Por essa ninguém esperava. Quando comentei sobre o então vindouro show do Ministry em São Paulo fiz questão de frisar que "essa será provavelmente a primeira e última apresentação do grupo por aqui". Baseado, lógico, no re-anunciado fim da banda e do fato de Al Jourgensen ser um notório pé na cova há pelo menos 20 anos. Pois o Tio Al resolveu surpreender e vai aportar suas máquinas do inferno mais uma vez no Brasil, dessa vez no Rock in Rio!- também esculachado por mim no referido post...
É oficial e já consta na line-up. Será uma apresentação conjunta com Burton C. Bell, frontman do Fear Factory e colaborador em alguns álbuns da entidade industrial-mor. No mesmo dia do Metallica, só que no palco Sunset, aquele menorzinho que o Rob Zombie se apresentou na edição anterior.
Ok, os tempos são outros e uma apresentação no palco principal poderia causar traumas irreversíveis em quem estará lá para ver o Mötley Crüe (!) ou nas mentes jovens e sensíveis que irão mais pelo aspecto McDonalds do evento.
Se eu fosse, seria pelo Ministry e pelo fantástico grupo francês Gojira. E pela possibilidade de ver um set mais clássico do Tio Al, com tudo que os fãs têm direito...
Afinal é um festival, lugar onde deveria ser proibido por lei tocar música nova.
Há muito tempo atrás, numa galáxia muito distante... na verdade, num blog parceiro, há exatos 10 anos (!)... eu protestava pelo fato de Homem-Máquina, minissérie de Tom DeFalco, Herb Trimpe e, rufem os tambores, Barry Windsor-Smith, não ter sido relançada na então nascente onda de encadernados da Panini.
Aliás, "protestava" não... choramingava mesmo. E com orgulho.
A mini só havia sido publicada aqui pela editora Abril, em Heróis da TV (edições 102 a 105), criminosamente escondida, sem chamadinha de capa nem nada. Após 28 anos de espera, parece que alguma justiça será feita.
Não sou de sair comprando rumores extra-oficiais, mas o nível de acertos de certosinformantes justifica a empolgação.
E chegamos à Melissa Benoist como a nova Supergirl. Minha 1ª impressão, igual à de todo mundo. Bonitinha, mas... de uma certa inadequação. Não sei bem por que, mas soa algo paródico. Parece atriz de sitcom sem claque fazendo cosplay de Supergirl para algum episódio nerd. Fosse Alison Brie, Tina Fey ou Anna Chlumsky provavelmente eu teria a mesma sensação. Laura Vandervoort, com trajes mínimos e umbiguinho de fora, transmitia mais seriedade, mais intensidade no olhar.
Mas se a adaptação for alternativa e a proposta for uma Supergirl leve e jovial, de uma ingenuidade Pollyanna, à Mary Marvel... é exatamente isso que as imagens me transmitem. Golaço. Como casar isso com um bg sci-fi trágico e wagneriano são outros quinhentos...
Da atriz propriamente dita, não tenho do que reclamar. Em Whiplash: Em Busca da Perfeição, ela mostrou que manda bem no drama. E na 1ª temporada de Homeland mostrou que manda bem também em outros departamentos. Além do jeitinho de vizinha adorável que todo mundo gostaria de ter.
Nos quadrinhos, sempre que vejo a Supergirl, vejo uma oportunidade perdida. Com exceção dos formatinhos pré-Crise publicados pela EBAL e pela Abril, onde ela agia como uma irmã mais velha e superprotetora do Azulão e, claro, da nossa essencial Supergirl da Terra-2, o maior contato que tive com a personagem foi relativamente recente, na revista do Superman pré-Novos 52. O gibi da Panini funcionava como um point kryptoniano e as histórias da Supergirl vinham no mix como um brinde ruim.
Eu lia aqueles roteiros pavorosos e não conseguia parar de pensar no desperdício. Quer dizer, o sujeito tem nas mãos uma personagem com a origem e os poderes do Superman e nem 1/10 das amarras editoriais. O céu seria o limite. Nessas horas é que costumam surgir os novos Ellis, Millars e Morrisons. Mas a cada ideia tosca que aparecia, um fantasma doppelgänger do Alan Moore sussurrava no meu ouvido a velha máxima do "não existe personagem ruim".
