Enquanto a palpitaria come solta em torno do Oscar desse domingo, vou tocando minha vidinha numa caverna em Marte: a notícia do mês, do ano, da década, pra mim, é o lançamento de Miracle Mile em blu-ray. O diretor e roteirista Steve De Jarnatt já havia antecipado algo em sua página no Facebook, mas só agora a coisa ganha contornos oficiais. Segundo o Blu-ray.com, o longa será adicionado ao catálogo da Kino Lorber, com uma nova masterização do próprio De Jarnatt e do diretor de fotografia Theo van de Sande. O lançamento está programado para julho próximo. Uma milha de milagre é pouco pra descrever isso.
Miracle Mile é uma pérola obscura do fim dos anos 80 - já comentei sobre ela por aqui em algumasocasiões. Na história, um hoax sobre um ataque nuclear varre Los Angeles e um casal (Anthony Edwards e Mare Winningham) tem apenas 70 minutos para sair da cidade antes que o lugar vire um deserto radioativo - ou pelo menos é isso que eles acham. Traindo expectativas e evitando soluções convencionais, o filme foi uma bomba, sem trocadilhos, mas adquiriu status cult com o passar dos anos.
Bom, pelo menos eu cultuo bastante. Mas não estou só: Miracle Mile é tema recorrente em mesas de festivais alternativos e as exibições indie das raras latas do longa são bem concorridas. E não é pra menos. Após anos minguando com uma edição em dvd magrela com proporção 1.33:1 (o famigerado full screen, capturado em sua totalidade aí na imagem do topo), finalmente os fãs ganharão um formato digno de sua obsessão.
Ah, sim... depois de tantas reassistidas explorando os diversos aspectos daquele universo, admito sem culpa que Miracle Mile virou uma obsessão pessoal. Ok, talvez não seja tão obcecado quanto o cara que escreveu uma monografia de 200 páginas sobre o filme, mas o que vale é a obsessão. Ou melhor...
quarta-feira, 1 de abril de 2009
Operação Resgate Goose depois de horas... e antes de Cloverfield
Em meados dos anos oitenta, Anthony Edwards sentia o gostinho frisante do estrelato. Personificando a entidade nerd suprema (foi o Gilbert, de A Vingança dos Nerds, 1984) e disputando com Tom Hanks a supremacia das comédias de garotão criado a sucrilhos (Gotcha!, 1985), ele viu as portas do 1º escalão se abrirem quando interpretou o sidekick boa-praça de Top Gun, em 1986. Goose era o cara - e ainda pegava a jovem Meg Ryan (qualquer subtexto gay presente no longa deveu-se exclusivamente ao chororô suspeitíssimo do Maverick!). Nessa trajetória ascendente só faltava mais uma prova para o carisma de Edwards. Algo que o desafiasse dramaticamente e atestasse sua capacidade de protagonização extrema. De segurar um filme praticamente sozinho.
Miracle Mile (EUA, 1988) é um daqueles casos em que uma produção já nasce pertencendo a um ator. E até vice-versa, eu diria neste caso. É um pequeno grande filme que poderia ter alçado a carreira de Edwards a novos patamares, não fosse sua quase total obscuridade. Mesmo nos Estados Unidos, Miracle Mile é o que se pode chamar de pérola do anonimato - termo clichê, mas absolutamente fiel. Provavelmente agora, após o relançamento em dvd, suas inovações tenham finalmente a apreciação que merecem. E isto se estende até as "inovações" de produções recentes, em particular Cloverfield.
Escrito e dirigido por Steve De Jarnatt, Miracle Mile tem um início que sugere uma comédia romântica com um toque one-crazy-night, na cola de Depois de Horas, de Scorcese. Mas aos poucos o roteiro vai montando um retrato de sua real natureza: uma espécie de thriller incidental de Guerra Fria com narrativa em 1ª pessoa e, após os quinze minutos iniciais, transcorrendo em tempo real.
