica neste caso? Segundo a nova versão, muda-se a moral, muda-se o recado.

Em tese, até que faz sentido. O ser humano vive se diversificando na autodestruição. Nos anos 50, compreensivelmente, a Bomba era a endorser oficial do apocalipse - ou, ao menos, a ameaça mais imediata. Hoje, pensamos mais nela como um parente distante e (muito) desagradável, ao passo que assuntos como poluição industrial, degelo ártico/antártico, desmatamento indiscriminado e catástrofes naturais cada vez mais subseqüentes estão na ordem do dia. Desenvolvimento humano acelerado rumo ao colapso ambiental definitivo. Está tudo lá, em Wall-e. É nessa verdade inconveniente que o remake encontra sua raison d'être. Ok, vamos classificar isso como uma boa ideia*.

* estreando uma das novas regras ortográficas. Sinto como se tivesse acabado de cometer um crime.

Fora esta e mais algumas leves adaptações, o filme reedita a narrativa e o timing original quase magicamente e sem traumas. Impressiona como a premissa segue funcional e instigante após 57 anos (eu disse que era atemporal) - um ovni invade o espaço aéreo norte-americano e aterrissa em pleno Central Park. Os rapazes do Tio Sam prontamente se posicionam para receber o visitante e o resto é história. O alienígena Klaatu desce para se comunicar pacificamente, mas a xenofobia do homo "sapiens" fala mais alto e o pior acontece.

Uma reverência necessária aqui... no original, esta sequência é uma das mais arrepiantes e icônicas que o cinema já produziu: logo que sai da nave, Klaatu/Michael Rennie é atacado sem qualquer motivo senão o da ignorância; o autômato Gort é ativado e investe contra os agressores, mas é impedido por Klaatu, que, mesmo ferido, salva as vidas de seus algozes. Quase um Trotsky alienígena.

Um momento perfeito e emocionante (justamente homenageado por Luc Besson em O Quinto Elemento). Importante reconhecer que, no novo filme, a cena não tem - e sabiamente nem busca - o mesmo impacto, mas ainda assim é recriada elegantemente. E pontuada com uma versão da lapidar "Klaatu barada nikto" em inflexão extraterrestre quase ininteligível. Adorei.

Klaatu sobrevive, mas fica sob custódia do governo norte-americano. Sabatinado pelas autoridades, ele afirma trazer uma derradeira mensagem para os líderes da Terra, mas esbarra em desconfiança, sectarismo e burocracia - problemas, segundo ele, há muito superados em seu mundo. Apesar do pedido simples, Klaatu descobre que a humanidade está dividida demais para ouvir sobre sua própria destruição. Mais tarde, ele consegue escapar do cativeiro e se mistura à população para compreendê-la melhor e, talvez, oferecer-lhe mais uma chance de redenção. Enquanto isso, a deadline vai se aproximando.


O nome de Scott Derrickson na direção me animou bastante (como já comentei anteriormente). Cineasta sensato e climático, que respeita o tempo e a ordem dos acontecimentos - característica mantida aqui, apesar da típica produção blockbuster com dinâmica acelerada. Puxar o freio, no caso, não deve ter sido tarefa fácil para o diretor, visto que seria mais simples ceder às convenções do gênero e seguir a cartilha de Michael Bay para ameaças espaciais. Afinal, aqui também temos um robô gigante assustador e o marketing já é pré-moldado nestes casos. Não duvido que houveram "sugestões" neste sentido. Contudo, o andamento do filme segue em ritmo cadenciado, sério e sombrio como deveria, com a merecida atenção para as boas performances aqui presentes. Se há mais alguma coisa errada neste remake além de sua existência, e há, não é por inépcia do diretor.