Os recursos narrativos são infindos. Os mais batidos: sua adaptação à Terra - eterna enquanto for divertida - e o fato de ser um raro personagem (arram, descontando a população da cidade de Kandor e o contingente-jumbo da Zona Fantasma) que realmente viveu em Krypton e guarda memórias ainda vívidas dele. E o trauma de tê-lo perdido, junto com toda a sua vida lá.
Esse drama, pesadão aliás, rendeu bem em Smallville. Ora, se a Laura Vandinha, que não é nenhuma Bette Davis, soube aproveitar, então a Melissa tem obrigação de sambar em cima dessa premissa. Só resta mesmo saber o que disso tudo vai pra tela. Ou se nada.
Bônus de cima pra baixo:
*Helen Slater como a mãe adotiva é uma bela supresa pra quem babava por ela quando guri e não perdia as reprises de Supergirl e A Lenda de Billie Jean (presente!);
*Dean Cain, o Super-Hombre latino, fazendo o pai adotivo parece interessante e não mais - preferia se a Slater fizesse casal com a Teri Hatcher;
*Jimmy Olsen negão, sinto muito, defensores de cotas, mas não é assim que se faz. E afro-americanamente falando, é um tiro pela culatra;
*Série da Supergirl sem Superman é apenas um sintoma da imensa trapalhada que a Warner insiste em sustentar. A presença do produtor-executivo Greg Berlanti (de Arrow e The Flash) até facilitaria um crossover heróico em algum nível, mas como a Warner está produzindo a série para a CBS, melhor não contar com isso. Acho que só uma Crise nas Infinitas Salas de Reunião resolveria a bizarra lógica interna da Warner.
Rumo ao recorde de impressões preliminares de um mínimo de material? Tamo junto.
O novo trailer de Vingadores: Era de Ultron está sendo recebido com honras de chefe de estado nerdsfera afora. Não é pra menos. Joss Whedon está colhendo cada fruto plantado no divertido e eficiente Os Vingadores, de 2012. A ação e a interação entre arquétipos (e atores, e escolas) tão díspares foram estruturadas de maneira plenamente funcional e pop.
Assim como na prévia anterior, essa despeja competência e profissionalismo no quesito aventura. Teremos Hulk versus Hulkbuster, Mercúrio atropelando Cap em mach-5, mais uma pose "Avante Vingadores!" pra galeria, Ultron e muitos, mas muitos Ultrons. Daí uma sensação de déjà vu quase fulminante me acordou do transe: Whedon parece estar seguindo à risca a cartilha do bigger, faster & stronger das continuações hollywoodianas.
Sai Thor, entra o Homem de Ferro no UFGama, Mercúrio numa cena análoga ao do Mercúrio de X-Men: Dias de um Futuro Esquecido, explosões mil, Nick Fury engessado em sua nova função de mentor extra-oficial, Robert Downey Jr. perdendo o brilho e o tesão a olhos vistos e o que periga ser a framboesa desse bolo: o exército de Ultrons.
Provavelmente interligados numa consciência-colméia gerenciada pelo Ultron original e sujeitos à mesma fraqueza do exército Chitauri do 1º filme, requentada do exército alien-cyborg da bomba Invasão do Mundo: Batalha de Los Angeles - destrói-se a fonte e os demais caem como um castelo de cartas. Deus ex machina nas máquinas mais uma vez?
E falando em máquinas, porque o Visão está sendo tão preservado? Algum pé atrás?
Whedon já comentou sobre o trabalho absurdamente extenuante que teve para coordernar o circo todo. Tomara que não a um preço comprometedor...
Nessa sexta-feira, dia 6, São Paulo será palco de um teste nuclear: o Ministry vai tocar pela 1ª vez no Brasil. Al Jourgensen e sua quadrilha de cyborgs tarados irão desfilar a trilha sonora do fim do mundo no Audio, que por sinal está se saindo com uma semana no mínimo inspirada (The Sonics na quinta!). Pra deixar a coisa ainda mais instigante, essa será provavelmente a primeira e última apresentação do Ministry por aqui.