O comecinho do filme não dá qualquer pista do que está por vir. Edwards é Harry Washello, um músico trintão e solitário em busca de raízes e de uma alma gêmea - artigos raros na Los Angeles superficial dos anos oitenta. Mas ele acaba conseguindo as duas coisas, casualmente, quando conhece a garçonete Julie (a brat pack albininha Mare Winningham). Ambos estão no mesmo momento da vida, na mesma sintonia, curtem as mesmas coisas e estão afim. No dia seguinte, Harry conhece os simpáticos avós de Julie, a acompanha até a lanchonete onde trabalha e marca de pegá-la, em todos os sentidos, ao final do expediente, à 00:15. Enfim, um beijo acontece. Empatia total.
Mas do mesmo jeito que o acaso apresenta Harry à Julie, também começa a conspirar contra o rapaz utilizando todos os rigores da Lei de Murphy. Harry volta ao seu hotel, pensa na grande noite, programa o despertador e vai curtir uma rápida e revigorante soneca. Num lance incrível de azar, que só pode ser explicado como uma traquinagem quântica (envolve uma pomba e um cigarro descartado por Harry), ocorre um blecaute no prédio inteiro. Desta forma, o despertador não cumpre seu papel, Julie fica plantada por 1 hora na frente da lanchonete e Harry bate o recorde de atrasos, acordando às 3:45 da manhã.
No desespero, ele pega a caranga e sai rasgando até a lanchonete, na vã esperança de ainda encontrá-la por lá. O estabelecimento fica situado bem na Miracle Mile, área de forte concentração comercial e cultural de Los Angeles. A partir daí acompanhamos Harry minuto a minuto.
Chegando lá, alguns indícios soam como pequenas travessuras do destino: a "chuva de ratos", um sem-teto bêbado resmungando sobre caos e destruição, um telefone público 'ringando' insistente... mas tudo bem, afinal é Los Angeles, a cidade que nunca dorme. No interior da lanchonete isto é perfeitamente comprovado, com uma clientela até generosa para as quatro da madruga - e sobretudo, bastante diversificada. Estão lá dois motoristas de caminhão de limpeza, uma bitolada com roupa de aeromoça, uma senhora babando de sono, um travesti jogando conversa fora com o próprio Dr. Silberman (Earl Boen, num personagem não-batizado que bem poderia ser o bom doutor aqui... o impagável ar monótono é o mesmo) e a corretora Landa (a bela Denise Crosby, de Cemitério Maldito e Mortuária), além dos funcionários e o dono do lugar, Fred (o excelente Robert DoQui).
Através de uma colega de Julie, Harry tem a noção do furo que deu e vai até a cabine telefônica ligar pra ela, mas só consegue deixar uma mea culpa na secretária eletrônica. Quando desliga, o telefone volta a tocar sem parar e Harry, por que não, resolve atender. Do outro lado da linha, um homem de nome Chip, bastante transtornado, dá a entender que trabalha num silo de mísseis em Dakota do Norte. Sem dar tempo para Harry responder e acreditando falar com seu pai ao telefone, Chip afirma que eles acabaram de lançar uma ofensiva nuclear que atingirá seu alvo em cinqüenta minutos.
E o pior: segundo Chip, um contra-ataque em larga escala já está cruzando o globo naquele exato momento e levará cerca de setenta minutos para atingir os Estados Unidos. Subitamente, Chip é "retirado" da linha e uma voz seca diz pra Harry esquecer tudo e voltar a dormir.
O trote de 1º de abril mais sádico de todos os tempos?
A principal questão do roteiro é: como um telefonema de credibilidade duvidosa poderia desencadear a série de acontecimentos posteriores? A resposta vem logo em seguida, dentro da lanchonete, no que se poderia comparar a uma panela de pressão esquentando lentamente até explodir. Harry perdido em turbilhão de incertezas e tentando convencer os demais sobre a gravidade da situação, num crescendo sufocante cujo clímax, embalado pela trilha dramática do grupo Tangerine Dream, é de expelir o coração até a altura da garganta.
