domingo, 13 de março de 2005

MAGOS, TRAPAÇAS & MIL CIGARROS FUMEGANTES


Em um mundo perfeito, um filme sobre John Constantine teria o Mickey Rourke fase 1981/1990 no papel principal. Aliás, não só o Mickey, mas também um diretor refinado e criador de atmosferas tensas, como Alan Parker, comandando a desconstrução de uma saga gótica pontuada por uma inevitável, mas inesperada, redenção. E um ator austero e obsessivo, imerso em um oceano de introspecção e obscuridade, tal qual Robert De Niro quando resolve ser a Encarnação do Mal. Enfim, tirando uma coisinha aqui e adaptando outra acolá, acho mesmo que o filme Coração Satânico daria uma bela adaptação cinematográfica do mago inglês.

Isso sim seria sonhar com o impossível...


...ao contrário da possibilidade de Gordon Matthew Sumner, o Sting, interpretar o personagem. Além de ser a base que ajudou Alan Moore a captar o espírito de Constantine (e de uma forma ainda mais intensa do que a idealização Rutger Hauer/Lestat de Anne Rice), Sting está por aí, vivinho da silva, com aquela mesma expressão enigmática e, acima de tudo, ainda um bom ator, como sempre foi - vide o seu Barão Frankenstein no belo A Prometida, e, claro, sua pequena e ótima participação em Jogos, Trapaças & Dois Canos Fumegantes.

...sem contar que ele foi o líder do Police, uma boa banda... mas vamos parar de viajar e trabalhar com o que temos. :)

Sabe, talvez seja melhor você não ler o resto se ainda não assistiu ao filme. Não que eu vá revelar algum spoiler sem avisar antes, não mesmo... mas é que fiquei muito feliz ao redescobrir a maravilha que é degustar lentamente uma projeção sem fazer idéia do que está por vir. Entrei na sessão sem saber praticamente nada do roteiro. Deveria ser sempre assim, independente se a experiência for boa ou não. Recomendo.


Pra situar: John Constantine é o personagem mais tridimensional e idiossincrático dos quadrinhos. Nem de longe ele lembra o maniqueísmo e a correção política habitual das HQs. Grande parte de seus êxitos se deve mais a sua malandragem do que aos seus dons sobrenaturais. Mas isso não o impede de expor fraquezas de espírito tão extremas quanto a sua esperteza. Ao mesmo tempo em que mostra o dedão para um Lúcifer babando de ódio, ele foge apavorado de um "simples" serial killer sem rosto. Com o passar dos anos, sempre em contato com os três lados da natureza (o que deixaria qualquer um pirado) e colecionando inimigos no Céu, na Terra e no Inferno, Constantine se tornou uma versão decadente e dissimulada de um molde original que já não era lá essas coisas. Definitivamente, é o sujeito dos quadrinhos a quem eu escolheria pra jogar conversa fora e encher a cara num pub londrino.

A primeira surpresa na produção de Constantine (2005) foi a escalação de Keanu Reeves para viver o personagem. Com o eterno ar californian boy (apesar de ser libanês), Reeves não tem nem 1% da aura enegrecida e espirituosa de Constantine, e só está aqui devido ao seu status de segura-bilheteria pós-trilogia blockbuster. A segunda paulada na nuca dos fãs foi a mudança da naturalidade do mago e de sua localização geográfica. Saem a sua Liverpool natal e as vielas mal-assombradas de Londres, entra Los Angeles, Califórnia. E a parte mais radical da adaptação pára por aí. De resto, são apenas texturas e nuances reinterpretadas e pouco relevantes, mesmo para aqueles admiradores mais xiitas, que têm todas as edições de Hellblazer ainda no plástico.

Só lembrando que um filme não é uma HQ e, portanto, não tem as obrigações de tal - mas sim a ética de oferecer um tratamento digno da fonte.

Depois dessa sentença quase-babaca mas necessária, eu diria que Constantine tem uma premissa que é mais ou menos um greatest hits de muito do que o mago já encarou em sua cronologia quadrinhística. Bem rapidinho e sem detalhes: o filme retrata uma guerra velada entre o Céu e o Inferno, e a tentativa demoníaca de transpor as barreiras divinas para conquistar a Terra e reescrever o Apocalipse. No processo, eles esbarram em vários "intermediários", como o próprio Constantine, seu jovem aprendiz Chas (Chia LaBeouf), Papa Meia-Noite (o ótimo Djimon Hounsou, de Amistad), e em vítimas-chave, como Angela Dodson e sua irmã gêmea, Isabel (ambas interpretadas pela bela Rachel Weisz).


Se essa linha básica já soa rebuscada pra você, cultuador de Anjos Rebeldes e Advogado do Diabo, posso dar a boa notícia de que, ao longo do filme, vão pipocando informações e características bem peculiares, pra não dizer insólitas (fruto direto da autenticidade dos quadrinhos), inclusive na reta final, meio paralela ao standard hollywoodiano. Confesso que não esperava tal desenvoltura do diretor Francis Lawrence, mais um vídeo-clipeiro estreando com uma adaptação de HQ (isso já tá ficando surreal), e do roteiro de Kevin Brodbin e Frank Cappello. Mesmo com uma boa concepção para o visual do Inferno - uma metrópole em chamas - o uso do CG no design dos demônios ficou um tanto batido. Os alados ficaram idênticos ao demônio que Eddie Murphy enfrentou em O Rapto do Menino Dourado, e os rastejantes são bem parecidos com os hunters de Resident Evil. Mas eles têm sua função pré-determinada na narrativa, não influenciando picas a quantidade de pixels que os envolvem. No final, são mesmo as caracterizações humanas (e sobre-humanas) que acabam se sobressaindo.