Não é de hoje que Jourgensen fala em pendurar os samples do Sgt. Hartman. Há alguns dias ele até anunciou um novo projeto. Com a morte do guitarrista Mike Scaccia e o estado geral do cara transparecendo a conta dos anos de excessos químicos, a coisa parece que vai mesmo por esse caminho. Mais uma vez. Então, a menos que você esteja empolgado com o Rock in Rio, não há dúvida de que esse será o evento musical do ano no país.
Imperdível...
...a não ser que se perca, como eu. Pois é. Fã de carteirinha desde que a banda foi apresentada pelo jornalista André Barcinski numa Bizz de tempos idos, vou deixar essa passar. Sem disposição pra morrer num valor triplicado (com sorte) de um ingresso já caro n'alguma excursão local salvadora e, até agora, inexistente. A recente aquisição de vários encadernados do Juiz Dredd no site da Mythos ajudou a remover qualquer esperança.
Eu não vou ao show, mas a minha filha foi e achou muito bom. Em termos de ação in loco, o Ministry é unanimidade até entre os críticos mais turrões. Em anos/décadas! de leitura de resenhas pro, alguns lugares-comuns parecem obrigatórios - som mais alto do que o humanamente suportável, clima de pesadelo apocalíptico e a capacidade de rearranjar e transformar até as músicas menos pungentes em Leviatãs sedentos por sangue. O show é um massacre físico e psicológico brutal, disputadíssimo lá fora e aclamado universalmente.
Pra quem vai, sugiro ir aquecendo os motores com os discos da trilogia anti-Bush (Houses of the Molé, Rio Grande Blood e The Last Sucker) e do último, From Beer to Eternity. As músicas desses álbuns compreendem uns 95% do atual setlist, segundo o, hã, Setlist. Os clássicos devem ficar mesmo no combinadão "N.W.O." - "Just One Fix" - "Thieves" - "So What".
Mas bem que eles podiam surpreender e montar um set mais old school. Sacumé, pra compensar a demora... Onde já se viu uma banda que tinha dois bateristas - fora a eletrônica - nunca ter pisado na terra das baterias, tambores, percussões e afins?
Duas dicas vêm do antológico registro ao vivo In Case You Didn't Feel Like Showing Up: "Burning Inside", numa versão ainda mais delirante e febril do que em estúdio, ganhando uns gritos de filme de horror que são de gelar a alma; e "Stigmata", um tornado sônico de 10 minutos com synths, guitarras massivas e uma batida que ao vivo deve até quebrar costelas.
Outra excelente pedida seria a inclusão da música "Scarecrow", uma aterradora bad trip Sabbáthica do álbum Psalm 69. Na versão ao vivo do EP Just Another Fix, a simples adição de uma harmônica a transporta sem escalas para a blueseira heavy de "When the Levee Breaks", do Led Zeppelin. Sensacional.
Por fim... quem sabe... a incendiária "Jesus Built My Hotrod". Esse country-metal-eletrônico maníaco psicopata é o verdadeiro Graal do Ministry, sendo negligenciado nos shows desde sempre, com Al repetindo a mesma ladainha: "Gibby Haynes é o único que consegue cantá-la".
Mas parece que ele fez um esforcinho em 2004, na tour do Houses of the Molé...
Enfim, um excelente show para todos que vão.
E me contem tudo logo depois, se o estrago sensorial permitir!
Por algum motivo obscuro, supermercados dão bons cenários para tramas de horror. Vide O Nevoeiro e Intruder, entre outros. Sem falar que ninguém menos que Ash trabalha num ramo parecido.
Spawn: The Recall é um fan film impressionante que segue essa tradição. O CGI é espantoso para uma produção indie, incluindo alguns efeitos práticos muito bacanas, como o "mexidão de carnes" preparado para compor a máscara do protagonista. O diretor Michael Paris ainda constrói um clima assustador e demonstra um senso estético ao mesmo tempo doentio e sofisticado.
O resultado é fabuloso.
Já vi nego aparecendo com (muito) menos e indo longe. Olho nesse cara...
Enquanto a palpitaria come solta em torno do Oscar desse domingo, vou tocando minha vidinha numa caverna em Marte: a notícia do mês, do ano, da década, pra mim, é o lançamento de Miracle Mile em blu-ray. O diretor e roteirista Steve De Jarnatt já havia antecipado algo em sua página no Facebook, mas só agora a coisa ganha contornos oficiais. Segundo o Blu-ray.com, o longa será adicionado ao catálogo da Kino Lorber, com uma nova masterização do próprio De Jarnatt e do diretor de fotografia Theo van de Sande. O lançamento está programado para julho próximo. Uma milha de milagre é pouco pra descrever isso.