Sem exagero: pra mim, é um dos momentos mais antológicos do cinema em todos os tempos. A cena é perfeitamente montada, dirigida, interpretada e, acima de tudo, convincente. Transcende até o declínio do anticomunismo na época (fim dos anos 80), mostrando que, na prática, nenhuma paranóia é velha demais.
Após algumas ligações para seus contatos no governo, Landa descobre que quase todos deixaram o país. É o suficiente para incendiar aquele microcosmo, em especial o personagem Fred, que imediatamente prepara sua van pra cair na estrada. Sob a orientação de Landa, eles rumam direto ao aeroporto mais próximo, deixando alguns incrédulos pra trás. Harry embarca na fuga, mas não vai muito longe, pois quer voltar pra pegar Julie e seus avós. E o faz sozinho, pois ninguém ali quer perder um décimo de segundo. Antes de Harry pular da van (em movimento), Landa avisa que reservou um helicóptero nas proximidades para garantir uma última retirada para o aeroporto em menos de quarenta minutos.
Assim, nosso herói retorna ao coração da Miracle Mile para salvar a garota dos seus sonhos. No processo, topa com figuras urbanóides de todo o tipo, a começar pelo ladrão Wilson (um Mykelti Williamson pré-Forrest Gump, creditado aqui como Mykel T.).
O que, a princípio, parece uma tarefa simples, se torna uma montanha-russa de idas e vindas. O clima é de pesadelo recorrente. Toda vez que Harry tem de voltar pra encontrar algum personagem crucial para tirá-lo daquela situação, é como se a deadline apertasse mais forte o pescoço do espectador.
Num clima de tensão absurda, o cenário vai se tornando mais caótico e violento a cada minuto.
Steve De Jarnatt já mereceria todos os créditos só pela brilhante sequência da lanchonete (sendo mais preciso, da cena arrepiante do telefonema até Harry saltar da van), mas são nas tomadas externas ao final, que o cineasta se revela um gênio blockbuster. Senão vejamos... A cidade amanhece em meio a um rush na avenida mais congestionada do inferno, com milhares de veículos, turbas enlouquecidas, tiroteios e explosões pra todo lado. Isso tudo construído pra montar um panorama totalmente desordenado. Conduzir essa bagunça multilateral de maneira verossímil numa era pré-CG não é pra qualquer um. Criar bons ganchos de ação no meio disso tudo, muito menos. Com certeza, os diretores da segunda unidade, Leo Zisman e David C. Anderson, tiveram dias complicados.
Outro "detalhe". Estas cenas começam no fim da noite, se desenrolam durante o nascer do sol e seguem adiante. Ao ar livre, com o céu ao fundo e a luminosidade aumentando gradualmente até o dia ficar totalmente claro. Sem querer dar uma de expert em processo cinematográfico, mas isso é extremamente difícil, lento e trabalhoso. Muitos diretores consagrados evitam esse tipo de cena justamente por depender de inúmeros fatores fora de qualquer controle. Nas produções recentes, o único exemplo corajoso que me lembro é o de Jonathan Mostow, que filmou nestes mesmos moldes uma sequência importante de Exterminador do Futuro 3: A Rebelião das Máquinas (e, acredite se quiser, numa escala bem menor do que a de Miracle Mile). Aliás, foi pelo próprio Mostow, nos comentários do dvd, que eu soube do tamanho desse abacaxi radioativo. Não esquecendo que Jarnatt ainda estava regendo um apocalipse logístico nessas cenas.