Tenho certeza que agora vou horrorizar o requintado senso crítico dos cinéfilos, mas foda-se: Keanu Reeves está perfeito no papel revisado de Klaatu. Diferente da abordagem suave, naturalmente curiosa e até paternal de Michael Rennie, o Klaanu é uma porta de mogno maciço. Melhor ainda, um tronco de sequóia, incisivo e pragmático. Sua presença 100% seca, indiferente e desprovida de substância (especialidade involuntária do rapaz) deixa o personagem ainda mais austero e sem qualquer afinidade pela condição humana. Numa metáfora simples mas atualíssima pincelada pela personagem de Kathy Bates, Klaatu veio para fazer o que eles (as nações do Primeiro Mundo) sempre fizeram: extinguir os povos menos avançados. Em outro momento, Klaatu diz representar um grupo de civilizações e que a Terra jamais "pertenceu" à raça humana, já que são raros os planetas capazes de suportar formas complexas de vida - o que a torna um objeto de interesse literalmente universal. Levando em conta o vandalismo ambiental que cometemos aqui, não só justifica-se o ultimato dos ETs, como mostra que eles foram até bonzinhos em não incinerar todo mundo sem aviso prévio.

Uma vez destrinchada a fabulosa contra-atuação de Kleatu, fica mole destacar os demais. O elenco é de outro mundo, uma conjunção de astros e outros chavões estratosféricos. Em ordem ascendente: a sempre maravilhosa Jennifer Connelly simplesmente rouba pra si a personagem Helen Benson, agora uma conceituada astrobióloga (atualização pertinente e pra lá de necessária); Kathy Bates superinterpreta e confere uma postura protecionista e republicanóide, o contrário de seu correspondente burocrata do filme original; e o venerável John Cleese, no papel do Prof. Barnhardt, me faz querer abraçar o responsável pelo casting, tamanha a iluminação do sujeito. É dele o melhor e mais importante momento do filme, mesmo numa participação desgraçadamente curta.

Coincidentemente, a partir dali todas as boas expectativas vão sendo frustradas uma a uma em velocidade de dobra. O remake tinha lá suas chances de dignidade (correspondidas até ali com um trabalho sóbrio e competente), mas o que se sucedeu foi um frango escandaloso do roteiro adaptado por David Scarpa.


Sequências como a do "dia em que a Terra parou" per se, soam tão irregulares quanto um furo de lógica (ora, um simples pulso eletromagnético em escala global não seria um genocídio de qualquer maneira?), e a mudança de opinião de Klaatu no final soa exageradamente prematura, ao passo que seu conterrâneo levou 70 anos para ser humanizado. O plot sentimental envolvendo o filho adotivo de Helen, Jacob (Jaden Smith, chato pra caralho), ocupa minutos preciosos de tela e se arrasta muito além da conta. O resultado não poderia ser outro, senão a mais pura pieguice que redime tudo e a todos salva do apocalipse. Quer mais? Na hora, mais que lembrei do filme Esfera (o modo promissor como começa e o modo miserável como acaba).

Mas o caso mais triste é o de Gort (acrônimo terrestre para "Genetically Organized Robotic Technology"), pois, afinal, conseguiram realizar a parte mais difícil antes de colocarem tudo a perder. O golem artificial foi discretamente redesenhado, mantendo o visual humanóide e com uma textura parecida com a do Monolito Negro, de 2001: Uma Odisséia no Espaço. As semelhanças bacanas não param na estética: Gort também é indecifrável, ameaçador e parece ter poder suficiente para arremessar a Terra pra fora da Via Láctea. Parece só uma questão de tempo para o badass espacial voltar a chutar bundas como em 1951, porém... Do jeito que ficou, Frankie Muniz, em O Agente Teen, resolveria a situação sem maiores dificuldades. Decepcionante assim.

Durante pouco mais de uma hora, foi o filme que traduziria satisfatoriamente o clássico original para as novas gerações. De volta ao status de remake que jamais deveria ter existido, O Dia em Que a Terra Parou se tornou um exemplo perfeito de potencial inimaginável limitado pela falta de imaginação. Além do quê, a humanidade não anda merecendo redenção ultimamente. Muito menos uma com gosto de Spielberg.

sábado, 20 de dezembro de 2008

NAZI ZOMBIES FUCK OFF


Ah, os nazistas. Até hoje, os vilões definitivos. O terror islâmico bem que tenta, mas não arranha nem os coturnos dos caras. E a cultura pop se esbalda nesse veio inesgotável de sacos de pancada. Como Spielberg mesmo disse, você pode fazer o que bem entender com eles, que ninguém vai reclamar. Fora que são bizarramente cinematográficos, com toda aquela pompa carnavalesca à base de suásticas, passos de ganso e sieg heil's.