Num lampejo de fé e boa vontade, cometeram um arcanjo Gabriel bem interessante (interpretado na medida pela inglesa Tilda Swinton). Andrógino e perigoso justamente pela sua subserviência cega ao plano divino, Gabriel trava com Constantine alguns dos melhores diálogos do filme - aquele primeiro na biblioteca foi uma maravilha que só. Outro personagem interessante é Balthazar (Gavin Rossdale), um mensageiro do Inferno com um visual clean executivo. Apesar de instigante ao influenciar negativamente sem interferir no livre-arbítrio e de manter uma concorrência meio salafrária (e não-explicada) com Constantine, ele acabou sendo pouco explorado na trama, o que é uma pena. Já Rachel Weisz está em seu auge como atriz, se destacando mesmo em um pop movie como Constantine. Segura, sempre no tom certo, desviando fácil de clichês interpretativos, e, acima de tudo, "linda como um Monet", Rachel está em franca campanha para abocanhar aquele pepino dourado que Hollywood oferece todo ano.

E Keanu. Keanu Reeves é mais um conceito ambulante do que um ator. Ele é sim um ator limitadíssimo, mas ele sabe disso. Espertamente, o cara não arrisca nenhum preciosismo, tons mais altos ou inflexões histéricas. Sua interpretação varia do discreto ao introspectivo, característica sabiamente utilizada em seus "diálogos" com grandalhões da atuação como Al Pacino, Gene Hackman e Frank Langella. Em outras palavras, Keanu não atrapalha. Mas só isso não é o suficiente para um papel como o de John Constantine, já que o mago cultiva uma personalidade bem peculiar: é arrogante, calculista, canalha e um anti-herói por profissão (e opção). Uma má companhia que desvia qualquer um do bom caminho. Tipo Marcelo Nova quando começou a andar com Raulzito.

Mas, por fim, a abordagem preocupada, tristonha e contida de Keanu acaba encontrando um elemento no roteiro como respaldo (um dos lances greatest hits que eu comentei). Além do mais, ótimas seqüências como a do exorcismo hardcore em uma menina endemoniada, logo no começo, e o profissionalismo de Constantine ao enfrentar um monstro escroto (que é a própria letra de Bichos Escrotos em live-action!) e uma revoada de demônios durante um blecaute, são diversão garantida. Dessa vez passa.

A seguir, um comentário com SPOILER. Tenha medo, tenha muito medo...

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A medalha de prata da categoria "poderia ser melhor", infelizmente, vai para Lúcifer e seu filho. Quem é leitor assíduo das publicações do selo Vertigo, e conferiu pérolas do calibre de A Opção Estrela-da-Manhã e Cartas na Mesa, vai se decepcionar com o senhor das trevas nesse filme. Interpretado pelo excelente Peter Stormare, "Lu" acaba desperdiçado pelo roteiro, só aparecendo bem no final e se revelando nada mais do que um palhaço do inferno, quase um Coringa das profundezas. Nas graphic novels, ele é perspicaz, insidioso, estrategista, manipulador, calculista e extremamente charmoso... um tour-de-force de atitudes e emoções tão perversamente elaboradas pra levar vantagem em tudo, que só encontra paralelo na quase vilania de Constantine - não por acaso, sua única contraparte à altura. Já o "filho" de Lúcifer é uma decepcionante propaganda enganosa... poderiam ter concebido uma ameaça ainda mais hedionda do que o Tinhoso, mas, fora a possessão no rapaz chicano e a azia cavernosa que ele dá na personagem de Rachel Weisz, em nenhum momento ele mostra sua cara feia. Pena.

É visível que o filme se preocupa em estabelecer uma conexão mais íntima com o material das HQs. Basta observar que a história não é entregue de bandeja ao público mais preguiçoso e que o próprio Constantine não é banalizado como um bastião na "luta entre o Bem e o Mal". E ainda por cima, conseguiu decodificar o contexto dos quadrinhos para uma linguagem bem mais acessível, sem maiores traumas e sem perder aquela verve tétrica da narrativa. Constantine acaba virando a mesa sobre os pessimistas de plantão (ó eu lá) e se firmando como um lugar-comum agradável para gregos e troianos - ou para fanboys fundamentalistas e o publiquinho fã do final de O Sexto Sentido.

Nesses tempos em que os estúdios são tentados (por Lúcifer?) a descaracterizar totalmente os personagens de HQs em suas adaptações para o cinema, acredite... isso é uma virtude e tanto.

E aos detratores... com a palavra, o próprio John Constantine.



dogg terminou de escrever esse texto ao som de Sympathy For The Devil - a aventura demoníaca de Mick Jagger à base de samba (palavras do próprio). Eu hein... mangalô-pédepato-trêsvezes... :P

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