O filme ainda traz algumas citações espertas no subtexto. Uma delas é o livreto que Landa tira de sua maleta. É uma referência ao livro "O Arco-Íris da Gravidade" (Gravity's Rainbow, 1973), épico pós-modernista/histórico/digressivo/conspiratório/fatalista de Thomas Pynchon. O livreto em questão é um cliffsnotes, espécie de guia de estudos para obras consideradas muito complexas - o que se aplica bem no caso de um livro cujo plot soma mais de 400 personagens e se utiliza de uma vasta gama de estilos narrativos interseccionados, com conhecimentos avançados em diferentes disciplinas. A trama, ambientada no final da Segunda Guerra, é centrada na produção alemã dos mísseis V-2 e a busca por um misterioso dispositivo chamado "Schwarzgerät", que seria incorporado a um foguete específico com o número serial "00000".
Controverso, o livro bagunçou até o Pulitzer de 1974, quando foi desautorizado da indicação. Recentemente, ganhou uma edição especial com arte de capa assinada por ninguém menos que Frank Miller - dizem, a pedido do próprio Pynchon.
Outra referência interessante também é relacionada à personagem Landa. Assim que ouve os fatos narrados por Harry, ela considera a possibilidade do governo já ter uma contingência para a situação. Nesse momento, revela que um ex-namorado trabalha na RAND Corporation (Research ANd Development), organização criada há sessenta anos com o objetivo de projetar análises e cenários para as forças armadas norte-americanas. Com o tempo, se diversificou e passou a trabalhar também com fundações privadas, internacionais e até com outros governos. Em suas fileiras, já estiveram mais de trinta vencedores do Nobel, entre outros notáveis. Donald Rumsfeld e Condoleezza Rice são afiliados.
Atualmente a RAND opera low profile em assuntos como terrorismo, economia e serviços de saúde. Mas durante sua longa trajetória foi acusada de incentivo ao militarismo e associada a um sem-número de teorias da conspiração. Segundo o livro Soldiers of Reason, do jornalista Alex Abella, a RAND, habitué nos corredores do poder, persuadiu o alto escalão do governo de que era possível vencer uma guerra nuclear.
No filme, por coincidência (?), a fixação por eficiência impressa nas atitudes de Landa é puro objetivismo de Ayn Rand ("a philosophy for living on earth"). As cenas em que a personagem monta o cenário mais provável, organiza mentalmente sua agenda e distribui tarefas revela uma Randista nata.
Um inesperado efeito colateral: Miracle Mile apaga bastante o brilho de Cloverfield. É chato admitir. Acho o filme do diretor Matt Reeves um dos mais divertidos do ano passado, mas a verdade é que, em determinado momento de Miracle Mile, o plágio é evidente. Não se trata nem de um elemento ou outro, mas uma estrutura narrativa inteira do filme sendo copy-pasteada para o cartão de memória da câmera de Cloverfield. Isso sem falar em algumas cenas-chave pontuais e conceitos básicos da premissa.
Abaixo, as similaridades menos sutis - algumas listadas no fórum tosco do IMDb. Marque pra ler (atenção, SPOILERS!)
Ω o cara que volta ao inferno pra salvar a garota, contrariando todo mundo;
Ω a cena na loja de eletrônicos, com as tevês ligadas noticiando o caos;
Ω o helicóptero levantando vôo rumo à salvação, sendo atingido e caindo rente aos prédios (sequência idêntica);
Ω referência ao Superman - aqui, fazendo mais sentido;
Ω a história retornando karmicamente ao seu ponto de partida, num parque;
Ω o final, quando a garota quer sair e ele diz "não resta mais nada lá fora";
Ω o casal trocando as últimas palavras num ambiente claustrofóbico, diante da morte iminente;
Ω o impacto-conclusão, vitimando a dupla de protagonistas.