Zumbifique os milicos da SS e pronto... Dead Snow (Død Snø, Noruega, 2009), desde já, o melhor filme de todos os tempos que eu ainda não vi.


O filme anda penando com a falta distribuidores internacionais, mas já consta na seleção oficial do próximo Sundance Film Festival (uma vitrine e tanto). Se nada der certo, porém, o Pirate Bay está aí pra isso mesmo. Dead Snow será um aperitivo anti-nazi de luxo, já que os aguardadíssimos Worst Case Scenario e Iron Sky mal saíram do storyboarding.

A produção de WCS, aliás, finalmente está tomando forma. Uma das locações é o mesmo bunker utilizado pelo cineasta Paul Verhoeven no drama de 2ª Guerra A Espiã. Esse projeto, se corresponder à expectativa quase orgiástica gerada pelos teasers, promete ser ainda melhor que Dead Snow, o melhor filme de todos os tempos que eu ainda não vi.

Recordar é viver:


É ou não é um pré-sal de excelência zumbística? E não esqueçamos do 2º promo, que contém a inacreditável sequência com uma divisão de paraquedistas zumbi-nazis.


É, as coisas evoluíram desde que o Capitão América acertou o queixo do führer.


Ps: ainda extasiado com o clip de “All Nightmare Long”, do Metallica. E fabuloso o texto do Sedentário. Valeu, benfeitor anônimo!

domingo, 30 de novembro de 2008

TODOS NO PAREDÃO

Quando comentei sobre o infame Big Brother Zombie, até estava empolgado com a possibilidade de sair algo minimamente divertido dali. O que eu não imaginava mesmo, ou talvez nem acreditasse de fato, era que o resultado fosse tão surpreendente. Pois bem, Dead Set, a série, é um filmaço (fazendo as contas... 1 piloto de 45 minutos, mais 4 episódios de 24-25... duas horas e vinte e poucos, é isso?). Então... duas horas e vinte e poucos minutos de podreira hardcore, numa das produções "de zumbi" mais carniceiras já registradas. Os caras do E4, talvez querendo fazer a diferença, pegaram realmente pesado no projeto. Violento e nauseante até para veteranos na mordeção cadavérica. Mesmo se valendo de algumas convenções recorrentes no gênero, Dead Set traz uma altíssima voltagem de tensão e grafismo, proibitivos para o público não-iniciado e reiterada pela mensagem "eu avisei" que introduz cada episódio. E se for seguir a recomendação "este programa é melhor apreciado em widescreen/surround sound e deveria ser assistido em uma sala escura" é o mesmo que concordar em sofrer uma parada cardíaca à prestação.


O logo oficial do BB
devidamente zumbificado
Dirigido por Yann Demange e criado pelo roteirista, comediante e quadrinhista britânico Charlie Brooker, Dead Set, se não traz um pingo de humor mais rasteiro, traça observações cáusticas sobre esse bicho, o ser humano. O que, se levarmos em conta que a maior parte da história se passa na própria casa do Big Brother, é quase como observar a mediocridade da espécie confinada em um tubo de ensaio. E pelo que se vê na série, os bróderes ingleses têm tanta relevância e profundidade quanto os brazucas (e, por extensão, todos os demais bróderes ao redor do globo). Os estereótipos são os mesmos, só muda o idioma. Tem o pitboy burraldo, a gostosa estressada, a gostosa acéfala, o introvertido, 01 negra, 01 gay e por aí vai.

Daí sai muita farpa do roteiro para se degustar (e para se lamentar) e é justo onde o conceito do reality show (existe?) converge com as sinistras marcações de um zombie movie: somos ao mesmo tempo nossos maiores aliados e nossos piores inimigos.