Miracle Mile é uma pérola obscura do fim dos anos 80 - já comentei sobre ela por aqui em algumasocasiões. Na história, um hoax sobre um ataque nuclear varre Los Angeles e um casal (Anthony Edwards e Mare Winningham) tem apenas 70 minutos para sair da cidade antes que o lugar vire um deserto radioativo - ou pelo menos é isso que eles acham. Traindo expectativas e evitando soluções convencionais, o filme foi uma bomba, sem trocadilhos, mas adquiriu status cult com o passar dos anos.
Bom, pelo menos eu cultuo bastante. Mas não estou só: Miracle Mile é tema recorrente em mesas de festivais alternativos e as exibições indie das raras latas do longa são bem concorridas. E não é pra menos. Após anos minguando com uma edição em dvd magrela com proporção 1.33:1 (o famigerado full screen, capturado em sua totalidade aí na imagem do topo), finalmente os fãs ganharão um formato digno de sua obsessão.
Ah, sim... depois de tantas reassistidas explorando os diversos aspectos daquele universo, admito sem culpa que Miracle Mile virou uma obsessão pessoal. Ok, talvez não seja tão obcecado quanto o cara que escreveu uma monografia de 200 páginas sobre o filme, mas o que vale é a obsessão. Ou melhor...
Deu no feice: tudo certo pro álbum de estreia do Mr. Catra & Os Templários, a banda de metal e hardcore do digníssimo embaixador/engenheiro/diplomata Wagner Domingues da Costa, vulgo Mr. Catra - e dou o serviço, foi o Wikipédia quem caguetou essa informação. Quem estava acostumado com o folclórico cancioneiro do MC, abordando de conduta moral à crise na instituição do casamento até relações trabalhistas, vai arrepiar os cabelos descoloridos, franzir as tocas ninja e inverter os sorrisos de suas tatuagens do Jóker.
Ao que parece, as músicas realmente não fazem a menor concessão pra malandro (e muito menos pra mané) e mostram que Catra & cia não vêm pra perder viagem. O som é papo reto!
O que normalmente pareceria mais um atentado ao rock 'n' roll nosso de cada dia, se desenha não como sua salvação, mas como a injeção de sangue quente que o pop brasileiro vem implorando há muito tempo. Sim, o underground é fervilhante, só que aquela ponte para o mainstream continua no fundo do rio. Catra, por sua vez, é um dos artistas nacionais com maior exposição na grande mídia - agora mesmo ele está lá, distribuindo seus vaticínios pra revista grande. E com público próprio e fidelizado garantido a autossuficiência comercial.
Usando todo esse alcance pra tocar o terror num programa dominical, ou mesmo sabático, o estrago seria antológico.
Habitué em qualquer atração da TV aberta, seja pra falar de maconha, do funk proibidão ou de seus 788 filhos e 354 esposas, a correção política é a menor de suas preocupações. Não é balela poser, o cara vive isso. Fosse na gringolândia, certamente seria parte da turminha do Lil Jon, Big Boi e Snoop Dogg. Transposto para o idioma do rock pesado, acaba adquirindo contornos de autêntico bad boy, saído direto da favela/gueto/trenchtown. Um Ice-T dos trópicos - e olha que Ice é um chihuahua perto da besta-fera carioca.
Marrento que só, diz que "curte e respeita" Led Zep, Biohazard e Body Count. Sem descansar a artilharia, se compara a David Coverdale. E antes que alguém leve à ponta da faca, é bom frisar que isso também tem tudo a ver com a melhor tradição malaca do rockstar. Trash talk, inadvertido que seja. E se for, melhor ainda.
Pra quem está de saco cheio de rockinho cara limpa, Chicos Buarques de CCE universitário e indies de SESC, o álbum do Catra (e d'Os Templários) parece até providência divina. Chuva de fogo e enxofre pra cima de uma ceninha de bastardos bossa-novistas e penetras no Clube da Esquina.