Não é difícil entender por que Miracle Mile foi um fracasso. Mesmo o cartaz original não traduz corretamente a proposta do filme - e olha que é um fabuloso pôster de filme-catástrofe:
É certo que muita gente saiu das salas de cinema perguntando se alguém anotou a placa do caminhão. Os dois últimos atos de Miracle Mile são radicalmente diferentes do primeiro. Charlie Brooker, roteirista e crítico do Guardian, escreveu que o filme tem a maior mudança de tom que ele já viu. Jay Carr, do Boston Globe, o considera bagunçado, mas com uma energia e urgência difíceis de esquecer. A cultuada revista britânica Neon o elegeu o filme mais depressivo de todos os tempos (IMHO, não, mas quase chega lá). O consenso da crítica na época era de que Miracle Mile era um tour-de-force caótico e perturbador.
Mas quem chegou mais perto, como sempre, foi o crítico Roger Ebert, com sua visão contundentemente sóbria e enxuta. Seu review no programa Siskel & Ebert at the Movies, logo a seguir, é genial (razão pela qual optei por postá-lo ao invés do trailer). Mas funciona apenas pra quem já viu o filme - caso contrário, o mais interessante é checar sua crítica escrita.
O paralelo que Ebert faz entre Miracle Mile e Depois de Horas é perfeito. Interessantes também são os comentários divergentes entre ele e seu colega Gene Siskel sobre a estética 80's na direção de arte. Deliciosamente datada e, pra mim, conferindo até um charme a mais ao filme, ela é um contraste flagrante com porradas na boca do estômago, como Testament e O Dia Seguinte, ambos de 1983.
Após Miracle Mile, a carreira de Anthony Edwards no cinema não deslanchou, mas também não foi uma nulidade total. Coadjuvou em vários filmes, dirigiu um infanto-juvenil e protagonizou outros menos cotados (entre eles, Cemitério Maldito II). Foi melhor sucedido em produções mais recentes, como Os Esquecidos, com Julianne Moore, e escondido ali no meio de Zodíaco, de David Fincher. Mas, sem dúvida, sua grande projeção foi na telinha, no papel do Dr. Mark Greene, do popular seriado E.R. (no Brasil, Plantão Médico), onde permaneceu de 1994 a 2008.
Mare Winningham percorreu um caminho parecido, ainda mais focado na televisão. Participou de várias séries, de E.R. e A Sete Palmos a Boston Legal e Grey's Anatomy.
Miracle Mile foi o segundo longa de Steve De Jarnatt. Considerando que sua estréia foi no cult trash Cherry 2000, apenas um ano antes, é algo a se admirar. Antes de ser produzido, o cineasta rodou com o script em Hollywood durante dez anos, quando conseguiu carta branca da Warner. A gigante, porém, queria uma produção mais comercial com algum diretor famoso e não um iniciante como Jarnatt. Diante do impasse, o filme seguiu engavetado por mais três anos, quando o diretor o arrematou por 25 mil dólares. Ele o reescreveu e o estúdio ofereceu 400 mil para comprá-lo de volta, no que foi prontamente recusado. Finalmente, Jarnatt recebeu 3 milhões de dólares da pequena Hemdale Films para iniciar a produção.
Posteriormente, Jarnatt também seguiu carreira na TV, dirigindo, roteirizando e produzindo diversos seriados. Nunca mais retornou ao cinema, mas deixou a sua marca. Bom pra ele que Miracle Mile conste no portfolio. Afinal, não é todo mundo que tem cacife pra dar uma de Terrence Malick ou Edson Arantes do Nascimento.
A Thalita, do blog Pipoca no Edredom, me indicou para este MEME irresistível. Pô, listas e filmes? Já é. Cinco filmes subestimados pela crítica e/ou público. Tentei evitar superproduções e ser um pouco mais sutil.
Matador em Conflito (Grosse Pointe Blank, 1997)
Direção: George Armitage.