A princípio insólito, o crossover entre os dois mundos não demora em fluir furiosamente. Com a subversão de um ícone moderno do mainstream, fica claro que não existe cenário mais apropriado para essa montanha/roleta russa macabra. Crítica social que vai até o âmago do objeto de estudo, com um vigor que faria o próprio Romero circa Dawn of the Dead atacar a dentadas os incautos traseuntes de um shopping, tamanha a satisfação em ver seu legado se reinventando através dos anos.

Claro que essa tralha toda aí é puramente observação circunstancial. Subtexto e essência. Em termos práticos, a produção se vira tão bem em seu case ação-terror-pop que poderia figurar tranqüila ao lado dos melhores exemplares da nova safra - incluindo aí a releitura snydeana de Dawn of the Dead e os magnifícos Extermínio 1 e 2 (que, embora não sejam zombie pieces verdadeiros, emulam tanto de sua estrutura fílmica que seria uma heresia não co-relacioná-los).

A história parte dos bastidores do programa, onde somos apresentados à assistente de produção Kelly (Jaime Winstone), ao produtor Patrick (o ótimo Andy Nyman) e aos participantes do programa, prestes a trocar o Big Brother por uma versão doentia do Survivor. No primeiro episódio, a dinâmica avassaladora por trás de um líder de audiência dá o tom e traça rápidos perfis dos protagonistas. Interessante como a doce e prestativa Kelly, a mais próxima de ser a "mocinha" aqui, de cara transgride alguns dos principais tabus que separam sobreviventes de presuntos nos filmes de terror: sexo, fidelidade e afins. Entendo isso como uma analogia ao fato de que no universo dos zumbis nada é exatamente preto ou branco, bom ou mau e por aí vai. Então a regra jurássica não se aplica? A resposta vem, mas só no final.

Já o insidioso Patrick, o Boninho do Reino Unido, desde a primeira cena não dá muita margem para especulação: é um dos mais arrogantes, traiçoeiros, escrotos e cruéis vilões do cinema em muito, muito tempo. Esse vai pra galeria. Veja bem... você tem vilões que não dão a mínima para a dor, sofrimento e morte que causam, muitas vezes por mera incapacidade de estabelecer vínculos emocionais com seus atos, como foi o caso de Burke (Paul Reiser), de Aliens: O Resgate. É a definição do psicopata corporativo. E também temos aqueles que sabem exatamente o dano que estão causando, mas não hesitam em se promover ao status quo da humanidade, como o ricaço Kaufman (Dennis Hopper), em Land of the Dead. Patrick é uma mistura bastarda dos dois, com sotaque britânico, sociopatia aguda e narcisismo terminal. Memorável, mesmo quando o ideal seria apagar da memória um filho da puta desse calibre.

Contando com pontas de vários ex-participantes da casa - afinal os zumbis precisam se alimentar - não deixa de surpreender a entrega generalizada do elenco de apoio, que parece mesmo estar em uma situação real idílica violentada por uma situação real caótica (a seqüência da invasão dos zumbis no estúdio é espetacular). Talvez isso esteja relacionado à natureza visceral do gênero, que não reserva espaço para poses fake ou glamourização de porra nenhuma, principalmente na hora em que a casa está caindo. Destes cameos um tanto curiosos, o destaque vai para Davina McCall, atriz e apresentadora do BB britânico, no papel dela mesma, tomando o lugar que por direito deveria ser do Pedro Bial, mas só se fosse pra valer.

De crítica pungente a diversão pop por excelência, Dead Set é uma experiência singular. Fica a torcida para que o DVD (lançado no início de novembro na Inglaterra e cheio de cenas extendidas, deletadas e ultra-sanguinolentas), também saia por aqui. Nada mais justo, após tantas edições de imbecilidade televisionada em flashes ao vivo.

Aliás... fosse preciso um apocalipse zumbi pra dar cabo do reality show, por mim já tava valendo.