Top 3 de uma lista dos melhores do John Cusack. Aqui ele é Martin Q. Blank, assassino profissional de primeira linha e um dos mais requisitados no ramo. Na sua cola estão um concorrente traiçoeiro (Dan Aykroyd) e dois agentes da NSA, mas nenhum deles o irrita tanto quanto o convite para uma reunião de sua classe do colegial. Segundo seu terapeuta (Alan Arkin, impagável), podem haver questões mal-resolvidas aí - como o fato dele ter abandonado sua namorada e sua cidade logo após a formatura, sem aviso prévio.
A grande sacada do sumido diretor Armitage foi contextualizar essa gama distinta de linhas narrativas (ação, romance, comédia) com a delicadeza de dois trens em rota de colisão. Com diálogos afiadíssimos e uma trilha sonora espetacular (produzida por Joe Strummer), Matador em Conflito, senão subestimado, merecia ser superestimado.
Assim como o script, o título original ("Grosse Pointe Blank") está abarrotado de trocadilhos que se perdem na tradução. Point Blank (À Queima-Roupa, no Brasil) é um filme de 1967, estrelado por Lee Marvin e dirigido por John Boorman, sobre um matador de aluguel que revisita seu passado. Grosse Pointe é a cidade natal (e verídica) do protagonista Martin Blank. E o termo "point-blank" é usado pra designar a distância entre uma arma de fogo e seu alvo.
O Preço da Ambição (Swimming with Sharks, 1994)
Direção: George Huang.
Imagine uma mistura dos piores chefes com os quais você já o desprazer de trabalhar. Os mais egocêntricos, arrogantes, hipócritas, imorais e exploradores. Os de pior caráter. Ainda assim, não deve chegar aos pés de Buddy Ackerman, produtor cinematográfico interpretado desumanamente por Kevin Spacey. O esporte favorito de Buddy é massacrar o psicológico de seu assistente, Guy (Frank Whaley). A rotina de abusos e humilhações segue impiedosa, até que um belo dia, Guy resolve revidar...
Filme bastante tenso e recheado de humor negro. A vingança de Guy vem no mesmo valor (mas não na mesma moeda), culminando num interessante paradoxo caça/caçador. A moral da história seria algo como "não façam isso no escritório".
Foi adaptado para o teatro no ano passado, com Christian Slater no papel de Buddy.
Miracle Mile (idem, 1988)
Direção: Steve De Jarnatt.
Esse era hors-concours nos clipes do finado Cinemania, da igualmente finada TV Manchete. Anthony Edwards (o Dr. Mark Greene, de Plantão Médico) revira a cidade atrás de sua namorada numa corrida contra o tempo: mísseis nucleares soviéticos estão a caminho e, em 70 minutos, Los Angeles será varrida do mapa. Ou pelo menos é isto que ele acha, após atender um telefonema assustador.
Thriller surpreendente que dividiu a crítica e passou batido pelo público. Encabeçou a lista dos "filmes mais depressivos" da revista britânica Neon.
Alone in the Dark - O Despertar do Mal (Alone in the Dark, 2005)
Direção: Uwe Bo...
Brincadeira, brincadeira.
Este já foi devidamente pulverizado aqui, até com uma certa moderação, eu diria.
Próximo!
Sucesso a Qualquer Preço (Glengarry Glen Ross, 1992)
Direção: James Foley.
Uma firma imobiliária atravessa uma fase negra e estabelece novas metas e premiações para quatro de seus corretores. Quem vender mais, ganha um Cadillac, o segundo colocado ganha um conjunto de facas (ginsu?) e os demais ganham um pé na bunda. Obviamente, o que vem a seguir é um banho de sangue administrativo - incendiado ainda mais após o roubo de uma lista com dicas de clientes em potencial. Os corretores: Al Pacino, Jack Lemmon, Ed Harris e Alan Arkin, gerenciados de perto por Kevin Spacey.
Baseado numa peça teatral de David Mamet e adaptado pelo próprio, Sucesso a Qualquer Preço é um deleite cênico e performático. Como é de se esperar, as atuações são de níveis muito acima do standard hollywoodiano, mas Jack Lemmon está insuperável (e arranca até uma gargalhada involuntária de Pacino em uma cena).
Filmaço de atores, artístico per se. Até Alec Baldwin faz bonito aqui.
Os Matadores (1997)
Direção: Beto Brant.
A estréia de Beto Brant impressiona até hoje pela segurança e independência da estética Globo Filmes de se fazer cinema no Brasil. Filme com cara de filme mesmo, de cinema. Talvez tenha sido o primeiro de uma nova geração de cineastas transgressores e descentralizadores - geração que, anos depois, reproduziria os mesmos conceitos nos hits Cidade de Deus e Tropa de Elite.
O filme acompanha dois pistoleiros, o novato Toninho (Murilo Benício) e o veterano Alfredão (Wolney de Assis), virando a noite num bar na fronteira Brasil-Paraguai, aguardando um alvo. Enquanto esperam, eles conversam sobre a vida que escolheram e sobre o assassinato de Múcio (o ótimo Chico Diaz), o melhor pistoleiro da região. Wolney de Assis (foto) numa excepcional atuação, com um personagem de extremos dramáticos bastante complexos. Destaque também para a rápida e memorável participação de Stênio Garcia.
Tecnicamente, o filme é impecável. A montagem é um arraso, redesenhando a história à base de flashbacks, e a fotografia se mostra riquíssima, numa paisagem interiorana e terra-de-ninguém, ainda pouco explorada por cineastas brasileiros e hermanos. Não por acaso, a produção varreu os principais Kikitos de Gramado naquele ano - fora o sucesso atingido em outros festivais.
A crítica não subestimou, mas os que fariam este filme atingir um público maior, com certeza o fizeram.
E agora, repassando a corrente para os próximos cinco blogs, escalarei... hã, deixa eu ver os laureados... o bróder Sandro, do All Star Velho, o Luwig, do Pulse, o Rodolfo Castrezana, do OMEdI, o Érico Assis, do Parênteses, Inc., e a Ana Maria Bahiana, do blog dela mesma. :)
Vamos lá pessoal, animem-se. Este é mamão-com-açúcar e uma delícia de escrever. Notem que fiz a gentileza de não incluir O Gigante de Ferro. :P
Houve um tempo em que Tobe Hooper era sinônimo de cinema outsider, contraventor. Com uma câmera vagabunda na mão e algumas idéias insanas na cabeça, ele mandou vários recadinhos malcriados ao american way of life (contundentes até hoje). O que é interessante, visto que Hooper, texano da gema, perverteu sua terrinha natal já em seu 2º filme, o esquartejante Massacre da Serra Elétrica (The Texas Chainsaw Massacre, 1974). Após essa ode à visceralidade rústica, o que se seguiu foi, até determinado momento, uma trajetória explosiva: Noites de Terror (Eaten Alive, 1977, bloody feast com as vivisecções que não couberam em Massacre), o enfarta-miocárdio Pague para Entrar, Reze para Sair (The Funhouse, 1981), Poltergeist (de 1982, mais de Spielberg que dele, mas os detalhezinhos hardcore são inconfundíveis) e o grandioso Força Sinistra (Lifeforce, 1985, o único épico living dead que se tem notícia). Mas lá pela metade dos anos 80, o motor de Hooper começou a expelir fumaça. Em Invasores de Marte (Invaders from Mars, 1986) ele rodou na pista e a continuação desastrosa de Massacre resultou em perda total.
Mortuária (Mortuary, 2006) marcaria o retorno em grande estilo de Tobe Hooper, após anos de défict produtivo. Numa época em que CG mal e porcamente utilizado e sensações teen do momento avacalham qualquer tentativa de insuflar medo, nada melhor que uma atitude slasher de macho pra honrar a camisa ensangüentada (pô). Primitivismo e minimalismo = é disto que eu preciso.
O filme começa mostrando a família Doyle se mudando para uma pacata cidadezinha da California, a fim de recomeçar a vida. Os filhos Jonathan (Dan Byrd) e Jamie (Stephanie Patton) acompanham a mãe Leslie (Denise Crosby) meio à contragosto. O fato dela assumir o cargo de preparadora de cadáveres do local e ter de usar o porão de sua nova casa como "escritório" só deixa a situação mais confusa para os guris. Claro que, além disto, ainda pipocam outros detalhes bizarros pra dar o tom: a residência fica em frente a um antigo cemitério e existe um 'causo' horripilante (destes de acampamento, em volta da fogueira) envolvendo os antigos moradores do lugar.
O casarão tenebroso, os corpos no porão e os caixões espalhados em um cômodo, davam conta de que, quando a matança começasse, só iria parar quando elenco, equipe técnica e espectador estivessem estrebuchando no chão. Não por acaso, a premissa (mais simplória que cordel falando de Lampião) se ocupava exclusivamente em preparar a atmosfera enegrecida na qual Hooper faz e acontece. Ou fazia.
O roteiro de Jace Anderson e Adam Gierasch parece mesmo aquelas histórias de acampamento, especialmente na conclusão (ou na falta de uma). Sabe quando o contador da história, na ânsia de assustar o ouvinte, dá um grito de horror no final (ou alguma onomatopéia qualquer), sem, no entanto, descrever o desfecho? É o que ocorre aqui quando o caldo começa a entornar. Somos confrontados diretamente com o terror da situação por uns quarenta minutos até o final, e o impacto é praticamente o mesmo de um episódio de Scooby-Doo (com todo respeito ao dogue alemão e àqueles garotos intrometidos). O resultado é uma hesitação gráfica modorrenta e uma pífia tentativa de pegar leve com o público não-iniciado. Mesmo delegando responsabilidades, é clara e evidente a péssima direção de algumas seqüências, como aquela em que os mortos irrompem dos túmulos. Só faltaram dizer "booo". A cena do 'ataque de sal' (!) é a idéia mais jumenta que eu já vi na vida. E foi preciso dois roteiristas pra escrever aquilo.
O elenco principal, surpreendentemente, funciona, tem química e chega até ser cativante, com destaques para a veterana Denise Crosby, a encantadora jovenzinha Stephanie Patton e a hilária Lee Garlington (no papel da dona da lanchonete, uma ex-groupie). E é realmente incrível como Alexandra Adri passa tranqüila por 15-16 aninhos, mesmo tendo 33. Já as pinups bagaceiras e boas de grito também comparecem aqui, como todo o Hooper-combo que se preze (a loira falsificada é a melhor). Mas até aí a coisa parece ter adquirido contornos mais comportados e puritanos. Foi-se o tempo da superficialidade travestida num topzinho molhado.
Daquele Hooper estradeiro, poeirento e sacana sobrou pouco, pra não dizer nada. As únicas auto-referências old school que comparecem aqui remetem ao pastelão estético de Massacre da Serra Elétrica 2. O subvilão tem os mesmos trejeitos do Leatherface abobalhado daquele filme, além de morar num shit-hole igualzinho, com os túneis, esqueletos pendurados e tudo (existe COHAB pra assassino slasher desfigurado?). Mas o pior mesmo foi a inserção de um antagonista principal que nada mais é que uma geleca verde-escura que controla cadáveres e seres vivos. Totalmente sem explicação, destino ou sentido - ou talvez fosse um reflexo do final, que é exatamente assim.
Sendo sincero, eu comecei a assistir este filme já prontinho pra gostar e sair recomendando. É triste ver que qualquer Cemitério Maldito faz embaixadinha com os sustinhos de Mortuária. Hooper parece sofrer da "síndrome de Chris Claremont" - foi (e ainda é) muito influente, mas a cada nova empreitada fica mais longe daquela energia irreprimível dos velhos tempos. E, no que depender de Mortuária, não tem como ficar mais longe.